Embarque nesta viagem pelo essencial de Portugal e venha descobrir o país da TAP. O mar, a geografia, a história, as gentes, as tradições, a cultura, a natureza, os sonhos e as expectativas de um povo que, pelo mar, por terra ou pelo ar, OUSA SEMPRE SONHAR MAIS ALTO!
I – SETE CIDADES
Na bandeira republicana portuguesa figuram ao centro sete castelos, símbolos enérgicos da integridade e independência nacional. As cidades são os centros mais enérgicos da identidade lusa. Por isso, escolhemos sete que, pela sua importância histórica, geográfica, cultural, turística, económica ou política, se projetam como motores do país. Sem desprimor para todas as outras.

A – Guimarães
A longa vida de Guimarães respira-se no centro histórico, com as suas encantadoras praças, ruas medievais e esplanadas. Cidade-berço do rei que conquistou a soberania do Condado Portucalense (1143) – D. Afonso Henriques –, é mais velha do que o país. Esta antiguidade é a razão mais legítima para explicar a natureza dos vimaranenses. Participativos e bairristas, são acérrimos guardiões do seu burgo, ainda que simpáticos anfitriões.
1 – O centro
Habitações “terreiras” e “casas-torre” coabitam alegremente com edifícios medievais. É aqui, num cenário de época, que bate o coração de Guimarães. Património da Humanidade, engloba a milenar rua de Santa Maria, a praça de Santiago e a praça da Oliveira.
2 – Castelo e Paço Ducal
Suba até ao Monte Latito para encontrar o verdadeiro berço da nação. Mandado construir pela condessa Mumadona, e mais tarde morada dos pais de D. Afonso Henriques, o castelo olha sobranceiro a cidade dando asas a fantasias medievais. Já o Paço dos Duques de Bragança (século XV) tem influências da arquitetura nobre da Europa setentrional, lembrando-nos os universos da Branca de Neve.
3 – Percursos culturais
Como Capital Europeia da Cultura, em 2012, Guimarães renovou a sua oferta. Dos vários equipamentos, destacam-se a moderna Plataforma das Artes, o mais velho museu arqueológico de Portugal, o da Sociedade Martins Sarmento, o museu Alberto Sampaio e o Centro Cultural Vila Flor, com uma programação bastante eclética.
B – Porto
O Melhor Destino Europeu em 2014 tem fama que vem de longe, tal como o seu carismático vinho, a sua hospitalidade, a sua movida urbana, os seus cenários únicos no encontro do rio Douro com o Atlântico e uma febril vida artística que se renova pelos quatro cantos da cidade. Entre as novas e as velhas tendências, com um pé na Ribeira e outro na Foz, um olho no Centro e outro na Boavista, escolha os seus percursos e atravesse pontes, ligando todos os pontos com que se cose a mais bela das cidades do norte.
1 – E pur si muove!
Uma cidade em metamorfose. Mantendo a raiz na antiguidade e na tradição liberal – das ruas e dos monumentos, das avenidas e dos edifícios, dos cafés e livrarias, dos alfarrabistas e dos artesãos, das caves do vinho do Porto e das igrejas, das estações de comboios e dos palácios, das tascas e do Mercado Ferreira Borges, das tripas e das francesinhas –, o Porto mudou de farpela num ápice e, depois de ser Capital Europeia da Cultura, em 2001, tornou-se num dos destinos hipster da Europa. Dos parques verdes, à excelente e variada oferta cultural, das praias com surfistas à excitante vida noturna.
2 – Texturas e arquiteturas
Nesta cidade de arquitetos, uns mais Pritzker que outros, à medida que for seguindo o seu guia de bolso, ponha os olhos no alto e descubra as obras-primas. Faça também por se embrenhar nas ruas, as populares, as de fino comércio e as imperiais, e por lhe degustar os sabores, os das tascas e os Michelin.
3 – Cultura hipster
Das galerias de arte da Rua de Miguel Bombarda aos bares da Rua das Galerias de Paris, das lojas retro da Rua do Almada às lojas pop-up, dos ateliers de designers às festas do bar Passos Manuel, tudo pode acontecer. O que não pode deixar de acontecer é participar na vibrante e renovada vida cultural da cidade. A Fundação Serralves (jardins e museu), o Museu Soares dos Reis, a Casa da Música e o Coliseu são de visita obrigatória. Mas os teatros, os espaços alternativos, os armazéns, os concertos, as feiras e as oficinas criativas estão certamente ao alcance da sua curiosidade.
C – Guarda
Fundada no século XII, faz parte da magnífica paisagem montanhosa da serra da Estrela e é a cidade mais alta do país, a 1056 metros. Por perto, encontram-se as localidades serranas de Seia e Manteigas, belas encostas para esquiar e as tranquilas margens do rio Zêzere. Entre na cápsula do tempo e viaje para cenários da Idade Média.
1 – Castelos no ar
A Sé Catedral impõe-se no coração da cidade, onde palpitam praças e ruas medievais, velhas muralhas e antigas judiarias. Na fronteira com Espanha, a região mantém ainda muitos dos seus castelos. Brinque aos cavaleiros e às princesas em vilas como Figueira do Castelo Rodrigo, Pinhel, Almeida, Sabugal ou Sortelha. E já que está na Idade Média porque não dar outro salto no tempo, até ao Paleolítico? No Parque Arqueológico de Foz Côa vai ficar maravilhado com a falta de jeito dos nossos antepassados para as artes e com a excelente lição antropológica.
2 – Viseu
As festas populares, os vinhos do Dão, a fama gastronómica e os tesouros culturais fazem parte dos encantos desta cidade com vista para as Aldeias do Xisto e para as serras do Caramulo e da Estrela. Em Viseu, parta do Adro da Sé e visite de uma assentada a riquíssima catedral, o imperdível Museu Grão-Vasco e a rococó Igreja da Misericórdia. Abençoado estará para provar os inspiradores vinhos locais no Solar do Dão e para seguir viagem até à religiosa Lamego.
