Surpresas de Sevilha

on Apr 1, 2018 in Bagagem de Mão | No Comments

O Metropol Parasol é o novo ícone da capital da Andaluzia. Um choque mas também um tónico de renovação. Uma mão cheia de lojas alternativas despontam em torno dos cogumelos gigantes em madeira na Praça da Encarnação.

 

Uma cidade inteira dividida entre o entusiasmo e o ataque de nervos – foi assim que o Metropol Parasol deixou Sevilha durante os seis anos que esteve em construção. Agora mesmo, passados sete sobre a inauguração, continua a ser um objeto estranho, que está longe de gerar consenso entre os habitantes. Muitos censuram o choque que a fantasia orgânica e hi-tech veio produzir no tradicionalíssimo tecido urbano da cidade andaluza. Mais ainda, deploram os perto de cem milhões de euros que o investimento subtraiu ao erário público, mais do dobro do inicialmente previsto. Outros, porém, aplaudem o golpe onde divisam a sintonia com o “efeito Guggenheim”. Ou seja, a aposta numa arquitetura de rutura como pedra de toque para inverter a persistente decrepitude de um talhão central, mas não monumental da cidade velha.

Já para quem vem de fora, o Metropol Parasol é só sensações fortes – provavelmente a experiência mais empolgante que hoje Sevilha é capaz de proporcionar. A primeira reação é certamente de espanto perante a estrutura tentacular, mais conhecida como Setas da Encarnação, alcunha que ganhou pela semelhança com uma plantação de cogumelos alienígenas, semeados no meio da praça de nome bíblico. A forma orgânica riscada pelo alemão Jürgen Mayer-Hermann estende-se sinuosamente por 150 x 70 metros, pairando a 26 metros de altura sobre a praça inteira, espreitando inclusive acima dos telhados. Constituída como uma grelha de oito mil peças de madeira, encaixadas como um puzzle e apoiadas em colunas de betão, é para já a maior estrutura de madeira alguma vez construída de raiz.

Pensa-se em cogumelos mágicos, em ciência esquisita, até em invasões de extraterrestres – em toda a espécie de fantasias maradas, menos nos postais clássicos da metrópole andaluza. Ao mesmo tempo, porém, este Parasol que ostensivamente veio colidir com a Sevilha vintage  tornou-se também no seu melhor mirante, oferendo vistas a 360 graus sobre a cidade e arredores. É uma visão ultrarreal e ao mesmo tempo surreal quando a passadeira no telhado serpenteia sobre a ondulante estrutura de madeira, proporcionando aos visitantes a sensação de sobrevoarem a cidade montados numa espécie de dragão futurista.

Para tornar este jogo de contrastes ainda mais radical, acede-se ao telhado através de um elevador no subsolo da praça, que por coincidência (ou talvez não) está colado à porta do Antiquarium, vasto museu que exibe as ruínas romanas descobertas durante o estaleiro. Depois, no piso térreo há um mercado convencional de alimentos frescos, enquanto as escadarias e o terraço são mais frequentemente colonizados por turmas inteiras de adolescentes, porventura os primeiros a aderirem em massa à sombra do Parasol.

 

Alternativo sevilhano

A mudança de fisionomia introduzida pelo Parasol na velha Sevilha tende naturalmente a produzir ondas de choque no tecido urbano circundante. É o contágio que se verifica desde logo em Alfafa, o bairro que liga a Praça da Encarnação à catedral. Um bairro popular e castiço, tipicamente andaluz, que não parece estar a perder a autenticidade, mas sim a ganhar uma nova dinâmica, cada vez mais centrada nos comércios alternativos e na animação noturna.

O coração de Alfafa é a praça que lhe dá nome, que foi um mercado de compra e venda de animais até 2005, depois disso convertido em espaço pedonal, constelado de cafés, tascas e bares, que também se vão disseminando pelas ruas circundantes. Composta logo de manhãzinha pela brigada do pequeno-almoço, lotada e a rebentar pelas costuras desde a tardinha até de madrugada, sete dias por semana, a Praça da Alfafa é um dos sítios mais animados do centro histórico. Um dos poucos onde os sevilhanos estão em maioria e conseguem ser ainda mais ruidosos do que os turistas.

Boémia rima frequentemente com comércio alternativo, ligação que neste caso se tem vindo a consubstanciar na Pérez Galdós, ao ponto de a rua ganhar a alcunha de Soho Benedita (Benedito era o nome próprio do escritor Pérez Galdós). La Importadora, loja onde o pintor Rafa Garcia Forcada gosta de combinar a exibição de obras suas com criações de estilistas locais e móveis em segunda mão, é já uma instituição – uma espécie de flagship store em torno da qual outras têm vindo a abrir portas.

Na porta ao lado, justamente, fica Le Voilá, antiga sala de leitura de um solar que ocupava o quarteirão inteiro e que conserva inclusive um fresco de finais do século XIX. Convertida em ateliê da designer Penélope Melero há meia dúzia de anos, é agora também o principal posto de venda das suas peças de bijuteria e acessórios. Falando em acessórios originais, outra morada deliciosa em Alfafa é a sombrerera de Patricia Buffuna, que recria figurinos de chapéus clássicos com um arrojo e uma elegância tipicamente londrinas.

Para além de Alfafa, há uma nova ilha de comércio indie a crescer na Regina, uma ruela estreita a norte do Parasol. A morada mais original é provavelmente Un Gato en Bicicleta, livraria com as paredes cobertas de arte de ilustres desconhecidos e uma agenda de eventos que vão da poesia ao teatro. O Gato está, aliás, em boa companhia: La Seta Coqueta vende uma seleção de novos estilistas da cidade, a Panacea é uma padaria artesanal e ecológica e La Crème de la Crème resume o melhor da pastelaria francesa em Sevilha.

 

Flamenco a sério

O Museu do Baile Flamenco é de visita obrigatória, uma daquelas moradas incontornáveis em Sevilha, sobretudo para quem abanca ali mesmo ao lado na Praça de Alfafa. As artes populares costumam viver nas ruas e os museus ser mais para turistas, mas este é um daqueles raros casos que juntam o melhor de dois mundos. Sediado num imponente palácio do século XVIII, é filho espiritual da consagrada bailarina e coreógrafa Christina Hoyos e dez anos depois de abrir continua a fazer-lhe inteira justiça. São quatro andares de exposições que contam a história da música e da dança andaluzas com a ajuda de filmes e memorabilia, incluindo uma mão cheia de vestidos aos folhos.

Mas a grande mais-valia do Museu do Baile Flamenco são os espetáculos diários ao entardecer, protagonizados por bailarinos, cantores e guitarristas certamente escolhidos entre os mais promissores guardiões da tradição sevilhana. Também há aulas e workshops de dança, inclusive de sevilhanas a apenas um euro para desempregadas.

 

Tapas vintage e arty

Alfafa é abençoada com um sem-número de casas de tapas tradicionais, a começar por aquelas que bordejam a praça que dá nome ao bairro. Mas a morada nova que está a levar o tapeo para outro nível é o Traga. O mágico dos fogões chama-se Jesús Rosendo e é sobrinho de Vicente “El Traga”, dono da taberna mítica por onde passaram a maior parte dos toureiros e das celebridades que coincidiram em Sevilha entre os anos 50 e 80 do século passado. Já o sobrinho Jesús pratica uma cozinha de equações insólitas, uma espécie de gastronomia mediterrânica em versão arty, que tem tanto de inesperado como de delicioso.

A mesma filosofia de renovação da oferta gastronómica norteia outros espaços novos-antigos da cidade velha, caso por excelência da Lonja del Barranco, equivalente sevilhano do madrileno mercado de San Miguel. O edifício da autoria de Gustave Eiffel sofreu uma remodelação de dois milhões de euros e renasceu como meca da cozinha andaluza em versão gourmet (2004), servida em duas dezenas de postos de venda, todos com propostas diferentes das do vizinho do lado.

Na Triana, do outro lado do Guadalquivir, o mercado antigo também foi intervencionado, deixando à vista as ruínas do Tribunal da Inquisição sobre o qual foi construído. A reabertura em 2011 trouxe de volta as tradicionais bancas de frutas e de legumes, mas à mistura com novas tascas de petiscos, incluindo uma muito recomendável ostraria e sushi. Sevilha não para.

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texto e fotos de Luís Maio

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