São Tomé e Príncipe

on Apr 1, 2015 in Partida | One Comment

Vagando no Atlântico sobre a imaginária linha do Equador há duas pequenas ilhas onde o exotismo do verde absoluto se cruza com o sabor perfeito do cacau e do café. Nas roças suspendeu-se o tempo mas a vida continua. E nas ruas misturam-se etnias e línguas, colorido mágico em andamento africano, português bem temperado de crioulo. Mas o que impressiona verdadeiramente é a natureza, templo sagrado de árvores e de mistérios, de pássaros e de plantas que curam, selva tombando sobre o mar em sublimes praias desertas onde se ouvem os ecos da tropicalidade. Regresse connosco ao princípio dos tempos, descubra a verdade do chocolate e resolva a equação para a felicidade simples!

São Tomé e Príncipe

Sobre paisagens, ruínas e raízes

Cresci no campo e sempre gostei de trepar árvores, de as abraçar… também gosto de praia, alamedas tropicais de areia branca e palmeiras entrando pelo mar turquesa e topázio onde nadam tartarugas, baleias e golfinhos. E de História, a dos homens e mulheres que chegaram no século XVI para povoar as ilhas; a da revolta dos escravos e a dos meninos judeus que se lê nas etnias; a do apogeu e queda dos barões do cacau e do café; a do interessante modelo social das roças, onde se impõem na paisagem os hospitais construídos para “inglês ver”, hoje paredes em osso devoradas por raízes que formam estranhas texturas. Adoro chocolate e este é o melhor do mundo, decompondo-se em sabores intensos e raros que nos explodem na boca.Também adoro o cheiro a café fresco e a humidade exótica pela manhã. Vibro com a ideia de me ver a passear sobre a mítica linha do Equador, passando imaginariamente dos hemisférios sul para norte, e vice-versa, como se estivesse a saltar à corda.

E gosto muito de pessoas! Inestimáveis são-tomenses, gente de gargalhadas soltas, dona de uma cultura que é só sua, posta na língua, na dança, no tradicional tchiloli ou num surpreendente movimento contemporâneo das artes; ora surgindo do meio do mato com um peixe pendurado à cintura, ora partilhando uma visão estratégica para o país na moderna pastelaria Gelidoxi, ora ensaiando sensuais passos de kuduro nas roças, ora negociando cocos para Angola na beira da estrada. Mas do que eu gosto mais nestas ilhas de São Tomé e do Príncipe é da liberdade para sonhar. Sonhar que um dos países mais pequenos do mundo tem, não só o carisma, mas a grande oportunidade de fazer a diferença num mundo onde cada vez é mais difícil fazer a diferença. Fundado na mestiçagem da herança colonial portuguesa com as culturas importadas do continente africano, ali ao lado, e numa exuberante natureza em estado puro que, de tão bela, quase nos faz faltar o ar, São Tomé e, sobretudo, a ilha do Príncipe (Reserva da Biosfera pela UNESCO desde 2012) têm a enorme responsabilidade para com a humanidade de preservar o seu magnífico património, um tesouro de biodiversidade e endemismos único no mundo.

Nesta emocionante viagem ao umbigo da Terra, abençoado por extravagâncias tropicais balsâmicas para os sentidos, é fácil religar o cordão umbilical à natureza, poderosa, que nos invade e perplexa, como invade as ruínas das roças, trepando por nós acima e pasmando-nos com as suas formas miraculosas. E é assim que de repente nos pomos a sonhar que somos livres como no princípio dos tempos…

Equador

Situado na faixa equatorial, no Golfo da Guiné, o arquipélago de São Tomé e Príncipe é uma república independente de Portugal desde 12 de julho de 1975. De origem vulcânica e com um clima quente e húmido, é habitado por cerca de 200 mil pessoas, dois terços das quais vivem em São Tomé, a maior das duas ilhas principais.

