Startups – Num país de unicórnios

on Sep 3, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Há uma mão cheia de Startups portuguesas para quem o mercado nacional foi demasiado pequeno.

É uma nova vibração, de norte a sul de Portugal, que emana de pessoas cheias de ideias, que procuram soluções, pensam em produtos e serviços disruptivos, com muita vontade de fazer acontecer, e alguma dificuldade em aceitar um não. É um estado de espírito, um modo de vida, um novo paradigma económico e social, que envolve pessoas que se juntam em locais trendy, em edifícios recuperados do esquecimento, em comunidades de early adopters de tecnologia, gerando um dos momentos mais criativos e inovadores da história nacional. Pessoas que fizeram com que a palavra startup deixasse de ser apenas um estrangeirismo ou uma moda importada de Silicon Valley e que hoje já valem 1,1% do PIB português.

Inês Sequeira, diretora da Casa de Impacto, fala de “um ecossistema empreendedor de referência a nível mundial”, de que a vinda da Websummit, em 2016, ou a instalação da londrina Second Home e da berlinense Factory em Lisboa, são consequência e não causa. Um ecossistema que tem raízes em organizações como o Instituto Pedro Nunes, em Coimbra, há vários anos considerado como a melhor incubadora de base universitária do mundo, ou no programa Lisbon Challenge, que desde 2012 atrai startups de mais de 50 países, como lembra João Borga, diretor da Startup Portugal, associação sem fins lucrativos, parte da Estratégia Nacional de Apoio ao Empreendedorismo. Mas também vai beber a empresas como a Critical Software, pioneira neste mundo das startups em Portugal, ou a Outsystems, criada no virar do século, que agora vê reconhecida a ousadia de pensar fora da caixa ao entrar no restrito clube dos unicórnios (empresas avaliadas em mais de mil milhões de dólares) portugueses.

Há uma longa história de inovação em Portugal, mas o empreendedorismo, como nos era vendido pelos jornais e revistas internacionais, por via de nomes como o Facebook ou Amazon, encontrou em Portugal terreno fértil, principalmente nos anos da crise, marcados por elevados índices de desemprego. A diretora da Casa do Impacto, que junta empreendedores que acreditam em modelos de negócio sustentáveis capazes de criar impacto social, diz que “o empreendedorismo assumiu um papel importante para o crescimento de pequenos e médios negócios e para a diminuição da taxa de desemprego, com grande relevância na população jovem qualificada”.

Lembremos que uma startup não é apenas uma empresa acabada de nascer. É muito mais: é uma empresa nova, criada por alguém que acredita que tem um produto ou serviço único no mercado, e que está frequentemente ligada a alguma vertente tecnológica. Talvez por isso, a postura esteja a mudar, como diz Rui Santos Couto, da Founders Founders. “Hoje quem cria um negócio com alto potencial de crescimento é, claramente, porque o quer fazer, ao contrário do que acontecia há dez anos, em que muitos viam no empreendedorismo uma alternativa ao desemprego.”

 

Falhar melhor

Lembremos que uma startup não é apenas uma empresa acabada de nascer. É muito mais: é uma empresa nova, criada por alguém que acredita que tem um produto ou serviço único no mercado, e que está frequentemente ligada a alguma vertente tecnológica. Talvez por isso, a postura esteja a mudar, como diz Rui Santos Couto, da Founders Founders. “Hoje quem cria um negócio com alto potencial de crescimento é, claramente, porque o quer fazer, ao contrário do que acontecia há dez anos, em que muitos viam no empreendedorismo uma alternativa ao desemprego.”

A partilha de conhecimento, que nasce da generosidade que rodeia o ecossistema empreendedor, foi uma das razões que levou à criação da Founders Founders. A organização agrega empreendedores, investidores e uma rede internacional de mentores e parceiros estratégicos nas áreas de gestão, marketing, tecnologia e comunicação, que engloba mais de 300 especialistas. Uma das mensagens que procuram transmitir é a necessidade de aprender a lidar com o “fracasso”. “É preciso estimular uma cultura que olhe para o insucesso como sendo parte de um ecossistema onde há liberdade para falhar, para tentar, e para fazer disso um processo de aprendizagem”, diz Rui.

A Unbabel, empresa que trabalha em tradução automática, juntando inteligência artificial com edição pós-humana, é um dos exemplos nacionais dessa postura de não ter medo de falhar. A startup é o resultado da teimosia de Vasco Pedro, que fracassou três vezes antes de chegar ao sucesso. No início de 2018, a empresa levantou 19,2 milhões de euros, numa ronda de financiamento com a presença de várias capitais de risco americanas, como a Scale Venture Partners, Microsoft Ventures, mas também a Caixa Capital, da Caixa Geral de Depósitos.

