Victor Bandeira
Nas décadas de 60 e 70 foi um marchand singular: passou longos períodos junto de povos distantes à procura dessa arte antes chamada “primitiva”, e as colecções que trouxe viriam a integrar o espólio do Museu Nacional de Etnologia. Agora, aos 78 anos, quer ir onde nunca esteve.
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O sítio onde nos recebe é um desses a que gosta de voltar, de todas as vezes. Porque os regressos, note-se, não são todos iguais. Alguns devem ser mesmo evitados a todo o custo. Quanto ao regresso “a casa”, sim senhor, é um prazer que recomenda. Como o bacalhau com batatas. É esse bem-estar que marca os seus regressos ao apartamento nas alturas frente ao mar, na Costa da Caparica, ou a esta casinha no coração do Alentejo, antiga morada de trabalhadores por conta de uma herdade ali perto.
Aqui, no jardim em volta, nada se ouve além da música, que vem das janelas, e do tinir de um espanta-espíritos de bambu, agitado pela brisa morna. Depois, lá dentro, o piano de Keith Jarreth ganha outra frescura, na agradável sombra enfeitada de objectos daqui e dali: o bordado indiano, a cortina do Laos, desenhos de Bali, mas também um tapete que era dos pais, um galo resgatado ao ferro velho e dois bonecos de matraquilhos, já meio enferrujados sem, no entanto, perderem a compostura.
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“Eu podia lá viver”
Tudo começou por acaso. “E se calhar a minha vida também.” Por volta dos 25 anos, depois do curso na Sociedade Nacional de Belas Artes, abriu uma casa de antiguidades, com outras duas pessoas, e logo percebeu que gostava mesmo dos objectos antes chamados “de arte primitiva”, e de arte popular, de arqueologia. Esse interesse levou-o a livros especializados e, como em Portugal não havia mais ninguém, estabeleceu contactos lá fora.
Depois separou-se dos sócios, comprou um jipe e iniciou um percurso que lhe permitiu ter todas as faces do sonho de uma vez. “As viagens em si não me interessam muito. O que eu queria era outros horizontes, estar noutros lados, com outras pessoas. Viver outras vidas.” E procurar, na origem, os tais objectos. Longe dos leilões e antiquários europeus. Com estes aprendera muito, é certo, mas queria agora viver isso tudo. Um dos segredos acerca de ser marchand de arte reside no talento para distinguir um objecto valioso de outro que é vulgar e desinteressante. E do que se faz essa diferença? “Não sei definir, ninguém sabe.” Sabe apenas da carga de emoção quando olhamos arte genuína. “Há ali uma… ia dizer sinceridade. Há uma verdade. Nem o artista era capaz de repetir, mesmo que tentasse. O que ele fizer a seguir será sempre só uma cópia.”
Partiu com Françoise, a segunda mulher, e um amigo, também francês, com destino a Angola, via Norte de África. Aventuras para cruzar fronteiras, avanços por entre manobras de guerra e questões diplomáticas. Aí, em África, teve pela primeira vez essa sensação de que podia lá ficar, viver de outra maneira. Chegaram ao destino em Dezembro de 1961, nos primeiros tempos de guerra do Ultramar; estavam na Guiné “quando o Galvão tomou o Santa Maria”.
A colecção de objectos que reuniu nessa viagem, sobretudo esculturas, viria a ser exposta na inauguração do Museu da Escola Superior de Belas Artes do Porto. Foram trazidos do Senegal, da ex-Guiné portuguesa, da Costa do Marfim e do Mali, onde passou muito tempo com os Dogon, “que põem os mortos nuns buraquinhos de uma falésia, sítios altíssimos, têm de ir por umas escadinhas, pendurados por cordas”. Obteve-os em troca de outros que levava da Europa, em processos de negociação mais ou menos complexos com os chefes locais. Jorge Dias, que dirigiu o Centro de Estudos de Etnologia e que com a sua equipa criou, em 1965, o Museu Nacional de Etnologia, visitou essa mostra. Inicia-se então uma colaboração longa e produtiva para ambas as partes. A viagem seguinte de Victor Bandeira, à Amazónia, duraria um ano e foi já por sugestão do antropólogo.
Vender as colecções ao museu servia-lhe também a comodidade de poder entregar os objectos sem perder o contacto com eles, além do gozo de colaborar com o grupo: Jorge Dias, Margot Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Enes Pereira. “Todos mais velhos do que eu, era um prazer estar com eles. Eram nessa altura os meus melhores amigos.”
