Viseu e a rota do Dão

on Mar 1, 2017 in Partida | No Comments

A capital da região da Beira Alta, no centro do país, é a cidade para explorar em Portugal neste momento: vibrante, cosmopolita, artística, cheia de riqueza verde. É um destino para os mais exigentes gastrónomos em busca da cozinha nacional genuína. E daqui partem os caminhos para conhecer a região do Dão, onde se produzem os vinhos de que toda a gente anda a falar.

Viseu

Primeiro, a cidade: Viseu

texto João Macdonald fotos João Margalha (salvo onde indicado)

VERDE, CULTA E POPULAR

Fontelo

Viseu é o coração do país, gostava de dizer Francisco Almeida Moreira (1873-1939), fundador do Museu Nacional Grão Vasco, olhando para o mapa de Portugal como um corpo e vendo a cidade quase no centro-esquerdo do peito geográfico. É um facto que Viseu bombeia novidade, cosmopolitismo, grande qualidade de vida, cultura e muitos espaços verdes. A partir da Sé, no centro histórico, gera-se uma vida múltipla num núcleo com cerca de 70 mil habitantes. Nos anos recentes deu-se um fenómeno positivo de retransformação urbana do interior do país (prolongando o espírito de Manuel Engrácia Carrilho, presidente de câmara no final dos anos 80 – conheça-o numa exposição na Casa das Memórias). Antiga de mais de milénio e meio – era sede episcopal no ano de 569 –, situada a três horas de automóvel de Lisboa e a 90 minutos do Porto, encontra-se a quase 500 metros de altitude e é dita a “capital da Beira Alta”, a grande região montanhosa do centro de Portugal. 2017 foi declarado pelo município o Ano Oficial para Visitar Viseu. As razões são imensas.

A coroa verde é motivo de celebração. Os parques e zonas arborizadas fazem dela uma das localidades portuguesas mais ricas em pulmões naturais: Parque do Fontelo, Parque Aquilino Ribeiro, bem no centro (que leva o nome de um dos maiores escritores portugueses, muito ligado à cidade), Parque Urbano de Santiago – 1150 metros ao longo das duas margens do rio Pavia. Destaque-se o percurso do Espelho d’Água à Cava de Viriato, esta última um dos mais curiosos mistérios arqueológicos do país: um octógono de 38 hectares delimitados por taludes que perfazem dois quilómetros de perímetro, de que sobrevivem apenas dois, que talvez tenha sido usado para acampamento e proteção do exército imperial romano, algures entre os séculos I e II a.C. (e na verdade nada relacionado com o guerreiro Viriato, tipo de Vercingetórix português, símbolo da cidade e da região, com direito a estátua naquele local).

O Museu Nacional Grão Vasco é um dos mais importantes do país, mas também tem relevo o Museu Almeida Moreira e sua coleção de pintura naturalista. Na Quinta da Cruz, outro espaço verde (mata aromática), existe um núcleo de arte contemporânea que funciona em parceria com o Museu Nacional de Arte Contemporânea de Serralves, do Porto. Em 2017 inaugura o Museu Keil no palacete Casa da Calçada, dedicado às obras da família de artistas Keil do Amaral (música, arquitetura, artes plásticas e teatro), que mantêm grande relação com Viseu. Assinale-se também o Museu do Quartzo, criado pelo geólogo e paleontólogo Galopim de Carvalho.

Lugar de trânsito desde sempre entre as principais cidades da Península Ibérica – de que é sintoma a renovada e muito popular Feira de São Mateus (em 2017 de 11 de Agosto a 17 de Setembro), ininterrupta desde 1392, hoje com uma programação musical moderna e com o regresso de bancas de petiscos típicos da cidade: enguias de conserva e iscas à lisboeta –, Viseu redescobriu-se a si mesma, e é um destino imperdível para conhecer o organismo cheio de vida que é o interior de Portugal.