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No princípio era a natureza

Cascata de São Nicolau, Roça Bombaim, São Tomé / São Nicolau waterfall, São Tomé

Relativize o cliché, porque não o é, e seja bem-vindo a um dos últimos paraísos do planeta! Um lugar em que a magia da natureza se traduz em enevoados picos montanhosos levantados subitamente da terra, em florestas com árvores gigantescas de raízes entrelaçadas invadidas por lianas, líquenes e musgos, em rios, riachos e cascatas saltitando entre as pedras até ao mar, em savanas e mangais, em samambaias, fetos, begónias e orquídeas, gogos, cacaueiros e coqueiros, micondós, tamarindeiras e árvores da fruta-pão, numa orgia de espécies capaz de deixar qualquer candidato a Lineu de cabeça à roda. As paisagens sucedem-se, tão diversas como a vegetação, mudando de compasso ao ritmo do canto dos pássaros de cada um dos ecossistemas. E é muita a passarada por estas paragens, colorindo com a penugem as copas das árvores. Num passeio com o senhor Zé e com o Tino, pela roça de São João, em Angolares, – autêntica lição de botânica, a científica e a do saber popular –, aprendemos que a folha de bengue é boa para o paludismo, que o muambli fervido tira as nódoas negras e que uma flor que encolhe com o toque é conhecida por mimosa púdica ou mulher portuguesa. E ainda o nome de aves como o íbis-de-são tomé, o rei-amador, o papa-figo, o tomé-gagá, o chama-chuva, o olho- grosso, a camussela, o pica-peixe, o fiscal ou o tchin-tchin-tchôlo.

Se é fã de bicharada, pela sua sanidade mental, traga os binóculos! Para olhar para os céus e para perscrutar os mares, águas cristalinas onde habitam golfinhos todo o ano e onde as baleias migrantes do Ártico e do Antártico vêm veranear. Já agora não se esqueça também dos óculos de mergulho. A fauna marítima do arquipélago é riquíssima em peixes e corais e os adeptos do mergulho e do snorkling têm muito por onde dar à barbatana. Seja qual for o seu tipo de praia não deixe de visitar as que cinco espécies de tartarugas marinhas escolhem para nidificar. A Micondó, no distrito de Cantagalo, e a Jalé, no sul, visão tropical do Éden, bordejada por palmeiras e por águas de cores indizíveis desfazendo-se em espuma na areia. Na ilha do Príncipe, na praia Inhame, a comunidade piscatória tem em funcionamento um programa de proteção de tartarugas.

Programa Tatô de conservação das tartarugas \\\ www.marapa.org

Agora a verde!

Longe da voragem dos tempos e, por isso, mais perto da cosmogonia, São Tomé e Príncipe é um destino fascinante, seja pela condição de deriva atlântica, seja pelo magnetismo geográfico do centro do mundo. Vieram exploradores como os naturalistas Francisco Newton ou Adolpho Möller, no final do século XIX, e veio Gago Coutinho, no início do XX, em missão geodésica, espetando no Ilhéu das Rolas, a 70 quilómetros da capital, o marco que assinala o cruzamento da linha do Equador com a do meridiano de Greenwich e assinala o centro da Terra. Veio também o físico Arthur Eddington, em 1919, realizar na Roça Sundy, no Príncipe, a experiência histórica que haveria de comprovar a Teoria da Relatividade de Einstein. Mas, com tanto passado, o que mais importa agora é o futuro e, nas últimas décadas, o país tem feito um esforço para corresponder às suas responsabilidades na conservação do tesouro mundial que é a diversidade biológica. Sobretudo desde que, em 2006, foram criados os Parques Naturais de Ôbo (cerca de 30 por cento do território de São Tomé) e do Príncipe (ocupando 50 por cento da ilha), a que se juntaram as Reservas Naturais das Ilhas Tinhosas e do Ilhéu das Rolas. A atribuição do importante estatuto de Reserva da Biosfera Mundial ao Príncipe, em 2012, veio aumentar essa responsabilidade, obrigando à sensível gestão do equilíbrio entre o desenvolvimento socioeconómico e a conservação da natureza, um trabalho resultante da colaboração das gentes locais com parceiros internacionais, fazendo da ilha um promissor caso de estudo no trinómio participação comunitária, pesca e agricultura sustentáveis e turismo ecológico.

