Praia de Leça, 1927: os primeiros surfistas no país

em Oct 1, 2012 in UP Daily | One Comment

 

A história do surf em Portugal acaba de mudar. Foi descoberto um filme que mostra surfistas em Leça no final dos anos 20, praticando bellyboard. A praia nortenha já era um ícone – agora pode ser um destino de turismo cultural para este desporto. E o filme é o mais antigo do género em toda a Europa.

 

Por João Macdonald

 

 

Um filme documentário português produzido em 1927 pelos Serviços Cinematográficos do Exército mostra um grupo de homens na Praia de Leça da Palmeira praticando bellyboard, uma modalidade antepassada do bodyboard. As imagens vêm alterar a história do surf em Portugal e passam a ser o mais antigo registo fílmico conhecido deste desporto em território europeu.

A película chama-se Aspectos de Leça da Palmeira, Matosinhos e Leixões e o excerto em questão corresponde a 28 segundos de um total 32,34 minutos. O original está guardado no Arquivo Nacional de Imagens em Movimento, em Bucelas, e pode ser visto numa página da Cinemateca Digital, no site da Cinemateca Portuguesa.

O excerto é composto por três cenas em que se vêem cerca de 12 indivíduos entrando na água com o que parece ser uma “alaia”, um tipo primitivo de prancha de surf, e depois surfando ao areal, deitados sobre as pranchas.

A situação terá sido filmada em 1926 ou 1927, num período calmo das actividades dos Serviços Cinematográficos do Exército, criados em 1917 para registar a participação das tropas portuguesas na I Guerra Mundial. Não se conhece o nome do realizador ou do operador de câmara.

O pormenor no filme foi detectado pelo escritor José Carlos Soares, natural de Leça, que transmitiu a informação à revista UP. A película chegou a ser exibida ao público no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no programa paralelo à exposição “Álvaro Siza. Expor – Museus e Espaços”, em 2005, e no programa “Cinema na Romaria”, inserido nas celebrações das Festas do Senhor de Matosinhos de 2011, no salão nobre da câmara municipal.

Até esta descoberta, o mais antigo registo europeu era um filme amador rodado na Cornualha, no sul da Inglaterra, revelado em 2010 pela BBC na série documental “Sea Fever”. A estação datou o filme na década de 20, mas o fato-de-banho usado pelo protagonista é claramente um BVD, a famosa marca só lançada no início dos anos 30, popularizada pelo nadador e actor Johnny Weissmuler. Um outro filme amador, exibido na mesma série, aponta para o período entre 1929-1931 e também mostra um inicial surfista britânico (a película está guardada no espólio do Museum of British Surfing).

Por outro lado, o registo mais antigo de um europeu a surfar é de 1920 e exibe Eduardo, príncipe de Gales, experimentando a modalidade nas águas da praia de Waikiki, no Havai.

Até hoje, os primórdios do surf português apontavam para Pedro Martins de Lima, pioneiro nacional de bodysurf em 1946 e que em 1959 trouxe para o país uma prancha comprada em Biarritz, e para António Gil da Costa Lopes, que em 1955 construiu uma prancha a partir de planos encomendados a um fabricante estado-unidense. Esta é considerada a primeira prancha portuguesa, e ainda existe (tal como revelado na edição de aniversário dos 25 anos da revista Surf Portugal). Lima tomou contacto com o desporto nos Açores e Lopes na Madeira, ambos através da leitura de revistas norte-americanas.

Prova-se agora que os dois não foram os primeiros a praticar surf em Portugal, mas mantêm o estatuto de primeiros surfistas portugueses, uma vez que os indivíduos do filme devem ser estrangeiros.

 

Quem são aqueles surfistas?

Os surfistas do filme terão sido, com toda a probabilidade, jovens pertencentes à comunidade britânica de Leça. Estes arredores do Porto eram considerados à época uma sofisticada estância de Verão, lugar preferido pelas famílias inglesas com negócios na Invicta.

