RAR – Um olhar RARo
Do açúcar ao tomate biológico, às saladas, ao turismo, ao imobiliário, às embalagens, ao chocolate…O percurso diverso da RAR, empresa com quase meio século, está inscrito na obra de dez artistas plásticos portugueses.
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717 000 000 Kg. 216 000 000 €. 33 099 000 m³ . 13 287 286 Kw. 87 360 000 Min. Com os números lêem-se imagens captadas em locais de produção do grupo RAR (Refinarias de Açúcar Reunidas). São imagens de detalhes – pingos de chocolate, pacotes de açúcar empilhados – que, ampliados e repetidos, remetem para um mundo de minuciosidade, precisão, rigor. Este é o olhar de José Maçãs de Carvalho, o primeiro artista que, em 1999, aceitou o desafio de concretizar um projecto que todos os anos apresenta, nos Relatórios e Contas, uma nova perspectiva sobre a RAR, holding que integra empresas de sectores tão variados como o alimentar, de embalagem, imobiliário, serviços e turismo.
Hoje, Um Olhar sobre a Rar, assim se chama o projecto comissariado por Miguel Von Hafe Pérez, faz dez anos e impõe-se ao exterior expressando uma RAR que diz ser deste tempo e não de outro. Uma RAR “confortável na contemporaneidade”, sintetiza Vergílio Folhadela, no grupo há 35 anos, dos quais 25 como administrador, centrando-se no projecto para expressar o percurso de um grupo com quase meio século de existência.
Um Olhar sobre a Rar não se resume a uma mera ilustração de um Relatório e Contas; representa já uma colecção de obras autónomas de autores fundamentais na cartografia da arte contemporânea portuguesa (ver caixa). As obras – fotografia, pintura, escultura, desenho, vídeo – estão expostas nas diversas empresas, provocando, interrogando, fazendo com que os trabalhadores atentem a pormenores nunca antes reparados.
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A descoberta desta outra leitura dá-se logo nos primeiros contactos com o artista convidado que interroga, aponta, desenha, passa os dedos pelas superfícies testando texturas. A ideia, defende Vergílio Folhadela, “é abrirmo-nos ao exterior apresentando não o que achamos ser, mas o que o outro, o artista, acha que somos”. E, frisa o engenheiro, “a partir do momento em que seleccionamos um artista – são-nos propostos três pelo Miguel Von Hafe Pérez – não lhe impomos restrições, sujeitamo-nos ao olhar crítico que a nossa realidade lhe possa inspirar”. O resultado? “Depois de uma inicial suspeição de parte a parte (artistas e RAR), o resultado é surpreendente. Sobretudo considerando que há duas etapas distintas no projecto. Uma primeira referente à obra dos artistas propriamente dita e uma segunda que se prende com o trabalho gráfico – Atelier Nunes & Pã – de transformar a obra em Relatório e Contas”, observa Vergílio Folhadela. Pega no relatório de 2001, laranja intenso – o olhar de Nuno Cera revelando fragmentos de materiais industriais – e lembra a estupefacção dos destinatários, habituados ao azul discreto, ao bege, às capas sem relevo, sem surpresa, às páginas sem cor, sem outra história que não a dos números.
Chocolates e aerossóis
Vergílio Folhadela desfolha um e outro relatório mostrando os detalhes, que diz traduzirem a sensibilidade da RAR para outros mundos, e lembra que são expressão de uma outra mudança, ocorrida há dez anos. A tomada de posse de João Nuno Macedo Silva, que sucedeu ao pai na presidência do grupo. Uma mudança validada por números. A começar pela multiplicação por cinco da dimensão do universo RAR – alargado à Europa –, e pelo aumento das vendas de 200 milhões de euros para 1000 milhões de euros anuais, constituindo um dos raros grupos portugueses de base industrial com vendas deste nível.
