Rui Horta – Optimista me confesso
É um português habituado ao mundo e entendeu trazer o mundo para Portugal. Pioneiro da nova dança portuguesa, escolheu Nova Iorque para começar, Frankfurt para se dar a conhecer e Montemor-o-Novo para experimentar a prática dos sonhos. Rui Horta tem três filhos, três novas peças, os pés bem assentes na terra e a cabeça no futuro.
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“Tenho sido um viajante toda a minha vida”, diz ele. E isso é parte integral e estruturante do ser absolutamente português que ele é. A começar por ser filho da Revolução, por o dia 25 de Abril de 1974 o ter apanhado no fim da adolescência, a energia a explodir. À abertura política e social corresponde uma abertura física, uma nova visão do corpo, e o corpo dele percebe que quer a dança como caminho. A dança moderna era uma linguagem quase inexistente em Portugal, ele não queria o ballet clássico que se ensinava no Conservatório e as aulas no Ballet Gulbenkian não chegavam. Largou de vez o plano de fazer Arquitectura e antes de fazer vinte anos partiu para Nova Iorque. Ia fazer um curso de dança jazz – e fez, com Alvin Ailey, fundador do Alvin Ailey American Dance Theater – mas uma coisa puxou outra e de repente estava a ter aulas de dança clássica e a descobrir a moderna no estúdio de Merce Cunningham.
“Tive a sorte de herdar uma energia criativa enorme, cresci numa família que suscitava o diálogo e a discussão crítica (pai e mãe professores universitários, oito irmãos e irmãs). É um património riquíssimo. Dinheiro não havia – fui para Nova Iorque lavar pratos – mas tinha uma capacidade de acreditar que está lá sempre. Há momentos de enorme solidão, outros em que apetece mandar tudo pela janela. Mas a seguir volta o fascínio pela vida. É um optimismo realista, não é uma construção mental. Nunca deixei aquilo que sonho por realizar”. À aventura de aprender em Nova Iorque, “que era para durar 3 meses e durou 10 anos,” seguiu-se a de criar uma companhia na Alemanha, que durou outros 10.
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Pelo meio, Rui Horta dirigiu a Companhia de Dança de Lisboa e abriu um estúdio por onde passou boa parte da primeira geração da nova dança portuguesa. Depois veio a crise, o sentir que estava a marcar passo, um período escuro, de todas as dúvidas. É nesse período que cria duas coreografias que o tornam visível a nível internacional – Linha e Interiores – e que estão na origem do convite para fundar a S.O.A.P. (uma das mais icónicas companhias europeias dos anos 90), na Kunstlerhaus Mousonturm de Frankfurt, casa onde o coreógrafo se fez ao mundo a partir da Alemanha de Pina Baush e de William Forsythe.
Foi a segunda parte de um caminho na dança com mais de três décadas, em que já encenou uma ópera, realizou um filme, coreografou para inúmeras companhias e recebeu outros tantos prémios. E criou obras que nos fazem olhar o mundo e a nós próprios de uma outra maneira.
Crio, logo existo
“O que os artistas têm de melhor é que descodificam o mundo através deles próprios. Usamos a nossa lente para olhar o mundo. Mas não é um acto meramente auto-biográfico, porque isso não teria interesse para a maioria das pessoas. É mais uma contaminação oblíqua. E a coisa maravilhosa que a arte contemporânea tem é permitir-nos a todos, enquanto fruidores, sermos também criadores. Somos todos co-criadores do objecto artístico, especialmente nas artes performativas, que são muito difíceis de legitimar. Não se põem na parede, não têm um valor definido. Um espectáculo que se monta e desmonta, é difícil de avaliar, mas é fundamental. Precisamos de espectáculos efémeros para perceber que o mais importante está na nossa memória, no modus operandi, não está no coleccionar; está na tua capacidade de transportares aquela memória, e ela te influenciar no momento em que tenhas que ser um decisor. É por isso que as artes performativas deviam ocupar um lugar central no conceito de cultura. Porque nós precisamos de uma sociedade inteligente, que se pense, que seja capaz de se reinventar a partir das suas próprias memórias. Ora as artes têm a dúvida como método, são a melhor ferramenta para nos fazer criar este segundo olhar, este outro discurso.”
Ele, que dirigiu vários projectos de formação pelo mundo inteiro e fundou o COLINA – Collaboration in Arts, um laboratório artístico que se realizou em vários países europeus e juntou centenas de artistas de várias artes que aprendiam colaborando uns com os outros, ele que é pai de filhos em idade escolar, diz que tudo se joga na educação. “Não podemos apoiar um sistema de crianças educadinhas e bem penteadas em cujas cabeças se despejam conteúdos e cujos tempos livres se ocupam à viva força. Precisamos de um sistema que ensine estratégias, que auto-responsabilize as crianças e estimule nelas o sentido de aventura e que deixe às crianças tempo livre para brincar, porque brincar é a forma mais criativa de aprender a vida. É o contrário do que temos. Mas não temos que ter medo de fazer tudo ao contrário!”
