Uma singular poesia brasileira

on Aug 1, 2019 in Aterragem | No Comments

Entre os feitos do espírito coletivo brasileiro no século XX, brilha como diamante o seu fabricante de aviões, único na metade sul do planeta. Apta metáfora, pensando nos extremos de temperatura e pressão onde nascem as admiradas gemas, similar à liça onde se bate o pequeno número de construtores aeronáuticos. O avião, um dos mais complexos produtos de engenharia existentes, é a realidade de um poema, escansionado pelas regras da física, escrito pelo esforço colaborativo de almas em sintonia, vivo na intersecção da viabilidade económica e implícito voto de confiança dos seus passageiros.

A 19 de Agosto de 1969 – um mês após a Eagle aterrar na Lua – nasceu a Embraer, tendo por presidente o engenheiro aeronáutico Ozires Silva. Tal como Kennedy exortou, “Faremos estas coisas porque são difíceis”, a concretização do difícil foi o apanágio desta gema brasileira nestes 50 anos. Competir com os maiores do mundo talvez tenha destilado e apurado o melhor da cultura brasileira na cidade-berço de São José dos Campos preconizada por Santos Dumont, hoje com raízes pelo mundo fora, crescendo inclusivamente em Portugal.

Os seus primeiros aviões, o planador Urupema e o Bandeirante – seu primeiro avião de transporte e motivo de existência –, o projeto AMX, a lição de realidade do CBA-123, o virar de página do ERJ-145, a estreia dos Phenom e Legacy, o grande KC-390 e os E-Jets, onde talvez voe agora, a bordo da TAP Express. Aqui temos a oportunidade de provocar alguma reflexão: tendo tantos outros tentado, que singular mistura tornou possíveis estes 50 anos, que permite voar os próximos 50?

Postulam os estudiosos das organizações a importância da preservação e qualidade dos seus genes críticos, depurados pelo tempo no cadinho humano dos que lhe dão vida. Afinal, é preciso algo mais do que o sonho de criança de fazer avião para vingar no mundo: competência, dedicação, agilidade, criatividade, uma dose de sentido da realidade, uma pitada de sorte. O sonho, por outro lado, confere alma e propósito ao empreendimento coletivo, bússola indicadora da rota a navegar no futuro. Ficamos, assim, algo descansados. Tudo aponta ser o singular e visível “fazer avião” um resultado colateral de uma outra missão, implícita no entusiasmo dos seus obreiros: a vontade de transformar o Brasil, e o mundo, ao elevar cada um à fasquia de projetar, fabricar e suster estes seres alados que ligam, todos os dias, milhões de ser humanos.

 

por Ricardo Reis

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