viseumarca.pt \\\ cm-viseu.pt/index.php/casadasmemorias

Museu Nacional Grão Vasco

Vasco Fernandes (c. 1475-1542), dito Grão Vasco, é um dos superiores pintores antigos de Portugal. Boa parte das suas criações – como as obras-primas Adoração dos Reis Magos e São Pedro – encontram-se no espaço que leva o seu nome, no antigo seminário e junto à catedral de Viseu (onde existe uma magnífica e preciosa coleção de arte sacra). O museu foi elevado ao estatuto de nacional em 2015 (só Lisboa, Porto e Coimbra tinham até então museus nacionais), graças ao projeto do ex-director Agostinho Ribeiro. Em 2016 celebraram-se os 100 anos da instituição e teve cerca de 115 mil visitantes.

centerofportugal.com/pt/museu-grao-vasco

A VIDA COSMOPOLITA

“A minha zona de conforto é o risco, a experimentação”, avisa Sandra Oliveira, fundadora do Jardins Efémeros, um dos mais importantes festivais artísticos do país fora das grandes cidades, e com isto dá o tom à vibração da cidade. Paula Garcia, diretora do Teatro Viriato: “É estratégico estar em Viseu”. Liliana Bernardo, ilustradora, cantora: “Aqui combina-se o cultural e o rural, que é o que sou”. Nuno Leocádio, da Carmo’81, sede da associação Acrítica: “Estamos onde o melhor do espírito da aldeia se transforma em cosmopolitismo”. Outros conceitos: “Viseu produz charme”; “há criação de redes de onde surgem afetos”; e sugere-se passar a dizer nas despedidas “Até ontem!” em vez de “Até amanhã”, no sentido de ninguém se desligar do que se acabou de construir. A alta palpitação urbana é um facto por aqui. No espaço batizado 2º Andar-Sala 5, no quase vazio Centro Comercial Ecovil, articulam-se diversos criadores: o atelier dos artistas plásticos António Silva e Ricardo de Almeida Correia, a oficina de costura contemporânea de Rosa Coutinho e a sala de ensaios dos músicos José Carlos Rebelo e Paulo Sousa – que planeiam relançar a B, uma rádio independente online local. Na Saguão-Espaço Experimental o artista João Dias mantém uma “galeria de arte de janela” – expõe-se apenas na vitrine – e este ano inaugura outra na área de Abraveses, na periferia. O cinema em versão abaixo dos 30 minutos é promovido pela Shortcutz Viseu, coordenada por Carlos Salvador, Luís Belo, José Crúzio, que todos os meses organiza sessões (já vão em mais de 80) com a linha da frente de produções nacionais e internacionais, trazendo realizadores para conversar com o público – a que se junta em finais de Setembro, na mesma linha, o Vista Curta, evento organizado pelo ativíssimo Cine Clube de Viseu. Em Abril há música erudita com o Festival Internacional de Música da Primavera (Proviseu/Conservatório Dr. José Azeredo perdigão), e outros sons em Julho no Festival de Jazz (pela associação e escola de música Girassol Azul). Os livros falam em dezembro no Tinto no Branco Festival Literário, uma iniciativa do município com curadoria da agência Booktailors. Tudo mexe o ano inteiro em Viseu.

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Jardins Efémeros

Desde 2011, durante uma semana em julho, a cidade atinge o zénite da agitação artística com o Jardins Efémeros. É uma “realização cultural multidisciplinar com forte componente experimental que tem como objetivo maior potenciar a relação entre os vários agentes de Viseu que fazem acontecer”. Dezenas de espaços são ocupados com exposições, performances, espetáculos, concertos, cinema, oficinas, integrando população e visitantes. À frente de tudo está a imparável e democratizante Sandra Oliveira. A intensa programação do Jardins acontece entre os próximos 7 e 17 de Julho. Durante o resto do ano, uma vez por mês, na sede, corre o ciclo Venha a Nós a Boa Morte com concertos de música independente. Obrigatório.

jardinsefemeros.pt

Carmo’81

Um dos templos da cultura urbana em Viseu é o espaço Carmo’81, braço armado da cooperativa cultural Acrítica. Sala de espetáculos (interna e externa), bar, livraria, sala de projeção de filmes, colóquios, exposições, interação permanente em todos os campos artísticos. Sítio para descobrir novos projetos musicais, como os surpreendentes Galo Cant’às Duas (Hugo Cardoso e Gonçalo Alegre). Funciona, precisamente, no número 81 da Rua do Carmo, orgulha-se de dar nova vida a esta artéria escondida da cidade e tem fama nacional.

