Sintra – Viagem Infinita

on Nov 1, 2018 in Embarque Imediato | No Comments

Os atores John Ventimiglia e Michael Imperioli não conseguem, nem querem, livrar-se de Portugal. Estamos numa montanha mágica, entre memórias e paixões lusitanas.

E depois houve aquela vez em que John Ventimiglia se enfiou numa vala no Castelo de São Jorge, em Lisboa. Ele interpretava um arqueólogo, tratava-se de uma escavação verdadeira, e antes do realizador dizer “Ação!” Ventimiglia olhava as camadas do solo como uma máquina do tempo feita de terra, vórtex “de algo que nos acorda para a vida” pela ligação ao passado. Ele está a lembrar isto e a reflexão nas profundezas dá lugar a uma piada que só podia vir de alguém nascido no outro lado do Atlântico: “Tudo aquilo é muito anterior aos anos 50!” Década que (tudo se mistura nesta conversa) foi a época de ouro do extinto cabaret Maxime, que ficava perto da Avenida da Liberdade, inspiração para o homónimo Cabaret Maxime, o filme de Bruno de Almeida estreado há meses (agora lançado em DVD – ver caixa), em que Ventimiglia participa. Isto sendo que Ventimiglia atuou como cantor no verdadeiro Maxime há mais de dez anos – na última época de ouro do lugar –, num espectáculo em que contava uma piada sobre outro buraco, um poço: “Um tipo passa por um poço, olha lá para dentro, vê a sua imagem refletida na água e exclama ‘Está uma pessoa presa ali’. Vai pedir ajuda a outro tipo e quando este olha, diz: ‘Pior, são duas! Vamos chamar a polícia’. Um agente chega, olha e tranquiliza-os: ‘Não se preocupem. Já lá está um polícia’.” Pausa para a segunda punchline. “E esses três tipos eram George W. Bush, Dick Cheney e Donald Rumsfeld.” E por a piada incluir os antigos presidente, vice-presidente e ministro da Defesa dos EUA, esta conversa-cocktail consegue estranhamente fazer ainda mais sentido, porque, diz Ventimiglia, Cabaret Maxime, o filme, que é sobre a resistência do gerente e elenco de um genuíno cabaret à pressão normalizadora, é também um manifesto pela liberdade de expressão e valores comunitários, assuntos que não têm corrido bem no seu país nos últimos tempos. “That’s life!”, cantava a seguir Ventimiglia naquele espectáculo no velho Maxime.

 

Comunidade

Michael Imperioli também tem uma história em lugares pouco óbvios de Portugal. Um dia foi a pé até ao Palácio da Pena, aqui em Sintra, e no regresso entrou por um caminho no meio da mata, o que lhe pareceu uma boa ideia até começar a ver sinais indicando o mesmo em sentidos opostos, e mais à frente um altar com vestígios de rituais suspeitos, e objetos bizarros e pedaços de tecido amarrados a árvores, e, bom, foi aí que resolveu voltar para trás e seguir a estrada normal até à vila, se bem que a intimidação florestal não estragou o seu amor por Sintra, “terra gótica”. Isto aconteceu em 2006 num intervalo das filmagens de The Inner Life of Martin Frost do escritor e realizador Paul Auster, rodado na área. Foi na mesma altura em que a banda dele, La Dolce Vita, atuou igualmente no Maxime. Ora, é também com isto que se percebe melhor a relação dos dois atores com Portugal.

John e Michael conheceram-se em Nova Iorque quando estudavam interpretação. Bruno de Almeida tinha-se mudado para lá em 1985 e fê-los protagonistas de On the Run, a sua primeira longametragem (1998), em que também entrou Drena De Niro. Em 2005, John e Drena atuaram em algumas das curtas-metragens de Almeida agrupadas em The Collection. Em 2007 estreou The Lovebirds, filmado em Lisboa, para o qual o realizador chamou de novo os três (o pai de Drena até visitou a cidade na altura e foi beber um copo ao Bairro Alto). Operação Outono, sobre o assassinato do general Humberto Delgado, opositor da ditadura portuguesa, surgiu em 2012 e teve Ventimiglia no papel principal. Cabaret Maxime é a reunião mais recente do trio, com outros recorrentes no círculo de Bruno, incluindo portugueses como Joaquim de Almeida e Ana Padrão (coprotagonista com Imperioli, repetindo The Lovebirds), que vão de Nick Sandow (cara familiar em Orange Is the New Black) a Arthur J. Nascarella ou David Proval, de Sopranos (tal como Ventimiglia e Imperioli), e John Frey, outro nova-iorquino, participante em todos estes filmes e coargumentista da maior parte deles, que viveu a última década em Lisboa dirigindo uma bem sucedida escola de atores.

