Ach. Brito – (Re)inventar a história

em Aug 1, 2012 in Sucesso em Português | No Comments

Com mais de um século, continua a seduzir com os seus sabonetes singulares. Aliando o saber fazer a estratégias criativas, a Ach. Brito resiste no tempo e conquista espaço no mundo.

 

 

“Não me esqueças” diz o rótulo de um sabonete. Um entre centenas, expostos numa vitrina composta por fragmentos da história de portugueses, que ali vão, à Ach.Brito, em Vila do Conde, entregar um pouco do seu passado. São sabonetes a que o tempo alterou o cheiro, mas não conseguiu apagar da memória os momentos passados com frases que davam sentido ao quotidiano. Por isso, há ali sabonetes guardados ao longo de muitos anos, em incumprimento da sua função, apesar da qualidade diferenciada.

No final da década de 90 – um período crítico para a empresa –, uma consultora internacional traçou-lhes um destino: ou investiam fortemente para atingirem uma produção em larga escala e competirem com multinacionais ou, simplesmente, desistiam, encerrando a empresa.

O mercado entusiasmara-se pelo sabonete líquido e por publicidade sugestiva que convencia consumidores a testarem sempre a novidade. Com sabonetes fora de moda e sem dinheiro para investir em publicidade, a Ach.Brito socorreu-se do seu singular valor: um século de história e de sabedoria na conceção de sabonetes com ingredientes naturais, com fragrância e consistência garantidas até ao seu fim. Sabonetes embrulhados à mão, em embalagens com pormenores de acabamentos de lacre ou cunhados em alto-relevo como se de joias se tratassem.

Era esse o caminho que lhe tinha de valer na luta pela sobrevivência. “Autenticidade, genuidade e confiança num saber fazer” são as principais coordenadas que definem a marca desde a sua criação, em 1887, por Ferdinand Claus e Georges Schweder, dois alemães que viram em Portugal a oportunidade de um negócio que florescia em países como a França. Tendo em mira uma elite endinheirada, habituada a consumir produtos de higiene importados, fundam no Porto a Fábrica de Productos Chimicos Claus & Schweder – a primeira fábrica nacional de sabonetes e perfumes, com rótulos sugestivamente estrangeiros. Nessa altura, o Porto era uma cidade ilustrada por “carros de bois e pessoas descalças, onde a maioria da população não tinha sequer casa de banho”, explica José Fernandes, diretor-geral da Ach. Brito, sublinhando o arrojo dos alemães na aposta em produtos requintados. A qualidade dos produtos, no entanto, foi de imediato reconhecida e premiada internacionalmente; primeiro na Universal Exposition Saint Louis (EUA), em 1899, e depois na Exposição Internacional de Higiene, Ofícios Y Manufacturas de Madrid, em 1907.

Durante a I Guerra Mundial, Claus e Scheweder fogem do país e encerram a fábrica, mas o seu “saber fazer” é (re)inventado por um dos colaboradores – o português Achilles Alves de Brito – , que cria, em 1918, a Ach. Brito. Adquire a Claus Porto, transformando-a na sua marca premium, e cria novos produtos que têm marcado gerações de portugueses. Como, por exemplo, a linha Musgo Real, a fragrância composta de vetiver, com acento de patchouli, criada em 1920, que tem permanecido no mercado ininterruptamente com o mesmo aroma e a mesma nota, estando agora em preparação uma nova coleção com diferentes aromas e embalagens com diferentes cores. Ou, por exemplo, a Água de Colónia Lavanda, o clássico aroma fresco a alfazema, a primeira colónia de muitos portugueses.

Hoje, são mais de 500 referências, 150 fragrâncias. Cerca de um terço da produção é exportada para os cinco continentes, para mais de 50 países. Sendo os EUA o principal mercado internacional da Ach. Brito, são também relevantes mercados como o Canadá, a Inglaterra e a Alemanha. Com 56 trabalhadores, uma das premissas da empresa é “fazê-los felizes” e, segundo José Fernandes, enquanto isto acontecer “a Ach. Brito é uma empresa de sucesso”.

