Rio Grande do Sul – Bebendo estrelas

on Dec 1, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

No estado Rio Grande do Sul, Brasil, há um dos mais sofisticados vinhos espumantes da América Latina. Tudo em torno de Garibaldi, pequena cidade onde também se preserva a arte da tanoaria e do vidro, e muita slow food de herança italiana.

Mata fechada, terreno montanhoso e uma vida a ser refeita do outro lado do Atlântico. Quando os primeiros italianos desembarcaram na Serra Gaúcha, no sul do Brasil, não podiam imaginar que, 150 anos depois, aquela seria uma das regiões turísticas mais promissoras e bem estruturadas do país. Na bagagem os imigrantes trouxeram não só o sonho de começar uma nova vida mas também seus conhecimentos na produção de vinho. “Naquele momento começava a grande jornada da viticultura no Brasil”, explica Maiquel Vignatti, gerente de marketing da Cooperativa Vinícola Garibaldi. A 120 quilómetros a norte de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a pequena Garibaldi foi a primeira colónia italiana do estado e a primeira cidade a produzir espumantes no país, graças a um terroir que favorece a maturação de uvas brancas. Abriga também a Rota dos Espumantes, que integra 20 vinícolas onde são produzidas castas como Chardonnay, Riesling e Moscatel.

Garibaldi viu nascer o primeiro espumante brasileiro em 1913, pelas mãos de Manoel Peterlongo. Com os experimentos no porão de sua casa, aquele italiano de Trento receberia a Medalha de Ouro com seu “moscato typo Champagne” e a Casa Peterlongo seria a única vinícola brasileira a ter o direito de usar o termo “champanhe”. Atualmente, as degustações vão além dos termos técnicos, em salas lotadas de taças de diferentes dimensões. Se para o pai do espumante, o monge beneditino Pierre Pérignon, esse vinho borbulhante era como beber as estrelas, em Garibaldi o enoturismo surpreende com experiências únicas como degustações às cegas e até uma arrojada harmonização com chocolate artesanal. Na Cooperativa Vinícola Garibaldi a novidade é o Taça e Trufa, um programa em que o visitante é recebido com uma sequência de cinco vinhos e espumantes, combinada com diferentes escalas de intensidade do doce, onde trufas de maracujá, laranja e chocolate meio amargo se encontram com Chardonnay, Prosecco, Pinot Noir e Moscatel. Já a Desperte Seus Sentidos é uma degustação às cegas dentro de uma barrica de cem mil litros. Ambas experiências são acompanhadas de uma visita a pipas históricas da vinícola, feitas com pinheiro americano. Quem vai com crianças conta também com harmonizações feitas com sucos de uvas orgânicas.

E o que eram apenas “vinhos de garagem” há algumas décadas hoje são bebidas premiadas, internacionalmente. Fundada em 1931 por um grupo de mais de 70 produtores, a cooperativa é conhecida como a produtora do primeiro Prosecco rosé do Brasil, espumante delicado feito com uma pequena percentagem de Pinot Noir, vencedor das medalhas de ouro no Catad’Or Wine Awards, no Chile, e no Concurso Vinus, na Argentina. O empreendimento reúne 400 famílias associadas de 15 municípios gaúchos, em mais de 900 hectares de vinhedos. Entre os 18 milhões de litros que esperam produzir em 2019, o destaque vai para as versões orgânicas e biodinâmica, em que a propriedade é trabalhada de forma holística como um organismo agrícola que valoriza o todo. Na taça, isso significa vinhos sem uso de agrotóxicos, em harmonia entre o homem e o meio ambiente, potencializado pela influência de ciclos astronómicos.

 

E fez-se a luz

Mas nem só com bom vinho e espumante premiado se faz turismo em Garibaldi. Nesse destino de pouco mais de 30 mil habitantes, as opções vão de uma curiosa fábrica de vidro a um dos últimos tanoeiros da Serra Gaúcha.

Fundada em 2008, a Vidraria Madelustre abre suas portas para mostrar o processo de produção, numa visita guiada que percorre a história desse material e é finalizada com a demonstração do preparo artesanal inspirado nas técnicas de Murano, na Itália. Sob elevadas temperaturas dos fornos que aquecem a mistura de elementos que dá origem ao vidro, o visitante paralisa diante das peças que, em poucos minutos, surgem diante dos olhos. “Nossa vidraria é uma quebra nos roteiros de visitas a vinícolas”, explica a monitora Jenifer dos Santos. E como estamos em terras de talento etílico, a vidraria abriga também a maior taça de espumante do mundo. Criada pela própria empresa e certificada pelo Guinness World Records em 2014, mede 2,19 metros, pesa 33 quilos e o seu interior comporta até 186 garrafas de espumante, o equivalente a 140 litros.