No Trilho dos Naturalistas, trailer do documentário sobre as expedições botânicas em África, episódio dedicado a São Tomé e Príncipe /// www.youtube.com/watch?v=QA_IfJdkOO0

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Vida urbana

São Tomé e Príncipe

Além das duas cidades capitais, São Tomé na ilha homónima e Santo António, no Príncipe, as ilhas são esparsamente povoadas, tendo meia dúzia de estradas que passam por vilarejos piscatórioscom palafitas de pés na praia ou que vão dar às roças do interior, seguindo a linha costeira. Certo, esteja onde estiver, é dar de caras com o colorido e com a típica algazarra africana que se desprende dos lugares, uma alegria de celebrar a vida festejando as pequenas coisas como se grandes fossem. Na ilha de São Tomé, há para visitar Santana, São João dos Angolares, Trindade, Guadalupe ou Neves, vilas e aldeias com a sua marca histórica, mas sobretudo fazer um passeio que vai do norte ao sul da ilha permitindo-nos viajar entre os diferentes ecossistemas, absorvendo as paisagens e o dia a dia das gentes que estendem roupa lavada no empedrado da foz dos rios, matizando de tons fulgurantes a fulgurante natureza.

A maior cidade do país, sua capital e centro nevrálgico, é São Tomé, crescendo pacificamente ao longo de duas baías, a da Praia Lagarto e a de Ana Chaves. A ligá-las, a extensa avenida Marginal 12 de Julho, mar de um lado e belíssima arquitetura colonial do outro, com sobrados de cores ocres em cujos varandins se terá falado português doutros tempos à sombra dos caroceiros centenários. Cada vez mais cosmopolita, mas mantendo ainda a graça que resulta da sua mestiçagem lusitana, angolana e cabo-verdiana, o coração da cidade bate no mercado. O moderno, e em redor deste, o tradicional, ao ar livre. Hoje, o tema de conversa dos rapazes é a presumível chegada das “lulas suicidas”, gigantes e aos milhares, fugindo do mar para asfixiarem na praia, vá-se lá saber porquê, acabando no prato dos santomenses agradecidos.

No centro da cidade velha, os cambistas fazem negócio à porta de mercearias antigas ou do Xico’s Café. Mais à frente, na direção do mar, merecem visita o Banco Central, joia arquitetónica, e a viagem no tempo que é a farmácia Epifânio, com ph. A poente do rio Água Grande, que divide a capital, fica o Palácio Presidencial e a igreja de Nossa Senhora da Graça. Museu Nacional e repositório da história do país, a Fortaleza de São Sebastião, de defesa contra a pirataria que infestava os mares nos séculos XVI e XVII, vale tanto pelo espólio quanto pela vista para a baía.

Santo António do Príncipe

Entalada entre o rio Papagaio e a baía de Santo António, cabe no livro Guiness dos recordes por ser a capital mais pequena do mundo e tem o encanto de uma pacata vila africana com ruas descarnadas ladeadas por quiosques de cores garridas, e dois ou três arrebiques coloniais visíveis numa dúzia de casas, nas igrejas, ou no traçado das pachorrentas praças. Visitamo-la em dia de missa, maravilhados com os trajes domingueiros que vão do laçarote e cetim a interpretações, mais ou menos púdicas, do guarda-roupa de Rihanna. E durante a homilia emocionamo-nos com a fé simples das pessoas que dão graças pela natureza fértil e pelo privilégio da vida. Na baía, de maré baixa, paira o esqueleto de um barco e no cimo da torre parece que o relógio já não dá horas. Mas talvez o tempo pare quando para lá da civilização fica apenas o verde absoluto.

