Surf’s up
Atenção Senhores Passageiros, no decorrer desta viagem faremos escala nas melhores ondas do globo. Apanhe esta maré.
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Longe vão os anos em que o surfista era uma espécie de homo sapiens caracterizado pela penugem descolorada, pele bronzeada 365 dias por ano, olhar esgazeado, e pelos calções de banho, chinelos e t-shirt ruça do sal que vestiria fosse em que circunstância fosse. Hoje, o surfista é o alto executivo de um banco, é o miúdo do jardim-escola, a violoncelista do conservatório e até aquele senhor de 75 anos que todos julgávamos ser um pacato avô. Esta raça tomou de assalto o globo. Quer ver como o mundo tem muito mais graça pelos olhos de um surfista?
Surfin’ Portugal
Se há cinco séculos atrás os portugueses descobriram o mundo a bordo de caravelas, hoje descobrem-no encavalitados em pranchas de poliuretano e fibra de vidro. Surfistas como Tiago “Saca” Pires – o Vasco da Gama do surf português e o primeiro lusitano a descobrir o caminho marítimo para o principal circuito de surf mundial (ASP World Tour) – Frederico Morais e João Guedes são alguns dos portugueses que mais troteiam o globo à cata de ondas perfeitas, mas nenhum deles se esquece que em casa também as há. Agarre no carro – ou melhor ainda, numa carrinha pão-de-forma – na prancha, numa trouxa e num fato térmico, junte uns amigos à festa e faça-se à estrada. De norte a sul, ondas não lhe vão faltar.
No Minho, Moledo é uma boa praia para dar início à romaria. Desça até à região do Porto e veja o que se passa em Leça da Palmeira e em Gaia. Siga na direção de Aveiro, e procure a praia da Barra, em Ílhavo. Abasteça-se de ovos-moles para ganhar energia e desça mais um pouco no mapa. Próxima paragem: Figueira da Foz, que já foi anfitriã do World Tour (WT). Depois, há a praia do Norte, na Nazaré, que, quando o mar cresce, é o posto de eleição para temerários dispostos a arriscar o pescoço por uma vaga XXL.
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Eis-nos agora chegados a Peniche. Sopre o vento de onde soprar, esteja o swell que estiver, ondas há com certeza. Espreite a praia dos Belgas, a Almagreira, o Lagido, a Baía, a mundialmente famosa praia dos Supertubos e a Consolação. Fazer um pleno de todos estes lugares é ouro sobre azul.
À saída de Peniche apanhe a A8 e pare apenas quando chegar à Ericeira. Faça o check-in no parque de campismo da cidade (www.ericeiracamping.com) e entretenha-se em Ribeira d’Ilhas, Pedra Branca, Reef, Cave e naquele que é um dos principais palcos de ondas tubulares do país – a Baía dos Dois Irmãos, também conhecida por Coxos.
Na transição para o sul, pare em Lisboa para uma saída à noite mais frenética. Para curar os excessos da noite, surfe no Guincho, Carcavelos ou Praia Grande, que ficam nas linhas de Cascais e Sintra. Agora sim, passe a ponte 25 de Abril e, se o mar convidar, pare na Caparica.
Siga depois para a selvagem Costa Vicentina. Primeira paragem, costa de. Sines. Seguem-se Zambujeira do Mar e Milfontes. Instale-se no ecocamping Zmar (www.zmar.eu) e corra estas capelinhas como deve ser. É que quando der por isso já está às portas do Algarve. Arrifana, Carrapateira e Amado são os últimos spots antes de chegar à praia do Tonel, em Sagres. Ao largo do continente, os arquipélagos dos Açores e da Madeira são autênticas minas de ondas. Na Madeira, o Paul e o Jardim do Mar são spots famosos pela qualidade e tamanho das ondas – foi lá que o músico e artista plástico americano Ithaka viu o português Zé Seabra a fazer ondas com respeitosos quatro metros e lhe dedicou um tema intitulado: “Seabra is Mad”. Nos Açores as pérolas salgadas mais procuradas ficam na Fajã de Santo Cristo, na ilha de São Jorge. Em São Miguel, a costa norte da ilha é a mais agraciada com vagas: Areais de Santa Bárbara e Ribeira Grande são paragens obrigatórias”. Para lá disto fica o mundo. Ainda tem fôlego para o descobrir?
Ásia em estado de graça
Para um surfista, a expressão “luxo asiático” só pode dizer respeito às ondas. A Indonésia é a rainha legítima do surf, com ondas para todos os gostos, feitios e níveis de experiência. No topo do ranking indonésio está o arquipélago das Mentawais, onde a oferta é tanta que para aproveitar o sortido de vagas o melhor é nem sair da água e fazer uma volta de barco. Na lista de sítios obrigatórios aparecem os reefbreaks de Pitstops, Rifles, Telescopes, E-Bay, A-Frames, Bankvaults e Kandui. A bancada de coral de Lagundri Bay, na ilha de Nias, a oeste de Sumatra, é das prediletas para regular footers, enquanto G-Land, na ilha de Java, agrada à outra facção, os goofyfooters, que deliram com esquerdas tão perfeitas que mais parecem desenhadas a compasso. Em ambos os casos, a vida fora de água é feita na selva. Por isso, se é daqueles que gosta de combinar ação na água com atividades fora dela, Bali, ou a Ilha dos Deuses, é “o” lugar. A variedade de ondas é tão vasta quanto a concentração de bares e discotecas nas ruas de Kuta, e a sua qualidade tão grande como as maravilhas paisagísticas. Uluwato, Padang Padang, Bingin, Impossibles, Secret, Keramas e Balangan são spots obrigatórios.