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Teatro Viriato

Em 1999 Portugal assistiu ao começo de uma revolução cultural além Lisboa e Porto: muitos teatros municipais foram recuperados e entregues a estruturas modernas. A Companhia Paulo Ribeiro (coreógrafo) instalou-se naquele ano no Teatro Viriato e tornou-se num exemplo. Hoje dirigida por Paula Garcia, é a mais excelente sala de Viseu, cuja programação reflete criações contemporâneas e populares, muitas vezes com forte componente pedagógica. Em Março destacam-se as peças A Constituição, de Mickaël de Oliveira, e As Criadas, de Jean Genet, com encenação de Marco Martins, e o espetáculo de novo circo Hallo, de Martin Zimmerman.

teatroviriato.com

EXPLORAR, COMPRAR, CIRCULAR

VELOCAFE

foto de Ana Rilho

O grau cosmopolita de Viseu reflete-se em formatos de consumo e produção repensados. Existe uma nova rede de comércio. Na fábrica e loja da Só Sabão (marca Amor Luso) há sabonetes com aromas inesperados, como o do próprio vinho do Dão, com embalagens criadas por ilustradores. O artesanato cultiva-se na Cem Réis. Na Anda Ver Viseu, há vestuário de designers portugueses, produtos regionais e livros da Edições Esgotadas, editora local independente que também organiza passeios. Rotas mais abrangentes são organizadas pela Neverending-Turismo Temático. No universo dos livros pode-se explorar o alfarrabista Sidarta. A chocolataria Delícia e a Velvet, que manufactura cupcakes e outras doçarias, são imperdíveis, complementadas pela histórica pastelaria Horta. Estilo de vida muito urbano exprime-se no VeloCafé, nos barbeiros hipster da Garage Barber Shop (instalados na Fábrica, espaço multiusos em Abraveses) e nos Piranha Tatoo Studios, de fama internacional. O vinho (e não só) compra-se na Cave Lusa Premium e na Syrah Wine & Gin. No universo da elegância: o ateliê AC Alfaiates exerce concorrência com os melhores do país, e a designer de moda gótica Catarina Maria Marques, sob o nome de Angélique Clothes and Accessories, recebe encomendas de Inglaterra à Croácia. Na Ecletic, Clarice Lugatte e Gabriella Delicata comercializam vestuário feminino e objetos de arte. Mantêm também em Mangualde, a 20 quilómetros de Viseu, o salão de chá Maria Antonieta.

amorluso.pt \\\ facebook.com/lojacemreis \\\ facebook.com/andaverviseu \\\ edicoesesgotadas.com \\\ neverending.pt \\\ facebook.com/livrariasidarta \\\ chocolateriadelicia.com \\\ facebook.com/cupcakesvelvet \\\ facebook.com/garagebarbershopviseu \\\ fabricaviseu.pt \\\ facebook.com/piranha.tattoo.studios \\\ facebook.com/cavelusapremium \\\ facebook.com/syrah.viseu \\\ facebook.com/angeliquealternative \\\ facebook.com/ecleticviseu \\\ facebook.com/VeloCaf%C3%A9-222153697973466/?fref=ts

