Reserva Mundial da Biosfera, esta pequena ilha no Golfo da Guiné é um reencontro com o jardim perdido do Éden. Aqui, o verde absoluto das paisagens tem o significado da esperança.
Terá sido por vontade divina que a natureza se fez assim esplendorosa, mas foi por vontade dos homens que surgiu o desígnio de a devolver ao estado primordial, mostrando ao mundo que ainda é possível acreditar na conservação da biodiversidade como modelo para o desenvolvimento sustentável.
Em 2012, quando a UNESCO atribuiu à ilha do Príncipe – que, juntamente com a de São Tomé, forma um dos mais pequenos países africanos, na costa ocidental do continente – o estatuto de Reserva Mundial da Biosfera, o destino desta já tinha sido traçado, anos antes, pela vontade da população e pela coragem do presidente do Governo Regional. A visão de José Cassandra e dos sete mil habitantes do Príncipe impôs-se contra tudo e todos, sacrificando benefícios imediatos em nome de uma causa maior: fazer deste paraíso na Terra um caso exemplar de preservação das espécies, um laboratório vivo das riquezas do planeta.
Hoje, chegam cientistas de todas as especialidades para estudar fauna e flora e turistas de todo o mundo para se maravilharem com a natureza em estado puro. Florestas inexpugnáveis, cascatas cristalinas, flores e frutos que julgávamos só existirem na nossa imaginação, bichos saídos de um autêntico parque jurássico, o mar verde e azul e cinzento refletindo o céu e as margens de praias desertas em que, sobre a areia dourada, caem as sombras dos coqueirais.
Mas há também a herança histórica e cultural. Paredes silenciosas, agora devoradas pela selva, que nos transportam para o tempo em que os portugueses chegaram com as suas caravelas, há mais de 500 anos, domesticando o que era possível domesticar para o cultivo de plantas trazidas do outro lado do oceano. Foi do Brasil que chegou, primeiro, a cana de açúcar, e depois o café e o cacau que fizeram a fama e a fortuna de São Tomé e Príncipe.
Nas velhas roças, grandes plantações organizadas segundo um sistema em que se destaca a casa principal rodeada pelas habitações destinadas aos encarregados e, mais além, a sanzala, onde viviam os escravos e serviçais, perduram os fantasmas de um passado que, por um lado, envergonha a nossa memória, e, por outro, reflete a ousadia dos que enfrentavam as adversidades do clima tropical em busca da sorte e da fortuna.
Ora, como águas passadas não movem moinhos, algumas destas casas foram reconvertidas em hotéis de charme, constituindo atualmente a fonte de rendimento de várias famílias locais. É esse o caso da Roça Sundy, um dos três projetos hoteleiros do Grupo HBD, que investiu fortemente na ilha em nome do sonho coletivo que Mark Shuttleworth, visionário sul-africano, se dispôs a copatrocinar: fomentar as boas práticas ecológicas e o turismo sustentável.
A ilha da fantasia
Quando se junta a fome com a vontade de comer o resultado pode ser… um banquete inesquecível. Visitei pela primeira vez o Príncipe em finais de 2014. Nessa altura a ilha debatia-se com um grave problema de desemprego e, apesar das promessas, a população tinha a descrença estampada na cara. Habituada à sobrevivência, o dia-a-dia era uma luta constante para assegurar coisas básicas como material escolar ou medicamentos. Transformar séculos de “um certo modo de vida” não é fácil e os projetos que então me foram apresentados pareciam saídos daquela série televisiva em que um anão recebia os convidados dizendo: “Welcome to the Fantasy Island.”
Nunca o ter-me enganado me deixou tão feliz. Talvez o golo que o Éder marcou pela seleção portuguesa à França na final do Europeu de Futebol de 2016, mas acho que nem isso.
Aterro novamente no pequeno aeroporto em fevereiro de 2018. A paisagem continua bela, tão bela que não é por causa da humidade asfixiante que nos falta o ar. Aqui é mais fácil acreditar no Deus de Spinoza, um Deus que se revela na harmonia da natureza, criador de toda a ordem e de todo o caos que rege o universo.
A caminho do resort Bombom, o primeiro a ser explorado pela HBD, as árvores luxuriantes e o perfume relaxante das plantas de ylang ylang atuam como bálsamos, ativando os cinco sentidos. Nada de novo nos elegantes bungalows que pairam sobre o mar escondidos entre a vegetação frondosa. E no prazer que é descer até uma das duas praias mergulhando nas águas opalinas e quentes. Só quando, depois de almoço, nos dirigimos à mais pequena das capitais do mundo, a tranquila e pitoresca cidade de Santo António, começo a perceber as diferenças.
