Sabine Pawlik – austríaca

on Apr 1, 2010 in Um Olhar Estrangeiro | No Comments

Em Lisboa há nove anos, Sabine Pawlik elogia, sobretudo, o clima português. À primeira vista apaixonou-se pela Carrapateira, à segunda por Lisboa. É na capital portuguesa que corta os cabelos de cabeças jovens de espírito.


Apesar de ter estudado etnologia, Sabine Pawlik acabou por regressar ao ofício familiar, tornando-se cabeleireira de profissão, actividade que mantém há 21 anos. O avô já o era em Steiermark, “uma espécie de Alentejo austríaco”, enquanto o pai abraçou a mesma profissão em Voralberg, região fronteiriça com a Suíça. Foi ali que viveu até aos 19 anos. Entretanto passou por Viena e Londres, mesmo antes de vir para Portugal.

O acaso trouxe-a com o namorado, o artista plástico Herwig Turk, até Lisboa. “Queríamos deixar a Áustria por uns tempos e a única coisa que tínhamos em mente era rumar até uma cidade europeia perto da praia.”
A culpa de terem vindo cá parar foi da agência de viagens, que tinha umas promoções para Portugal, via Faro: “A primeira escolha tinha sido Barcelona, mas as passagens aéreas eram caríssimas”. O dinheiro que pouparam por terem deixado a capital catalã para outras núpcias deu-lhes para alugar um carro e fazer uma surf trip pelo Algarve, costa alentejana e litoral acima até Lisboa.

[DDET LER MAIS]

A Carrapateira teve em Sabine um impacto extraordinário. “Quis ficar naquele lugar que tinha uma energia boa e diferente. Mas era um projecto inviável, já que nenhum de nós foi talhado para se dedicar à pesca ou à agricultura”. As férias bastaram para que se decidissem mudar-se para Portugal. Passado um par de meses, estacionou o velho Audi 80 em Lisboa, depois de três dias e meio de viagem.

Através da leitura do Polyglott Apa Guide Portugal, um guia alemão, ficou com a ideia de ter chegado a um país romântico e latino com praias enormes. As ilustrações das páginas ajudavam. Fotos de velhotes sentados à soleira da porta das típicas casas alentejanas, ou de carroça guiados por um burro. Imagens bucólicas que reencontrou nas viagens que começou a fazer aos fins-de-semana, mal chegou ao país. No Portugal real ficou impressionada com a simpatia das pessoas. Lá por não conseguirem expressar-se em português, não deixarram de comunicar através de gestos e de experimentar o afamado bacalhau com grão. “Nos últimos nove anos acabámos por experimentá-lo de todas as maneiras”. A qualidade do café que rematava a refeição também a surpreendeu e hoje é fã do “cafezinho”.

O grande atractivo do país, no entanto, foi o clima ameno: “Podem contar-se 300 dias de sol por ano”. O que tem reflexos na saúde da alma. “Se abro a janela para um dia sem nuvens, sinto-me imediatamente mais saudável”. Outra vantagem é a dimensão de Portugal. “É tão pequeno que pode facilmente ser atravessado de norte a sul ou viajar-se num ápice até Espanha”.

No dia em que lhe marcaram a entrevista no cabeleireiro WIP Hairport – estabelecimento do qual hoje é sócia –, soube de uma casa para alugar no bairro da Bica. Ficou com emprego e casa no mesmo quarteirão. Naquele bairro, observando os vizinhos, descobriu que “por cá o conceito de família é muito importante. Os filhos ficam em casa até mais tarde e as pessoas quando têm algum problema raramente se sentem sozinhas”. Para Sabine, os portugueses interessam-se genuinamente por outras culturas. “Querem saber coisas sobre a Áustria. Não estão fechados sobre si próprios.” A prova disso, refere, é que até os mais velhos tentam falar outras línguas sem se ralarem por poder estar a tropeçar na semântica alheia.
Outra característica que salta à vista é a arreigada tradição portuguesa, que sai engalanada para a rua nas festas populares. É a céu aberto que se celebra com cravos a revolução de Abril, mas também o Santo António, os restantes veneráveis das Festas Juninas, e outros bailaricos que tais. “É uma atitude um bocadinho latina, os amigos encontram-se no meio da rua, sem combinar”. A tradição também se vê pela forma de vestir e de pentear: “Sabe-se logo se estamos diante de um português por causa da roupa ou do cabelo”, observa.

Um dia visitou o Panteão Nacional para onde o corpo da fadista Amália Rodrigues foi transladado. “Ouvia-se a sua voz muito alto e fiquei emocionada. Penso que todos gostavam muito dela, por ser tão ligada à tradição e à cultura”. Fora o fado, gosta de ouvir a voz de Sérgio Godinho, Dead Combo por causa do ritmo tranquilo, e Micro Áudio Waves, pelo som original, independente e os vídeos futuristas. Por razões sentimentais, elege como preferida a banda Bad lovers & Hysteria Iberica. A vocalista, Sílvia, trabalha com ela no cabeleireiro da Bica e Sabine não lhe poupa elogios: “Uma performer fantástica com textos emancipados”.

[/DDET]

Por Maria João Veloso


Arquivos

Pub.

TAP Promoções TAP Promoções  
UP Eventos

A decorrer

«   /   » / Stop / Start