Querubim Lapa – O Pintor Ceramista

on Oct 1, 2014 in Embarque Imediato | One Comment

Tem obra disseminada por Lisboa inteira, mas poucos lisboetas estão familiarizados com o seu nome esquisito. Querubim Lapa tem 88 anos de idade e uma vastíssima herança cerâmica, sendo certamente o autor com mais intervenções em espaços públicos na capital portuguesa. Longe de arrumar as botas, está agora a preparar a primeira grande retrospetiva da sua carreira pictórica. 

Querubim Lapa

Figura maior da cerâmica portuguesa, Querubim Lapa é um dos últimos sobreviventes de uma geração de artistas que bateu o pé ao Estado Novo e mudou definitivamente o rumo da arte portuguesa do século XX. Já atingiu os 88 anos de idade (“ando agora sobre duas bicicletas”), mas continua ativo, a preparar uma grande exposição da sua produção pictórica, ao mesmo tempo que zela militantemente pela preservação da sua vasta obra azulejar, sobretudo espalhada pela capital portuguesa. Sair à procura do “essencial” de Querubim em Lisboa equivale, de resto, a embarcar num completo (embora forçosamente alternativo) roteiro turístico da capital.

Querubim começou a rabiscar em miúdo – “sozinho, deitado no chão do meu quarto, um bocado para fugir às minhas quatro irmãs”. Nascido numa família humilde, estava longe de imaginar que viria a seguir carreira artística, começando por ingressar na modesta escola industrial Afonso Domingues. Nessa altura, a escola estava sediada no pátio do atual Museu do Azulejo e a oficina era na capela forrada de azulejos da Madre de Deus. “Era para ser serralheiro, fui aprender a deslizar uma lima sobre um bocado de ferro, o que não é nada fácil. Mas logo no primeiro ano um professor ficou muito tempo a olhar para um desenho meu, até que disse: ‘Tu deves ir estudar para a António Arroio, que é uma escola de artes’. O meu pai ficou indeciso, mas acabou por me inscrever lá, num curso que dava acesso a Belas Artes”.

Na Escola de Artes Decorativas António Arroio, Qerubim aprendeu a pintar com professores “bota de elástico” (académicos), mas tão ou mais importante do que isso foi o convívio com um bando de sonhadores e rebeldes, que viriam a incendiar a cena artística portuguesa de meados do século XX, incluindo Fernando Azevedo, Marcelino Vespeira, Júlio Pomar e Alice Jorge. Querubim recorda: “O movimento neorrealista saiu da António Arroio. Íamos visitar os salões do SNI [Secretariado Nacional de Informação, organismo de propaganda do Estado Novo] em Alcântara, onde expunham os modernistas da geração do António Ferro [diretor do SNI], um modernismo que para nós já era um bocado decadente. O neorrealismo foi uma reação tanto política como artística, porque todos nós éramos um bocado de esquerda”.

 

Artes políticas

Querubim foi aprender escultura nas Belas Artes, então no centro da contestação artística. “A primeira exposição Geral de Artes Plásticas aconteceu no salão nobre de Belas Artes, em 1946 [houve mais dez]. Era lá que expunha o pessoal não-alinhado com o Estado Novo. Aquilo era um bocado esquisito, porque tanto expunham os neorrealistas como os bota de elástico, só porque eram contra o regime. Tudo isto tinha um carácter muito político. Claro que a imprensa pró-regime veio logo denunciar a Geral, dizendo que era ali que expunham quadros comunistas. A PIDE [polícia política da ditadura salazarista] mandava sempre alguém antes da inauguração e o arquiteto Keil do Amaral, que dirigia o evento, procurava pôr água na fervura e dizia ao inspetor: “Como vê aqui não há foices”. Mas o pide acabava sempre por levar uns quadros para a Maria Cardoso [Rua António Maria Cardoso onde ficava a sede da polícia política] e depois os artistas tinham de os ir lá buscar”.

Alguns professores das Belas Artes de Lisboa eram também zelosos salazaristas, decididos a infernizar a vida aos jovens insurretos, deixando-os sem outra alternativa (ao chumbo) do que emigrarem para as mais liberais Belas Artes do Porto. Querubim não chegou, no entanto, a criar raízes na Invicta, aceitando no lugar disso um lugar vago no corpo docente da António Arroio, onde veio a dirigir ateliês de cerâmica durante 45 anos. Como em miúdo não pensava ser artista, também à entrada da vida profissional: “Não sonhava com cerâmica. O que eu queria era ser pintor. Na verdade, eu sempre quis ser pintor – costumo até dizer que sou um pintor escondido atrás da cerâmica”. Foi desenvolvendo a pintura em paralelo, quase como um hobby, porque entretanto as encomendas nunca mais pararam de chegar… de outro lado. “Os arquitetos da minha geração também expunham na Geral de Artes Plásticas e foi essa geração que nos veio a dar trabalho. Aconteceu comigo, que fui convidado pelo Chorão Ramalho para executar uns azulejos no primeiro centro comercial de Lisboa, no Restelo” (1956). Querubim estreou-se com um trabalho de azulejaria de padronagem, num jogo moderno de cores e linhas curvas, em clara rutura com a estética folclorista ainda em vigor.