Noite fora

A dez passos da catedral, a noite pode começar no Belle Époque, cuja placa à porta explica bem a sua natureza: “Casa da conversa – ingestão, conspiração, devaneio, galhofa, degustação”. Ali converge muita da movida da cidade. E a cinco passos do Belle Époque, fica o bar Penedro da Sé, cuja sala se encaixa sob uma gigantesca rocha de granito. Subindo algumas ruas fica o Old Skull Inn – Rottenroll Tavern, território de rock’n’roll, onde pode saber as últimas da associação Fora de Rebanho (que, entre várias atividades, organiza inesperados concertos de música pesada na aldeia Quintela de Orgens, a cinco quilómetros de Viseu). Há tranquilidade no Irish Bar, no Largo Pintor Gata, e muito perto fica o também acolhedor Maria Xica. Mais a sul, no centro administrativo, um bar de respeito e com uma ótima garrafeira espirituosa: The Brothers, na Rua da Paz. Para música ao vivo é bom ir ao Faces, na Rua Formosa, com concertos quase todas as semanas. Com a primavera reabrem muitos outros espaços e a noite de Viseu fica bem mais intensa.

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PARA LÁ DE VISEU

Serra do Caramulo

Da Serra do Caramulo, essa espécie de Montanha Mágica portuguesa à la Thomas Mann, observa-se o vasto Planalto Beirão, rodeado de rica fauna e flora (as orquídeas selvagens são icónicas) e formações rochosas por vezes de recorte fantástico. Aqui, 40 quilómetros a sul de Viseu e a 1076 metros de altura, entre os anos 20 e 80 do século XX os ares puros originaram uma estação sanatorial composta por 19 unidades de saúde para pessoas com doenças respiratórias, lançada pelo médico pioneiro Abel de Lacerda. Hoje essas construções constituem uma potencial rede de arqueologia clínica, sendo que uma delas foi convertida em hotel, na própria localidade do Caramulo. (Em complemento, mas mais perto de Viseu, existem as Termas de Alcafache.) É também aqui que fica o Museu do Caramulo, com uma espantosa coleção de arte e de automóveis. Descendo a estrada que atravessa Vale de Besteiros, entra-se na cidade de Tondela, onde funciona a associação ACERT e a companhia teatral Trigo Limpo, um caso notório de descentralização cultural. O mesmo vale, no outro extremo – 50 quilómetros a norte de Viseu –, para a companhia Teatro Regional da Serra do Montemuro, há mais de duas décadas produzindo “teatro do mundo rural, no mundo rural, para o mundo inteiro” (teatromontemuro.com). Estes são alguns dos principais destinos para quem tem Viseu como ponto de partida – incluindo os caminhos da Ecopista do Dão.

Museu do Caramulo

Em 1959 inaugurou no Caramulo um museu realmente fora do comum: uma coleção de dezenas de máquinas desde o século XIX que constitui o primeiro Museu do Automóvel português (incluindo motociclos, velocípedes e brinquedos), e uma coleção de arte antiga, moderna e contemporânea de cerca de 500 peças de pintura, escultura, mobiliário, cerâmica e tapeçarias que vão do antigo Egito até Picasso, com grandes nomes do modernismo português como Amadeo de Souza-Cardoso, António Soares ou Canto da Maya. A Fundação Abel e João de Lacerda (o primeiro foi o médico que fundou a Estação Sanatorial do Caramulo) administra o museu.

museu-caramulo.net

ACERT

Em 1979, cinco anos após a Revolução de Abril, Portugal fervilhava com projetos de descentralização cultural. Em Tondela nasceu uma companhia teatral, a Trigo Limpo, estrutura fundadora da associação ACERT – até hoje motor da vida artística desta parte das Beiras, mas em permanente digressão. Dirigida pelo encenador José Rui Martins (onde também se destaca o colaborador de longa data Carlos Clara Gomes, músico, diretor da Companhia DeMente, sedeada em Viseu), ocupa um original teatro construído de raiz com dupla plateia: em sala fechada e anfiteatro ao ar livre. Com programação intensa, dois eventos anuais marcam o calendário: a muito pagã Queima do Judas, em finais de Março, e o festival Tons de Festa, em Julho.

acert.pt

Ecopista do Dão

É um caminho novo por um caminho que já não existe: a Ecopista do Dão é uma ciclovia inaugurada em 2011 que corre pelos 49,2 quilómetros da extinta via férrea Linha do Dão, ligando Viseu a Santa Comba Dão. Existem dez percursos para os ciclistas – ou caminhantes –, e através deles explora-se a extraordinária paisagem rural da Beira Alta.

ecopistadodao.pt

À MESA

Sete selectas escolhas para viver a gastronomia de Viseu de forma excelente, desde os conceitos mais puros da cozinha local à linha da frente de jovens chefs.