O açúcar – produto a que muitos continuam a associar a RAR – e o seu pacote com um elefante verde já só representa 10 por cento da facturação; a RAR diversificou-se para melhor enfrentar as adversidades do desenvolvimento. Logo na década de 70 do século passado, agregou a vizinha fábrica de chocolates Imperial e começou a somar sucessos: “Lembra-se das bom-bokas? Sim, das bom-bokas”. Vergílio Folhadela descreve o chocolate fofo recheado que, em 1978, inovou e convenceu consumidores com o anúncio televisivo do Pai Natal, desesperado, a correr para a loja para cumprir os desejos dos miúdos. Mas há mais. O chocolate Regina, dos losangos com pedacitos de amêndoa, em prata vermelha e dourada. As Pintarolas.
O universo do chocolate também tem alimentado Um Olhar sobre a RAR. Carla Filipe, por exemplo, gravou um vinil com 20 minutos de sons captados na passagem do chocolate de máquina em máquina; sons da nova e da velha fábrica Imperial, recriada também através da escrita e do desenho, próximos das linguagens da banda desenhada underground, dos cadernos de escola infantis ou de diários juvenis. Além de uma lista de famosos economistas misturada com receitas de sardinhas albardadas e palavras como “mão invisível”, “feudalismo”, “acordo de cavalheiros”, “mercado livre”, ou “laissez-faire”, lêem-se no relatório de contas de 2007 “historinhas de uma realidade fantástica”. Assim caracteriza Vergílio Folhadela o trabalho da artista.
Ainda na década de 70, a RAR lançou-se na área das embalagens, sendo actualmente líder ibérica na produção de embalagens industriais e uma das maiores fornecedoras de embalagens de aerossol. Uma área explorada na intervenção do artista plástico João Pedro Vale no Relatório e Contas de 2004: aviões, edifícios, um carrossel, barcos, um guindaste, fábricas, dunas, construídos com embalagens de plástico, cartão, latas de azeite Galo, graxa Búfalo e outras. Um mundo onde um avião cor-de-rosa-choque aterra numa pista de tabletes de chocolate; onde há praias com areia de açúcar, palmeiras feitas de coloridos pacotes de açúcar e pedrinhas de pintarolas.
Mas a ColepCCL SA, assim se chama a empresa, não faz só as embalagens, sublinha Vergílio Folhadela. “É provável”, desvenda o engenheiro, “que o seu skincare, o desodorizante, a laca, ou o aftersun, tenham sido feitos numa nossa fábrica. Ou o anestésico em spray, a saliva artificial…”. Nada de espantoso uma vez que a ColepCCL é líder europeia no fabrico de produtos aerossol em segmentos como os de higiene pessoal e do lar, cosmética e para-farmácia de venda livre, dispondo de nove unidades industriais em Portugal, Espanha, Alemanha, Polónia e Reino Unido.
Além-fronteiras
Perseguindo a lógica da diversidade, o grupo RAR entrou também no negócio do café – criando a marca/conceito Buondi –, no vinho e na transformação da castanha, tendo ainda criado a RAR Ambiente SA, com preocupações no sector da água, na recolha, tratamento e eliminação de resíduos sólidos. Na última década, a maior aposta foi a internacionalização, destacando-se, neste âmbito, a aquisição de uma participação maioritária da Wight Salads Group, empresa líder na produção de tomate para consumo, com 15% da quota de mercado britânico e 55% do mercado do tomate biológico, sendo a maior da Europa em termos de produção biológica. Aponte-se também a Vitacress Salads Ltd., um dos principais produtores, embaladores e distribuidores europeus de saladas com folhas jovens e inteiras (baby leaf) lavadas e prontas a comer. Marca desta década é, também, o investimento no sector do turismo, com a aquisição da Geotur e a parceria com a Star, da Sonae.
Ligada à fundação de Serralves, à Casa da Música e à Escola de Artes da Universidade Católica do Porto, a RAR tem feito questão de marcar o seu percurso com cultura, mas também com actividades de carácter social e cívico. A ideia, explica Vergílio Folhadela, é nunca perder de vista a comunidade, as pessoas. Uma ideia bem presente nas imagens e sons captados por Filipa César, vencedora da edição 2009 do Prémio Bes Photo e autora do Relatório e Contas de 2003. Ao automatismo revelado pela maior parte das acções filmadas, a artista responde com gente, mostrando que, por distantes que as pessoas possam estar dos meios de produção, continuam a ser a essência de qualquer empreendimento económico.
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Por Ana Serpa
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