Um desvio para o Abaeté

on Nov 1, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

Pensava em Itapuã. Nunca tive planos para visitar um lugar que existia numa canção e chegava, por haver nisso beleza suficiente. O nome da terra, a voz de Toquinho, o som pensado por Vinicius de Moraes eram suficientes para idealizar uma espécie de perfeição à beira-mar; perfeito de mais para haver na terra. Mas fui a Itapuã. Uma manhã e não numa tarde como na canção. Havia um rapaz a abrir cocos na praia com uma catana. Um por quatro reais. Era cedo, um inverno morno, o areal quase vazio, muitas gaivotas a sobrevoar o sítio onde imaginei umas figuras míticas a passear: Vinicius, Dorival Caymmi, João Gilberto, Toquinho, Jorge Amado. Todos iam para Itapuã e ali estava eu perto das ondas da maré vazia sem sequer cumprir um sonho, porque nunca sonhei ir a Itapuã. Era tão improvável Itapuã ter uma geografia precisa, 25 quilómetros a norte do centro de Salvador, na Bahia, um farol, habitantes, a estátua de Vinicius – achei-a triste – na praça em frente à casa onde morou.

Fui a Itapuã, mas ver Itapuã não matou o lugar com o mesmo nome que há na minha cabeça. Ele mantinha-se, mesmo comigo ali, a Itapuã real e a imaginada a encaixarem-se numa nova Itapuã, a do “dia para vadiar” e a daquela manhã com o rapaz a carregar cadeiras para a barraca de praia ganhavam uma dimensão nova, como se estivesse a entrar numa ficção e eu soubesse que estava a entrar numa ficção. Sem enganos a não ser os da imaginação, e essa não engana, dá alternativas ilimitadas. Eu com estes pensamentos sem ordem e o taxista sugere uma paragem no caminho de regresso. “Não pode vir aqui sem ver isto.” Depois de um pequeno desvio por uma ladeira íngreme lá estava o que nunca pensei ver. Uma lagoa de água escura rodeada de areia branca, tal como na canção de Dorival Caymmi. O verde escuro da mata, ao fundo, em contraste com a claridade das dunas, e o filtro das nuvens baixas a definir cada traço na paisagem; homens a pescar numa das bermas, um cavalo que entra na praia, solto, e que para mim só podia ganhar asas porque a haver lugar para cavalos alados teria de ser ali. A Lagoa do Abaeté. Existe, e dela contam-se histórias trágicas. “Se mergulhar a areia pode comer você”, dizia-me o taxista. Não sei se assustado ou para me assustar, enquanto ia narrando tragédias, gente que desapareceu para sempre naquele lugar encantado e assombrado que o nome mitifica: abaeté vem do tupi e significa horror. Um horror dunar, que engana de tão sedutor. Aos olhos é idílico. O cavalo corre nas dunas, não ganha asas, relincha atrás da mãe, na outra ponta da baía. No Abaeté as águas podem comer gente, mas à superfície, tudo normal, se a normalidade fosse perfeita.

 

por Isabel Lucas

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