Gastronomia

Casa Arouquesa

A raça arouquesa, que deve seu nome à região de Arouca mas é criada em várias regiões do centro e norte de Portugal, origina carnes bovinas de alta qualidade e está defendida como denominação de origem protegida (DOP). Na freguesia de Repeses, às portas de Viseu, a Casa Arouquesa é o templo deste produto, num menu dominado pela vitela assada no forno e o bife. Prová-los é uma experiência estonteante, com o cliente assistido por um serviço superior.

Empreendimento Bellavista, lote 0, Repeses \\\ +351 232 416 174 \\\ casaarouquesa.pt

Santa Luzia

Fundado em 1978 pelos irmãos Vasco da Trindade e Jorge Lopes Ferreira, o Santa Luzia – hoje instalado num espaço de grande elegância, a dez minutos de carro do centro histórico, e com a vantagem de ter uma excelente loja de vinhos – é um dos grandes clássicos da cidade. O cabrito assado e os filetes de polvo são extraordinários. Impõe-se a visita.

Estrada Nacional 2, Viseu \\\ +351 232 459 325 \\\ restaurante-santaluzia.pt

Mesa d’Alegria

É no quarteirão de belos edifícios neoclássicos do centro administrativo de Viseu que fica um dos projetos gastronómicos mais sinceros da cidade. Nesta mesa bem-disposta desfilam petiscos de respeito, que vão das favas aos cogumelos, cozinhados com rigor. O saber da Mesa d’Alegria estender-se-á em breve à Casa dos Queijos, na parte antiga do burgo, recuperando aquela que é uma taverna clássica.

Rua da Vitória, 21, Viseu \\\ +351 232 400 765 \\\ facebook.com/mesadalegria

Travessa das Escadinhas da Sé, 9, Viseu \\\ +351 232 422 643 \\\ facebook.com/casadosqueijos

Dux Palace

Este é um dos três projetos avançados da culinária na região. O Dux Palace (extensão do conceito do Dux Taberna Urban e Dux Petiscos e Vinhos, ambos em Coimbra), concebido por uma equipa jovem de chefs e enólogos e com marca própria de vinhos, oferece petiscos de vanguarda e um serviço impecável. Tem que ser visitado. (Daqui a alguns anos, arriscamos, não será estranho vê-lo elogiado por um certo famoso guia internacional publicado por um fabricante de pneus.)

Rua Paulo Emílio, 19, Viseu \\\ +351 963 004 817 \\\ duxrestaurante.com

Muralha da Sé

Aqui deve-se ir por causa do arroz de míscaros, que é dos mais bem confecionados nesta terra. Instalado num espaço muito acolhedor, pertíssimo da catedral e mesmo ao lado da igreja da Misericórdia, obriga ainda a provar, na doçaria, o premiado pudim de pão e o famoso pastel de Vouzela.

Adro da Sé, 24, Viseu \\\ +351 232 437 777 \\\ muralhadase.pt

Taberna da Milinha

Diogo Pereira é um dos chefs em destaque na cidade. A sua taberna, aberta em 2013, pode ser pequena, mas oferece uma variedade originalíssima de recriações da gastronomia local. Os cogumelos gratinados com queijo da Serra da Estrela já são míticos, bem como o muito bem feito mini-hambúrguer. É essencial marcar mesa.

