Tróia – A península mágica

on Jul 1, 2010 in Fim-de-Semana Perfeito | No Comments

Uma pausa na intrincada agenda permitiu a Filomena Cautela, actriz e apresentadora de televisão, a hipótese de rever Tróia e muitos dos seus encantos. Esta é a história de merecidos dias ao sol.

Thomas Mann escreveu: “Quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos”. Para ganharmos mais tempo à vida, demos folga ao dia a dia e ao relógio e embarcámos rumo a Tróia.

Passear de barco ao cair da tarde, cirandando entre o Atlântico e o rio Sado, com um olho posto na imponente serra da Arrábida e outro nos areais selvagens da península de Tróia, é daquelas coisas que nos obrigam a dizer em voz alta: “melhor é impossível!”. Quem verbaliza o sentimento geral é Filomena Cautela, sentada na proa do semi-rígido, ao ver surgir à superfície Moisés, o golfinho caçula da comunidade de 22 roazes-corvineiros que vivem no estuário do Sado. Pedro Narra, fotógrafo de vida selvagem e skipper da Vertigem Azul, a empresa que organiza estes passeios, conhece de ginjeira a colónia de golfinhos e a sua rotina, e conta-nos que “nos meses de Inverno andam aqui pelo estuário, no Verão é que saem para o mar”. O Moisés é o mais desinibido. Curioso, aproxima-se mais do barco e faz um par de acrobacias como uma criança que mostra as suas recém-adquiridas habilidades. Gigante e lesto, Raiz chega-se à proa e saúda a comitiva com a barbatana dorsal, a dar para o grisalho, anunciando o estatuto de ancião da colónia.

Entrando estuário do Sado adentro – reserva natural com área total de 23.160 hectares –, fazemos o reconhecimento das margens. À esquerda Setúbal, cidade piscatória e importante entreposto naval. Os estaleiros de construção baralham o quadro idílico. Se não existissem, a paisagem seria ainda mais magnificente, já que à direita, na península de Tróia, a virgindade das orlas mostra porque é que este é o local eleito por cegonhas e flamingos para nidificar e repousar. Daqui também se vislumbram as ruínas romanas de Tróia, monumento nacional desde 1910. Para lhes dedicarmos a atenção que merecem, o melhor é apearmo-nos.

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Sanus per Aquam

Nas suas andanças pela Península Ibérica, os romanos descobriram no delta do rio Sado uma ilha que baptizaram de Acála. Era Tróia, a actual península que, à data, não tinha ligação a terra. Foi aqui que os romanos fundaram, por altura da dinastia dos Júlios-Cláudios, no século I d.C, o maior complexo de produção de conservas e molhos de peixe do seu império ocidental. O abandono terá ocorrido por volta do século VI d.C., quando o fim do império levou ao declínio das rotas comerciais e dos mercados consumidores.

As ruínas que agora visitamos são compostas por um aglomerado construído em torno da actividade conserveira: “habitações, necrópole, columbário e basílica onde se podem apreciar frescos de inspiração paleo-cristã”, explica a antropóloga Patrícia Bruno. Como não podia deixar de ser, também lá estão os indispensáveis balneários. “Os antigos romanos definiram a expressão spa, que é uma sigla do latim sanus per aquam, ou salute per aqua, em italiano moderno”, explica Patrícia. Se em Roma há que ser romano, porque não sê-lo também em Tróia? No wellness centre do nosso hotel, o Aqualuz Suite Hotel, Filomena Cautela agradece as sensações proporcionadas pelo Tróia Emotions Corpo, tratamento criado especialmente para o local que utiliza pequenos sacos em tecido, as chamadas “troianas”, recheados de sais marinhos. São também chamadas à acção purificadora pétalas de algas e óleos essenciais.

Arroz com todos

Ao jantar, longe das distracções troianas (os golfinhos, as ruínas, as paisagens), é  tempo de pôr a conversa em dia. Para quem não sabe, Filomena é a princesa dos serões da RTP2 conduzindo, às segundas-feiras, o 5 Para a Meia Noite, o talk show mais apreciado do momento e que tem como co-apresentadores um quarteto no masculino: Fernando Alvim, Nilton, Pedro Fernandes e Luís Filipe Borges, também conhecido como Boinas. “É um programa fantástico! De forma leve, divertida e inteligente vamos tratando assuntos sérios e apresentando pessoas mais e menos famosas, mas sempre com óptimas histórias para contar”.