Seguiu-se o rio Muni, os Bijagós, e de novo Angola. Nestas vezes ia já sem Françoise, que regressara grávida do Brasil. Em Angola apanhou boleias dos militares portugueses, que “andavam a uma velocidade louca” nos unimogs. Assistiu às suas danças nocturnas ao pé da fogueira e ao som do acordeão, “parecia que estavam no Minho.” Na verdade, muitas vezes nem sabiam onde estavam. Os mapas que tinham não mostravam tudo, e foi ele que lhes indicou aldeias de que nem tinham ouvido falar. “Andavam sempre todos esfarrapados por causa do futebol.”
Tanto mundo novo
Depois foi à Indonésia, duas vezes, em períodos de cerca de um ano. Java, Bali, Sumatra, Kalimantan, Nova Guiné, Timor. Fazia escala em diversos sítios, mas quando calhava a Índia “era terrível, não podíamos sair do avião porque não havia relações diplomáticas com Portugal.”
“A Indonésia era uma loucura, eu podia lá viver. Não em qualquer sítio; nas ilhas Nias, por exemplo, ao largo de Sumatra, não vivia nem uma hora. Mas Bali… Bali era o sítio ideal. Tudo tão bonito, as paisagens, aquela gente, artística, homens e mulheres simples, sempre elegantes. Até os panos dos sarongs são lindíssimos. Havia rituais com flores e água, evocações, não eram rituais de sacrifício, mas de alegria. E festas, algumas duram a noite toda. Tocam, cantam e dançam, e quem toca não são músicos profissionais, é o agricultor e o pescador.”
No primeiro contacto, os sítios onde foi nunca o decepcionaram. “E é o facto de terem sido fascinantes que faz com que o regresso seja penoso, porque na nossa ausência eles mudaram. Vinte anos depois esse sítio já lá não está. O edifício lindíssimo está rodeado de prédios por todo o lado, há filas de trânsito…”
Goa, por exemplo. Viveu lá com Lela, agora sua mulher de há muitos anos. Isso aconteceu entre 1978 e 79, na aldeia “éramos nós e os pescadores.” Uma vez foram de carro, fizeram parte da Rota da Seda: Turquia, Grécia, Irão, Afeganistão, Paquistão. Levaram um cão desde França e de caminho compraram dois cães de Lassa. Nessa viagem “visitámos lugares lindíssimos; hoje seria impossível.” Voltaram a Goa em 2000 e a quantidade de hotéis e o trânsito congestionado perturbou todos os reencontros. E o que é que se faz, então? Parte-se à procura de outro sítio que agora tenha o significado que aquele teve nessa altura? “Não. O que me dá vontade é tentar esquecer aquele lugar de que me lembro e tentar curtir este que agora existe, tal como está. O primeiro choque às vezes custa, mas as coisas têm de mudar. Eu também mudei.”
A persistência da memória
E logo regressa – sim, regressa – a uma serena nostalgia. “Mas que é triste, é.” À Guiné também voltou, muitos anos depois, “estava sempre com aquele sonho.” E afinal “é uma miséria tão grande, um abandono.” Em Bali, aonde regressaram em 2001, “andam com bonés de basebol, já só se vestem bem para celebrações religiosas. No hotel deram-nos um convite para uma cremação, incluía uma bebida fresca. Ora uma cremação é uma coisa importante. Quando é cremada uma pessoa que pertence à casta alta supõe-se que vai directa ao paraíso, e há outros que esperam anos para serem cremados na mesma cerimónia, para apanharem boleia. Às vezes quando são cremados já só são uns pacotinhos pequeninos. E agora fazem isso para os turistas. É grosseiro, é lamentável, é pornográfico.” E na Amazónia? “Os índios estão colocados numa situação de pedintes. O homem que não precisava de nada já não existe, e o que ficou no lugar dele vive cheio de problemas.”
Prefere, por isso, concentrar-se agora nos sítios onde nunca esteve. “Gostava muito de ir ao México (se já lá tivesse ido, não sei se queria voltar), para ver a arqueologia, que deve ser uma coisa única, mas não só. Gostava de ir ao Egipto; foi a primeira viagem que tive na cabeça e nunca consegui ir, por diversas razões ridículas. Gostava de ir ao Cambodja. E ainda, aqui mais perto, aos países do Leste da Europa, onde deve haver coisas fantásticas.”
Das viagens em si, lembra episódios caricatos, como uma certa deslocação no Mato Grosso: o dono da avioneta pegava num mapa, com uma régua fazia umas medições em centímetros, e era com base nisso que fazia o preço. “Eu levava muito peso, coisas para trocar com os índios, e lá ia sentado em cima da minha bagagem. O tablier não tinha instrumentos, e ele guiava-se pelo fumo no meio do mato.” Mas lembra também o impacto de certas transições. À chegada a certos aeroportos, “abre-se a porta do avião e há um cheiro. É outro mundo.”
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por Fernanda Pratas
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