Victor Hugo Pontes – Espírito Irrequieto

on Dec 1, 2018 in Embarque Imediato | No Comments

Victor Hugo Pontes é um incontornável na dança portuguesa. Quer transformar o nosso tempo em ação e desenha espetáculos físicos, no osso. À procura de uma expressão e de uma verdade.

Desde pequeno que “pegava nuns farrapos” e vestia os primos e a irmã mais nova: “Fazíamos teatros, montávamos personagens e construíamos casas no quintal da minha tia”, recorda Victor Hugo Pontes, por Skype, a partir do Porto. “Hoje olho para aquilo e eram cenografias! Era brincar. ‘Teatro é brincar’, em inglês diz-se ‘play’, em francês ‘jouer’. Mas essa construção das ficções e das personagens existiu desde o início. E também um lado muito físico, que me interessava, mas de que só tenho consciência mais tarde. Na altura, seguia impulsos e vontades. Mas o tempo que dediquei foi sempre muito, queria mesmo fazer aquilo.” Aquilo é teatro, dança e tudo à volta. Victor Hugo nasceu em 78, em Guimarães, irmão de três, e com pais sensíveis às artes. “Sempre gostei de dançar, mas não tinha coragem de dizer que queria ir para uma academia de ballet, até porque tinha implicações financeiras.” Integrou o que era para ser um grupo de teatro infantil e acabou por ser um rancho folclórico, “adorei”. Depois, o pai trouxe-lhe um folheto que o levou, com 14 anos, a uma oficina de dramaturgia e interpretação, hoje Teatro Oficina, que o ocupou durante dois anos. Estudou artes no liceu e depois inscreveu-se, indeciso, em teatro, na escola profissional Balleteatro e em pintura na Faculdade de Belas-Artes, ambos no Porto. Acabou por fazer os dois e ainda o Erasmus em Norwich, Inglaterra. A dança chega mais tarde, numa audição da Balleteatro como ator para um projeto de dança. “Percebi que o que tinha aprendido nas BelasArtes, ao nível de composição e forma, podia aplicar na dança. Enquanto no teatro pegamos num texto, seguimos a dramaturgia e podemos dar-lhe tridimensionalidade, mas grande parte da informação já está lá, na dança, podia compor, ligar partes, pôr o princípio no fim e o fim no princípio, uma multiplicidade de opções. Pensei: ‘Quero mesmo investir aqui’.”

O Fórum Dança, em Lisboa, cria um curso de composição e criação coreográfica e Victor Hugo inscreve-se. “Tinha de fazer uma aula de técnica Cunningham, nas audições”, conta, “nunca tinha feito antes e dizia, efusivo: ‘Vim para aqui para ser coreógrafo, não para ser bailarino, não preciso de executar!’. Acabei por descobrir o que conseguia fazer com as limitações do meu corpo, que não estava codificado como o dos outros que tinham feito ballet clássico desde miúdos. O meu era um corpo ainda muito selvagem, se se pode dizer assim, mas tornou-se identidade. Apesar de não conseguir levantar a perna a 180 graus, podia pô-la noutro sítio, ser outra coisa, porque tinha a experiência da ficção, do imaginário do teatro que ainda hoje me sustenta.” Por isso, tornou-se um coreógrafo particular, que não cria apenas a partir da beleza do gesto, mas da história, da ação. “Correr, saltar, subir, descer, estar à procura – o que estou a fazer? Foi desta forma que fui construindo a minha própria linguagem coreográfica.” Entretanto faz o curso de encenação da Fundação Gulbenkian, dirigido pelos ingleses Third Angel, teatro pensado não a partir do texto, mas de conceitos e ideias. Tinha tudo a ver com ele. O seu ponto de partida podem ser palavras, música, uma imagem, uma forma, uma ideia, um espaço, e o espetáculo pode ser dança, teatro, qualquer coisa no meio, mas também cinema, vídeo, música. Filho da sua geração, contaminada por uma avalanche de informação rápida, Victor dessacraliza a linha que separava as artes e a forma como se sobe a um palco. “Não existem conceitos nem fórmulas”, afirma, uma qualidade comum a quase todos os maiores das artes: “As escolas devem formar indivíduos, e foi disso que me apercebi quando fui confrontado com as minhas limitações: esta é a minha identidade.”