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À mesa com a cultura

Bulauê chão-chão

O rico contributo da miscigenação cultural está à vista. Na língua, nas danças e representações tradicionais, na culinária, nas artes plásticas, na inspiração dos poetas e escritores, numa personalidade única forjada na insularidade, essa estranha condição de que a cultura é voz. Berço de um dos mais notáveis artistas do século XX português, José de Almada Negreiros, pintor, poeta, modernista, “futurista e tudo”, e de Vianna da Motta, compositor, pianista e pedagogo, da poetisa Alda do Espírito Santo, voz apaixonada da “são-tomensidade”, ou dos jovens artistas que orbitam o dinâmico centro que é a CACAU (Casa das Artes, Cultura, Ambiente e Utopias) ou a Bienal Internacional de São Tomé (que teve, em 2014, a sétima edição), o país envaidece-se com a sua vincada identidade cultural. Da lusofonia aos ritmos tipicamente africanos, do tchiloli ao Auto de Floripes.

O chefe João Carlos Silva, que começou por nos agarrar pelo estômago no famoso programa da RTP Na Roça com os Tachos, é um dos embaixadores da cultura são-tomense, promovendo-a além-fronteiras e dinamizando a programação da CACAU.

www.cacaucultural.com

Tchiloli

A mais carismática manifestação cultural do sincretismo santomense tem por base um texto do século XVI, A Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno, de Baltazar Dias, interpretado segundo a mitologia africana com música, tambores, dança e muita pantomina. Tal como na tradição medieval, os homens fazem todos os papéis. Curioso é as personagens, guarda-roupa e textos serem transmitidos de geração em geração nas mesmas famílias. As trupes de tchiloli, ou tragédias, têm cerca de 30 elementos e o espetáculo pode durar até seis horas.

www.tchiloli.com

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A cultura da mesa

A Cultura da Mesa / Food Culture

O peixe e o marisco são os reis do prato. Fresquíssimos polvos, lulas, chocos, peixes-serra, concons, atuns, garoupas, raias, e pargos, festim que não fica completo sem as santolas, as lagostas, as amêijoas, os canivetes e os búzios do mar. Em terra, o búzio endémico gigante conhecido precisamente como búzio da terra, faz parte da dieta comum da população, a par da fruta-pão e da matabala, tubérculo da família da batata. Igualmente comuns são a folha de micocó, com propriedades afrodisíacas, as sete espécies de banana, e uma profusão de folhas, vegetais e frutos. Depois de seco e fumado, o peixe é cozinhado em calulus e noutros pratos que misturam os sabores da terra com temperos, especiarias e técnicas das cozinhas portuguesa, angolana e cabo-verdiana.

No capítulo das carnes, é caso para torcermos os nossos narizes primeiro-mundistas. Além do universal frango, até há bem pouco tempo, a tradição, ou a necessidade, punha à mesa dos santomenses pitéus como tartaruga e macaco. Devido às campanhas de proteção, o consumo da tartaruga diminuiu grandemente. O ano passado foi proibido um dos petiscos favoritos da população, molho de morcego, cozinhado com cebola, malagueta, limão, óleo de palma e uma pitada de sal.

Fique ainda a saber que os santomenses são grandes adeptos de “fatiota”, ou seja, de comer pequenas coisas por aqui e por ali, de preferência acompanhadas por vinho de palma ou por uma cerveja Rosema bem gelada.

Restaurantes

Tete
São Gabriel, São Tomé
Num acolhedor pátio interior, delicie-se com o peixe concon e os búzios. Ocasionalmente há espetáculos de balauê chão-chão.

Tia Nanda
Parque Popular, São Tomé
Manda a simplicidade dos sabores, com destaque para o calulu à quarta-feira e para a feijoada à quinta.

Eco Lodge Jalé
Praia da Jalé, Porto Alegre, São Tomé
O peixe grelhado pelo chefe Manuel (Nei) é top mundial, com vista para uma das praias mais bonitas da ilha.

Roça São João
São João dos Angolares
Fica a salivar quando vê o programa culinário Na Roça com os Tachos? Pois aqui, numa enorme varanda com vista para a floresta e para o mar, poderá saborear as iguarias requintadas e as combinações inusitadas com produtos da horta da cozinha de autor de João Carlos Silva, o próprio. Cinco estrelas no meio da selva!

