Rosa & Teixeira – Giz do tempo

on May 1, 2020 in Embarque Imediato | No Comments

Rosa & Teixeira: nome de uma das mais importantes casas europeias de alfaiataria. Nasceu em Lisboa, na icónica Avenida da Liberdade. Clientes de todo o mundo procuram-na.

Existe o “tempo dos deuses” e o “tempo dos homens”. Não são simultâneos, e a alfaiataria está mais próxima do primeiro, embora sirva os segundos. O seu tempo não corre à velocidade do pronto-a-vestir ou sequer dos “fatos à medida”. Em boa verdade, o seu tempo não corre de todo, está num fluxo diferente do do quotidiano. Um cavalheiro é medido, os moldes são desenhados, consideram-se amostras (tweed? de riscas finas? Príncipe de Gales? sem padrão?), provas acontecem, porventura as medidas são ajustadas (o cavalheiro engordou ou emagreceu ligeiramente), mais provas vêm, faz-se dobra na calça? que sapatos servirão o fato? convém que a largura da perna corresponda a dois terços do tamanho do calçado – e no fim? o cavalheiro desabotoará vaidosamente o último botão de uma das mangas do casaco, para provar que nada enverga de industrial, que nada foi feito na urgência das máquinas? Note-se que a esses botões correspondem casas caseadas humanamente: o fio que reveste a fenda, coseram-no à mão.

A raridade deste processo é cada vez maior. É por isso que a alfaiataria Rosa & Teixeira, em Lisboa, é um caso muito distinto, tanto que há clientes estrangeiros que literalmente atravessam continentes para serem atendidos pelo ateliê comandado desde 2002 pelo mestre Eugénio Gomes. E se se está aqui hoje, é porque, precisamente, demorou tempo – mais de cem anos.

 

Da história

Em 1908 a arte da alfaiataria em Lisboa tinha tal reputação que o principal estabelecimento na cidade, a Casa Amieiro, era filial de uma casa portuguesa em Paris. Manuel Amieiro dirigia as operações na Rue Royale, e o filho António em Portugal. Um repórter da época, do Diário Ilustrado, relatou assim uma visita à coleção Outono-Inverno daquele ano: a casa mostrava um “incomparável sortilégio de fazendas que ontem nos foi pasmo pelo gosto que demonstram e que amanhã será o clou do nosso mundanismo, nos inúmeros fatos de talhe impecável que se passearão Chiado abaixo, por tardes amenas, e que às noites darão a nota em bailes, teatros, receções – onde quer que impere o convívio das pessoas elevadas”. Oh sim, o assunto era sério. Em Paris, Manuel Amieiro recebera meses antes a Ordem do Mérito Industrial, lia-se na Revue Diplomatique, e na revista La Ville Lumière, com espantosas fotografias, reportava-se que os membros da corte portuguesa sediados na capital francesa eram ali clientes da Amieiro, tal como “numerosos diplomatas, aristocratas, banqueiros e sportsmen, numa palavra, qualquer pessoa de elegância muito refinada”.

A Casa Amieiro abrira no final do século XIX em Lisboa, expandindo-se depois em França. Era propriedade da firma Lopes, Lourenço & C.ª, primeiro funcionando na Rua Ivens (Chiado) e depois na Rua da Betesga (Baixa), também com departamento de modista, dirigido pelas filhas de Manuel Amieiro. É preciso acrescentar que por volta de 1915 existia a casa concorrente de Francisco A. Rosa (“Alfaiate para Homens e Senhoras”) na Rua do Carmo, que aprendera a profissão sob os auspícios de Amieiro. Em meados dos anos 40 adquiriu o negócio ao seu mestre e mudou-se para o número 204 da Avenida da Liberdade. Em breve um outro mestre, António Teixeira Dias (genro de Rosa), tornou-se sócio: eis a raiz da Rosa & Teixeira. Em 1981 a empresa passou para o atual proprietário, José de Castro, que então inaugurou o espaço de loja ao público (também há uma loja no Porto – a Rosa & Teixeira tem coleções próprias de moda). Entre 1985 e 2001, o mestre foi Onofre de Carvalho. Hoje é com certeza o negócio de vestuário mais histórico em toda a famosa avenida lisboeta.

 

Rigor

Pedro Castro, filho de José de Castro – “Esta é uma empresa familiar gerida com muito amor e paixão” (Pedro também é alfaiate, mas só o consideraram assim aos 30 e poucos anos de idade, ao fim de cerca de 15 de aprendizagem; lá está, aqui o tempo é outro) – sublinha: “A maior parte dos nossos clientes procuram-nos pela confiança, pela qualidade do produto e pela relação que estabelecemos com eles.” Os tecidos provêm acima de tudo de Itália, exímio país fabricante, e é difícil encontrar resquícios sintéticos: são praticamente todos naturais. O mesmo rigor na alfaiataria é aplicado às coleções anuais: mais do que meros lojistas, “os vendedores da Rosa & Teixeira têm grande conhecimento do produto, das matérias-primas, da vestibilidade”. E “não há limites na questão do preço”. Aqui vende-se “o melhor do mundo”, é simples. “Tudo funciona a um nível muito táctil.” Há camiseiros próprios, por exemplo, e colaboradoras externas para trabalhos de precisão: bordadeiras de monogramas e uma cerzideira, raríssima e preciosa profissão para este ofício. Nada é ao acaso. O giz utilizado pelo mestre Eugénio Gomes é de uma marca alemã específica.

No subpiso da Avenida da Liberdade, 204, onde funciona o ateliê, há uma estante em que se guardam centenas de rolos de papel. O visitante desavisado poderá tomá-los por papiros salvos do incêndio de Alexandria. São os moldes dos clientes, uma espécie de biblioteca de medidas humanas. O tempo é um grande arquivista.

rosaeteixeira.pt

 

por João Macdonald

Arquivos

Arte

O artista plástico português Pedro Cabrita Reis é um cavalheiro também notório pelos fatos que usa, e velho amigo e cliente da Rosa & Teixeira. A casa exibe uma peça escultórica sua suspensa na espiral da escada que liga a loja à sala de provas. “É um objeto com uma marca física poderosa”, explica o artista. “Lembra a forma que as abelhas produzem quando se reúnem para formar uma nova colmeia.”

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