Ricardo Adolfo, Amesterdão

on Feb 1, 2012 in Partida | No Comments

Publicitário premiado, partiu há 12 anos para a Holanda em busca de um mercado maior. Pelo caminho, tornou-se escritor, um dos mais originais e divertidos narradores da incrível vida nos subúrbios portugueses.

 

 

Ricardo Adolfo teve de sair de Portugal para começar a escrever sobre casa. Tudo começou em 2001. Nascido em Luanda, no ano da Revolução dos Cravos (1974), e criado no caos urbanístico da Linha de Sintra, partira para Amesterdão dois anos antes. Era um jovem copywriter já premiado com um Leão de Ouro em Cannes e escrever um livro nunca lhe tinha passado pela cabeça. Até perceber que as respostas que procurava não estavam na publicidade. Precisava de outra plataforma.

Começou pelos contos, com Os Chouriços São Todos Para Assar (2003). “Uma série de retratos urbanos, suburbanos e rústicos, de vidas fantásticas cheias de acontecimentos banais”, lê-se na contracapa. Era o mote para toda uma obra, mais tarde elogiada por nomes maiores da literatura lusófona, como José Eduardo Agualusa e Valter Hugo Mãe. Seguiu-se o delirante Mizé – Antes Galdéria do que Normal e Remediada (2006), a história de uma cabeleireira boazona disposta a tudo para um dia ser estrela e deixar o salão unissexo junto aos comboios. O último livro saiu em 2009. Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas relata a deriva claustrofóbica de um casal de imigrantes ilegais que se perde numa grande cidade e não encontra o caminho de volta a casa.

Este universo suburbano surgiu de forma natural. “Foi lá que fiz toda a minha juventude”, lembra. “Milhares de horas em cafés, tardes inteiras agarrado à mesa de snooker. Foram anos de pesquisa riquíssima que não sabia que andava a fazer.” A quase dois mil quilómetros de distância, num país onde os subúrbios são “o sítio para onde vais quando tens filhos e dinheiro e queres uma coisa melhor, e não o sítio para onde vais quando já não tens hipótese nenhuma”, viu os ambientes onde crescera com outros olhos. Percebeu-lhes um certo tipo de beleza. Sentiu saudades. Sempre se sentira atraído por aquele tipo de personagens, de tricas, de dilemas. Vidinhas, enfim. Trouxe-os para junto dele.

“O qué cachas?, perguntou-me a Carla”
“do quê?”
“do qué cavia de ser?”
“tás a falar da mala?”
“não, da tua pequenez”
“podia ser mais pequena”
“lá isso podia”

Arranca assim a primeira troca de palavras de Depois de morrer… O estilo pop e certeiro é inconfundível. O humor também. Ricardo Adolfo garante não tirar notas de cada vez que regressa aos arredores de Lisboa para visitar os pais. “Lembro-me”, explica, abençoado com uma memória prodigiosa para diálogos e maneirismos. “E roubo imenso, o mais direto possível.” São conversas com amigos, idas ao café. “Há coisas impossíveis de imaginar. É aquele lugar-comum: só a ficção precisa de credibilidade.”

Ricardo assume a tendência neorrealista. Em cada livro trata duas ou três questões fundamentais da vida nos subúrbios. Escrever é muito mais uma questão de empatia do que de imaginação, garante. “Adorava ter escrito aquela canção dos Pulp, ‘Common People’: a história de alguém totalmente classe média que chega ao St. Martins [College] e tem um fascínio quase exótico pela ‘common people’”, diz. “Quando me perguntam, ‘Como é que sabes isto? Como é que consegues escrever isto?’, eu respondo, ‘Eu sei porque há uma parte de mim que é totalmente suburbana’.”

