Tomar – Cidade templária

on Sep 1, 2014 in Embarque Imediato | No Comments

Especialista nos meandros da História, Paulo Loução guia a visita à cidade mais enigmática de Portugal. É um fim de semana em Tomar, perfeito para apaixonados dos Templários e dos Descobrimentos, mas também para os amantes da boa mesa.

Tomar

Historiador e filósofo lisboeta, Paulo Loução já se habituou a ir a Tomar falar sobre a cidade. Assim aconteceu quando foi chamado a discorrer sobre o imaginário dos Templários no Convento de Cristo, no contexto da quinta edição dos encontros Bibliotecando. Nós aproveitámos a boleia e fomos passar o fim de semana com o especialista nos mistérios de Portugal, que também se apurou ser um guia perfeito para explorar a cidade à beira do rio Nabão. Logo a começar pelo Chico Elias, o restaurante que marcou como ponto de encontro e onde, por acaso ou talvez não, degustámos um preciosa receita atribuída aos frades do Convento de Cristo (ver caixa).

Numa época em que romances históricos de autores como Dan Brown e Umberto Eco deixaram meio mundo a sonhar com tesouros templários, Loução não tem dúvidas: “Tomar é o sítio mais importante de história templária do mundo, na medida em que deixou um castelo e uma igreja majestosos e praticamente intactos. A Ordem existiu de 1118 a 1307, quando o Papa mandou suprimi-la e confiscar-lhe os bens. Em Portugal reinava D. Dinis, que obedeceu ao comando de extinção papal, mas reclamou os seus bens para o estado e fundou a Ordem de Cristo. Foi a maneira de os Templários continuarem em Portugal. Cem anos depois, em 1415, deu-se a conquista de Ceuta, o Infante D. Henrique tornou-se grão-mestre da Ordem de Cristo e durante mais de uma década viveu em Tomar. Foi aqui que delineou os Descobrimentos”.

Esta leitura da história é fascinante, mas é tudo menos ortodoxa. Sugere que os Templários e a Ordem de Cristo foram protagonistas maiores de Portugal do século XII ao XVI – com picos notáveis na fundação da nacionalidade e no ciclo dos Descobrimentos –, e que Tomar foi durante esse tempo a capital espiritual do país. “Depois”, acrescenta Loução, “em 1843 deu-se a extinção das ordens religiosas. Mas Tomar tem uma população que se mantém amante dos símbolos templários. A Região do Turismo sempre foi dos Templários, a Biblioteca é do mestre Gualdim Pais, há uma Residencial dos Cavaleiros de Cristo e agora até há uma loja de vestidos de noiva chamada A Pérola dos Templários”.

Nos labirintos da Ordem

Paulo Loução começa por nos encaminhar para Santa Maria do Olival, a antiga Sellium romana, atribuída por D. Afonso Henriques ao mestre Gualdim Pais, no seu regresso das Cruzadas. Igreja gótica de três naves, elegante, espaçosa e com uma luz muito particular, terá servido de modelo a muitas igrejas em Portugal e nos territórios recém-descobertos. Paulo Loução defende que este primeiro templo “foi pensado como uma entrada no útero da terra. Segundo a tradição, havia um túnel que ia dar ao castelo, do outro lado do rio. Tanto que até se conta que dois africanos se meteram no túnel e nunca mais voltaram. Como se diz que os nazis estiveram aqui à procura do Graal, tal como estiveram em Montségur [castelo cátaro, em França]”.

Para além das lendas e do simbolismo (aqui domina o octógono, expoente de regeneração), o investigador enaltece o clima especial que se respira no antigo panteão dos mestres templários: “Santa Maria do Olival é o lugar por que eu tenho mais carinho em Tomar – um sítio em que posso sentar-me e mergulhar numa enorme paz. Nem sequer é um sentido de religiosidade normal – é como se aqui a religiosidade fosse a própria paz”. Hoje, mais difícil é certamente encontrar sossego no castelo templário e Convento de Cristo, que se avista na colina que domina a cidade do outro lado do rio.