Não falta financiamento para quem tenha uma boa ideia e “uma boa equipa que desenvolva um negócio com potencial”, mas ainda há que distinguir entre empreendedores portugueses e empreendedores em Portugal, alerta Rui Santos Couto. “Temos investidores de todo o mundo a investir em startups portuguesas. Há capital de risco britânico, americano, brasileiro, francês, polaco, chinês, israelita. A dificuldade, muitas vezes, não está em investir em empreendedores portugueses, mas sim em investir em empreendedores em Portugal, por questões de risco legal e de contexto.”

 

Ambição mundial

Nascer num país com 10 milhões de habitantes poderia ser um problema, não fossem as startups portuguesas “nascerem com uma ambição global”, diz o presidente da Founders Founders.

Dados da Startup Europe Partnership mostram que quatro em cada cinco startups portuguesas com maior capacidade de atração de investimento são o que se chama de “empresas duplas”: nasceram em Portugal, mas que acabaram por mudar a sede para o exterior, ainda que mantendo as operações mais relevantes em território nacional. É assim com a Farfetch, plataforma para vender moda de luxo em todo o mundo a partir da internet: tem sede em Londres, escritórios em Tóquio, Los Angeles, Xangai, São Paulo, Hong Kong e Dubai, mas mantém o grosso das operações em Portugal, onde tem mais de dois mil trabalhadores.

A Farfetch é talvez a maior referência para o ecossistema empreendedor português. O primeiro unicórnio com ADN nacional foi também a primeira startup portuguesa a ser cotada em bolsa, e logo na praça de Nova Iorque. À Farfetch já se juntaram, entretanto, a Talkdesk, fundada em 2011, que leva o carimbo da startup portuguesa que mais depressa chegou a unicórnio. Com uma equipa de 400 pessoas, tem escritórios em São Francisco e Salt Lake City, além de estar também presente em Lisboa e no Porto, onde faz todo o desenvolvimento de software que permite às empresas produzirem o seu próprio call center.

O clube restrito de unicórnios portugueses fica completo com a Outsystems. A Tecnológica de Paulo Rosado nasceu em 2001, esteve por duas vezes muito próximo de ir à falência, mas a empresa que desenvolve plataformas low-code, ou seja, aplicações em que é utilizado o mínimo de código possível, acabou por conquistar gigantes como a Toyota, Siemens, grupo General Motors e Axa.

Existem outros nomes que prometem seguir o mesmo caminho e chegar ao Santo Graal do empreendedorismo. No meio fazem-se apostas sobre aquele que será o próximo unicórnio a falar português. Quer fazer a sua?

criticalsoftware.com \\\ mais.scml.pt/casadoimpacto \\\ farfetch.com \\\ founders-founders.com \\\ outsystems.com \\\ startupportugal.com \\\ startuphub.pt \\\ talkdesk.com

 

por Hermínia Saraiva

Arquivos

Feedzai

Usando tecnologias de inteligência artificial para detetar fraudes no processamento de pagamentos, a Feedzai foi considerada em 2018 pela Forbes como uma das 50 empresas de fintech (juntam tecnologia e serviços financeiros) com maior potencial na Europa. Analisa diariamente transações bancárias no valor de cinco mil milhões de dólares. Tem escritórios em Portugal, EUA, Londres, Hong Kong e Sydney e conta com 400 funcionários. Valor: 575 milhões de dólares (poderá vir a ser o próximo unicórnio português).

feedzai.com

Defined Crowd

Daniela Braga quer que a Defined Crowd seja o próximo unicórnio português, não com base em financiamento, mas avaliada com base na faturação. A empresa usa inteligência artificial para ensinar sistemas robóticos a perceber melhor os humanos. Já angariou 13,1 milhões de dólares de financiamento, recebendo apoio de empresas como a Sony e a Amazon. Com sede em Seattle e escritórios em Lisboa, Porto e Tóquio, emprega perto de 100 pessoas.

definedcrowd.com

Unlabel

Desenvolve soluções que juntam inteligência artificial ao trabalho de tradutores humanos. Quase 200 trabalhadores e mais de cem mil tradutores em todo o mundo, representando 27 países e 17 línguas. Alguns clientes: Microsoft, Facebook, Pinterest, Vimeo, Booking, Logitech. Escritórios: Nova Iorque, São Francisco, Pittsburg, Lisboa.

unbabel.com

Aptoide

Uma das maiores lojas de aplicações do mundo para Android, fazendo concorrência ao Google Play, é uma das startups portuguesas com maior projeção internacional. Sede em Lisboa, escritórios em Singapura e Shenzhen, China. Conta com mais de 250 milhões de utilizadores, responsáveis por dez mil milhões de downloads e um milhão de apps.

aptoide.com

Sword Health

It created the first digital physiotherapy system via artificial intelligence, which doubles the quality and speed of patient recovery. In April, it raised eight million dollars in investment to boost its presence in the USA. Offices in Porto, New York and San Francisco.

swordhealth.com

Números

€2200 000 /// faturação das startups portuguesas 2018

1,1% /// peso das startups no PIB

25.084 /// postos de trabalho

80,43% /// taxa de sobrevivência das startups

153 /// incubadoras

3214 /// startups em incubação

(fonte: Startup Portugal, 2018)

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