Segredos lusos de Roma

on Aug 1, 2018 in Bagagem de Mão | No Comments

A cidade guarda dois tesouros lusitanos: o Colégio Pontifício, que protegeu vítimas do nazismo, e a bela Igreja de Santo António, uma joia do barroco.

A casa portuguesa que em 2017 recebeu o prémio Casa de Vida, atribuído pela fundação judaica Raoul Wallenberg, já não é, fisicamente, a casa que o mereceu: o atual edifício tem cinco décadas, traça moderna e uma fantástica vista, a partir do terraço, para as traseiras da Basílica de São Pedro e a cidade de Roma. Em 1943, em plena II Guerra Mundial, quando durante nove meses acolheu dezenas de judeus, antifascistas e outros refugiados, o Colégio Pontifício Português estava situado num palacete do século XVI, com vista para o imponente e belo Castel Sant’Angelo – outrora monumento funerário ao imperador Adriano, prisão e palácio de papas, hoje museu. A distinção atribuída ao Colégio pretende “celebrar a memória do bem e honrar os que ajudaram os perseguidos”, como disse na cerimónia a vice-presidente da Fundação Wallenberg, Silvia Costantini. O gesto dos residentes da casa, e em especial do seu reitor, fazem ecoar no presente um “farol de luz nas trevas do Holocausto (Shoah)” e mostram que é possível testemunhar “a coragem dos heróis silenciosos”. O título de Casa de Vida junta-se a outra distinção atribuída ao padre Joaquim Carreira em 2014. Com base no testemunho de Elio Cittone, judeu que esteve refugiado no Colégio durante cerca de três meses, o Yad Vashem de Jerusalém, Instituto para a Memória do Holocausto, proclamou o padre como “Justo Entre as Nações”, título que distingue pessoas que tenham salvo a vida a judeus perseguidos pelos nazis.

Tal como em 1943, a porta do número 12 da via Banco di Santo Spirito deixa ver, ainda hoje, um pátio interior. As traseiras da casa estão viradas para a Via dei Coronari e as suas dezenas de antiquários, que permitem um passeio pela memória até junto da Piazza Navona. O projeto do edifício é atribuído, por algumas fontes, a Rafael, mas a hipótese com mais crédito, veiculada também por Vasari, é que ele será da autoria de Giulio Romano, tendo sido completado em 1521 por Pietro Rosselli.

Foi aí que o padre Joaquim Carreira dirigiu a partir de 1940, como reitor, a casa onde residem os padres portugueses que vão estudar para Roma. Em Setembro de 1943, a ocupação de Roma pelos nazis endureceu a perseguição a judeus, antifascistas e todo o tipo de opositores. E foi no Colégio que, tal como sucedeu em muitas outras casas religiosas de Roma, dezenas de pessoas encontraram abrigo e proteção.

Numa ocasião, os nazis bateram mesmo à porta do edifício, à procura de judeus e opositores. Mas o padre Carreira instruíra já os refugiados sobre os comportamentos a ter se surgisse um momento semelhante. Vários deles esconderam-se no terraço do edifício. Luzes apagadas, proibição de chegar junto das janelas, jogos de cartas, leituras na biblioteca ou orações na capela da casa eram alguns dos truques de sobrevivência e regras combinadas entre o reitor e os refugiados, de modo a que não houvesse a menor suspeita de que havia ali pessoas escondidas. O quotidiano era feito de dias longos e monótonos: “De manhã fazíamos as camas e arrumávamos os quartos de modo a não parecer que ali estava gente. Depois, passeávamos no corredor e comíamos”, resumia Elio Cittone.

Giuseppe Caronìa, médico famoso na época, reitor da Universidade de Roma e dirigente do Partido Popular/Democracia Cristã, foi um dos que se refugiaram no Colégio. Numa pequena autobiografia, descrevia a mesma lentidão: “Os dias eram longos. Passava-se o tempo entre a capela, a sala de almoço, algumas breves escapadelas ao terraço e na leitura.” Caronìa escondera, ele próprio, outros judeus e perseguidos no hospital que dirigia, como se estivessem “contagiados por doenças graves” e foi também declarado, por causa disso, Justo Entre as Nações, em Junho de 1996.

Hoje, é possível calcular que Joaquim Carreira acolheu cerca de meia centena de pessoas – homens e alguns rapazes – durante os nove meses que durou a ocupação, até Junho de 1944. No relatório anual que escreveu em Julho de 1944, sobre a atividade do Colégio, o padre Carreira regista 39 nomes. Mas, quer em cartas arquivadas no Colégio, quer em livros e outros artigos, há outros nomes referidos e que não constam da lista do padre Carreira.