Bar Pico Mocambo
Avenida Amílcar Cabral, São Tomé
A atmosfera colonial contagia os sons africanos. Peça ao simpático Goody um rum aromatizado com sabores.

Mucumbli
Ponta Figo, Neves
A massa de santola, o peixe grelhado e o bolo de chocolate são de chorar copiosamente por mais, sobre um deslumbrante cenário de mar /// Falta morada.

Santola
Neves
Uma instituição onde se vai para comer santolas com torradas e cerveja Rosema. Viva o pitoresco do lugar e encha-se de paciência… /// Neves

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As ilhas do chocolate

Claudio Corallo

João Baptista trouxe para as ilhas, no início do século XIX, as primeiras plantas de cacau e de café e o casamento das árvores com a terra fértil e com o clima foi de tal maneira perfeito que, durante o ciclo de oiro da segunda metade do século, São Tomé e Príncipe foi o maior produtor mundial de cacau. O maior e o melhor. Das fortunas colossais feitas e desfeitas ao ritmo das colheitas e das politiquices com os ingleses que, instigados pelo senhor Cadbury, acusaram Portugal de praticar uma escravatura encapotada e apelaram ao boicote internacional do cacau santomense, reza uma interessante história. Com as nacionalizações pós-independentistas, as roças foram praticamente abandonadas, mas ficaram as sementes, os engenhos e o saber que, aos poucos, têm recolocado o cacau e também o café do país na lista gourmet de lojas e restaurantes em todo o mundo. No topo da lista, conquistando para o seu Ubrik 1 o primeiro lugar do pódio, está Claudio Corallo, um agrónomo italiano apaixonado por África que teve o sonho de encontrar o sabor perfeito do cacau, sem amarguras, recuperando as plantas originais trazidas para a ilha em 1819.

Claudio recebe-nos na sua bonita plantação de Terreiro Velho, Ilha do Príncipe, com um amor desmesurado pelas plantas que se sustentam em colinas inclinadas debaixo de árvores frondosas e que, além de sombra, precisam de “respirar, respirar absolutamente”. Na zona técnica da plantação, entre os vários secadores de sementes, aprendemos os sabores do cacau cru e do cacau torrado. E, mais tarde, à luz de candeeiros a petróleo, na magnífica casa da roça com o esqueleto à mostra, enquanto vou chocando o chocolate que nos servirá de sobremesa – “a temperatura é muito importante” – fico a saber que quanto mais puro, mais o chocolate se sente, alquimia inebriante que se derrete na boca e nos invade a alma, explosão de sabores que nunca mais se esquecem.
A fábrica de chocolate
A maravilha dos chocolates Claudio Corallo é que são autênticas caixinhas de prazer onde o sabor do cacau impera, seja a 70, 80 ou 100 por cento, em pepitas puras, ou mesclado com café, pimenta e flor de sal, gengibre, laranja, ou passas de uva embebidas em destilado de cacau. O horror dos chocolates Claudio Corallo é que nunca mais vai conseguir gostar dos outros todos. Passe pelo laboratório e fábrica, na Marginal 12 de Julho, em São Tomé, e depois da aula de degustação, abasteça-se bem com os seus sabores favoritos. O café, robusta, produzido na Roça Nova Moca também é excelente, de corpo e de perfume.