Um estudo do investigador José Maria de Oliveira explica que na década de 20 viviam em Leça cerca de 90 ingleses, a maior parte dos quais alugando casas ao ano, com particular incidência no Verão. Em meados dessa década foi criada uma Comissão de Iniciativa e Turismo de Leça da Palmeira para melhorar os acessos às praias, construindo escadarias e muros entre o areal e a via marginal. O objectivo foi manter a frequência dos endinheirados britânicos, permitindo-lhes aceder a uma praia sem que fossem “embaraçados pela garotada a pedir-lhes esmola e por muitas mais coisas impróprias [as quais] precisam de ser reprimidas com energia”, escrevia-se num jornal da altura.

Outra justificação para os indíviduos do filme serem britânicos é esta nação, já naquela época, não ser de todo estranha ao surf – melhor dizendo, ao bellyboarding. De acordo com Roger Mansfield, autor de The Surfing Tribe – A History of Surfing in Britain, a prática foi introduzida no sul do Reino Unido por soldados regressados da I Guerra Mundial, influenciados pelo convívio com soldados da África do Sul, onde o desporto gozava de popularidade nas costas de Durban e da Cidade do Cabo. Os primeiros registos de bellyboarders britânicos são, comos nos filmes atrás referidos, da costa da Cornualha, durante os anos imediatamente seguintes ao conflito mundial (de 1918 em diante), e da ilha de Jersey, no Canal da Mancha, onde Nigel Oxenden, um ex-soldado que viajara pela Austrália, África do Sul e Havai, fundou em 1923 o Island Surf Club.

A comunidade inglesa de Leça acabou por decrescer nos anos 30, afastada pelas morosas obras do porto de Leixões, pelo aumento das ligações aéreas e o avanço das telecomunicações, transformações que permitiram gerir os negócios portuenses à distância.

 

Mais memória encontrada

O filme de 1927 não é tudo. Há outros contributos novos para a história do surf em Portugal, pelo menos no sentido primitivo que o desporto teve no país.

A investigação da UP descobriu um outro filme documentário feito em Portugal em 1953, produzido pela British Pathé, em que aparecem dois rapazes numa praia do Estoril fazendo “surf mat” (“mat” é “colchão” em inglês). Um dos rapazes, o que se vê no lado direito da imagem, usa uma versão evoluída do “surfo-plane”, um colchão insuflável para surfar, inventado pelo australiano Ernest Smithers em 1932 (mais detalhes em Surf Research, um excelente site dedicado à história do desporto). O colchão do filme tem uma quilha mais aparentada à de uma prancha.

 

 

A cena terá mais a ver com uma intuição surfista, inata, típica de populações veraneantes costeiras. O próprio hábito das “carreirinhas” – forma rudimentar do actual “body surfing”, feito com barbatanas – remontará pelo menos às decadas de 20/30 do século do passado. Em 2009, numa reportagem sobre o antigo veraneio português, um octogenário lembrava-se bem de, na infância, “‘picar carreiros’, modalidade a que ‘chamam fazer surf’, no mar da Figueira da Foz”.

Talvez a descoberta da película de 1927 venha a suscitar novas investigações e uma edição revista do livro História do Surf em Portugal – As origens, de 2008, coordenado por João Moraes Rocha. O filme será também do interesse das organizações do Surf at Lisbon Film Fest e do Portuguese Surf Film Festival, que tiveram as primeiras edições no Verão de 2012, potenciais eventos para exibir a obra em tela grande.

Para a história cinematográfica do surf em Portugal é ainda importante referir o seminal Evolution, realizado por Paul Witzig em 1969 e que trouxe às águas nacionais Wayne Lynch, Nat Young e Ted Spencer, mestres da ars fluctu.

Por ora, Aspectos de Leça da Palmeira, Matosinhos e Leixões é a única e mais antiga referência concreta sobre as origens do surf em Portugal. Existirão outros indícios? No campo da mera intuição surfista, talvez tenha sido isso o que levou o artista modernista português Jorge Barradas, em 1927, a desenhar esta capa da popular revista Ilustração:

 

 

(Também poderá tratar-se de uma simples prancha de saltos. O debate fica em aberto.)

 

joaomacdonald@gmail.com

A UP agradece a ajuda de Eduardo Matos no surgimento deste artigo.

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