Regina Pessoa – História feliz com final feliz

on Dec 1, 2008 in Embarque Imediato | No Comments

Sabia que o mais celebrado filme português de sempre é de animação e que conta com dezenas de prémios em todos os continentes? Eis a história da realizadora Regina Pessoa, a mulher que inventou a cor verde.

Ecrã branco. Pássaros em céu nublado. No horizonte, aproxima-se: TUM tum, TUM tum…O som cresce e a figura, de bicicleta, avança energicamente. “Era uma vez uma menina cujo coração batia mais rápido que o das outras pessoas.”

Anos 70, em Vila Nova de Outil, aldeia perto de Cantanhede, rural, pobre, Regina Pessoa não tinha, não via televisão. Diz-se menina de sorte por ter tido acesso à biblioteca itinerante da Fundação Gulbenkian. A irmã, mais velha, tinha-se inscrito à revelia do pai, que achava que livros só podia haver os da escola, e lia-lhe, lia-lhe muito, histórias infantis, outras mais sérias. Bem miúda, mesmo antes de soletrar, Regina aprendeu a reconhecer histórias em tudo o que a rodeava. E a sua aldeia estava cheia de histórias de gente banal que ocultava mistérios, dramas. Poesia.

Na história de Regina, o tio Tomás é personagem estruturante. Sempre de fato e chapéu, porque habitualmente contabilista do seu avô, o tio passeava-a pelo campo – num campo onde normalmente só se ia para trabalhar –, apanhava pequenos frutos com o seu canivete e conversava sobre árvores, sobre o tempo. E dizia: “O tio Tomás é um sentimental!”. Regina tinha oito anos e achava-o fascinante. O irmão solteirão da sua mãe não dormia de noite e dirigia-se ao galinheiro. Fazia incidir o foco da lanterna no espelho e as galinhas acordavam e punham-se aos pulos e aos gritos. “E ele riiiiaaaa…Também costumava preparar-me bolas de sabão e fazer-me brinquedos…” Regina ri-se como uma criança, agita o cabelo, arregala os olhos e declara: “Fui eu que inventei o verde!”. Como assim? “A cor verde!” Perante o espanto, a explicação: “Tinha poucos lápis de cor, desenhava nas barras dos cadernos da minha irmã, sim, nas barras, era o único lugar que sobrava, já estava tudo escrito. Um dia, o azul resvala para cima do amarelo; não queria acreditar: o verde!” Tinha quatro, cinco anos, por aí, nunca ninguém lhe contara que amarelo com azul dava verde. Foi revolucionário.

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A liberdade do carvão

“Poucos lápis e papel, mas carvão e paredes de cal e portas de casa da minha avó. O tio Tomás fazia caras gigantescas e nós tentávamos imitar. Ele corrigia; não é assim, têm de ver a proporção entre os olhos e a boca… Fazia caras tipo cânone, de vez em quando tentava fazer umas expressões; divertia-se, dava gargalhadas…”

Talvez o carvão lhe tenha ficado gravado no inconsciente; anos depois, opta pela técnica da gravura nos seus filmes. Por cada segundo de filme, explica, faz doze desenhos; sendo em gravura o processo é ainda mais demorado. “Mesmo quem faz animação, pergunta: Como é possível?! Não é uma técnica comum, não é fácil, não é aconselhável, mas permite resultados ímpares.”

No seu primeiro filme, A Noite, para que a claridade se revelasse, raspou a escuridão; todo um universo de solidão de duas vidas que não comunicam entre si foi concretizado a tinta preta, em placas de gesso. Foram várias as experiências, inclusive com marionetas checas, até conseguir um resultado que potencializasse o jogo de luz e sombra. Diziam-lhe que os seus desenhos lembravam os do Kafka de Piotr Dumala, que trabalhava com placas de gesso, mas Regina quis percorrer todo um caminho de experimentação. E são tantas as possibilidades de animar, quantos os horizontes da imaginação.

Quando um desenho está pronto, depois de filmado – 35 mm, com a velha máquina Debrie Parvo; um trabalho solitário, num quarto pintado a negro –, o desenho é destruído para dar lugar ao seguinte. Dos milhares de desenhos, fica apenas o registo dos últimos em cada placa de gesso e, claro: o filme.

As placas de gesso foram abandonadas por Regina nas vitrinas da Casa da Animação. O papel, um papel de cartaz singular, foi o material eleito para concretizar as criaturas estupendas de História Trágica com Final Feliz. Também em gravura e o mesmo processo: raspar o negro para abrir o branco. A história, dedicada à mãe, com pormenores biográficos, é sobre a diferença; uma história simples de uma menina sem nome que incomoda a comunidade onde vive e que, por isso, se isola e sofre. No Canadá foi adoptada pelas escolas, num programa que foca a problemática da adolescência. Em França, o filme também é apresentado nas escolas para falar de cinema e dos seus aspectos mais técnicos.

A quimera

A ideia de História Trágica com Final Feliz surgiu-lhe vários anos antes de conseguir concretizá-la, era estudante de pintura em Belas-Artes e eis uma frase que inspira uma gravura e depois outra e mais outra, que lhe sugerem novas frases. É sempre assim; uma frase, uma imagem que a espevita e a faz puxar o filme. Assim o foi com Kali, O Pequeno Vampiro, a história que se segue – que quebra o seu usual preto-e-branco e introduz o vermelho –, para dar a conhecer daqui a três anos, talvez. Neste momento, está no Canadá, no National Film Board; dois meses e meio, uma formação intensiva de tecnologia. Depois da aversão, rejeição, ao computador, Regina está numa fase de adaptação e a tentar reproduzir o mesmo método de raspar camadas de tinta. “Até já quase consegui o mesmo som”.