Eis então a convergência de todos em Cabaret Maxime – “Um filme nova-iorquino filmado em Portugal e ao mesmo tempo um filme português filmado com atores de Nova Iorque”, diz Michael –, em parte rodado no Cais do Sodré, o antigo red light district de Lisboa, onde espaços de má fama deram lugar a discotecas, em parte num outro antigo cabaret propriamente dito, o Ritz, também já encerrado, emulando áreas e vidas desaparecidas das duas cidades nos últimos 30 e muitos anos. Fala Imperioli: “O Cais do Sodré lembra-me o Meatpacking District em Nova Iorque, que durante os anos 80 e 90 não era cool, era um bocado escuro, era nervoso, havia alguns bares para bêbados, havia um famoso clube de S&M – mas era interessante, era autêntico, era muito nova-iorquino. Esse lugar explodiu em clubes noturnos realmente caros, restaurantes, e não tem absolutamente nenhuma veracidade, as pessoas vão lá para serem vistas, embriagarem-se, não é uma experiência nova-iorquina, não é orgânico, não vem da comunidade, da tradição ou da história” – que é o que Cabaret Maxime valoriza. E que, apesar da transformação recente de Lisboa, eles ainda encontram aqui. Ventimiglia: “A comunidade de artistas que encontrei aqui tem beleza e alegria. E quando se pensa sobre a cultura e a história de Portugal, ainda ressoa a esse tipo de necessidade de realmente recuperar algo. Não há qualquer tipo de raiva rebelde evidente ou qualquer coisa semelhante; há essa vida alegre numa cidade tão pequena. Aqui não é preciso procurar muito para fazer parte disso.”

Que o diga Vadim, jovem actor e realizador em começo de carreira, filho de Imperioli, que acabou de se juntar ao grupo depois de um dia explorando tranquilamente e sozinho a cidade de Lisboa, agora aqui chegado na companhia de Bruno de Almeida – e logo a seguir a conversa jornalística transformar-se num desfile de gargalhadas imparáveis, expondo histórias de bastidores da rodagem do filme que são muito pouco reproduzíveis numa publicação séria. Também a intimidade deles é orgânica e só assim entende-se que quando trabalham juntos e se observa o resultado na tela, parece que não deu trabalho nenhum, como se ligar a câmara fosse apenas um detalhe no roteiro da sua amizade excêntrica. Mas eles estão em Sintra, e o impacto de Sintra irrompe sempre – “É um lugar muito único, não só em Portugal como noutro qualquer país que eu tenha visitado”, sublinha Michael; “Este não é apenas um passeio divertido a qualquer lado, isto é singular, não se vê em mais parte nenhuma”, sublinha John.

 

Caminhos secretos

Decorre este colóquio ao fim do dia na varanda do bar de Seteais, o imponente palácio do século XVIII às portas de Sintra transformado em hotel nos anos 50, que é onde Imperioli e Ventimiglia vão passar a noite. Há horas almoçámos esplendorosamente no Penha Longa Resort, outra preciosidade do “éden glorioso” que é Sintra (Lord Byron dixit) e depois – sem sabermos que Ventimiglia iria partilhar as suas evocações subterrâneas – começámos a tarde realmente descendo a um poço. Não um poço qualquer. Era um poço iniciático.