As Maldivas são um conjunto de atóis a sudoeste da Índia onde o melhor a fazer para surfar todos os melhores picos é viver dentro de um barco. Japão, Sri Lanka e Coreia do Sul também contribuem para a fama da Ásia entre os surfistas. Já para não falar do Vietname, que ficou famoso entre a comunidade depois de Apocalipse Now, de Francis Ford Coppola.
África surfari
Supertubes, em Jeffreys Bay, África do Sul, é o point break mais famoso do continente, integrando o top 10 das ondas mundiais. Além desta, as redondezas de Cape Town, Durban e East London oferecem as melhores sessões de surf. Como não há bela sem senão, no caso da África do Sul o “senão” são os tubarões que, tal como os surfistas, têm uma predileção por estas bandas. Se tiver o azar de o mar estar flat pode sempre ir visitar os vários parques selvagens da região.
Na direção oposta, Marrocos é o segundo destino de surf mais popular do continente africano. Especialmente entre surfistas europeus, que aqui encontram a possibilidade de fazer uma surftrip a preços baixos. Os locais mais procurados ficam perto de Taghazoute, no Centro Oeste do país, e são Anchor Point, Killer Point e Boilers. Se estiver de viagem marcada para Moçambique, Ilha Reunião, Angola ou São Tomé e Príncipe leve uma prancha consigo. Não vai arrepender-se.
América, o berço e a incubadora
Foram os polinésios havaianos que inventaram o surf, mas foram os surfistas do continente, em especial da Califórnia, que se encarregaram de provocar o boom do desporto em meados do século XX – quem não se lembra dos Beach Boys? No Havai, a costa norte da ilha de Oahu, onde ficam Waimea, Sunset e Haleiwa, é uma espécie de Babel para surfistas, bodyboarders, longboarders, stand-up paddlers, enfim… para todas as línguas do surf. Sem esquecer o maior palco de surf do mundo: a onda de Pipeline, capaz de construir e destruir carreiras, reputações, ossos, etc. Na Califórnia há, entre outros spots, Rincon, Trestles, Steamer Lane e Mavericks, onde se forma uma das maiores ondas do hemisfério norte, restrita a corajosos.
No centro do continente americano, a Meca do surf chama-se Puerto Escondido, conhecido como Pipeline Mexicano graças às suas ondas potentíssimas. Para quem não tem assim tanto “appetite for destruction”, Pascuales é uma boa alternativa. Peru, Chile e Costa Rica não ficam atrás do México, se pensarmos em ondas como as de Chicama, Punta Lobos e Ollies Point, respetivamente.
Se está a pensar fazer uma surftrip pelo Brasil inclua as seguintes paragens: Fernando Noronha, Rio de Janeiro e Florianópolis, no estado de Santa Catarina, que é o palanque da etapa brasileira do WT.
Europa versátil
Entre a comunidade de pessoas que vivem permanentemente com uma linha de bronzeado no pescoço, os beach breaks franceses são quase tão famosos quanto as baguettes. Na costa oeste de França, sítios como Biarritz, Hossegor ou Capbreton oferecem ondas de gabarito, especialmente Hossegor, que reparte com Portugal a honra de anfitrião do WT na Europa.
O whisky podia ser uma boa ajuda para quem se aventurar a surfar na Escócia ou na Irlanda. É que água é tão gelada que, no nosso imaginário, um copito do dito líquido ajudava a aquecer o corpo. Mas como álcool e surf são como vinho e melancia, não se devem misturar, se tiver intenções de surfar para estas bandas leve o fato mais quente que tiver. Gorro, luvas e botas de neoprene são indispensáveis.
No caso do surf, o País Basco é mesmo um mundo inteiramente à parte de Espanha. A onda de Mundaka é uma das esquerdas tubulares mais famosas do planeta. Já ao largo da costa africana fica o segundo spot do surf espanhol, as Canárias. Tenerife, Fuerte Ventura e Lanzarote são as ilhas que mais variedade e qualidade de ondas têm para oferecer.
Oceânia, nascidos para surfar
A Austrália não é só o país do mundo com maior concentração de animais venenosos por metro quadrado, é também o que tem maior rácio de surfistas profissionais por habitante! Na costa este, no estado de Queensland, os spots na berra ficam na Gold Coast (Kirra, Burleigh Heads e D-Bah). A sul, no estado vizinho de New South Wales, Byron Bay e Bells Beach são as praias mais cotadas. Ao largo da grande ilha, a remota Tasmânia também dá um ar da sua graça. Mais ao largo ainda, a Nova Zelândia não tem só bichos curiosos como o kiwi, tem também vagas intrigantes como as de Raglan.
As águas cristalinas do Tahiti e das Fiji não são apenas um engodo para turistas à cata de férias de sonho. Junto dos surfistas, os iscos destes paraísos são ondas como as Cloudbreaks ou Restaurants (esquerdas potentes e perfeitas) nas Fiji, e Teahupoo, no Taiti. Esta é uma das ondas mais incríveis do planeta e anda a fazer furor nos cinemas com Ultimate Wave 3D, o mais recente filme do eneacampeão mundial de surf, Kelly Slater – ou E.T., para alguns.
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por Maria Ana Ventura
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