Tomar

É dos conjuntos monumentais mais extraordinários do país, que a justo título se converteu num dos destinos mais concorridos da região Centro. O fascínio começa pela estrutura militar absolutamente fabulosa (e bem conservada) que Gualdim Pais importou do Médio Oriente, introduzindo inovações como a torre de menagem, o alambor e o hurdício (estruturas defensivas). Mas é a partir do momento em que avançamos para o Convento de Cristo que Paulo Loução mais se entusiasma, desdobrando-se em relatos singulares, descodificações engenhosas e especulações deslumbrantes. Todo um exercício de sedução que arranca logo à entrada, com a placa que celebra a memória do mestre Gualdim Pais a título de soldado do Templo que se elevou ao céu como um Lúcifer, e vai até às famosas janelas manuelinas, que chegaram a ser entaipadas por ordem de D. João III (“Houve um corte ideológico: Portugal até D.Manuel I é um e depois com D. João III é outro”).

Contemplação demorada merece a Charola do século XII, um dos mais brilhantes exemplos de igreja de planta centralizada construída pelo Templo, depois decorada por esculturas e pinturas não menos prodigiosas no tempo de D. Manuel (recentemente restauradas). Outra paragem obrigatória, já se sabe, é esse ícone nacional que responde pelo nome de Janela do Capítulo, obra-prima do manuelino e poço sem fundo de simbolismo pétreo das Descobertas. Há um caleidoscópio de segredos que espreitam nestas pedras e Loução sonha – e anda a negociar com as autoridades – desenterrar mais um. “Gostava especialmente de explorar os túneis do Convento de Cristo. Nos subterrâneos de Tomar pode estar uma biblioteca fabulosa, que nunca se encontrou. Se em Tomar os Templários não foram perseguidos como sucedeu noutros lados, talvez aqui se possa encontrar mais documentação.”

Castelos e tabuleiros

O castelo encerra demasiado cedo, mas em compensação é ao fim da tarde que a Vila de Baixo ganha mais vida. A baixa henriquina de retícula aprumada terá servido de guião urbanístico a Angra do Heroísmo, mas também ao lisboeta Bairro Alto. O centro desta baixa é a belíssima praça com a estátua de Gualdim Pais de premeio entre os Paços do Concelho e a Igreja de S. João Batista (que também se diz padroeiro dos cavaleiros de Salomão). Ouvem-se cânticos, correspondendo a um serviço religioso, quando Paulo Loução se dirige ao sacristão para pedir entrada no baptistério e mostrar o tríptico atribuído a um pintor flamengo da primeira metade do século XVI que, fechado, exibe nada menos que uma imagem de João Evangelista empunhando o cálice do Graal.

Outra tábua chave para os caçadores de mistérios decora uma das paredes laterais do templo e representa Abraão e Melkitsedek. Loução esclarece: “Corresponde a um texto muito enigmático de São Paulo, quando ele diz que Jesus Cristo é da ordem de Melkitsedek, uma ordem que não tem princípio nem fim, é eterna. Então Melkitsedek estaria acima das três religiões, de resto, representadas nos personagens que aparecem em plano secundário. Esta tábua de Gregório Lopes foi feita para a Charola do Convento, poucos anos antes da chegada da Inquisição. Era um código para uma elite, porque a linha mais ortodoxa da igreja nunca iria permitir uma coisa dessas”.

Estamos quase a atingir o pleno em termos de informação e nada melhor para descomprimir do que um passeio pela baixa de Tomar e pelo seu casario eclético repleto de estabelecimentos pitorescos. Seguimos pela Serpa Pinto (antiga Corredoura, rua principal da cidade), para lancharmos no centenário Café Paraíso, agora reconvertido em cenário retromodernista, correspondendo à sua época de ouro, os anos 40 do século XX. Também entramos na porta em frente, o recém-aberto Fórum Corredoura, onde se vendem delícias regionais à mistura com literatura sobre Tomar e os Templários, incluindo títulos do próprio Paulo Loução, como não poderia deixar de ser.

Paulo Loução, Tomar por/by João Carlos

Para a manhã seguinte fica a Rua Joaquim Jacinto, antiga Rua Nova, paralela à Corredoura, onde alinhamos duas paragens extra-Templários, mas muito justificadas: a judiaria de meados do século XV, a mais antiga de Portugal, hoje exemplarmente convertida em museu, e a Casa Natal de Lopes-Graça, habitação espartana que tem pouco para mostrar, mas muito para contar sobre um dos maiores maestros e compositores portugueses do século XX.

Pelo meio cruzamos montras que já anunciam a Festa dos Tabuleiros de 2015. É o maior evento turístico de Tomar, que na presente versão não tem ano certo, mas em geral acontece num domingo de junho. O centro da cidade torna-se salão de festas para receber um cortejo de dezenas de moças de “tabuleiros” de pães entrelaçados à cabeça, sempre coroados com a pomba do Espírito Santo. Tem tudo a ver com os Templários, assegura Paulo Loução: “Foi a rainha Santa Isabel e o seu marido D. Dinis que fundaram em Alenquer esta festa do Espírito Santo, que depois irradiou para outros pontos do país graças aos franciscanos e à ordem do Templo. Hoje essa festa será mais mística nos Açores e mais cultural em Tomar, mas o Espírito Santo é sempre um culto laico – houve até hoje 17 interditos pela Igreja nos Açores e não conseguiram acabar com ele”.

Decidimos pegar no carro e dar um salto ao Castelo de Almourol, quase de improviso mas por boas razões. Porque já era uma maravilha de Portugal antes de ganhar esse título, porque é uma das principais joias na coroa templária, mas também porque tem tudo a ver com a vizinha Tomar. Mandado construir por Gualdim Pais e concluído em 1171, é um reportório das inovações que os templários aplicaram em grande escala à arquitetura militar no castelo de Tomar (altas muralhas com torreões adossados, alambor e torre de menagem), concentradas numa ilha escarpada, pequena mas ultrafotogénica, no curso médio do rio Tejo. Apanhamos a lancha turística (€3) na margem direita do rio, para passarmos a hora seguinte a trabalhar para o bronze e a ouvir lendas sobre romances e traições medievais.

Tomar

Já à mesa (farta) de A Lúria, Paulo Loução ensaia um último e mais pessoal argumento em favor do destino Tomar: “Agora há um parque de estacionamento à entrada do castelo, Santa Maria do Olival tem a escadaria nova de que não gosto muito… mas são pequenas coisas, que não chegam a perturbar a ambiência de Tomar, que é mesmo especial. Para mim, Tomar é um lugar de inspiração, de alguma forma congelado no tempo. Quando fico com os fusíveis avariados em Lisboa, Tomar é mesmo o lugar perfeito para passar um fim de semana regenerador”.

por Luís Maio fotos João Carlos

Arquivos

O convidado

Paulo Alexandre Loução (Lisboa, 1964) é professor na Escola de Filosofia Nova Acrópole, investigador no Instituto Internacional de Antropologia Hermes, coordenador do Círculo de Estudos de Matemática e Geometria Sagradas Lima de Freitas, vice-presidente da Associação Cultural Luso-Persa. Tem mais de uma dezena de ensaios publicados sobre a história e os mistérios de Portugal, incluindo “Os Templários na Formação de Portugal”, “Portugal – Terra de Mistérios” e “Lugares Inesquecíveis de Portugal”. Há uma clara tendência interdisciplinar, transversal à sua obra que, mais recentemente, tem vindo a tocar o património e o turismo, nomeadamente com A Magia das Aldeias de Portugal (Ésquilo, 2013): um retrato de nove aldeias da Serra da Estrela (natureza, história e tradição), assinado de parceria com Severina Gonçalves e António Vieira e prefaciado por Gonçalo Ribeiro Telles.

