Rui Costa – O príncipio de tudo

on Apr 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Rui Costa quer perceber os intricados mecanismos do comportamento humano. Tudo lhe serve de inspiração científica, até a forma como fazemos café. É um dos mais brilhantes cientistas de Portugal, e não só.

A luz entra forte pela claraboia, realçando a brancura que domina o espaço. A “esplanada”, como lhe chama Rui Costa, é dentro de portas, mas não seria estranho se nos cruzássemos com pessoas de óculos escuros, tal a luminosidade. Conversamos na Fundação Champalimaud, um edifício de onde se abeiram as águas do Tejo, intensificando a singular luz de Lisboa. É aqui que mantém a liderança de um grupo de investigação, apesar de atualmente passar uma boa parte do tempo nos Estados Unidos.

Ensina Neurociências e Neurobiologia na Universidade de Columbia, além das funções de direção que exerce no Instituto Zuckerman da Mente, do Cérebro e do Comportamento (Nova Iorque). “Vivo quase em ponte aérea entre Nova Iorque e Lisboa”, diz. É um cidadão de tantos sítios, que não se pode falar exatamente de regresso. Talvez essa palavra lhe mereça invocação quando falar de um lugar mais pequeno, onde estão as suas raízes, bem longe da agitação da vida cosmopolita.

Rui Costa quer desvendar o comportamento humano, e quer fazê-lo à escala do neurónio. Essa é a forma mais simples de explicar o trabalho deste investigador que estuda a neurobiologia da ação. No entanto, começou por ser a medicina veterinária a despertar-lhe o interesse. Um dos fatores que o atraíam foi o tempo que ia passar no estrangeiro, quem sabe a estudar espécies exóticas num qualquer jardim zoológico ou num longínquo safári. Seguiu para a Suécia, onde estudou comportamento animal, mas a curiosidade foi-se especificando. “Queria perceber como aquilo acontecia, como se decidia fazer uma coisa, como se aprendia…” E assim se clarificou que o caminho era afinal o das neurociências.

“Perceber o mecanismo, perceber o que acontece dentro do cérebro, dentro do órgão onde se fazem as coisas.” Rui Costa sabe que não é um assunto fácil, mas ele, que também se dedica à divulgação científica, sabe entusiasmar a audiência. “O que me intriga é: por que razão por vezes estamos tristes e outras estamos contentes? Por que fazemos uma coisa e não outra? Que se passou naquele cerebrozinho, naquele momento, para se fazer isto?”

 

Música interior

Depois do doutoramento entre a Universidade do Porto e a Universidade da Califórnia, continuou a carreira de cientista nos EUA, por uma década. Lisboa, Barcelona, Porto, Los Angeles, Durham… são apenas os lugares de permanência mais prolongada, onde viveu como estudante ou já como investigador. Mas mesmo que agora viva a cruzar o Atlântico, não passa um mês sem que rume a novas paragens, experiências que também inspiram a ciência. “Aprendemos a ver as mesmas coisas noutra perspetiva, mesmo as atividades do dia a dia. Ninguém faz café da mesma maneira.”

É precisamente a singularidade que motiva boa parte dos estudos que lidera. Estudar a ação significa estudar a forma como agimos, como fazemos certas tarefas. Algumas ações, como respirar ou engolir, são inatas, mas a maioria é aprendida ao longo da vida. Esse processo de aprendizagem é único em cada um de nós e reflete-se nas nossas particularidades. “Nós reconhecemo-nos uns aos outros ao longe, só pela forma de andar”, exemplifica. “Significa que cada um de nós constrói um repertório único de ações.” Um dos grandes objetivos é precisamente saber como se constrói este repertório exclusivo e irrepetível.