Qualquer visitante de Sintra sabe que tem de explorar a Quinta Regaleira. Começada a erguer em finais do século XIX numa encosta da Rua Barbosa du Bocage, foi o domínio terreno e espiritual do milionário António Augusto Carvalho Monteiro, que enriquecera no Brasil. Toda a quinta é um itinerário místico, do palacete (feito com pedra vinda de Coimbra) à capela (o retábulo-mor foi encomendado em Veneza), das grutas e mirantes ao complexo jardim (a maioria das espécies compradas no Rio de Janeiro) e, acima de tudo, o poço, que é como uma torre invertida. Simboliza o caminho do conhecimento: desce-se em espiral até à escuridão, atravessa-se túneis e labirintos, sai-se em direcção à luz. À Iluminação, idealmente. John e Michael, a quem não tínhamos dado muitos detalhes sobre isto quando partimos de manhã da gentrificada Lisboa, de repente estavam a colecionar mais espantos lusitanos, debitando “Extraordinário!”, “Estou a adorar isto!” e “Mas para onde é que vocês nos estão a levar?”. E Michael não parava de sublinhar a importância de Portugal ser o país que mais vezes visitou fora dos EUA, e John, para quem o mesmo vale, dizia: “Chegar aqui, a este país, foi todo um outro despertar, todo um outro mundo.”

 

por João Macdonald /// fotos João Carlos

Arquivos

John Ventimiglia & Michael Imperioli

O mundo conhece-os bem de The Sopranos – John era o cozinheiro Artie Bucco, Michael era Christopher Moltisanti, o protegido de Tony Soprano – e não só. Imperioli destacou-se no começo da carreira em Goodfellas de Martin Scorsese e entrou em filmes e séries como Malcolm X, NYPD Blues, Summer of Sam (também como coargumentista), Law & Order, Californication, Hawaii Five-O. Em 2009 escreveu e realizou a longa-metragem The Hungry Ghosts e é autor de um romance, The Perfume Burned His Eyes. O percurso de Ventimiglia não é menos impressionante: Cop Land, Bullets Over Broadway, The Funeral, Mickey Blue Eyes, Blue Bloods e The Good Wife, entre outros. Ambos são companheiros artísticos do realizador português Bruno de Almeida, desde On the Run ao recente Cabaret Maxime.

Tivoli Palácio de Seteais

Foi em 1787, no Campo de Seteais, que se inaugurou a magnífica casa mandada construir por Daniel Gildemeester, cônsul dos Países Baixos em Portugal. A propriedade mudou muitas vezes de mãos ao longo dos séculos, expandiu-se, tornou-se numa das preciosidades de Sintra. O ex-líbris é o arco triunfal de 1802, que mostra em efígie os reis João V I e Carlota Joaquina, visitantes habituais do palácio. Hoje Seteais é uma das mais espantosas unidades hoteleiras da Europa, a cargo do grupo português Tivoli. Abriu ao público em 1955, renovado pelo distinto arquiteto Raul Lino. Os 30 quartos, o Anantara Spa, os jardins e o campo de golfe são irresistíveis.

tivolihotels.com/tivoli-palacio-de-seteais

Arola, Penha Longa

Tudo é da história: o impressionante Penha Longa Resort, que também conta com um dos melhores campos de golfe do país, desenvolveu-se em torno do mosteiro da Nossa Senhora da Saúde, monumento nacional do século XIV. É uma das muitas delícias desta sofisticada unidade hoteleira. Nós saboreámos as iguarias do Arola, um dos oito restaurantes ali existentes. Serve-se, como eles bem dizem, tapas recriadas num contexto informal, o que cativa muitas famílias da região que ali vão de propósito. Tudo sob a orientação do chef espanhol Sergi Arola, perante a paisagem de meditação servida igualmente nas mesas da varanda.

Estrada da Lagoa Azul, Sintra \\\ penhalonga.com

Showtime!

Há números musicais com tigres, cantoras incríveis – como a moçambicana Selma Uamusse –, chicotes, uma orquestra burlesca, um herói da guitarra eléctrica, gangsters da velha e da nova geração. A história gira em torno de Bennie Gaza (Imperioli), à frente do Cabaret Maxime, um nightclub num velho bairro de má fama. Quando a área, há muito decadente, começa a sofrer um processo de gentrificação, Bennie tem que lutar para manter o clube à tona, e é aqui que tudo se complica, entre ameaças, mulheres belas e muita música bizarra. O filme de Bruno de AlmeIda foi lançado este mês em DVD - com um extra, a curta-metragem The Debt, pequena obra-prima de Almeida de 1993.

arcofilms.com

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