Paulo coloca o seu trajeto em perspetiva: “A minha formação é de matemática, mas comecei a interessar-me pelas culturas da Antiguidade e foi aí que conheci a Nova Acrópole, onde dou aulas. A área que mais me interessa é o sistema de transmissão de conhecimentos, que na Antiguidade não se fazia tanto através de livros, mas de uma linguagem simbólica comum a várias culturas, que também se encontra nos Templários. Quando visitei a British Library, em Londres, encontrei uma estátua de um sacerdote assírio do século IX a.C com uma cruz igualzinha à de Almourol. Verifiquei que havia uma tradição que ia mudando, mas que no essencial se mantinha – tese que no mundo académico não é pacífica”.

Hotel dos Templários

O melhor hotel de Tomar tinha que se chamar Templários e fica na curva do Nabão, mesmo em frente ao seu fotogénico mouchão ajardinado e a dois passos do centro histórico da cidade. Inaugurado há 47 anos, conserva a estrutura dos grandes hotéis dos anos 60, nomeadamente o desafogo dos quartos e um certo fausto nas áreas comuns, à mistura com alguns pormenores pós-modernos, típicos da reforma de há 25 anos atrás. A cozinha (regional) é também muito recomendável, e então das sobremesas é melhor nem falar

Largo Cândido dos Reis, 1, Tomar \\\ +351 249 310 100 \\\ www.hoteldostemplarios.com \\\ Pacotes de três noites em quarto duplo por €182

Restaurantes

Chico Elias

Maria do Céu casou-se aos 30 com Chico Elias, dono de uma tasca junto à Adega Cooperativa de Tomar. Recorda ela: “Comecei a fazer aqui petiscos assim que me casei, até que um diretor do Turismo de Tomar achou que eu devia fazer da casa restaurante. Há 50 anos que os pratos são os mesmos e sempre servidos por encomenda”. É uma lista única e ainda hoje surpreendente, onde receitas seculares, como as couves do S. Prior – que se diz remontar aos frades do Convento de Cristo –, contracenam com especialidades improvisadas pela própria Maria do Céu. Como o coelho na abóbora, que a autora explica assim: “Costa Macedo, radialista no Rádio Clube Português, tinha o hábito de trazer-me abóboras cultivadas na sua quinta. Um dia eu estava a temperar um coelho que o meu marido trouxe da caça, quando o Costa Macedo aqui chegou com as abóboras. Experimentei meter o coelhinho lá dentro e pus no forno a ver o que dava. Ele disse “Esta mulher é maluca!”, mas esteve duas horas à espera e quando provou ficou deliciado”.

Rua Principal, 70, Tomar \\\ +351 249 311 067 \\\ Média de €25 com vinho da casa





A Lúria

É outra tasca que se tornou restaurante e ganhou estatuto de local de romaria gastronómica em Tomar. Fica na Portela de São Pedro e tem esse nome porque na versão inaugural de 1979 mais parecia uma toca de coelho. Francisco Antunes é o atual proprietário e marido de Fátima, cozinheira e filha do primeiro dono. Francisco recorda: “Aqui ao lado passa o rio Nabão e na altura pescava-se muita lampreia. Vinham cá vendê-las e nós fazíamos uns petiscos com elas. Entretanto a minha esposa ficou a trabalhar na cozinha e casámos. A casa ganhou fama e nós acabámos por ampliá-la”. A ementa baseia-se em iguarias como a açorda de cilercas (cogumelos selvagens), o magusto de carnes e a lampreia, claro está.

Rua da Alegria, 34, Portela de São Pedro \\\ +351 249 381 402 \\\ Média de €18 sem vinhos

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