Para comprar online: claudiocorallo.com

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De roça em roça

Roça Sundy, Príncipe

Sobre as centenas de roças que há nas ilhas, escrever-se-iam certamente outros tantos Equadores. O livro de Miguel Sousa Tavares passado na Rio d’Ouro no início do século XX é uma boa introdução ao universo inesgotável destas fazendas construídas ao longo de 100 anos de prosperidade. Num périplo de roça em roça, o que mais se percebe é a extraordinária organização administrativa (copiada das grandes fazendas do Brasil) e um ar do tempo que já lá vai, cheiro a decadência amparada nas raízes das árvores que se embrenham pelas paredes. Se a cada cabeça, sua sentença, cada uma destas plantações reflete o ideário estético, o sentido de gestão, o modelo social e a riqueza do seu proprietário. Hoje, sobra um certo abandono e a vida das pessoas que lá vivem, ocupando ainda as senzalas. Das meninas desgrenhadas que limpavam o chão da capela da Roça Monte Café, entoando cânticos, aos homens que viam televisão no salão comunitário ao ar livre. Da mãe que explicou à Inês que, por enquanto, só ensinava ao seu bebé “língua de bebé”, ao bando de miúdos que brincavam no hospital da Roça da Boa Entrada de onde saem a chamar-me “banana branca”. Do bailarico ao som do acordeão que se improvisou no meio da montanha na Roça Bom Sucesso, ao rapper da mercearia encaixada na escadaria da Casa Grande da Roça de Ponta Figo. Dos rapazes que jogavam cartas debaixo das palmeiras imperiais da Roça Sundy, no Príncipe, ao segundo dia de um casório com festa valente na Roça Porto Alegre. As histórias, são as de um mundo desigual. Um mundo de que só sobram os fantasmas nas elegantes Casas Grandes em ruínas, enquanto as casas enegrecidas das senzalas continuam a fervilhar de vida, condição dos sobreviventes.

Água Izé

É a maior roça de todas. Armazéns, senzalas, casas dos colonos, terreiros, administração, hospital, secadores e fábricas são o que resta dos tempos em que o primeiro Barão de Água Izé tinha ao serviço 2500 trabalhadores. Hoje, a produção de cacau, de óleo de palma e de copra (miolo de coco) é bastante mais modesta, mas há outras produções. Como as obras penduradas na Fundição – projeto de artes e galeria que aproveita o espaço de um armazém abandonado.

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Vida de filme

Mangal do rio Malanza / Mangrove on the River Malanza

Vem este título a propósito, não dos Óscares cinematográficos, mas dos que são atribuídos às mais belas e paradisíacas praias do mundo em registo tropical. Em São Tomé, merecem uma estatueta dourada a brilhar ao sol, as praias das Sete Ondas, de Micondó, de Café, Bateria e Joana, no Ilhéu das Rolas, de Inhame, Piscina e Jalé, mais a sul, e da Lagoa Azul, Conchas e Tamarindos, no norte. Para as praias da Ilha do Príncipe não há estatuetas que cheguem. Santa Rita, Macaco ou Boi, Grande ou das Burras, todas sem exceção o vão fazer sentir-se no exótico cenário de um célebre anúncio que o Rum Baccardi fez na praia Banana nos anos 80 do século passado. Pouco mudou.

Passeio no mangal

Na foz do rio Malanza fica um mundo líquido de árvores e raízes semissubmersas, onde só os pássaros e os macacos quebram a profundidade do silêncio. Combine uma viagem de barco com os pescadores locais (10 euros).

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Bem-vindo ao paraíso II

Praia Banana

Na Ilha do Príncipe sente-se a magnitude da natureza em bruto. Árvores gigantes tomando conta da terra, verde sobre verde, interrompido apenas pela flor laranja das eritrinas e por nuvens brancas que, de repente, cobrem os picos montanhosos. Cheira a clorofila, a pureza, à inocência do princípio dos tempos. E há silêncio para ouvir os sons da selva, a cadência das ondas do mar batendo contra as rochas ou desenrolando-se na areia. Já que aqui chegou, faça um favor a si mesmo, desligue-se do mundo e religue o cordão umbilical com a natureza para sentir o milagre da vida. Leve-leve!

Seja responsável

Colabore com a preservação, a da natureza e a dos modos de vida, e contribua para a prática de um turismo responsável. Basta a atitude! Aqui ou em qualquer parte do mundo. Não fazer lixo e evitar o uso de plástico (no Príncipe é proibido) são regras básicas. Evite também investir em souvenirs pouco ecológicos como objetos de carapaça de tartaruga. E já agora, não pela sua, mas pela saúde, sobretudo dentária, das crianças, não lhes dê rebuçados e doces! Canetas, cadernos e lápis de cor também as deixam felizes e são mais úteis.

texto Patrícia Brito fotos Inês Gonçalves

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