Pense-se também nesta questão: estamos sentados, sem fazer nada, o que acontece para fazermos algo? Esta é uma das principais perguntas a que a equipa de Rui quer responder. Parece simples, mas dentro do nosso cérebro ainda há muitas reações desconhecidas. Já se sabe que aumenta a atividade dos neurónios que produzem dopamina, antes de iniciarmos o movimento espontâneo. “Mas quais são os neurónios que estão ligados a esses que os fazem estar ativos? Então vamos para os anteriores”, para que se perceba que é sempre possível ir para a fase precedente e assim sucessivamente, até ao limite. Mas o princípio pode não ser um lugar no cérebro. “Imagine que não é uma coisa física mas um processo, uma emergência, aí vai ser mais difícil de identificar. Imagine que é uma competição entre diferentes áreas, umas a dizer ‘Faz’ e outras a dizer ‘Não faz’. Pode haver um maestro a dizer: ‘Agora, mexe; agora não mexe.’ Pode haver muitas orquestras a querer tocar e de vez em quando, dependendo da situação, umas orquestras ganham.”

 

Cuidado

Por outro lado, importa também alertar para o seguinte: muitas pessoas acreditam que são grandes especialistas no órgão mais complexo que constitui o ser humano, confundindo o cérebro com o eu. Por isso é comum acharem que são inteiramente responsáveis pelo seu funcionamento. “É um problema social grave” que se continue a responsabilizar as pessoas por coisas que acontecem dentro do cérebro. “Se eu tiver uma lesão no joelho, a reação normal é ‘Coitado, agora não consegue andar’. Se eu bater com a cabeça, não conseguir tomar as decisões certas ou estiver sempre deprimido, vão dizer ‘É um tipo que não consegue sair das coisas, não as consegue ver de outra forma’.”

Do mesmo modo, é aceite com tranquilidade que uma lesão no joelho exija fisioterapia, mas há muito mais resistência à psicoterapia. “A terapia é uma experiência forte, que muda o cérebro. As experiências mudam o cérebro”, reforça. E as alterações são mesmo fisiológicas. “Há mudanças no tecido cerebral, nas ligações entre os neurónios. Isso está provado.” Palavra de cientista.

 

Laboratório como estúdio

Entre viagens, conferências e a panóplia de obrigações de uma função de chefia, parece escassear o espaço para vestir a bata. Rui Costa sorri e contraria a ideia. Continua a ir ao laboratório, para discutir ideias e ver como estão a decorrer algumas experiências, mas também para fazer certas tarefas com os ratinhos que servem de modelos. Não há dúvida de que continua a ser-lhe um espaço particularmente aprazível. “Se eu fosse músico ou pintor, ia para o estúdio – o nosso estúdio é o laboratório.”

Homem de interesses variados, dedicou-se em tempos ao teatro amador. Agora, a falta de disponibilidade não lhe dá margem para se envolver em encenações mais elaboradas, mas participa em pequenos projetos, sem nunca se desligar da vertente científica. “Nós somos sempre as mesmas pessoas e tudo à nossa volta acaba por influenciar, não há uma separação entre o cientista e o resto da vida.” Na verdade, em relação ao teatro pensa inclusive que a influência se terá dado ao contrário. “Comecei por estudar a memória, entre outras coisas, só de – pois me dediquei à ação. Penso que o teatro teve alguma influência nessa escolha, dentro da grande paixão de saber como é que o cérebro funciona”, revela. “Como nos mexemos em cena? Como temos criatividade? Quando é que automatizamos um comportamento?” Vai enumerando perguntas que servem de pistas à investigação.

Fora das voltas que lhe impõe a vida de investigador, dedica o tempo à família. Gosta de se refugiar na aldeia de Pessolta, não muito longe da sua cidade, a Guarda, no centro de Portugal. Reconstruiu uma casa que remonta a 1781, do tetravô, e é para lá que escapa com a mulher, americana, e as duas filhas. “Já mudou muito, mas é uma zona de floresta europeia muito característica, com carvalho, castanheiro e muito granito.” É precisamente esta pedra que quer um dia esculpir, dando largas a uma apetência a que nunca se dedicou. Enquanto isso, é na Pessolta que gosta de se pensar a escrever, principalmente poesia. “Relaxa-me estar lá porque me põe num estado de viver simples.”

 

por Alda Rocha

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