Não menos importante do que o “5”, como é carinhosamente tratado o programa da RTP2, foi a passagem de Filomena pela MTV. Nesta etapa da sua vida, o mais alto de vários momentos fabulosos foi “sem dúvida a entrega dos MTV European Music Awards que decorreram em Lisboa, em Novembro de 2005 [viriam a ser considerados pela imprensa mundial o melhor MTV European Awards até à data]”. “Como apresentadores do país anfitrião do evento tínhamos de subir ao palco e anunciar os nomeados e o vencedor da categoria Best Portuguese Act. O guião foi-nos entregue pela MTV Europa e tinha sido preparado pela MTV mundial, um texto em inglês que eu e o Diogo (co-apresentador) devíamos ler ipsis verbis…não imaginam a nervoseira em que estávamos antes de subir ao palco. O Diogo vomitava com os nervos e eu, aterrorizada, tentava equilibrar-me nuns saltos enormes que me tinham sido entregues há cinco minutos. Imediatamente antes de subirmos ao palco e enfrentarmos a plateia, onde estavam nomes como Madonna, Foo Fighters, Gorillaz, Britanny Murphy, Robbie Williams etc., um dos elementos da produção decidiu informar-nos que naquele momento havia mil milhões de televisores sintonizados no programa: imaginem como isto nos deixou à beira de um ataque de nervos. Subimos ao palco e não sei porque carga de água, decidi ignorar o guião: ‘Diogo, estamos em Portugal falamos português: Os nomeados são…!’.” “Na altura nem pensei nas consequências que isso poderia ter junto da MTV, mas, felizmente, correu tudo bem.”

A conversa corre ligeira no Museu do Arroz, o restaurante mais trendy das redondezas, onde o constante corrupio de famosos faz passar despercebida a presença da cara da TV Globo Portugal. Isabel Carvalho é a proprietária do restaurante que outrora foi a fábrica de descasque de arroz da Herdade da Comporta e, enquanto o planeado museu não abre portas, quem por aqui passa pode, ao invés de ver como se produz o cereal, experimentar o que se pode fazer dele. A decoração é rústica a atirar para o chique e o ambiente descontraído. O arroz, claro está, faz as honras da casa, seja ele confeccionado à boa moda portuguesa ou à japonesa, sob a forma de sushi. Nós ficamo-nos pela tradição: Venha de lá um arroz de tamboril!

Mil andanças

Há uns anos atrás, a aldeia da Comporta era uma herdade enorme onde o cultivo do arroz era soberano. “O carácter sazonal das campanhas fez com que os trabalhadores fossem ficando e os proprietários da herdade cederam-lhes terras para cultivarem e construírem as suas cabanas”, explica Nuno Soares, nosso guia. Hoje a aldeia é uma coqueluche, muito procurada por portugueses para fins-de-semana e veraneio e também pela elite estrangeira que vai adquirindo casas de férias mais modernas e sumptuosas que as tradicionais cabanas de colmo da região. Mas, mais do que o crescente turismo, são a agricultura e a pesca os principais ganha-pão de quem aqui vive. O Sado é a maior área de arrozal contínuo a sul do Tejo e, se antigamente as ceifeiras eram a imagem de marca da paisagem rural, a modernidade ditou que estas fossem substituídas por alfaias hi-tech. “Esta trilha é um aeródromo”, explica Nuno enquanto nos conduz por entre os arrozais, “hoje a sementeira é feita por aviões que espalham as sementes pelas terras preparadas”.

Mais à frente damos de caras com o cenário mais caricato da jornada: o porto de palafitas da Carrasqueira. Os habitantes desta aldeia dividem a labuta diária entre a faina do mar e o amanho da terra. Nas décadas de 50 e 60 do século passado foi preciso criar uma jigajoga para manter os trabalhadores perto da terra e do mar. Assim, para que a pesca fosse possível, criou-se um acesso à água que não ficasse condicionado pelo vai e vem das marés. É que na maré cheia a água atinge o “muro de maré” que defende os terrenos agrícolas, e na maré vazia recua algumas dezenas de metros, criando uma barreira de lodo entre a terra e a água. Reza a história que dois pescadores se lembraram de espetar uma estaca na borda do muro e puseram umas tábuas por cima para passarem. A “moda” pegou e assim se construiu o porto.

É sobre este emaranhado de tábuas e estacas que constatamos que, apesar de termos posto os relógios de parte, há um relógio que não dá tréguas nem de férias: o biológico. É hora de dar ao dente, até porque o passeio entre o arroz e a pesca abriu-nos ainda mais o apetite. Rumamos agora à praia do Carvalhal, para uma sardinhada no famoso restaurante Dinis.

Recebe-nos o próprio, escoltado por um dos patronos deste bar de pescadores, o capelão dos Fuzileiros, Padre Licínio. Foi ele quem deu a bênção ao nativo Dinis, “nascido atrás de uma moita entre a praia do Carvalhal e a aldeia”, para erguer o Bar de Pescadores, que hoje é um restaurante famoso pelo peixe fresquíssimo que o proprietário teima em pescar com as próprias mãos. Haverá quem se atreva a negar que sardinhas assadas, um bom vinho branco e uma praia quilométrica de areia alva e mar em tons turquesa são os ingredientes de um almoço perfeito?

Adepta de viagens e desafios, Filomena só tem pena que o dia se vá aproximando do final, mas ainda há tempo para dar um pulinho até à praia. Depois de apanharmos, à justa, o ferry que nos leva de volta a Setúbal, espera-nos mais um espectáculo dado pela natureza. Dizem que o regresso é, por vezes, a melhor parte de uma jornada. A visão de Lisboa iluminada pelo sol poente num dia de Verão parece dizer: “confirma-se”.

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por Maria Ana Ventura

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