 

O charme das embalagens

Em 1953, perseguindo uma estratégia de diferenciação, a Ach. Brito cria nas suas instalações uma litografia, assumindo o controlo de todo o processo, desde o fabrico ao acondicionamento dos produtos, passando pela rotulagem. Produziam rótulos de tal forma diferenciadores que começaram a fazê-lo para as grandes casas de Vinho do Porto. Igualmente inovador, foi a criação de rótulos pintados à mão, que podem, ainda hoje, ser contemplados no novo espaço da empresa – a fábrica, em Vila do Conde. Um gigantesco armário – expositor de sabonetes, caixas e caixinhas – revela-nos a história de uma imagem trabalhada ao ínfimo pormenor. Uma imagem que foi sendo readaptada ao longo dos tempos, ao nível das cores, com adição de outros elementos, mas que na sua essência não mudou, frisa José Fernandes.

Foi a esse arquivo de imagem que a Ach. Brito recorreu há dez anos quando perspetivou uma estratégia de conquista de novos mercados internacionais sustentada na colocação dos produtos Claus Porto nas melhores lojas de design do mundo. Marcou presença é, claro, em feiras internacionais, mas sobretudo centrou-se em traçar no mapa os pontos de venda que lhe interessava e foi à conquista. “Não digo que tenha sido fácil, mas quando se mostra com verdade a nossa história, do outro lado, a reação é de surpresa: há cem anos que isto é assim?”, recorda José Fernandes das primeiras abordagens ao mercado internacional. E avança: “Se na loja onde fazemos questão em estar não nos dão as melhores condições, não interessa. Acreditamos no nosso produto”.

Depois de estarem em lojas como a Saks, em Nova Iorque, a Cristian Lacroix, em Paris, ou A Vida Portuguesa, em Lisboa e no Porto, “tudo foi acontecendo com naturalidade”, lembra José Fernandes, “a mensagem foi passando”: das lojas para a comunicação social e daí para figuras públicas como Oprah Winfrey, Nicholas Cage, Kate Moss ou Molly Simms…

Com a mediatização da Claus Porto, os portugueses, que tinham a marca registada na memória, voltaram a interessar-se pelos históricos sabonetes. E neste ponto o diretor-geral da Ach. Brito faz questão de salientar que o facto de não terem dinheiro para divulgar os produtos, os levou a procurar estratégias mais criativas e a apostar nos pontos de venda de excelência como chamariz para novos clientes. É essa mesma estratégia de ponto de venda de excelência que a Ach. Brito está a usar com a Confiança, outra marca histórica, de 1894, que adquiriram em 2008 e que começa agora a ser exportada para um segmento intermédio de consumidores. Tal como a Ach. Brito, a Saboaria e Perfumaria Confiança, conta a história dos portugueses e das suas preferências. As figuras típicas e castiças do país, as flores associadas a espaços emblemáticos, como Sintra, a Torre de Belém, São Pedro do Sul, a memória das praias dos anos 40, são estampa de embalagens reunidas numa coleção exclusiva “Portugueses Confiantes”, uma parceria com A Vida Portuguesa.

Mas é o sabão – o velho sabão de barra azul ou rosa – que mais tem surpreendido a Ach. Brito. Quando se decidiu a investir no produto que deu à Confiança, durante muitos anos, o primeiro lugar de melhor e maior produtora nacional, estava longe de imaginar o resultado. Iniciaram a produção em outubro de 2010 e até ao final desse ano venderam tudo o que tinham planeado para 2011. “Mais uma vez não fizemos estudos de mercado, não imaginávamos que o sabão tivesse variadas utilizações. Para a roupa, claro, mas também para a loiça, para o chão e para tomar banho. É um sabão sem cheiro, um poderoso desinfetante”, observa José Fernandes, sublinhando que o produto continua a ser feito como antigamente; secado naturalmente durante duas semanas, cortado manualmente e só depois embalado».