Seguiram-se chamadas de Conceição Silva, outro nome maior do heterodoxo modernismo português, para o qual a decoração cerâmica em vez de ser excluída deveria participar da plasticidade arquitetónica. Dele partiu o convite para o revestimento mural da Casa da Sorte (1963), no coração do Chiado, hoje destacado por Querubim como pináculo da sua obra cerâmica: “No mesmo espaço havia uma lojinha que vendia tabacos, já no tempo do Eça de Queiroz. Eu tinha um ateliê ali ao lado, na Rua Garrett, que aluguei com o arquiteto e designer Daciano da Costa. Mas não fazíamos nada, porque o pessoal de Belas Artes ia lá bater à porta e ficávamos na conversa. Então o Conceição Silva foi encarregado da reconversão da loja para a Casa da Sorte (lotaria) e passou lá a convidar-me. Parti do princípio de que a azulejaria no exterior de qualquer edifício deveria ser integrada na arquitetura, não se sobrepondo à estrutura do prédio. Tive o cuidado de usar o azul claro, sem qualquer decoração além de números. Na parte interior as cores já são mais quentes, há figuras e uma sugestão esotérica por debaixo dos espelhos, onde desenhei uma estrela de sete pontas”.

 

A rota de Querubim

Querubim haveria de assinar inúmeras peças cerâmicas destinadas a integrar projetos de decoração e arquitetura de interiores, como o revestimento de uma coluna do hotel Ritz (1959), os frisos (entretanto demolidos) da Loja das Meias (1960), o baixo relevo no café Mexicana (1962), o conjunto de 40 placas cerâmicas no Hotel do Mar, em Sesimbra (1963), ou o grande relevo cerâmico no Casino do Estoril (1967) – isto só para referir obras superlativas, onde se destaca a sua excepcional gramática escultórica. Pelo meio surgiu a primeira encomenda para um espaço público, vinda por sinal de onde menos esperava: o Estado Novo na figura da Câmara Municipal de Lisboa. Decidida à construção de uma nova rede de escolas primárias, a edilidade convocou um escol de jovens artistas desalinhados, incluindo Querubim Lapa, a quem calhou decorar o muro separador dos recreios de rapazes e raparigas, na Escola Primária de Campolide. “Havia nessa altura uma comissão de Arte e Arqueologia (1956), dirigida pelo arquiteto Raul Lino, que verificava os trabalhos a ser expostos publicamente. Eu tinha feito umas meninas a apanhar borboletas, mas o Raul Lino chumbou o projeto, porque achou que as borboletas eram demasiado bonitas para se matarem. Fiz então uns miúdos com uns livros, de que ele gostou muito. Aproveitei e disse-lhe: ‘Bem agora vou pôr os rapazes do lado das meninas e as meninas no lado dos meninos’. Ele respondeu que nem pensar nisso, não queria misturas”.

“Os Meninos e as Meninas” da Escola de Campolide correspondem a uma depuração do neorrealismo, a que o próprio Querubim gosta de chamar poético e que foi evoluindo até à desconstrução da tradição azulejar, que se reconhece em obras da maturidade como o painel “O Terraço” na Avenida das Índias (1994) e a decoração da estação de metro da Bela Vista (1996). Mais recentemente, Querubim foi chamado de volta à escola de Campolide: “Havia umas paredes lisas no topo do edifício e então fiz uma coisa totalmente diferente, uma pintura abstracta. Não podia estar parado, ou a fazer o mesmo 50 anos depois”. A escola passou a chamar-se Querubim Lapa e o artista ainda não parou de retribuir a honra, juntando-lhe volta e meia novas peças suas.

 

Por Luís Maio

Arquivos

No Segredo dos Anjos

Estudou serralharia, escultura, fez cerâmica e ensinou-a durante cerca de meio século, mas a maior paixão de Querubim sempre foi a pintura. Tanto que depois de tirar  escultura em 1953, na escola de Belas Artes de Lisboa, voltou lá para se diplomar em pintura em 1978 (“alguns dos meus professores tinham sido meus alunos”). Uma paixão tão grande que raramente vendeu para galerias ou para museus, guardando para si mesmo a maior parte da meia centena de quadros que pintou. Uma paixão que agora, justamente, quer ver consagrada. Aos 88 anos de idade, Querubim anuncia: “Estou a preparar uma grande retrospetiva da minha obra pictórica desde o neorrealismo até aos anos 80. Essa retrospectiva podia ter sido feita no Museu do Chiado, mas o meu filho Pedro Lapa foi lá diretor durante treze anos e parecia mal fazer uma exposição com a obra do pai. Agora com o novo diretor isso já é possível e ele até já disse: 'Vamos lá a ver se é agora que fazemos uma exposição sua'”. Vamos lá...

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