Histórias da aviação – O homem voador
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Ao passar pelo aeroporto de Tegel, em Berlim, repare no seu nome: Otto Lilienthal (1848-1896). E, se tiver algum tempo, pode mesmo procurar a escultura de um homem voador, acorrentado ao chão. Uma escolha bizarra se pensarmos que Lilienthal foi o primeiro a lançar-se nos ares, voar e aterrar em segurança, acumulando, nos finais do século XIX, cinco horas de voo, mais do que qualquer outro ser humano até à altura. Abandonando Tegel, talvez queira distrair-se fazendo o roteiro do muro, cicatriz de uma cidade dividida e involuntário monumento à primeira ponte aérea de ajuda humanitária da História. Fazendo-o, aponte então os passos para a zona de Lichterfelde, mais exactamente, à Schütte-Lanz-Strasse, onde encontrará um monte relvado, encimado por uma construção cilíndrica. Aí chegados podemos voltar a Lilienthal.
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Engenheiro civil de formação, desde cedo Lilienthal se interessou pela questão do voo. A sua primeira experiência foi uma geringonça construída com o irmão Gustav, em 1867. Apesar do falhanço, Lilienthal não desanimou, acabando por encetar um metódico plano de estudos sobre o voo das aves que publicou em 1889. Foi o primeiro a perceber a importância da curvatura das asas dos pássaros para o seu voo. O livro que publicou com os resultados do seu estudo, O voo das aves como fundação da Aviação, será o mais importante para a aviação no século XIX e ainda hoje uma leitura de grande interesse.
Lilienthal construiu o primeiro planador em 1891. Feito de vimes de salgueiro e resistente pano de algodão, saltava de um trampolim inicialmente colocado a um metro de altura que foi subindo gradualmente até aos 2,5 metros. Com isto a distância percorrida em voo também foi subindo, chegando aos 25 metros. Em 1894, o engenheiro erigiu o monte onde parámos há pouco, em Lichterfelde. A estrutura circular no seu topo era o hangar onde guardava os planadores e de onde efectuava os saltos. A partir de Lichterfelde e de outras localizações, Lilienthal fez voos até 250 metros, sendo o único na época a realizá-los de forma regular até à morte, que aconteceu num acidente, em 1896. O controlo das máquinas era feito através do deslocamento do corpo, uma técnica que viria a renascer nos anos 60 do século XX, com o aparecimento da asa delta.
Ao contrário do homem acorrentado ao solo em Tegel, Lilienthal voou graças à sua perseverança e espírito metódico. Através dos seus escritos e das fotografias tiradas em voo, conseguiu quebrar uma força por vezes mais forte do que a da gravidade: o desdém a que eram vetados aqueles que procuravam abrir o caminho dos céus, representando uma influência ímpar na legitimação científica da aviação. Abusando de alguma liberdade poética, poderíamos dizer que, cinquenta anos mais tarde, Lilienthal deu uma preciosa ajuda aos seus conterrâneos cercados aquando da ponte aérea de Berlim…
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Por Ricardo Reis
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