Rua Nunes de Carvalho, 1 \\\ 969 700 056 \\\ facebook.com/taberna.damilinha

Hotel Grão Vasco

Não há muitos hotéis como este em Portugal, há décadas nas mãos da mesma família, com um historial marcante na vida social da cidade pelo honesto intrincamento com várias gerações de viseenses que ainda visitam o seu restaurante, e de reputação além-fronteiras por estrelas de cinema, da música e da política que o procuraram e procuram. A magnífica sala de refeições oferece o melhor dos pratos beirões. Não se pode ir a Viseu sem visitá-lo.

Rua Gaspar Barreiros, Viseu \\\ +351 232 423 511 \\\ hotelgraovasco.pt

Agora o vinho! Eis a rota do Dão!

mapa

Há 109 anos foi criada em Portugal uma região vitivinícola muito especial. Hoje atingiu um ponto de excelência e supreende o mundo. A partir de Viseu, exploramos o prodígio criado por estas magníficas uvas.

por Patrícia Brito

Encaixado entre serras – Caramulo, Buçaco, Nave e Estrela – que o protegem das humidades do mar e das ventanias continentais, o Dão é a segunda mais antiga região vitivinícola demarcada do país, a seguir ao Douro, mas, tal como a paisagem que o carateriza, esconde as suas maiores preciosidades atrás de muros de pedra e de fachadas centenárias, de pinhais, de giestas e silvados, espalhadas pelos distritos de Viseu, Guarda e Coimbra. Neste relevo acidentado, o solo é granítico e a amplitude térmica grande, o que cria um terroir favorável à produção de uvas de excelente qualidade. Desde o tempo dos romanos que se cultivam vinhas na região, mas foi na segunda metade do século XIX que a área ganhou fama. Em 1908 foi delimitada uma área geográfica (atualmente com 388 mil hectares) denominada Região Demarcada do Dão, tal a importância dos vinhos, cuja delicadeza, elegância e leveza os leva a ser comparados aos de uma das mais famosas regiões vitivinícolas do mundo, a Borgonha, em França.

Na década de 60 do século XX surgiram as adegas cooperativas e deu-se um enorme aumento da produção, com correspondente perda de qualidade. Aproveitaram Alentejo e Douro para chamarem a si as glórias da produção nacional de vinhos de mesa, mas nos anos 90 iniciou-se o processo de reestruturação das vinhas. Hoje há cerca de 20 mil hectares de vinhas plantadas, quase anónimas, escondidas numa paisagem de minifúndio e de vegetação em estado selvagem. Da grande diversidade de castas destacam-se a Touriga Nacional, Alfrocheiro e Jaen nas tintas, e Encruzado, Bical, Cerceal e Malvasia Fina nas brancas. Daqui, resultam tintos bem encorpados e aromáticos que ganham em complexidade quando envelhecem, e brancos muito aromáticos, frutados e equilibrados, que harmonizam na perfeição com os sabores fortes do Dão, onde brilham o queijo da Serra da Estrela, a maçã Bravo de Esmolfe, o cabrito e o polvo, os enchidos e a doçaria, entre muitas outras delícias que atraem apreciadores de vinho, de cultura, de natureza e gastronomia vindos de todo o mundo.

Os sete produtores que visitámos, aqui apresentados, são uma seleção nossa a partir da mais abrangente Rota dos Vinhos do Dão. São verdades do vinho cuja filosofia, abordagem e experiência dão corpo a criações distintas entre si, bem como sua história, terroirs e visão dos criadores.