É difícil não encontrar paralelismos entre a sua própria história e os personagens que cria. Fé, negação, loucura, as mesmas qualidades que atribui a quem nasce em ambientes hostis – e que dão “personagens fantásticas” – foram-lhe essenciais quando fez as malas. Partir para Amesterdão com o dinheiro contado, à procura de trabalho como redator publicitário, e com “um inglês que era um ‘ai Jesus!’”, foi “um bocadinho inconsciente, de facto”, reconhece. “Alguém me devia ter dito que era uma ideia um bocadinho tola. Mas ninguém disse”. E ainda bem. Ao fim de três meses de prospecção estava a trabalhar, já nem se lembra onde. Começou e manteve-se como freelancer em agências com contas internacionais. Tinha a experiência multicultural pretendida. Superado o “choque de sistema”, como diz (aprender a trabalhar em inglês e em equipa foram os maiores desafios), nunca mais parou. Em 2008, viveu na capital britânica. Nos últimos tempos tem trabalhado sobretudo para a DDB de Londres e de Amesterdão.

Um dos projetos com mais visibilidade foi a campanha de 2007 para a Philips, que culminou na parceria com o aclamadíssimo realizador Wong Kar Wai. O objectivo era promover o lançamento global de um televisor. A dupla criativa chegou a um conceito base ligado à luz e à sedução. Tornou-se claro que tinham de ir para além dos meios tradicionais: precisavam de um filme para evidenciar o potencial do aparelho. “O nome dele veio logo ao de cima”, conta. O processo não foi fácil. Wong Kar Wai tem um método próprio, gosta de improvisar ou mudar ao longo do percurso – o oposto da publicidade. “Começámos com uma ideia base e deixámo-la crescer à medida que íamos fazendo”, lembra. De horas a fio de discussão e muitos milhares de milhas aéreas, nasceu “There’s Only One Sun”, filmado em Xangai, montado em Hong Kong e pós-produzido em Los Angeles. “Foi o coração da campanha”, explica. “Mudou a comunicação da Philips. Gosto de pensar que estive lá, a dar o primeiro pontapé.”

Ricardo Adolfo, o publicitário premiado que colaborou com Wong Kar Wai, o português que vive em Amesterdão há mais de 10 anos, o cosmopolita que já deu várias voltas ao mundo, não pretende voltar para casa. Pelo menos da forma tradicional. Há seis meses que trabalha num novo livro. Não quer falar nisso. Dá azar. Só adianta uma coisa: nele regressa à Linha de Sintra. A casa, portanto.

 

por Joana Stichini Vilela

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Em Amesterdão

“A pé ou de bicicleta, gosto de mostrar a vida de bairro, em particular do Jordan, onde todos se conhecem e se encontram no café para pôr a conversa em dia”, diz Ricardo Adolfo. Os seus favoritos são o Prins, o ‘t Smalle – dois bons exemplos de “brown cafes”, cafés tradicionais e despretensiosos que fazem parte do dia-a-dia dos holandeses – e o Nol, “onde ainda se pode ouvir música tradicional ao vivo”. Para deambular, recomenda as Negen Straatjes, “uma zona de nove ruas com algumas das lojas mais interessantes”. Por perto, existem várias galerias de arte contemporânea, como a Torch, a Fons Welters, a Annet Gellink, a Diana Stigter e a Walter van Leeuwen.

Import & Export

“Se pudesse fazer o exercício de importação/exportação, que já fiz várias vezes na minha cabeça”, começa o escritor, “levava Amesterdão para o Sul para junto da minha família e dos meus amigos, e do mítico sol. Levava a consciência social do Norte e juntava a generosidade individual do Sul, unia a eficácia à capacidade de sacrifício, e deixava o protestantismo e o catolicismo de fora. Por último acrescentava à cozinha internacional de Amesterdão a sabedoria culinária portuguesa”.

A obra traduzida

Ricardo Adolfo não sabe nem quer saber como é possível traduzir o coloquialismo dos seus livros (“teria um ataque cardíaco, decidi largar”) mas já é um autor publicado em Espanha, Alemanha, Áustria, Suíça, Holanda e Bélgica. “Os personagens”, defende, “são universais. É a abertura de outra faceta de Portugal para os estrangeiros”.

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