Thuy Tiên – vietnamita

on Jul 1, 2011 in Embarque Imediato | One Comment

Com um passado de refugiada política, Thuy Tiên tornou-se uma cidadã do mundo. Por amor, e porque a terra é boa, há já 20 anos que decidiu ficar em Portugal. Hoje, no Porto, trabalha com chá.

Thuy Tiên dá-nos a apreciar chá de lótus, planta de luta que nasce em águas turvas e cuja semente é tão resistente que é capaz de germinar, ou até florir, 400 anos depois. “É tranquilizante”, define Tiên, lembrando o chá que a avó lhe preparava em Saigão e acrescentando que o chá de lótus – que actualmente vende no Porto, na Mùi-Concept do Centro Comercial Bombarda –, é uma herança milenar, símbolo da cultura vietnamita. Sim, porque Vietname não é sinónimo de guerra, sublinha Tiên, rejeitando o facto de uma civilização com 4 mil anos de história continuar refém de uma palavra e de um período que ela própria viveu intensamente.

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Tiên regressa agora aos seus 21 anos e a Abril de 1975. Lembra o dia em que lhe deram 24 horas para fazer uma mala com três quilos: “Uma vida em três quilos e já não era mau. Saigão começava a ser bombardeada. Escolhi um quadro lacado a folha de ouro – queria uma coisa bonita – e uma cadeira feita à mão por uma etnia vietnamita, dava jeito, os meus pais podiam precisar de se sentar, não sabíamos para onde íamos”. Partiu num C-130. Agora sorri e faz a contabilidade das cidades onde viveu. Los Angeles. Nova Iorque. Paris. Bruxelas. Atenas.

Quando entrou em Portugal, por estradas de curvas sinuosas, reteve o cheiro dos eucaliptos que ainda guarda na saudade, tal como fez com o cheiro dos arrozais vietnamitas. “Toda a gente o diz, mas saudade é mesmo uma palavra única”, confessa Tiên levando a conversa para a importância da língua, esse mais-que-tudo da identidade. A vietnamita também fala sobre um erro que era ensinado nas escolas do seu país sob colonização francesa: “Aprendemos que a língua vietnamita tinha sido romanizada pelo francês Alexandre de Rhodes. Mas não, a introdução do alfabeto latino deve-se a um jesuíta português: Francisco de Pina”.

Esclarecido o encontro histórico de línguas que resultou na Quoc Ngu, Tiên regressa ao Porto e à sua chegada, em 1987, com a família. Se a decisão de ficar, de permanecer, dependesse do não ter sequer avistado o sorriso de uma criança nos primeiros dias, “não sei…”. Mas foi ficando, aprendendo a gostar da cidade. Primeiro, gente fechada, com cara de poucas falas. Depois, gente que lhe abre a porta de casa, que a convida para jantar; amigos para a vida.

Quando a terra é boa, os pássaros instalam-se
Começou por ser professora de Inglês na Escola Francesa do Porto, mas a sua formação em Línguas e Literaturas Modernas foi sempre posta em causa, obrigando-a a novos estudos a cada país por onde passava. Pelo caminho, Tiên também deu aulas de pintura em seda e organizou viagens culturais para a Fundação de Serralves. Ao longo desse percurso foram várias as vezes em que tentaram aliciá-la para o negócio do chá, mas só depois do regresso ao Vietname, em 2007, e de assistir e participar na feitura do chá de lótus, esse trabalho minucioso de misturar perfumes realizado sempre – diz a lenda – por belas mulheres, só aí, nessa viagem aos chazeiros mais antigos do mundo, Tiên decidiu que era um caminho que desejava percorrer.

Representante em Portugal de Les Contes des Thés, com uma lista de clientes como o Café Majestic, no Porto, ou o restaurante Eleven, em Lisboa, lojas, hotéis e restaurantes de referência, alguns com estrela Michelin, Tiên propôs-se também criar misturas de chá, perfumando-o. O cheiro, sempre a acompanhá-la.
Em Venade, Caminha, na sua casa-refúgio, senta-se a venerar o jardim; as glicínias, a lavanda, o jasmim. Também tem ervas com que aromatiza os cozinhados vietnamitas; o poejo, o estragão, o rosmaninho. Aprendeu com Maria, uma camponesa minhota, a plantar o milho, a ler os sinais do tempo, a lidar com os frangos a picar no chão. Ali, entre o mar e a montanha, naquele bocado de Minho que partilha com o artista Manuel Casimiro, “a terra”, diz Tiên, “é como no provérbio vietnamita: é boa, os pássaros instalam-se”.

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por Ana Serpa

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