Ele acredita que é possível, que tudo é possível. E que é importante que as pessoas acreditem. “Cada um de nós nasce com uma promessa por cumprir. Uns cumprem-se, outros não. Eu acredito em educar os meus filhos neste país. Não digo neste sistema, que tem falhas, mas neste país. Eles nasceram na Alemanha, que tem um sistema extraordinário, mas decidimos que eram melhores para eles estes afectos, estes olfactos, o D. Dinis em vez do Bismark, este legado histórico extraordinário. É um país que os pode inspirar. Temos um património de fauna e flora que é dos maiores a nível europeu (e que tem que ser defendido, rentabilizado e fruído!) e temos este mar que não acaba, este clima que quase não tem situações extremas, e depois somos muito poucos! Nove milhões e o resto diáspora, portugueses espalhados pelo mundo, amigos em todo o lado. Nós não estamos na ponta da Europa, estamos no meio de três continentes! Temos que nos deixar deste estigma da periferia. Foi esta situação que nos fez descobrir caminhos novos no mar e povos diferentes em terra, há 500 anos. Temos uma relação profunda com África e com o Brasil e este é também um enorme campo de possibilidades, a todos os níveis, cultural, económico, empresarial. Nós estamos naturalmente aptos a criar redes, falta-nos criar algum rigor e sistematização, falta juntarmo-nos e desenvolvermos uma cidadania activa que nos permita ser tudo o que podemos ser e um sistema de educação capaz de formar indivíduos criativamente ágeis, rigorosos e com espírito de iniciativa.”
Fala como se as palavras andassem a correr atrás das ideias, velozmente e com o corpo todo (a voz é também corpo, aliás), com uma energia que nunca é impositiva, é sempre contagiante. E depois diz “perdoem-me este descarado optimismo, não sei viver de outra maneira”.
Act local, think global
É um optimismo com corpo, um optimismo realista. No virar do século, Rui Horta escolheu um dos concelhos mais pobres da Europa – “mas um dos territórios de maior biodiversidade”, diz ele – para regressar a Portugal e instalar uma plataforma artística futurista num monumento com duzentos anos, o Convento da Saudação, em Montemor-o-Novo. Todos os meses chegam artistas do mundo inteiro para residências de criação no Alentejo profundo. Artistas que pensam e criam no convento, mas também no meio da cidade alentejana onde se passeiam, comem, bebem, conversam e vão à mercearia, à retrosaria e à farmácia com as suas roupas e cortes de cabelo e maneiras de ser e falar estrangeiras, diferentes. Uma revolução cosmopolita. “E ao mesmo tempo as crianças vão para a escola a pé e andam a brincar na rua. Eu sou um entusiasta destas pequenas grandes sociedades onde nós temos um nome, e é o primeiro nome. O meu caso foi uma história de amor. Os alentejanos, que têm fama de desconfiados, acolheram-me de braços abertos. E cá estamos para celebrá-lo, faz agora 10 anos” (ver caixa).
Agora o quotidiano de Rui Horta é um vai-e-vem entre o infinitamente complexo e o desmedidamente simples. “O mote act local and think global é certeiro. Eu posso estar a fazer uma aula de corpo na Escola Básica nº1 de Montemor de manhã e à noite estar em Paris a fazer um espectáculo. São coisas igualmente fascinantes e igualmente necessárias à minha vida. São duas dimensões do ser. É que não é no meio que está a virtude. A virtude está nos extremos, não está na zona cinzenta, está no branco brilhante esplendoroso que mal conseguimos olhar sem pôr óculos escuros ou no mais negro e no mais violento de nós próprios, que nos leva a ultrapassar as nossas fragilidades. Está na escala maior do mundo, na super-Babel da informação nova-iorquina ou no caos de Jerusalém, e está na total intimidade do contacto com a natureza, no acordar e pegar na bicicleta e dar uma volta no campo ou ir ao café de Montemor e dar dois dedos de conversa com o senhor Agostinho, que tem 75 anos e ainda poda os sobreiros ramo a ramo. E esta escala simples é tão importante como a escala complexa. E no meio estamos nós. No meio destes extremos maravilhosos não há zona cinzenta, somos nós que lá estamos, a oscilar entre estes dois pontos. E é nesse vai-e-vem que nos fazemos.”
As criações dele – e principalmente as mais recentes, As Lágrimas de Saladino e Local Geographic, ambas concretizadas nesta temporada em que é artista associado do Centro Cultural de Belém – falam disso, desse lugar no tempo e no espaço e do ser que nele se desloca. Nós.
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por Maria João Guardão
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