A animação era os bonecos da televisão, que viu já tardiamente; acontece-lhe por acaso, estudante, ser desafiada por uma amiga para um atelier de Verão, no Cinanima, o festival de cinema de animação da cidade de Espinho. Os desenhos valem-lhe um convite para aparecer no estúdio Filmógrafo, do Porto. Não deu grande valor, mas avançou, com a mira num part-time. Adorou o estúdio, “o ambiente estimulante e humano, completamente diferente da faculdade”. Iniciou-se como animadora no filme Os Salteadores, de Abi Feijó.

Regina é uma caixa de histórias e há uma de que gosta em particular: o primeiro filme que viu. Na sua pequena aldeia, sem cinema, sem televisão, certo dia apareceu um senhor, de carro e projector. Dizia que era para passar um filme e instalou-se na sala de espectáculos do clube. “A preto e branco, havia uma casa no fim de um monte, balançava, e a personagem comia as botas, comia-as com tanto gosto; salivava e eu dizia para a minha irmã: É chocolate!” Mais tarde, soube que a personagem era o Charlot e o filme A Quimera do Ouro: “Uma boa forma de começar a ver cinema, não?”. Também conheceu o senhor que no início da década de 70 percorria o interior do país numa Renault 4 L para dar a ver cinema: António Loja Neves.

“… ninguém reparou como sorria, de olhos postos no céu, até que um dia… As pessoas já não sabiam se era alguém que morria ou alguém que nascia. Mas uma coisa era certa: ninguém se importaria de partir assim”. História Trágica com Final Feliz.

www.ciclopefilmes.com

Por Ana Serpa

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Arquivos

Biografia Regina Pessoa

— Biografia formal 1992 Começa o trabalho no Filmógrafo – estúdio de cinema de animação do Porto –, onde se estreia como animadora no filme Os Salteadores, de Abi Feijó. 1998 Licenciada em pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. 1999 Anima e realiza o seu primeiro filme, A Noite. 2005 Realiza História Trágica com Final Feliz, o filme português mais premiado de sempre. Os prémios Prémio Jovem Cineasta Português, Cinanima ’99, Espinho, Portugal Menção Honrosa na Competição Internacional, Cinanima’99, Espinho, Portugal Menção Honrosa no Prémio Cartoon Portugal, Cinanima’99, Espinho, Portugal Prémio Onda Curta (RTP – Radiotelevisão Portuguesa), Fantasporto 2000, Portugal Melhor Filme de Animação, Badajoz 2000, Espanha Menção Honrosa do Júri Jovem, Dresden 2000, Alemanha Faro Jury Award, The Ulisses International Film and Television Festival for Children 2000, Portugal Prémio Europeu Massimo Troisi, 3º Concurso Cinematográfico Tirrenia 2000, Itália Prémio Cortometragio Animate, EUROPACINEMA e TV 2000 – Viarregio, Itália Prize SACD – Espace projets, Annecy 2001, França Prize ARTE – Espace projets, Annecy 2001, França Prize GTS – Espace projets, Annecy 2001, França Special du Jury Award– Cinanima 2005, Portugal Best Portuguese Film – Cinanima 2005, Portugal Critique’s Award – Cinanima 2005, Portugal Prize RTP/Onda Curta (Rádio Televisão Portuguesa) – Cinanima 2005, Portugal Animation Award – Granada 2006, Espanha Best Animation – Cinema – Caminhos do Cinema Português 2006, Portugal Special Jury Award – Anifest 2006 Trebon, República Checa 1º Quality Prize – CNC 2006, França Grand Prix – SICAF 2006 – Coreia do Sul 1º Prize – Festival Courts-Métrages de l’Hospital Júlio de Matos’06, Portugal, Grand Prix –  Annecy’06, França Prize TPS Cinéculte for a Short Film - Annecy’06, França Screening Award – Melbourne’06, Austrália Nominated for the Cartoon d’Or 2006 – Forum Cartoon, Europa Speciale Mention – Montecatini’06, Itália 2º Jury Special Award: Design – Animamundi’02, Brasil 2º Jury Special Award: Sound - Animamundi’02, Brasil Audience Prize – Silhouettes’02, França Jury Mention – Silhouettes’02, França Jury Junior Mention – Silhouettes’02, França Special International Jury Prize – Hiroshima’06, Japão Silver Tatoo– Jornada da Bahia’06, Brasil Audience Prize – Ovarvídeo 2006, Portugal Grand Prix (ex-aequo) – Mecal’06, Espanha 3rd Prize – AniMadrid’06, Espanha Special Distinction Award – CICDAF’06, China Menção Honrosa: Artes – Columbus’06, USA Best Animation – Interfilm Berlin’06, Alemanha Special Mention – L’Alternativa’06, Espanha Jury’s Special Mentioning – Animated Dreams’06, Estónia Menção Especial - Curta Cinema’06, Brasil Menção Honrosa do Júri – Vila da Feira ’06, Portugal Nomeação para os 27º Genie Awards, Canadá —

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