 

A que cheira Portugal?

Papoila vermelha, rosa, cravo, jasmim, orquídea, violeta, acácia, toranja, figos maduros, sândalo, tuberosa… Misturas que ora doces, ora sensuais, delicadas e sofisticadas, mais suaves ou mais intensas, induzem uma diversidade de sensações. Algumas destas fragrâncias mantiveram-se ao longo do tempo em nome da fidelidade dos consumidores. Se nos primórdios da história da empresa os aromas eram essencialmente florais, hoje, sinal dos tempos, traduzem uma mistura de ingredientes – extratos básicos acentuados, mesclados com várias fragrâncias – que se tornam muitas vezes indecifráveis ao comum dos olfactos.

Há fragrâncias universalmente apreciadas, como os aromas cítricos, dominantes na linha Banho, que integra o sabonete da Ach. Brito mais vendido no mundo. Mas os povos, a pluralidade de culturas, distinguem-se pelos seus gostos aromáticos? Sim, seria a resposta expectável. Mas, sem estudos de mercado, frisa novamente José Fernandes, com um sorriso, não é possível determinar as preferências dos seus consumidores. É claro, que nos 50 pontos de venda que a Ach. Brito tem pelo mundo, os produtos – e os aromas – não são os mesmos. Na imensa panóplia de fragrâncias que a Ach. Brito possui, cada distribuidor seleciona para o seu mercado o que lhe interessa. A estratégia da empresa, explica o diretor-geral, não passa por criar produtos exclusivos para determinados países: “No Bahrein, no Japão, em Omã ou, por exemplo, no Canadá, o produto é igual. O que pode acontecer é não se encontrar o produto pretendido consoante o país onde se está”.

Quanto ao futuro, a Ach. Brito projeta desenvolver os mercados ainda em fase embrionária, como é o caso da Ásia e de países como a Coreia ou a China. Quer ainda conquistar o Brasil, um país tradicionalmente alvo das exportações portuguesas, com o qual nunca trabalhou, porque é um mercado com preferências por outro tipo de produtos – cenário que tem revelado sinais de mudança, a julgar pelo número de visitas que os brasileiros têm efetuado ao site da empresa. O futuro passa, também, por reposicionar alguns produtos e por criar outros, como por exemplo difusores, avança José Fernandes.

E o aroma de Portugal? Para quando um sabonete com cheiro a Portugal? “Perfume de Portugal” já foi rótulo de sabonete, exposto atualmente na vitrina da Ach. Brito. O cheiro foi-se com o tempo. Esse “Intensamente Perfumado” – lê-se em papel azul e branco –, que aroma teria? “Um dia destes talvez se (re)invente o cheiro de Portugal.”

www.clausporto.com

 

por Ana Serpa

Arquivos

A Ach. Brito em números

. 56 trabalhadores

. 5 milhões de euros de faturação em 2011 (Ach. Brito e Confiança)

. 10 milhões de sabonetes produzidos em 2011

. 7 vezes são moídos os sabonetes, dando-lhes uma consistência e espuma cremosas, impedindo que se partam ou abram fissuras com facilidade

. 500 referências

. 150 fragrâncias

. 37% da produção para exportação

. 5 continentes alvo de exportação

. 50 países com pontos de venda

Portugueses confiantes

Em exclusivo para A Vida Portuguesa foi feita a reedição de 15 sabonetes históricos da Confiança.

Sabonetes dos dourados anos 30

.Mistério

.Enlevo

.Dália



Figuras de um país e de uma época

.Ribatejo

.Viana

.Nazaré



Sabonetes como postais, com saudades de Portugal

.Camélias de Sintra

.São Pedro do Sul

.Flores de Belém



Um trio sedutor dos anos 30/40

.Excelsior

.Imperial

.Excelsior II



Memória das praias portuguesas dos anos 40

.Costa do Sol

.Monte Carlo

.Tamariz



www.avidaportuguesa.com

web design & development 262media.com