Sofia Barros

on Jan 1, 2020 in Partida | No Comments

Para Sofia Barros, viajar é um ato de humildade. Com as pessoas com quem se cruza pelo mundo, e perante a grandeza da natureza que leva para o seu trabalho nas artes.

Esta paixão de viajar vem dos meus pais, que sempre quiseram saber mais”, diz-nos sentada num café de Lisboa em frente a um copo de vinho branco. Ela e a irmã Teresa têm tido “aventuras únicas desde pequeninas”. “Isso influenciou a nossa maneira de ver, estar e viver. Parece kitsch, mas são as memórias que constroem as nossas vidas.” Lembra-se de, em criança, ir às Caraíbas e entre “corais e peixes de todas as cores” ver “um pepino-do-mar gigante, nunca mais te esqueces!”, ri-se. Ou de ir com os pais a Mato Grosso, no Brasil, e conhecer um antropólogo que a levou a conhecer a tribo isolada xavante: “Ele falava com o chefe, eu fiquei com as crianças. Tínhamos a barreira da língua, mas comecei a imitar os sons estranhos das capivaras, que são os seus pets, riram-se imenso! Foi uma experiência inacreditável. As viagens abrem-te os olhos para coisas que nunca saberias que existiam.”

Foi para as artes “por amor às cores”, que procura sempre, “dizem muito sobre as pessoas” e inspiram-na a pintar. Por isso, gosta de andar e andar, “escolho as ruas com menos pessoas, é onde estão as descobertas, que é a razão porque viajamos, não é? Há sempre uma surpresa escondida ou um fascínio que depois guardamos”. Há um ano viajou para a Birmânia com uma amiga e esteve a caminhar quatro dias “de manhã ao pôr do sol; parávamos para cumprimentar as pessoas, ajudámos a colher folhas de chá, jantámos em casa de locais. Amei, era um sonho. Claro que tem problemas políticos, mas é dos lugares mais pacíficos, as pessoas são genuínas e generosas”. O que gosta mais é de se misturar. “Há muitas coisas turísticas que temos de fazer, porque é fundamental e lindo. Não podes ir a Paris e não ver o Louvre. Mas viajar é sobretudo sair do mainstream e conversar com as pessoas na rua, brincar, isso para mim é conhecer uma cultura, com respeito, porque fizeste um oceano para ver um país, entendes?” Uma vez no sul de Itália trocou as praias cheias por um passeio solitário pela vila de pescadores, sentou-se ao pé de “um senhor de idade que fazia uns cestos lindos de morrer e ficámos a conversar horas sobre a vida. Fez o meu dia e ele ficou tão sensibilizado (damos os mais velhos como adquiridos, devíamos ouvir a sua sabedoria). Falar com as pessoas é essencial, dá-te uma experiência mais profunda do lugar. É importante ser-se gentil.”

 

Na natureza

A sua mala é “mais é menos, leve e prática: ter menos, mas o essencial, como a parte da saúde assegurada”. Não faz compras, só se forem “coisas pequenas, um colar, uma peça de artesanato feita por eles. Quer dizer, trouxe abacates da Birmânia, porque são tão diferentes! E outra vez, no meio da montanha na Gorongosa [Moçambique] estava um senhor a vender abacates, nem sei como não fiquei com dores de barriga!”.

Sofia trabalha em arte e ambiente. Estudou comunicação visual e design gráfico na OCAD de Toronto, e a sua carreira fez-se em revistas de lifestyle como a Chatelaine, a Style at Home e Canadian Gardening. Regressou a Portugal e quis trabalhar ao ar livre: “Reaprender a conectar com a natureza e respeitá-la. A arte pode ser uma ferramenta poderosa de alerta.” Expôs obras de artistas de várias nacionalidades (entre eles os portugueses Alberto Carneiro, Vhils e Gabriela Albergaria) nos românticos jardins do Palácio da Pena, em Sintra, e na Quinta do Pisão, reserva natural em Cascais, onde Will Beker criou uma instalação interativa para trazer as famílias à natureza, ou um trilho para invisuais. Depois dos grandes fogos que assolaram Portugal, Stuart Ian Frost interveio num eucalipto que morreu por falta de água. “Ensinam-me muito sobre a humildade e a inteligência que vem da natureza, com quem podemos aprender tanto”. Por isso, cada vez quer saber mais sobre os animais e as plantas: “Parece que estou a voltar às origens, o meu avô era médico, trabalhava em África e estudava medicina natural para perceber doenças como a lepra ou a malária; ainda hoje tenhoas suas notas muito íntimas, deve ser das coisas mais preciosas que tenho.”

 

O que é viajar?

Sofia teve uma infância um pouco nómada, nasceu em Inglaterra, e vive entre Portugal e o Canadá: “Quando me perguntam quem sou, não me sinto de nenhum país, tenho as coisas boas de cada um”, sorri. Tem a leveza de quem é do mundo: “Viajar dá imensa perspetiva. Às vezes temos problemas pequeninos e damos-lhes uma importância que não merecem. Quando viajamos, há tanta coisa nova a acontecer que nos tornamos pequeninos no grande universo.” Depois, se se estiver aberto, aprendem- -se outras maneiras de ser e olhar. “Sim, mas por muito que viajes e venhas de backgrounds culturais diferentes, a essência de se ser humano é o que nos torna semelhantes nas nossas emoções e inseguranças, nos nossos sonhos e objetivos. Viajar também é estarmos todos ligados e juntos neste mundo. Gosto de conhecer pessoas e culturas, provar coisas novas, porque cada um tem aventuras únicas para partilhar, e rirmos juntos até encontrarmos um ponto em comum.” É isso que significa para ti viajar? “É crescer como pessoa.”

 

por Patrícia Barnabé /// foto Luís Silva Campos

Arquivos

web design & development 262media.com

A UP Magazine colocou cookies no seu computador para ajudar a melhorar este site. Pode alterar as suas definições de cookies a qualquer altura. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização.