Vida e viagem, homenagem ao Sertão e a Guimarães Rosa

on Oct 1, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

1.

Numa altura atribulada do Brasil, em que se fala da importância fundamental de preservar a natureza – a Amazónia especificamente, e as muitas tribos indígenas, mas não só –, é o momento de homenagear uma outra parte fundamental deste país gigantesco: o Sertão e a sua cultura.

Há inúmeros livros importantes sobre o Nordeste Brasileiro, mas a grande referência é, sem dúvida, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Um dos grandes expoentes da literatura em língua portuguesa.

 

2.

Viver não é fácil, claro. E uma metáfora, talvez a mais antiga, coloca a vida como uma viagem, um itinerário.

Diz Riobaldo, uma das personagens centrais do livro de Guimarães Rosa, vagueando pelo Sertão:

“A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho”.

Viver é, de facto, 97% de repetição. Uma repetição no dia seguinte não deixa de ser repetição – uma repetição de novo, repetição nova, paradoxo, mas é mesmo assim: amanhã comer de novo, dormir de novo, de novo abrir a porta, rodar a maçaneta, de novo os mesmos gestos.

A vida, portanto, como sistema, quando muito, de 30 verdadeiras novidades desde o nascimento à morte; novidades, surpresas, acontecimentos bruscos. De resto, as mesmas sensações sempre; a vida normal coloca aborrecimento no sistema nervoso, este fica a funcionar a baixas rotações com os olhos semicerrados, não precisa de despertar por completo, resolve a vida com energia de cidadão. Energia mínima é esta, a de cidadão, pois o lugar amplo onde está, a cidade, já resolveu à partida, dias antes, anos, ou mesmo décadas antes, uma série de problemas. Por exemplo: onde colocar os detritos que cada humano produz? A canalização urbana há muito resolveu esse problema, ou parte dele, problema que, fora das cidades, em sistema de isolamento, é individual e exige ação e esforço de cada um. Portanto, isto: o sistema nervoso do cidadão está aburguesado, sofá e alcatifa e janelas com vidros duplos para não apanhar constipações leves. Viver na cidade em parte é isto. A cidade elimina muito esforço ao indivíduo.

No entanto, de vez em quando, sim, a surpresa: “A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho”.

Sim, sem sabermos bem como, saltamos para outro galho. Uma forma de deslocação, de viagem, involuntária.

Num “mim minuto”, bela expressão de Guimarães Rosa. O meu minuto, um minuto que me pertence como um objeto. Ou melhor: minuto que me pertence como uma sensação. Um minuto de acontecimento lá fora que provoca uma resposta simultânea (como se responde ao mesmo tempo da pergunta? Isto mesmo: vivendo; viver é a resposta que se dá no mesmo segundo da pergunta que a vida nos coloca).

A vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada; daí a dificuldade de se viver, disse-me Jonathan, um amigo. Ele acrescentou: não podes deixar que a pergunta seja feita até ao fim pois não podes suspender nem o exterior nem o que sucede dentro de ti.

Pois, mas sim: somos “escorregáveis”, não dominamos por completo o solo de estar vivo e a relação com os seus atritos.

Por vezes, em suma, isto: uma falha da relação pé e terra e, depois, na vida, escorregamos.

Viver é isto. E viajar?

 

3.

A viagem? Uma forma intencional de escorregar para outro sítio. Um escorreganço controlado.

 

4.

Não sabemos o que é viver (deslocação não no espaço, mas no tempo); a vida só dá a solução tarde de mais. Como diz a personagem de Guimarães Rosa:

“acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros… um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala”.

Viver, no Sertão ou fora dele, é como avançar no escuro – mas não é noite nem há falta de janelas ou eletricidade; o escuro não está lá fora, mas sim na visão.

Estar vivo é, então, estar cego e não nos dão bengala nem acompanhante que nos assinale perigos à frente. Se há acompanhante, este sofre da mesma cegueira, a de não saber como o presente vai proceder connosco. Pode o teu minuto, e o meu minuto, mostrar gentileza ou perversidade, não sabemos. O certo, certo, é que isso não depende de nós.

Uma viagem sem plano ou mapa.

 

5.

De facto, a vida colocou uma placa: Não estacionar!

e por isso não paramos mesmo quando quietos.

A vida, a cada minuto, a cada instante, a levantar-nos a placa: “Não estacionar”. E nós, o que temos de fazer? Obedecer, pois claro.

 

por Gonçalo M. Tavares

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