Rosa Pomar – O fio que une todas as coisas

on Jul 1, 2015 in Embarque Imediato | No Comments

Costuma dizer que é mãe e blogger e tem um interesse por ovelhas difícil de explicar. Podia juntar investigadora, empresária, autora, aprendiza e mestra de técnicas tradicionais, e mesmo assim a definição ficava curta. O mundo começou a saber dela por causa de um boneco de pano único, mas Rosa Pomar tem um universo inteiro de coisas singularmente nossas para partilhar, da lã fiada à mão no Minho aos cestos de cana algarvios.

Rosa Pomar por/by Paulo Barata

Ela sabe a altura certa em que animais e homens migram para as terras altas da serra da Estrela, onde o pasto continua abundante e o fresco dura um verão inteiro – sempre que pode, acompanha-os nesse caminho da transumância. Sabe que ser pastor é coisa de que ali se tem orgulho, significa ser dono de gado e tratá-lo a preceito, “ter brio profissional e uma ética e uma estética muito própria”. Sabe que na Guarda há uma aldeia pequenina chamada Fernão Joanes, onde se diz que “pastor a sério é o que anda à frente do rebanho e não atrás dele” e a tradição dita que se leve um cobertor de papa ao ombro, para as ovelhas seguirem tanto o homem como a manta. Sabe que por volta do solstício de verão se cumpre “um ritual muito antigo chamado bênção das ovelhas”, com os rebanhos a correrem à volta da capela da aldeia, enfeitados com fitas e borlas laboriosamente trabalhadas pelos pastores. O ano passado pediram-lhe ajuda para estes lavores masculinos e os bichos beirãos acabaram ataviados com pompons feitos por gentes de Lisboa e outros lugares do mundo que aprenderam os gestos milenares a partir das instruções do blogue A ervilha cor de rosa, um dos primeiros do burgo e um dos dez mil mais influentes do planeta (segundo o ranking oficial da coisa). Sim, Rosa Pomar sabe disso também. E de botas alentejanas e chitas de Alcobaça, mosaicos hidráulicos de Estremoz e do cesto de cana algarvio que Jane Birkin passeou por Paris. Coisas singularmente nossas que quer partilhar com o mundo, a começar pela lã das raças autóctones portuguesas.

“Uma camisola é uma ovelha e cinco pauzinhos” explica, “sabermos ir da matéria-prima à coisa terminada é abrir um caminho enorme de possibilidades”. Ela costuma dizer que fez o caminho ao contrário, começou pela malha para chegar à ovelha. Nascida na Lisboa pós-revolucionária de 1975, numa família de homens com perfil público (o avô é o pintor Júlio Pomar, o pai é o jornalista e crítico de arte Alexandre Pomar) e “mulheres emancipadas e licenciadas mas onde nunca houve o estigma dos lavores femininos ligados à ideia de mulher doméstica e domesticada”, Rosa aprendeu a tricotar aos sete anos com uma prima mais velha e, enquanto se fazia historiadora na Universidade Nova de Lisboa e levava mais longe o desenhar na escola de arte Ar.Co, foi sempre fazendo malha e costura, em contramão das modas e das pessoas da idade dela e “apesar de toda a gente achar um bocado esquisito”.

Lembra-se de ter 18 anos e fazer uma “maravilhosa descoberta” no campo arqueológico de Mértola (onde passou umas semanas como voluntária), “uns novelos de lã fiada à mão, muito macia e cor de café com leite que havia na Oficina da Tecelagem”. Eram os anos 90, em Lisboa não se viam à venda fios de lã portuguesa e ela comprou todos os que conseguiu. Foi o princípio de uma investigação que a fez resgatar do esquecimento o ciclo artesanal da lã em Portugal, essa tradição que vai da tosquia ao lavar, ao cardar, ao fiar e ao tecer do fio e que, num país com catorze raças autóctones de ovelhas, continua viva “mas desvalorizada e afastada dos conteúdos programáticos do ensino oficial, ao contrário de países como a Alemanha, e sem entidades que a salvaguardem, como o Crafts Council do Reino Unido”. ‘Oh menina, tem cá cada ideia!’, diziam-lhe nas fábricas de lanifícios onde ela chegava com lã de ovelhas portuguesas a querer 200 quilos de fio, e ouvia em resposta contar tudo em toneladas e “isso nem compensa ligar a máquina”. Rosa Pomar vem de longe, e trouxe o amor pelo que é nosso com ela.

 

Andar para trás faz parte do andar para a frente

Deu aulas, fez uma pós-graduação em História Medieval – “gosto tanto de ler textos do século XIII como de desenhar” – viveu um ano no Alentejo, outro no Algarve, palmilhou o Minho e regressou a Lisboa para criar uma casa do tamanho do mundo onde partilha novelos produzidos a partir de lã de ovelhas portuguesas – entre os quais três fios exclusivos que criou – e também os seus usos e costumes, dos tradicionais cobertores de papa da Guarda às meias de grades de Bucos, no Alto Minho. E mais tudo o que sonhava ter para os seus trabalhos de costura e malha e raramente encontrava. “A Retrosaria começou com três rolos de tecido em minha casa e sempre foi uma coisa pensada para ser leve.” Primeiro foi um site, criado em 2008, só um ano depois arranjou casa numa antiga fábrica de manequins entre o Bairro Alto e o Chiado. Fica num segundo andar, passando as caixas de correio com as cores do arco-íris, e de um lado é loja, com os móveis antigos de madeira e vidro a aconchegarem os novelos de lã – a Beiroa de Rosa Pomar mas também a japonesa Noro, entre outras – e todos os utensílios necessários à prática do tricot, do crochet, da tecelagem e dos bordados, mais os tecidos americanos, as chitas portuguesas, as capulanas holandesas (sim, ela explica que foram os holandeses a levarem as capulanas para o continente africano e que até hoje as estampas mais extraordinárias e os panos de melhor qualidade continuam a vir dos Países Baixos), os taleigos (sacos feitos de restos de tecidos, muito usados para o pão) e os porta-bebés de inspiração tradicional (slings), mas também aventais antigos, meias de renda, botas de pedreiro, casacos em jacquard, tudo irresistível ao toque e avesso à produção em massa. Do outro lado do corredor, com vista a dar para uma nespereira e uma laranjeira, fica o espaço onde se desenham as mantas de retalhos e os bonecos, se costuram as peças, se entrelaçam as camisolas e se fia na roda feita segundo os preceitos do século XIII por um carpinteiro dos Açores – e se ensina tudo isto em workshops de fim de semana, quase sempre com lotação esgotada. “A troca é uma coisa muito poderosa. O que dá gozo é o contacto com as pessoas, é isso que torna estas coisas bonitas.”