rotavinhosdao.pt

QUINTA DE LEMOS

Quinta de Lemos - Visitas

O negócio de Celso de Lemos são os têxteis de alta qualidade, mas a grande paixão é promover o melhor da sua região e do país. Estudante e emigrante na Bélgica, quando voltou à terra quis por de pé um velho sonho: produzir vinhos. Hoje, passados 17 anos, quando se entra na quinta implantada numa colina nos arredores de Viseu, o que sobressai na paisagem são as vinhas, a adega e o bonito edifício do restaurante Mesa de Lemos. Pierre, um dos filhos, partilha com o pai o amor pelas vinhas e o orgulho na portugalidade (embora seja belga) e é ele quem gere o negócio, sem se desviar da identidade criada para os rótulos da Quinta de Lemos: “Os nossos vinhos são quase todos monocastas porque é a melhor maneira de promovermos o que temos de único na região”, explica Pierre durante uma visita à adega onde os néctares estagiam em barricas novas. Outra das caraterísticas é o facto de os vinhos terem tempo para envelhecer: “A nossa produção é guardada cinco anos até entrar no mercado”. Além disso, em função da qualidade, apenas cerca de 30% das uvas são aproveitadas. Por ano, saem entre 80 a 100 mil garrafas para o mercado (50% para o nacional e os restantes 50 para exportação). Tome nota: Alfrocheiro, Jaen, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Encruzado, ou então os rótulos que são uma homenagem às mulheres da família, como o Dona Georgina ou o Dona Louise.

Passos de Silgueiros, Silgueiros, Viseu \\\ celsodelemos.com

CASA DE SANTAR

SANTAR

O belíssimo conjunto arquitetónico setecentista que serve de casa ao Paço dos Cunhas de Santar foi recuperado pela Global Wines, que aproveitou os magníficos jardins de buxo e as adegas para criar um enoturismo de qualidade. Propriedade da família dos condes de Santar, o paço, as adegas e as vinhas são exploradas pela empresa que aproveita o capital de uma das maiores (103 hectares de vinha) e mais emblemáticas casas vitivinícolas do Dão. Numa visita às adegas, detemo-nos em vários solares cuja história acompanha a da nacionalidade. À mesa do acolhedor restaurante por onde desfilam as criações do chef Henrique Ferreira, um filho da terra, explica-se: “As ementas são feitas para os nossos vinhos”. Registe-se: Casa de Santar 2015 (branco), Casa de Santar tinto Reserva 2012 (tinto), Paço dos Cunhas de Santar Nature 2013 (tinto) e Outono de Santar (colheita tardia).

Rua da Miragaia, Santar, Nelas \\\ casadesantar.com

PALWINES

Palwines

É o mais pequeno dos cerca de 200 produtores que existem no Dão. Pedro, Ana e Luís são três irmãos que resolveram pegar nas vinhas velhas da família para criarem um vinho singular que juntasse as modernas técnicas enológicas (Pedro é enólogo) e o saber artesanal. Assim nasceu em 2012 a Palwines. “São dois hectares ao todo compostos por microparcelas de vinhas velhas plantadas pelo nosso bisavô”, resume Pedro. A grande diferença é que não deixam de usar como base os processos de há 70 anos, incluindo a pisa a pé: “Fazemos uma espécie de artesanato”. Certo é que o “artesanato” deu nas vistas e logo em 2012 foi premiado pela Comissão Vitivinícola da região do Dão como Grande Vinho do Dão. Com uma produção anual de apenas duas mil garrafas, o Quinta dos Três Maninhos corre o sério risco de se tornar uma das maiores preciosidades do Dão, quer pela qualidade, quer pela raridade.

Rua do Mondego, 3, Nelas \\\ palwines.pt

QUINTA DA PELLADA

Pellada

Junto a Vila Nova de Tazém, na sub-região da serra da Estrela, é uma quinta antiquíssima, do século XVI. Quando, em 1980, herdou a propriedade, o engenheiro civil Álvaro Castro decidiu restabelecer uma tradição familiar interrompida por duas gerações. Criou o primeiro néctar em 1989 e tem vindo a trabalhar o carisma dos vinhos produzidos pelas Quintas da Pellada, de Saes e do Outeiro. Para Álvaro, a viticultura e o clima de cada ano é que molda as colheitas, mas o trabalho de “amparar” a natureza é essencial, ainda que procure o mínimo de intervenção humana na elaboração dos vinhos. É expoente disso o topo de gama da produção, o Quinta da Pellada Primus, oriundo das vinhas velhas e com muitas castas misturadas.