A sua primeira referência é a fotografia de Nan Goldin: “[É] a primeira artista que comunicou diretamente comigo. Vi uma exposição dela em Londres e foi uma experiência muito forte. Gosto muito da ideia dela de privacidade, mostrar o que normalmente não se mostra, e isso foi muito marcante nas minhas primeiras peças – Voyeur, 2006, ou Manual de Instruções, 2009, por exemplo – como é nos seus projetos recentes, Margem, de 2018, de que gosta particularmente, inspirado no romance Capitães da Areia, de Jorge Amado sobre as crianças que são postas de lado (será reposto no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, em fevereiro de 2019 e segue país fora). “Os assuntos que não são falados, ou de que não se fala naturalmente, interessam-me muito.” Por isso, também se fascina com a realidade crua da fotógrafa norte-americana e sente-se atraído pelo teatro documental, quer mostrar “a ponta do icebergue que está submersa”, as suas peças têm um caráter político e social, partem de pessoas e das suas relações, “seja de amor, apoio, ajuda (como em Fall, 2014) seja abstrato, sobre como é que o coletivo pode ser mais forte que o individual”.

Numa das mostras informais do Fórum Dança, estava o diretor do festival Fábrica, do Porto, que o convida e assim nasce a sua primeira coreografia, Puzzle, em 2003. A escola do teatro deu-lhe o amor às palavras, um lado físico consciente e a vontade de explorar o palco, mas raramente dança: “O palco é como uma folha vazia, tem de se dar camadas, primeiro uma demão e depois constrói-se o resto.” Por isso, a cenografia ocupa uma parte importante, e a luz, “que altera a nossa relação com o espaço”. Curiosamente, quando era pequeno queria ser arquiteto, os seus palcos podem ter planos inclinados, e claro que trouxe da pintura a relação com materiais plásticos: “Ainda continuo a pintar, mas é nos corpos dos bailarinos que faço desenhos em tempo real, que se vão apagando à medida que os vão fazendo, mas são sempre desenhos.” Depois, criou um coeso grupo de colaboradores: “Gosto de ter compromissos e relação com os outros”, diz, o teatro e a dança são coletivos e o seu trabalho também é das suas pessoas. Introduz sempre alguém novo porque gosta de “destabilizar um pouco”, e no seu jeito informal convida bailarinos não profissionais, mas que “têm uma expressão física interessante”. Quando sabe como se faz daquela forma, perde o interesse, “gosto de evoluir para um sítio que não conheço.” Também é ele quem trata dos figurinos que, parecendo streetstyle, são pensados ao milímetro. “Às vezes perguntam: ’Posso levar estas meias?’ ‘Não, não, nem pensar!’”, ri-se.

Além de Margem, onde trabalha com órfãos da Casa Pia em Lisboa e do Instituto Profissional do Terço, no Porto, (“gostava que fosse visto por todos”), vai continuar país fora Nocturno (2017), com a pianista Joana Gama, projeto infantil que acaba de dar a volta à Bélgica; também será reposto o sucesso Ballet Story, 2012, e Fuga sem Fim, 2011, no festival Guidance, em Guimarães, num ciclo dedicado ao seu trabalho, em fevereiro de 2019, onde também estreará o novíssimo Drama, que parte de Seis Personagens à Procura de um Autor, de Pirandello, e explora um texto escrito e outro improvisado, “é dança, sem texto, mas com personagens como no teatro.” Se as pessoas comunicassem mais com o seu corpo, seriam mais sensíveis aos outros e ao que as rodeia? “Sem dúvida. Quando melhor me conheço, mais reparo nos movimentos quotidianos, mais próximos estaremos da matéria, do espaço, dos outros. Mesmo em relação ao toque. Não gosto de tocar nem ser tocado por toda a gente, mas ter a sensibilidade de perceber o que é um corpo comunicante. Dizem-me: ‘Gosto muito dos teus abraços’. Pensei nisso e se calhar muitas pessoas não abraçam desta forma, porque provavelmente não abraçam com o corpo todo. Para mim, um abraço não são só os braços, é um corpo inteiro. Mesmo quando procuras, não é só a cabeça que está à procura, tens de implicar o corpo todo nessa procura, tem de estar tudo ligado.”

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por Patrícia Barnabé /// foto Egídio Santos

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Agradecimentos

A UP agradece à Ginasiano - Escola de Dança pela cedência do espaço para a sessão fotográfica.

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