Luigi Priolo, atualmente com 87 anos, foi outro dos refugiados que esteve no Colégio. Quando chegou a Roma, ido de Reggio Calabria (sul de Itália), no início de Janeiro de 1944, Luigi tinha 14 anos. O pai, advogado e dirigente socialista, acabara de ser nomeado pelos Aliados como sindaco de Reggio. Para colocar o filho a salvo, Antonio Priolo e a mulher, Luigina Zagari, professora de matemática, decidiram, através de uma freira amiga, enviar o filho para o Colégio Português. “Eu podia ser chamado à incorporação militar. Mal vissem o meu apelido, sendo o meu pai um socialista e antifascista conhecido, não seria poupado e poderia ser preso ou incorporado. Por isso, posso dizer que fui salvo pelo padre Carreira”, dizia Luigi Priolo em 2015.

Além da cerca de meia centena de homens que se esconderam no Colégio, o padre português encontrou também refúgio, em três casas de freiras, para um número maior de mulheres e crianças. No total, Joaquim Carreira terá salvo cerca de duas centenas de pessoas, incluindo vários judeus. O maior problema era, por isso, garantir comida para toda esta gente. “Era o que tínhamos”, contava Elio Cittone. O arroz e as massas dominavam.

Nos arquivos do Colégio, são muitas as cartas de refugiados a agradecer, depois do fim da Guerra, o acolhimento que ali encontraram. Cesare Frugoni, outro médico famoso (era o clínico pessoal de personalidades como Guilherme Marconi, do maestro Arturo Toscanini, do ditador fascista Benito Mussolini e de Palmiro Togliatti, dirigente histórico dos comunistas italianos), diretor da Clínica Médica Geral da Universidade de Roma, esteve também lá escondido. Joaquim Carreira, que antes de ir para Roma se tornara no primeiro padre católico português a tirar o brevet de piloto de aviões, tornou- -se no quarto português a ser declarado Justo Entre as Nações (os outros são Aristides de Sousa Mendes, José Brito-Mendes e Carlos Garrido Sampaio). Não gostava muito de falar do que fizera, mas, mês e meio antes de morrer, escrevia numa carta dirigida a uma pessoa amiga: “Cheguei a ter de fazer furos no cinto, para não perder as calças. Dizia: não volto a ter outra aventura assim, mas esta não a perdi. Obrigado ao céu inteiro”.

 

Na igreja de Santo António

Mas este percurso não ficaria completo sem a história de um outro tesouro português em Itália. À conta de um órgão de tubos, uma igreja que serve de embaixada religiosa e cultural de Portugal em Roma transformou-se num sítio obrigatório para ouvir concertos. A Igreja de Santo António dos Portugueses, perto da Piazza Navona, enche- -se de gente (quase) todos os domingos, ao final da tarde, para ouvir não um “qualquer” órgão, que toca como se fosse um coro, mas um órgão que “mostra” todas as notas de forma individualizada, como um conjunto de solistas, na expressão do reitor do Instituto de Santo António dos Portugueses em Roma, monsenhor Agostinho Borges, de quem partiu a ideia da sua construção. Inaugurado em 2008, foi projetado por Jean Guillou, afinado por Franco Nicora e financiado por um conjunto alargado de pessoas e entidades. Os seus quatro teclados já tocaram a obra integral de Bach e de Olivier Messiaen para órgão, bem como um festival com obras de Liszt, concertos com peças de Schumann ou Sibelius, ou criações e improvisações contemporâneas.

A igreja é uma joia do barroco italiano. A história desta instituição portuguesa terá começado em 1367 ou antes: uma nobre de Lisboa, de nome Guiomar, que resolvera fixar residência em Roma, fundou um hospício (destinado a acolher os romeiros portugueses), cujo governador era eleito pelos portugueses residentes em Roma. A instituição passou por várias vicissitudes, incluindo a anexação de uma igreja e mudanças de localização. O conjunto será depois confiscado pelas tropas de Napoleão, no início do século XIX. Em 1863, o duque de Saldanha, então embaixador do rei de Portugal, promove a transformação do conjunto num instituto que deixa de estar sob a tutela da Igreja Católica e passa para as mãos do Estado, representado pelo embaixador de Portugal em Roma. Em 1952, os novos estatutos então aprovados deram-lhe a configuração atual: um reitor, nomeado pelo Estado, garante as finalidades religiosas, culturais e assistenciais da instituição. “Apostei em ter a igreja aberta ao culto, dotando-a de um órgão que permitisse abri-la também à cultura”, explica o padre Borges.

lusitanum.org \\\ ipsar.org

 

por António Marujo

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