Histórias da Aviação
Navion, à prova de burros
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O aeroporto de Acapulco, no México, foi atacado por uma manada de burros, algures no Verão de 1951. Irrompendo a galope por entre os pequenos aviões privados estacionado no aeroporto, os equídeos semearam o pânico e a destruição, maltratando as aeronaves de tela e madeira. Um dos burros teve menos sorte: chocou contra a asa esquerda de um Ryan Navion, levantando-o uns 25 cm do chão e ficando gravemente ferido. O Navion, de construção inteiramente metálica, sofreu apenas uma amolgadela e em breve saía uma nota de imprensa da Ryan anunciando o Navion como “o avião à prova de burros”.
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O pequeno Navion é um avião desportivo de quatro lugares e asa baixa, projectado pela North American Aviation (NAA) em 1946 para manter a sua força de trabalho ocupada até iniciar o fabrico do caça F86 Sabre. A NAA pretendia vendê-lo no mercado civil e como avião de ligação e treino à Força Aérea, mas sem fazer muito esforço: cada Navion era vendido por 6100 dólares apesar de custar nove mil a construir. Os milhões do contrato dos F86 permitiam esse luxo à NAA e, pouco depois de começar a ser rebitado nas linhas de montagem, a NAA passou o Navion à Ryan.
A Ryan remotorizou o Navion (de 200 para 260 cavalos), subindo-lhe a velocidade máxima para 418 km/h, assim como o preço (14 mil dólares). Conseguiu vender alguns aviões à Força Aérea, mas as esperanças de um lucrativo contrato de avião de treino foram goradas. A aproximação à Marinha também não correu melhor.
Projectado pela mesma equipa de engenheiros do famoso caça Mustang, o Navion traía bem as suas origens e isso jogou contra si no mercado civil. Apesar de se esperar um bom número de compradores, especialmente pilotos recém-chegados da guerra, ávidos por manter a adrenalina com um avião rápido e ágil, a linhagem de caça intrometia-se entre estes e as esposas: num mundo de saias de pregas não havia forma de uma senhora entrar no Navion mantendo a decência, e o mercado foi na direcção de modelos mais familiares, que permitiam o agradável passeio de família sem acrobacias desafiadoras da moral.
A Ryan fechou a produção do Navion em 1951 e vendeu os direitos à Tusco, que reabriu a produção em 1958. Em 1961, o furacão Carla devastou Galveston e a Tusco, aí sediada, nunca recuperou, fechando de vez a sua produção.
Nunca tendo realmente vingado quando em produção, o Navion está de saúde na comunidade dos fãs de aviões antigos e o que jogou contra si nos anos 40/50 é hoje a sua salvação: rápido, ágil e robusto, é o “Mustang dos pobretanas” (TRADUÇÃO: Poor’s man Mustang), o aficionado que ambiciona um caça vintage sem meios para o adquirir. Espera-se que a comunidade Navion continue a brincar nos ares ainda por vários decénios.
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Beechcraft Bonanza
A grande nemésis do Navion foi o Beechcraft Bonanza, ainda hoje em produção. Iniciado em 1947 e também ele monomotor, de asa baixa, era no entanto mais agradável para as senhoras. Inicialmente com uma cauda em borboleta (em V), foi alterado mais tarde para uma configuração tradicional. Além do piloto, acomodava 5 passageiros a uma velocidade máxima de 326 km/h. Detém o recorde do avião em produção contínua há mais tempo, totalizando mais de 17 000 exemplares, e foi o avião do conhecido piloto paraplégico português, o comandante Faria de Mello, que, com ele fez, duas voltas ao mundo.
Curiosidade
Na lista de ilustres que voaram o Navion encontram-se nomes como Veronica Lake e Mickey Rooney. Hoje não há dois Navion iguais, devido ao seu longo tempo de serviço, alternância de fabricantes e inúmeros fornecedores alternativos de peças.
Número
2469 total de Navions construídos / 500 em operação hoje
40 000 dólares por um Navion hoje
700 000 dólares por um Beechraft Bonanza
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por Ricardo Reis
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