Já no armazém da Tanoaria Mesacaza, no centro da vizinha Monte Belo do Sul, a rotina do experiente Eugénio Mesacaza parece a mesma da época em que esse tanoeiro aprendeu com o pai a montar barris. A princípio, o salão com madeiras por todos os lados soa como uma imensa marcenaria, mas as peças começam a se encaixar, literalmente, quando o patriarca e seu filho Mauro detalham a fabricação de tonéis com madeiras como bálsamo, cabreúva, grápia, umburana e carvalho recondicionado. Cada vez que um barril sai terminado, Eugénio, hoje com 62 anos, ainda olha a peça com o mesmo fascínio da época em que aprendeu o ofício com o pai Miguel Arcângelo, aos 15. Ele e Mauro são insistentes e mantêm a tradição mesmo com a queda do número de pedidos, devido ao uso cada vez mais comum de tanques de inox. Com peças exportadas para os EUA, França, Irlanda e Escócia, produzem, por semana, cerca de 30 barris de 225 litros e outros dez de 700. É tudo tão exclusivo que, para a visita gratuita, só recebem famílias e pequenos grupos, mediante reserva antecipada. É possível também provar cachaças parceiras guardadas em barris da tanoaria.

 

Comida para lembrar

Durante o dia o turista protagoniza uma corrida para visitar o maior número possível de vinícolas, mas a hora de comer é sem pressa. É slow food com vista para os vinhedos. A pouco menos de 30 minutos de Garibaldi, a Casa Olga, em Monte Belo do Sul, é o restaurante de Morgana Perin e ocupa as antigas dependências da residência de sua avó Olga, um casarão de 1958, onde a família se reunia. “Queremos que o cliente se sinta como nos nossos almoços de domingos”, diz Morgana, que faz questão de lembrar que até hoje é ela quem prepara e estende a massa fresca servida na casa.

Esse movimento de apreciação da comida é levado também ao pé da letra pelo chef Rodrigo Bellora. O seu Valle Rústico, em Garibaldi, é uma viagem desacelerada pela gastronomia do mundo com ingredientes locais. A degustação de duas horas e meia conta com pratos como bolinho de kimchi, matambre, carpaccio de lagarto defumado com agrião d’água, cannoli de pinhão, polenta brustolada com milho crioulo e ragu de bochecha de boi. Sem falar nas duas últimas etapas, como os sorvetes de azeite de oliva com flor de sal e o de iogurte. O menu surpresa da casa é servido em 12 etapas e recupera produtos pouco comuns em estabelecimentos brasileiros como milho crioulo, batata cará-moela e PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais). “Eu sou apaixonado por ingredientes e não pelo prato em si”, define Bellora.

Na Osteria della Colombina, também em Garibaldi, o comensal vai à própria casa de Dona Odete e de suas filhas. Em funcionamento num porão de pedras da casa da família, o estabelecimento tem decoração feita com objetos das bisavós italianas como fotografias, louças e jóias. “É um pouquinho de nós. A gente tentou manter a nossa história e a nossa identidade”, descreve a filha Raísa. O menu fechado, de oito momentos, inspirado nas receitas de infância da matriarca, começa com polenta e salame colonial e segue com sopa de capeleti, salada orgânica com carne lessa, gnocchi de três queijos e fortaia.

Seja nos vinhedos ou em estabelecimentos de sotaque mediterrânico, tudo por ali soa muito parecido a tempos pretéritos e nem parece que já se passaram 150 anos desde a chegada dos primeiros italianos ao sul do Brasil.

turismo.garibaldi.rs.gov.br \\\ visitemontebelo.com.br \\\ vinicolagaribaldi.com.br \\\ madelustre.com.br \\\ tanoariamesacaza.com.br \\\ vallerustico.com.br

Casa Olga \\\ Rua João Salvador, 305, Monte Belo do Sul \\\ +55 54 981 32 65 19 \\\

Osteria Della Colombina \\\ Linha São Jorge, Garibaldi \\\ +55 54 346 477 55

 

texto e fotos Eduardo Vessoni

Arquivos

Casacurta

Inspirado na arquitetura dos castelos do vale do Loire, na França, esse hotel de Garibaldi tem 31 apartamentos e é equipado com academia, jardim externo e piscina aquecida (e aceita animais de estimação). Destaque para a culinária do restaurante local, Hostaria Casacurta, onde Dona Pina segue fazendo massas artesanais, há mais de 60 anos. O cardápio variado vai de tortéi ao perfume de canela e amêndoas a pratos bem servidos como magret de pato e picata de vitela.

hotelcasacurta.com.br

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