A comunidade de Rosa Pomar começou em 2001, quando foi para Nova Iorque fazer um curso de verão e, para partilhar a experiência com os amigos, criou um blogue bilingue que começou a chamar-se @ny e acabou a chamar-se A ervilha cor de rosa – por causa de um trocadilho com o nome que escolheu para a primogénita, herdado da avó. Há onze anos, um boneco de pano que fez para a bebé Elvira e mostrou nessa montra para o mundo, mudou-lhe a vida. Era feito com técnicas artesanais e materiais muito antigos mas o desenho era absolutamente novo, tão singular que a plateia de aervilhacorderosa.com também quis, quis muito. Rosa Pomar passou a não ter mãos a medir para fazer os seus bonecos únicos e numerados, ao mesmo tempo que continuava a pesquisa e investigação dos materiais e modos de fazer artesanais (os crafts) e se fazia referência ao vivo e na blogosfera.

Costuma dizer que trabalha muitas horas por dia mas não sabe o que responder quando lhe perguntam a profissão. “Sou uma contradição, sou o mais anticonsumista possível – tenho três pares de sapatos e faço a minha própria roupa – mas tenho uma loja e vivo de vender coisas. É verdade que entendo isto como uma partilha. É como se eu fosse intermediária de ideias e vivências.” Investiga tecidos como se fosse uma arqueóloga da memória, coleciona retalhos como se montasse um álbum de família, escolhe a matéria-prima de um saco de pão com o cuidado de quem desenha um enxoval, partilha experiências e saberes no blogue, no site e nas redes sociais com a mesma generosidade e clareza com que escreveu um livro chave sobre malhas portuguesas ou contou a história de uma manta de retalhos feita dos tecidos que juntou, pedacinho a pedacinho, durante a gravidez da filha mais nova, Amélia, que tem agora oito anos. O trabalho de campo continua a fazê-la correr o país de lés a lés (a pesquisa sobre o ciclo tradicional da lã, por exemplo, está documentada no projecto audiovisual Lã em Tempo Real, com Tiago Pereira), ao mesmo tempo que investiga toda a literatura etnográfica que encontra sobre o assunto – invariavelmente Rosa Pomar passa as segunda feiras na Biblioteca Nacional entre textos antigos sobre os têxteis. “Um ritual muito importante na minha higiene mental”. É uma cidadã implicada na vida pública, activamente empenhada no consumo consciente, contra a devassa dos azulejos tradicionais ou os modos de fazer que privilegiam a quantidade em detrimento da qualidade, assumidamente a favor do fazer artesanal e da educação “do treino do gesto e do corpo” que os ofícios permitiam. Há uma antiga lição de tricot que gerações passaram a gerações e que Rosa Pomar gosta de repetir – “fazer e desmanchar, tudo é trabalhar”. Na malha como na vida, “o andar para trás faz parte do andar para a frente”.

texto Maria João Guardão foto Paulo Barata

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Fazer é poder

Vão longe os tempos em que Rosa Pomar organizou um workshop de malha e só apareceu uma aprendiza para amostra. Passou uma década e hoje existe uma comunidade que cresceu com ela e também por causa dela, frequentadora da internet, da blogosfera e das redes sociais, mas também dos workshops que acontecem regularmente na Retrosaria. Costura, manta de retalhos (quilts), bordados, meias, crochet e tricot, tudo se aprende, até a fiação manual de lã com roda e fuso, “uma coisa mágica”. “Fazer é poder” é o lema, “o poder de criar qualquer coisa com as nossas mãos” e de essa qualquer coisa ser capaz de nos mudar a vida nem que seja um bocadinho. É também sobre isso que Rosa escreve no livro Malhas Portuguesas (editora Civilização, 2013), além de contar a história e as técnicas do tricot em Portugal e ensinar a fazer 20 modelos inspirados por peças tradicionais. Há uma forma muito nossa de fazer malha e há quem venha de longe para aprender essa maneira diferente de manobrar o fio e as agulhas (como o grupo tricotador canadiano que está quase a chegar), ao mesmo tempo que os fios Rosa Pomar viajam no sentido inverso. Fiados à mão e totalmente produzidos a partir de lã de raças autóctones – “e de ovelhas que levam um vida boa, ao ar livre” – o Beiroa (feito com lã da raça bordaleira da serra da Estrela), Zagal (a partir da lã de merino branco alentejano) e João (merino branco e preto) estão a espalhar-se pelo mundo. A Retrosaria pratica o comércio electrónico mas também tem fios à venda em lojas em Inglaterra, Espanha, França, Holanda e até na Austrália. “Mandamos lã fiada à mão no Baixo Minho para o país que mais ovelhas tem no planeta.”

retrosaria.rosapomar.com
aervilhacorderosa.com

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