Terceira – A ilha dos meus amores

on Apr 1, 2010 in Fim-de-Semana Perfeito | No Comments

Grande senhor do fado português, Carlos do Carmo tem uma relação tal com os Açores que lhes dedicou um fado. Pela Terceira, uma das nove ilhas do arquipélago, redescobrimos um povo caloroso que, como o fadista, ama a poesia.

A história desta viagem começa no estado americano do Massachusetts. No outro lado do Atlântico, os açorianos revelaram-se a Carlos do Carmo: “Deslumbrou-me ouvi-los cantar à desgarrada em sextilhas. Descobri que é gente que gosta de música, de poesia e, sobretudo, que têm um sentido discreto de solidariedade, não exibicionista”. “Ter feito, há 14 anos, uma tournée pelas nove ilhas, foi uma das coisas mais lindas da minha vida.” Estenderam-lhe o tapete vermelho e as crianças apareciam na rua para o cumprimentar. Fosse em que ilha fosse. De Santa Maria ao Corvo. Nesta, a mais pequenina de todas, ”cantou numa ruazinha que parecia a Mouraria”.

Memórias que não poderiam vir mais a propósito. Acabámos de aterrar na Terceira, chamada inicialmente ilha de Jesus Cristo e depois ilha do Brasil, terra povoada por continentais vindos na sua maioria de Ponte de Lima e de terras algarvias por volta de 1450. Gente que trouxe os seus hábitos, como a “vaca das cordas”, da localidade minhota, e as típicas chaminés do Sul do país, que se erguem aos céus nalguns telhados da ilha. Rodeada por águas de um azul indecifrável, estamos perante uma fortaleza de identidade cultural bem preservada, à qual se soma uma hospitalidade de excepção.

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O fado dos açorianos

No restaurante Mar à Mesa somos aquecidos por Carlos Parreira com um vinho verdelho da freguesia de Biscoitos. “Já viajei consigo para New Bedford”, conta o proprietário ao fadista. Na amena cavaqueira vem à baila o tema da emigração açoriana para o Novo Mundo, diáspora iniciada no século XVIII. “Os Açores têm lá fora o dobro das pessoas que têm cá dentro”, lembra Carlos do Carmo, enquanto recorda os amigos feitos nas comunidades portuguesas. De New Bedford até terras da Califórnia.

Entre as lapas de São Jorge e o goraz escalado com batata a murro, é servida uma sopa de peixe, prato inspirador para continuarmos a celebrar a cultura portuguesa, a propósito de Remix em Pessoa, que o artista brasileiro Jô Soares levou recentemente à cena em Lisboa.

A surpresa chega à hora do café. Jorge Sousa, amigo de São José, na Califórnia, aparece para dois dedos de prosa. Recordam Donald Cohen, um americano cuja devoção ao fado é tanta que inscreveu na matrícula do carro o nome do género musical português. “Ele até canta o fado, imagina o que é um americano a cantar o fado?!”

O dia acordou solarengo, aguçando o apetite para que percorrêssemos as ruas da típica cidade de Angra do Heroísmo, classificada pela UNESCO, em 1983, como Património Mundial. O casario com cantarias multicolores e janelas de guilhotina transporta-nos para séculos recuados em que a cidade foi capital da província dos Açores, ponto importante de passagem na rota das especiarias. Caprichosa e leal, Angra resistiu de forma activa ao reinado dos Filipes de Espanha (1580-1640), apoiando D. António prior do Crato na luta pelo trono português. Já no século XIX apadrinhou a causa liberal, tendo sido aqui que se estabeleceu, em 1828, a Junta Provisória em nome da rainha D. Maria II.

Na Quinta do Martelo, resort cultural e etnográfico, o anfitrião Gilberto Vieira espera-nos à ombreira da mercearia. Lá de dentro chegam-nos cheiros e sabores do tempo dos nossos avós: “Este é um projecto etnográfico construído pedra sobre pedra”. No princípio tudo acontecia à volta da venda, a típica mercearia rural, mas o complexo foi crescendo. Demoramo-nos nas tulhas com os produtos que vinham do continente, nos barris de cerveja artesanais, nos frascos, nas balanças, nas bombas de extracção de azeite e petróleo, nos moinhos de café e de especiarias e nos armários de madeira com tesouros sem preço. “Esta recolha de material é inacreditável”, conclui o fadista, que recorda a meninice no bairro da Bica, em Lisboa, quando ia ao carvoeiro buscar carvão.


De volta ao presente, na mercearia da quinta o balcão vai ficando colorido com tremoços, azeitonas, favas com molho verde e “molho d’unha”, queijo Vaquinha, o mais antigo da ilha, e massa sovada (uma espécie de pão doce), a acompanhar um alguidar de alcatra de carne, prato regional terceirense. Encantado com a hospitalidade insular, Carlos do Carmo conclui que viajar até aos Açores pode ser terapêutico. “O arquipélago deve ser visitado com tempo. Para se saborear cada momento.” É o que fazemos enquanto a carne da alcatra se desfaz na boca.

