Vos Veerlos, belga

on Feb 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Trocou Bruxelas pela capital portuguesa e tornou-se numa lisboeta militante e apaixonada.

Cresceu numa “pequena e adorável cidade que cultiva orgulhosamente a sua natureza rebelde, bon vivant e absurda, desde a Idade Média”, explica desempoeiradamente. Na bela Gent, Bélgica, estudou História, interessa-lhe “o comportamento humano e o seu contexto”, mas passava mais tempo no jornal da universidade e na radio estudantil do que nas aulas. Percebeu “como o jornalismo pode mudar vidas” e aventurou-se na reportagem, correu as escolas do país para uma revista de educação e foi com a Greenpeace à Amazónia, tinha apenas 25 anos: “Incrível!” Tornou-se ativista na sua própria cidade – “Podes usá-la como uma tela” – e assim criou, com amigos, a plataforma Use It (site e app) à volta de da historia e identidade de Gent. Foi um sucesso e estendeu-se a outras cidades europeias, incluindo o Porto, a sua primeira paixão em Portugal. Em finais dos anos 90 compra um barco para morar e viajar “é muito cool, mas é fácil alguém deslaçar as cordas e seguir”, e uns vizinhos criaram a revista Damn, onde Vos escreve, até hoje, sobre design, arquitetura, arte. No seu primeiro texto foi conhecer as famílias que vivem rodeadas de muros na Palestina, e o que nestes sobra da obra do artista Banksy.

Gent tornou-se pequena e Vos escolheu Bruxelas. Escreveu sobre a capital para a revista The Bulletin e retratou as suas diferentes comunidades, são 170: “Há pouca informação sobre os portugueses porque, ao contrário de outros que se fazem ouvir, são discretos e integrados.” Foi tema de partida para Lusobelgae, documentário e livro, que assinou com o fotógrafo José Fernandes, e a fez olhar Portugal como “mais do que um destino de férias”. Começou a vir regularmente, Lisboa estava entre as favoritas Istambul, São Paulo e Berlim. O primeiro livro que comprou cá foi Cozinha Tradicional Portuguesa de Maria de Lourdes Modesto, que “é uma iniciação à cultura e história portuguesas. A quantidade de História que está dentro de uma alheira!”. Mudou-se. Chegou a Lisboa no seu velho Saab atafulhado, em fevereiro de 2012, e diz que Alfama a escolheu. Mora numa casa escancarada para o casario e o Tejo aos pés, mas pensa mudar-se porque o bairro está muito concorrido. Viver num país com tanta história, “é um rebuçado para um historiador!”, diz. “Portugal é uma espécie de País das Maravilhas: abro uma porta e estão lendas loucas, natureza linda e tradições antigas; abro outra e há uma ruína da Idade Média ou um palácio incrível transformado em hotel ou uma peça escondida de arquitetura criada por um vencedor de um Pritzker e outra leva-me para uma nascente ou um rebanho de ovelhas que seguem o seu pastor.”

É claro que arregaçou as mangas e organizou um encontro de artistas num palácio no Príncipe Real, e conheceu o primeiro verbo nacional, “desenrascar”: “Pensava: ‘OK, está tudo uma confusão, vamos atrasar-nos’ e depois, por magia, tudo se resolve e perfeito!”, risos. “É bom ser-se híbrido. O que nos salvará no futuro, com tudo a que assistimos hoje, é ser cada vez mais flexível, preparado para mudar – e os portugueses são bons nisso. Mesmo em alturas da história, sem nada, pegam na sua mala e vão. E quando as coisas não estão bem, vão-se embora de novo, e toda a gente fala com toda a gente, provam dos pratos dos outros e nem imaginam que isso possa ser estranho”, ri-se. Vos diz que não faltam cidades belas e soalheiras, mas apaixonou-se pelos portugueses: “Têm um caráter e valores fortes, mesmo nas aldeias, pessoas que não foram à escola, partilham um humanismo, gentileza e profundidade. Não fazem small talk, nem tentam impor-se ou ser o centro das atenções (isso é parecido com os belgas), são despreocupados.” “Cheguei a Portugal e havia uma crise e participei na primeira grande manifestação contra a troika e a austeridade, vi milhares de pessoas numa marcha silenciosa. Incrível. Sem perceber uma palavra, perguntei o que estava escrito nos cartazes: ‘Aaah, são poemas’. A sério? Uau! Indignados pacifistas! Não é que estejam felizes com tudo, vocês falam, mas têm uma alma diferente.” As únicas coisas belgas que “amava trazer são os croquettes aux crevettes grises à l’Ostendaise, uma meia-dúzia de bares e um shot decente de absurdo e rebeldia para apicantar os brandos costumes”. De resto: “Acho que cheguei ao lugar onde sempre quis estar”.

Vos já conhece bem Portugal e criou o blog lisboneye.eu, onde exerce o seu desporto preferido: vaguear sem plano, meter o nariz e partilhar entusiasmo. Agora pensa tornar-se numa “companhia de viagem” e largar o computador, fazer visitas guiadas ou workshops. Também transformou a sua paixão num guia de viagem pessoal, que começou por uma brincadeira de amigos que a fotografaram atirada para o chão, no seu vestido azul e saltos altos, em frente a paisagens, praias e monumentos nacionais. Agora são tiradas por Yves Callewaert, outro belga lisboeta e estão prestes a tornar-se num livro e numa exposição (todieforportugal.com). Diz ser este um momento interessante, quando o país vive um processo de transição. “Tem grande futuro. E os portugueses são abertos e têm os pés na terra, não têm medo do que não conhecem. São especializados em slow living, muito antes de existir o conceito e de este se tornar hip.”

lisboneye.eu \\\ use-it.travel \\\ todieforportugal.com

 

por Patrícia Barnabé /// foto Marisa Cardoso

Arquivos

Preto da água

Elege a Cova do Vapor, na foz do rio Tejo, “uma aldeia que se construiu a si própria e representa a liberdade”. “Adoro esta atitude: ‘OK, não tenho dinheiro nem terra, vamos construir a nossa casa ao pé do mar, mesmo sem estradas, água ou eletricidade. Com um pouco de humor, encontramos entre duas casas uma rua muito estreita que se chama Avenida dos Milionários.” Depois, gosta de fazer remo no Tejo, “é uma forma ótima de fazer exercício, conhecer o rio e treinar português”.

Deixar-se estar

Faz-lhe falta a cultura de bares belga: “O Tabacaria é o mais próximo disso, ou o Social B, ótimos para começar a noite. O serviço é muito bom.” Também elege a Casa Independente, “é um lugar de encontro de pessoas de todo o lado”. Durante o dia, gosta do Luz Ideal, um pequeno café perto de Sete Rios: “Está bem feito, com coisas caseiras e uma luz ótima”. E para jantar, o Geographia, “o conceito é bom, autêntico, bem feito e tudo faz sentido”. Também adora jantar no balcão do Gambrinus.

a-tabacaria.negocio.site \\\ aluzideal.com \\\ restaurantegeographia.pt \\\ restaurante-gambrinus.business.site

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