Lá está a bonita igrejinha de traça portuguesa com o seu campanário e as coloridas casas coloniais assomando à janela para ver as palmeiras de leque. E lá está a pachorrenta baía por onde passam típicas mães africanas com os bebés às costas. Mas as ruas estão imaculadas e há agora pequenas lojas onde se vendem produtos locais transformados, rótulos impecáveis com o selo verde onde se lê “Príncipe Responsável”. Mel, cremes, compotas, óleos essenciais e vinagres, artesanato, brinquedos e joias feitas de materiais reciclados.
A poucos quilómetros, junto à Roça de Porto Real, visitamos a Cooperativa de Valorização de Resíduos, onde um grupo de mulheres, com a ajuda da incansável bióloga portuguesa Estrela Matilde, diretora da Fundação Príncipe Trust, transforma garrafas de vidro em jóias exclusivas. É um dos projetos mais visíveis desta ONG, mas há várias outras iniciativas com resultados encorajadores, como o Bumbú d’lê, que promove a produção de mel enquanto alternativa ao corte de árvores para extração de madeira ou o Captura Zero, que, a par do Protetuga, incentiva mudanças comportamentais na proteção da biodiversidade marinha, especialmente na conservação das tartarugas, que faziam parte da ementa diária dos ilhéus. Mais tarde, na Praia Grande, a brasileira Vanessa Schmidt haveria de nos explicar, orgulhosa, como conseguiram ter este ano, durante a época reprodutiva, cerca de 1800 ninhos de tartaruga, um verdadeiro milagre.
Criada em 2015, a Príncipe Trust nasceu da necessidade de reorganizar as iniciativas de cariz ambiental e social que, desde 2011, a HBD vinha patrocinando como complemento da estratégia regional de desenvolvimento sustentável. Três anos depois, a fundação autonomizou-se jurídica e financeiramente do grupo hoteleiro, apesar de este constar ainda como um dos seus principais patrocinadores, a par do Governo Regional e da Reserva Mundial da Biosfera.
Não muito longe dali, nas imediações da cidade, junto a uma montanha de latas e de garrafas de plástico, encontramos Henry, cidadão do Zimbabué, que continua à procura da fórmula mágica para fabricar tijolos a partir daqueles resíduos. São cerca de 222 mil garrafas de plástico em troca das quais os habitantes do Príncipe receberam garrafas de aço inoxidável reutilizáveis, com que andam à cintura e que podem encher numa das 13 fontes espalhadas pela ilha.
Um admirável mundo
Com um sorriso de orelha a orelha, Djermilson, jovem moto-taxista, conta-nos como a vida da população mudou nos últimos anos. “Dantes não tínhamos emprego e éramos obrigados a sair da nossa terra. Eu voltei há um ano de São Tomé porque agora há trabalho.” Cruzamo-nos com ele a caminho da Roça Paciência, onde a HBD tem o projeto de agricultura biológica para fornecer hortícolas frescos aos hotéis, mas também para valorizar as ervas aromáticas e as plantas medicinais que fazem do Príncipe um gigantesco herbário. É lá que os diferentes produtos se transformam em compotas, muesli tropical, cremes e óleos de beleza ou no chocolate que, em seguida, encontramos na fantástica mesa da Roça Sundy, reconvertida em hotel de charme há cerca de um ano. No histórico edifício onde o físico inglês Arthur Eddington comprovou – fotografando um eclipse total do Sol – a Teoria Geral da Relatividade de Einstein (1919), os funcionários são todos locais. Tal como são locais os ecoguias formados para nos levar pelos vários Trilhos da Biosfera que percorrem a ilha. Das florestas do Parque Natural ao Pico Papagaio, passando pelas ruínas da igreja de Ribeira Izé, pela cascata Montalegre, por roças abandonadas, por rochas vulcânicas, macacos, orquídeas, estranhas plantas e miríades de pássaros coloridos.
No dia seguinte, num passeio de barco à magnífica baía das Agulhas, os picos distantes que avistamos no misterioso sul da ilha são o cenário perfeito para um mergulho refrescante nas águas translúcidas em que, além de tartarugas, se passeiam ocasionalmente baleias e golfinhos. Neste regresso ao Éden, jardim primordial do qual nos fizemos expulsar, voltamos a ter a esperança, verde como só ela, de um futuro sustentável para a Terra, casa de todos nós.
por Patrícia Brito /// fotos Maique Madeira
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