Rita Sobral, São Paulo

on Feb 1, 2020 in Partida | No Comments

Uma advogada que gosta de viver à velocidade da agitada urbe brasileira. Ambas têm coisas para dizer.

Aos 17 anos, Rita discursou na ONU. Perante a iniciativa de repensar a vida política ou partidária das Nações Unidas do ponto de vista das crianças, representou os jovens e Portugal enquanto membro da União Europeia. Nessa ocasião foi também convidada a participar num programa de intervenção com a UNICEF, onde as ideias discutidas com adultos culminaram no discurso “bastante incisivo e eye opening” que transmitiu. Desta experiência “muito interessante” guardou “a perceção, numa idade relativamente nova, de que no mundo, para chegar a objetivos, tem que se pensar a maneira como são ditos”. Até então, Rita achava que o futuro estava nas Relações Internacionais, mas esta oportunidade teve “um impacto muito grande na maneira de pensar na questão de impacto”. Despertou-lhe a noção de que há todo um percurso que se pode fazer noutra lógica e de um “caminho autónomo, de liberdade”. A lisboeta de 29 anos, hoje advogada, concluiu que, nesta era da informação e das plataformas digitais, é possível ter uma voz.

Em São Paulo há oito meses, depois de seis anos em Nova Iorque, diz que a cidade está “na frente do pensamento liberal da América Latina”: “É muito comum aqui haver um espaço de coworking com um bar e uma loja onde acontecem conversas fundamentadas em se repensar o está a acontecer nesta parte do mundo e de perceber o fenómeno político.” Na génese desses debates está um movimento artístico de vanguarda que tem um peso muito específico na sociedade brasileira. Além do pensamento, a parte criativa é um elemento sem o qual Rita diz que não conseguiria viver na metrópole. “Com todas estas dinâmicas, a cidade tem intensidade a todos os níveis”, explica. “No Brasil sentes que o mundo está a acontecer.”

Por mais que trabalhe no mundo corporativo, Rita revê-se na pluralidade que a cidade mais populosa do continente americano oferece. Ela, que já viveu em Pequim e em Londres, acaba sempre por escolher destinos complexos e multifacetados – “Também tenho essa parte”. A veia internacional que traz desde cedo (na Harvard Law School, nos EUA, onde estudou, conheceu gentes de várias partes do globo), foi fulcral para rapidamente, de “uma maneira muito orgânica”, se integrar. Habitualmente, depois do trabalho, sai e encontra amigos num boteco para conversar e beber uma cerveja. O ioga (Rita é instrutora) e a ligação com a espiritualidade é outra forma de escape à rotina.

Aos fins de semana podemos encontrá-la na Avenida Paulista, a área que “retrata muito o que é a cidade”, a frequentar o Museu de Arte de São Paulo ou o Instituto Moreira Sales. O seu circuito das artes passa ainda pela Galeria Crua, no Centro, e no Cartel 011, em Pinheiros. Também os lugares que estiveram completamente abandonados e agora foram recriados, como o Bar do Cofre, no subsolo do edifício Farol Santander, fazem parte do roteiro.

Quando chegou ao Brasil, Rita explica que foi inevitável apaixonar-se pela bossa nova: “Aqui começa a fazer sentido tudo aquilo que as letras trazem. Isso levou-me a Chico Buarque enquanto escritor.” Aos poucos avançou para as obras de Drummond, Amado, Quintana e Vinicius. Na música brasileira tem ainda descoberto o que se produz no panorama contemporâneo e alternativo, como Liniker, “uma transsexual negra que é provavelmente das melhores cantoras da nova geração do Brasil”. “O que é inacreditável porque só demonstra que, de facto, há uma vanguarda cultural muito grande aqui.”

A empatia que Rita sente por todas estas expressões de arte que querem quebrar muros e ampliar a ligação entre as comunidades só pode vir da cultura portuguesa: “É a inerente realidade de eu sentir que o mundo tem que ser desbravado.”

 

por Manuel Simões /// foto Anna Carolina Negri

Arquivos

Zel Café

Perto da Avenida Paulista, neste casarão dos anos 30 restaurado, há um jardim e um espaço cultural. E, segundo Rita, “serve ótimo café!”. “Gosto muito de ir para lá ler e de passar um tempo, eu e eu, a sentir-me em São Paulo. É o sítio que, para mim, é mais São Paulo.”

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