Pinhanços, Seia \\\ quintadapellada.com

ANTÓNIO MADEIRA

Antonio Madeira

Eis uma história curiosa. António Madeira é um luso-descendente de Paris e, apesar de ter obtido o diploma de engenharia numa das mais prestigiadas universidade gaulesas, mandou “tudo às urtigas” e em 2016 estabeleceu-se definitivamente na terra dos pais com o objetivo de fazer os seus vinhos. Começou em 2010 a arrendar pequenas vinhas e a fazer experiências, aplicando o método de Borgonha e uma filosofia simples: muito trabalho na vinha para não ter que corrigir na adega. Atualmente tem 15 pequenas vinhas, muitas delas centenárias: “Nos meus vinhos sente-se o solo, o granito, as ervas aromáticas, as resinas, toda a paisagem da região cabe num copo”. Considera cada cepa como um ser humano, todas são diferentes, por isso as suas parcelas são uma espécie de “museu vivo”. Cada uma é vinificada separadamente, o que implica 15 lagares, 15 cubas e 15 barricas. Tome nota do rótulo: Dão – António Madeira. Primeiro o terroir e depois o nome do produtor, à boa maneira francesa, mas com todos os pergaminhos do bom vinho português.

provas / wine tasting: Quinta da Pellada, Pinhanços, Seia \\\ vinhotibicadas.blogspot.pt

CASA DA PASSARELLA

Passarella

Fundada em 1892 é uma propriedade histórica, sendo responsável por alguns dos grandes vinhos que fizeram a fama do Dão. Depois de um período de algum declínio, a quinta foi adquirida em 2008 pelos atuais proprietários, que recuperaram o património vinícola das velhas vinhas e também o património edificado, onde atualmente se inclui a adega, a loja e um surpreendente centro de interpretação onde podemos acompanhar toda a história de uma casa com muitas histórias. Paulo Nunes, o enólogo que nos acompanha na visita às vinhas (45 hectares) e à adega, é o fiel depositário de um precioso legado que tem sabido muito bem honrar, reestruturando as vinhas velhas e recuperando a reputação dos vinhos, como o excelente topo de gama Villa Oliveira. Com uma produção de cerca de 300 mil garrafas por ano (das quais 40 por cento são para exportação), a Casa da Passarella tem vindo a modernizar-se, mas a filosofia consiste em preservar os métodos e processos de cultivo, de vindima e de vinificação: “Nesta zona mais próxima da serra da Estrela há um microclima e os terroirs são diferentes. Isto significa por exemplo que a vindima é feita mais tarde”. É esse saber, feito de experiência e de experiências, que o enólogo passa para os néctares de uma casa que se orgulha de ter “histórias escritas com vinho”.

Rua de Santo Amaro, 3, Passarela, Lagarinhos, Gouveia \\\ casadapassarella.pt

QUINTA DA LOMBA

Quinta da Lomba

Dirk Niepoort é um lendário produtor de vinhos no Douro que, um dia, meteu na cabeça que o melhor vinho de Portugal seria o que resultasse da mistura entre o Douro e o Dão. Acalentou a ideia durante alguns anos, até que em 2014 surgiu a oportunidade de adquirir a Quinta da Lomba em Gouveia, assim salvando os seus cinco hectares de vinhas com mais de 60 anos. Atualmente a produção estende-se por 27 hectares e estão a ser replantadas algumas das vinhas velhas. Recuperar o património é a palavra de ordem, por isso também a velha adega foi reconstruída. Na Lomba, e um pouco por toda a região, a nova moda é a produção biodinâmica, que vai um pouco mais além da produção biológica, uma vez que atenta a detalhes tão importantes como o calendário lunar no processo de vinificação. “Conciso” é o nome do vinho, do qual se fizeram 12 mil garrafas em 2014, mas “se tudo correr como planeado”, em breve a produção anual atingirá as 80 mil garrafas.

Lugar de São Pedro, Gouveia \\\ niepoort-vinhos.com

Rota do Vinho do Dão from Up Inflight Mag on Vimeo.

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