Não contente com o banquete, o anfitrião ainda nos reserva um prato de enchidos, fruto da matança do porco que decorre nesta época do ano, e uma perfumada sopa biológica, inspirada na tradicional sopa do Espírito Santo que, por sua vez, nos conduz até aos Impérios do Espírito Santo, costume marcante da identidade açoriana. Introduzidos em Portugal no século XIV pela rainha Santa Isabel, os rituais da Festa do Espírito Santo estão associados à vida comunitária de um povo particularmente afectado pela insularidade e pelas catástrofes naturais. Presente nas nove ilhas, esta devoção materializa-se no domingo de Pentecostes em Impérios, ou seja, pequenas capelas de cores fortes encimadas por uma coroa ou por uma pomba branca.

“Lava lavando a alma da gente”

Continuamos à descoberta das maravilhas da ilha, ansiosos por saber qual será a sensação de estar “debaixo do vulcão”. Situado na Caldeira Guilherme Moniz, o Algar do Carvão está integrado num vulcão adormecido que se pode visitar até aos 100 metros de profundidade. Alimentada por água da chuva, ali mora uma lagoa de águas límpidas a cerca de 80 metros da boca do algar (chaminé). Considerado um raro fenómeno vulcanológico a nível mundial, a chaminé está intacta, após a última erupção, há cerca de 2100 anos. “A Terceira, para se conhecer verdadeiramente, tem que se fazer a pé”, remata Paulo Barcelos, o guia com quem desbravamos o caminho do rio de lava e as estalactites e estalagmites vulcânicas.

A paisagem envolve-nos de urze, de faias e da floresta laurissilva. Passamos por cerrados, outrora de cereais, hoje pintalgados por imperturbáveis vaquinhas no pasto. Debaixo de um clima imprevisível, com nuvens baixas e raios de sol envergonhados, um copo de vinho verdelho vem mesmo a calhar. É desta forma que Luís Mendes Brum nos recebe no Museu do Vinho. O olhar do fadista cruza-se com o do mentor do projecto. Carlos do Carmo reconhece-o de imediato. Grato, o açoriano vai buscar a fotografia que testemunha um primeiro encontro há 17 anos atrás. Quem bebe o doce verdelho dos Biscoito não imagina que quem o produz na lava está “sempre a driblar a natureza.” Das memórias etnográficas do museu, destaca-se a imponente corda feita com tendões do pescoço da baleia.

Regressamos a Angra ao lusco-fusco. Pena que os dias não sejam maiores para se usufruir plenamente da paisagem. Desforramo-nos na Pastelaria Athanasio, antigo café Matezinho, frequentado pelo escritor açoriano Vitorino Nemésio. O fadista encanta-se pelas queijadas da Graciosa que se “dissolvem na boca”. Nada que tire o apetite para, um par de horas mais tarde, degustarmos o repasto de autor no restaurante Ambiente com Sabores, assinado por Paulo Lourenço. A escolha de peixe é consensual. Desde a sopa ao bodião, peixe típico dos Açores. Ricardo, incansável empregado de mesa, graceja “o bodião em Janeiro, vale mais do que um carneiro”.

Vá-se lá saber porquê, as conversas voam para Maputo. O fadista lembra que foi cantar à FACIM, Feira internacional de Maputo, numa altura em que os artistas moçambicanos estavam em luta. “Estava lá o grupo do pintor Malangatana.” Foi lá que conheceu as esculturas de Alberto Chissano. E se hoje possui um baixo-relevo em pau-santo do artista deve-o a Malangatana por causa da seguinte pérola: “Oh pá! Vende lá isto ao Carlos que ele é amigo do Zeca Afonso”.

“Chove dentro do meu coração”

A passeata de domingo principia no Monte Brasil, onde está o Castelo de São João Baptista, moldura de excepção para o casario e igrejas de Angra. Tendo como objectivo fotografar as belezas naturais da ilha, fazemos nova incursão campesina. Regressam os cerrados, mas o que surpreende é o deslumbrante Vale da Achada, ao qual os locais chamam carinhosamente “manta de retalhos” ou “jardim dos vulcões”. O grande acontecimento do dia, contudo, é a visita à Casa Museu Vitorino Nemésio na Praia da Vitória, cidade natal do escritor. A casa onde nasceu o autor de Mau Tempo no Canal é um edifício do século XVII.

Conhecemos os cantos à cozinha tradicional dos Açores e revemos o programa Se Bem me Lembro, que o também professor apresentou na RTP entre 1969 e 1975. Carlos do Carmo recorda-se de o encontrar numa leitaria da rua da Barroca, em Lisboa. “Era fabuloso ouvi-lo a discorrer sobre qualquer assunto. Até a falar de fado era um entendido.” E apetece de facto ficar a beber cada frase que passa no ecrã. Só mesmo a antevisão de uma alcatra de peixe em Porto Judeu nos consegue arrancar dali para um almoço tardio no restaurante Rocha.

Debaixo de chuva miudinha, despedimo-nos de Pires Borges, o incansável guia que nos mostrou a importância da ilha através dos tempos. Muito mais haveria para contar, por isso venha com tempo e com disponibilidade para ouvir estas e outras histórias de um povo com uma cultura fora de série que levou a portugalidade até terras do Novo Mundo.

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Por Maria João Veloso


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