Sandra Bour Schaeffer

on May 1, 2020 in Partida | No Comments

A TAP comemora 75 anos e orgulha-se da sua frota Airbus. Sandra Bour Schaeffer é engenheira de voos de teste do fabricante. Tudo o que ela nos revela é excitante e promissor.

Não há ninguém que goste de mau tempo quando está no céu. É precisamente por isso que os pilotos são treinados para se afastarem de intempéries e vendavais. Exceto quando Sandra Bour Schaeffer está a bordo. Nos seus dias como engenheira de voos de teste da Airbus, ela costumava convidar os seus pilotos a dirigirem-se para zonas de turbulência e de ventos laterais. “Para mim, é uma honra ir aos limites de um avião e depois ultrapassar esses limites” – mas tudo com enorme segurança.

Se tudo isso soa um pouco louco, é porque é. Então, o que a leva a fazê-lo? Francesa de nascimento e com nacionalidade dupla (alemã), Sandra Bour Schaeffer insiste que, embora arriscadas, as acrobacias aéreas da equipa de testes não são totalmente imprudentes. Claro que, às vezes, o avião pode ficar “um pouco trémulo”. Mas é possível exceder “gradualmente” a velocidade máxima permitida a uma aeronave sem que isso implique a morte iminente. Aparentemente, o mesmo é válido quando se desligam os motores a meio do voo.

Para prevenir acidentes, é contratado um grupo de especialistas em telemetria para trabalhar na base de testes da Airbus em Toulouse (a frota TAP tem actualmente 86 Airbus). O trabalho deles é monitorizar cada anomalia e ruído enquanto o avião de teste está em voo. Com o contributo desta equipa especializada, Schaeffer sabe se é seguro acelerar aquele nó adicional ou se chegou o momento de recuar.

Se a ideia o faz tremer, não se preocupe. Nenhum piloto comercial terá jamais de levar um avião a tais extremos, garante Sandra. É precisamente essa a questão central. Os engenheiros de testes vão a tais extremos para que outros nunca tenham de o fazer e, na hipotética situação de isso acontecer, a Airbus pode estar segura de que os seus aviões têm capacidade para tal. Com mais de duas mil horas de voos de teste sob a sua direção, acrescidas de muitas horas mais em simuladores, Sandra conhece a frota de aeronaves da Airbus como a palma da sua mão. O seu “bebé”, como ela lhe chama, é o Airbus A321 de corredor único, mas também tem uma familiaridade especial com os modelos Airbus A320neo e A321neo, que testou nos seus voos inaugurais. Como engenheira de testes veterana, admite que pode ser difícil desligar quando voa em trabalho ou por prazer. Mesmo antes de o avião descolar, já está a escutar com um ouvido profissional os seus vários zumbidos e roncos.

Uma vida passada em aviões não retirou o brilho à sua velha paixão pelas viagens aéreas. Esta área de interesse levou-a a estudar engenharia aeroespacial na universidade, depois passar pela escola de testes de voo em França e, por fim, obter um doutoramento em dinâmica de fluídos não-estacionários (não pergunte; é complicado). Enquanto viajante profissional frequente, Sandra tem a sua rotina programada: uma mala leve, somente bagagem de cabine (sempre que possível), e um lugar à janela em viagens que oferecem a possibilidade de ver o nascer ou o pôr do sol. Ah, e uma última excentricidade: chega para o embarque sempre em cima da hora.

Não é somente a proeza física de voar que a fascina. A forma como a aviação une pessoas e comunidades representa para ela uma constante fonte de inspiração. As viagens aéreas ajudam a “abrir a mente das pessoas” a outras culturas, argumenta. Algo que descreve como um “trunfo maravilhoso” da aviação comercial.

 

Torne-se verde – ou azul

Não sendo pessoa de ficar parada por muito tempo, Sandra assumiu recentemente um novo desafio: o de liderar uma nova unidade empresarial na Airbus, a Airbus UpNext. Em poucas palavras, o objetivo desta unidade consiste em “identificar tecnologias inovadoras”. Como é típico dela, atirou-se a esta missão com forte entusiasmo. Juntamente com uma equipa de cerca de cem especialistas disseminados pela Europa, ela procura as melhores ideias com recurso à mais recente tecnologia. A sua missão varia entre soluções que serão possíveis a curto prazo, como é o caso de uma melhor conectividade a bordo (aparentemente, a partir da utilização de antenas planas), e outras ligeiramente assustadoras, como os levantamentos de voo com controlo autónomo. A estratégia da Airbus UpNext consiste em avaliar, amadurecer e validar tecnologias emergentes, a fim de pesquisar e desenvolver demonstrações de conceitos em escala e velocidade, dando-lhes o impulso necessário para levá-los ao mercado. Na sua opinião, cerca de metade dos projetos são considerados loucos pelos seus colegas. Ela aprecia o ceticismo deles: estimula-a.

Ajudar a moldar o futuro da indústria aeroespacial alimenta o fascínio que sempre sentiu pela inovação. Mas também apela a uma razão mais imediata, nomeadamente a sua preocupação em tornar a aviação mais compatível com um planeta em aquecimento. Neste sentido, a Airbus não começa do zero. O fabricante francês de aviões já investe cerca de 3 mil milhões de euros em investigação e desenvolvimento, dos quais uma fatia substancial se destina a projetos ambientais. A iniciativa Clean Sky é disso exemplo. Entre outras inovações, este programa produziu um helicóptero de teste super-rápido e eficiente, chamado RACER.

 

Grandes apostas

Então, que ideias inovadoras pode ela partilhar connosco? Sandra é invulgarmente sigilosa. Uma questão de confidencialidade comercial e tal. Mas as suas reticências também são alimentadas pela elevada incerteza inerente ao processo de inovação. Como a experiência lhe ensinou, muita coisa pode acontecer e afastar até as ideias mais promissoras, desde os complexos problemas técnicos até aos entraves regulamentares. Ainda assim, nem tudo é ultrassecreto. Consideremos o exemplo do E-Fan X. Esta aeronave de teste é uma das grandes apostas da Airbus para atingir o objetivo assumido de reduzir para metade a sua pegada de carbono até 2050. Equipado com um motor elétrico de dois megawatts (um substituto para um dos quatro motores a jato do avião), o protótipo híbrido-elétrico utiliza uma bateria de bordo e um sistema de geração de energia para ajudar a impulsionar a propulsão do avião. O primeiro voo do E-Fan X está agendado para 2021.

Outra ideia que alimenta a imaginação aeronáutica de Schaeffer é inspirada pelas aves. Imagine que as companhias aéreas comerciais voavam em formação como, digamos, gansos ou cisnes em migração. Não “cauda com cauda” como os aviões militares, esclarece ela. Mas suficientemente perto para beneficiar da energia do vórtice do avião anterior. Até mesmo duas milhas náuticas de distância poderiam fazer a diferença no consumo de combustível. Para que a aviação se torne compatível com um futuro com baixo teor de carbono, será necessário haver inovações inteligentes em várias frentes. Em poucas palavras, “não há uma resposta única”. Desafiar os limites tem sido um lema para Sandra ao longo da sua carreira. Primeiro como engenheira de testes e agora como um anjo da tecnologia. Evidentemente, o seu percurso não será isento de percalços. Mas, caramba, que viagem emocionante tem pela frente!

airbus.com

 

por Oliver Balch /// foto P. Masclet

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