3 – Castelo Branco
Rija e morena como o granito das suas paredes, delicada como os seus bordados, a capital da Beira Baixa, aprimora-se no casario que desce o castelo, enobrece-se na Praça do Município e benze-se na Sé Catedral, a caminho do seu ex-líbris: o antigo Paço Episcopal (hoje um museu) com o original jardim barroco. A paisagem rural tropeça de vez em quando em aldeias perdidas no tempo, como Monsanto, Penha Garcia ou Proença-a-Velha. Tudo isto lá para os lados de Idanha-a-Nova, terra de marqueses e de toiros. As Portas de Ródão e Belmonte, onde nasceu o descobridor do Brasil, fazem parte do roteiro.
D – Coimbra
Uma universidade e uma canção. O rio Mondego e a mata do Choupal. Berço do conhecimento, o trio formado pela Universidade, a Alta e a Sofia é Património da Humanidade. Mas há muito mais para descobrir. O fado e a tradição, os monumentos e igrejas, os parques e jardins e a grande animação que é a vida académica, compasso da cidade.
1 – A universidade
Testemunho de sete séculos de saber, a Universidade de Coimbra é uma das mais antigas e importantes da Europa. Por ela passaram grandes vultos do saber na língua de Camões (incluindo o próprio). Determinante na vida da urbe e depositária das tradições académicas desde que D. Dinis a fundou, em 1290, dentro do complexo são de visita obrigatória a Torre – com “A Cabra”, o odiado sino que regia a alvorada e as horas de recolher dos estudantes –, a sala dos Capelos e a fabulosa Biblioteca Joanina, delírio barroco do século XVIII que guarda verdadeiras preciosidades.
www.uc.pt
2 – A Alta e a Sofia
Alma da cidade, a Alta foi poiso do fórum romano, da alcáçova muçulmana e do paço real medieval. Comece a visita pelos museus Machado de Castro e da Ciência e siga depois para as duas sés: a Nova e a Velha. Pelas ruas, admire os portais manuelinos das fachadas e passe pelas escadas do Quebra-Costas, pela Torre e pelo Arco de Almedina. Atravessando a Porta da Barbacã, chega-se à cidade extramuros. O desenho medieval da Baixa mantém-se mais ou menos fiel ao original. Aqui, há que visitar a Rua Direita e a Rua da Sofia, montra do renascimento. Pouco adiante ficam o Mosteiro e Igreja de Santa Cruz (século XII).
3 – A margem esquerda
Antes de atravessar o Mondego passe pela mata do Choupal. É um bom estágio para entrar no mundo lendário dos amores proibidos entre D. Pedro I, herdeiro da Coroa, e D. Inês de Castro, a aia galega de sua esposa. A história, passada no século XIV, acaba numa tragédia, mas Inês é coroada rainha depois de assassinada, uma vitória do amor celebrada na Quinta das Lágrimas, lugar dos encontros secretos de Pedro e Inês. Bem perto fica o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, onde poderá apreciar as ruínas da igreja gótica e do Paço de Dona Isabel – a Rainha Santa. Outra das coqueluches é o Portugal dos Pequenitos, minirréplica apologética do património arquitetónico e cultural construída durante o Estado Novo.
E – Lisboa
A luz é só sua, namorando o rio Tejo. Lisboa é varina, é marinheira, é marialva, fidalga e fadista, elegante e vadia, tradicional e moderna, cosmopolita de séculos a ver chegar e partir gente. Nos becos e vielas, nas ruas e praças, subindo e descendo as colinas, a cada passo, uma descoberta. Da arquitetura à gastronomia, dos recantos aos jardins, da História às histórias, dos alfacinhas às ruas, da música ao comércio, das artes ao artesanato, dos monumentos ao simples prazer de contemplar o horizonte num dos seus inesquecíveis miradouros. Bem-vindo a uma das mais belas cidades do mundo!
1 – Alfacinha
Antes de partir em expedição urbana, sente-se num dos muitos restaurantes e coma e beba os excelentes sabores da cidade e do país. Vai ver que entenderá melhor os caprichos da misteriosa diva que ora canta o fado, boémia, ora se empertiga com tiques europeus, capital, ora se abana aos ritmos do kuduro, lusófona e atrevida. Nesta cidade de escala muito humana, vá pelos seus pés, descobrindo as praças, o castelo, os elevadores, as igrejas tocando os sinos, os parques, as ruas com toponímia romanesca, os largos e pátios, as avenidas, os elétricos, as calçadas, os azulejos, as vielas, os bairros – cada um com a sua personalidade –, o casario, os manjericos, os miradouros, os palácios, os conventos e mosteiros, os museus, os teatros, os jardins, os monumentos, as lojas, as mercearias e as oficinas, as galerias e os ateliês, a arquitetura, a fantástica marginal junto ao Tejo, os recantos, as escadinhas, os segredos bem-guardados, as misturas sociais e os cruzamentos culturais, os heróis, os santos e os poetas, a alma!
2 – Boémia
O fado ouve-se em Alfama e no Bairro Alto, misturando-se com outros sons a coberto da noite, que a movida é forte, diversificada e uma das melhores da Europa. Do Cais do Sodré a Santa Apolónia, de Santos ao Intendente, quase tudo mexe a sul. Restaurantes, esplanadas, bares, tascas, clubes, associações, festas, ruas, praças… e a cidade a dançar. Aviso à navegação: a noite começa tarde e pode acabar no dia seguinte.
3 – Vizinha
As boas relações de vizinhança proporcionam passeios à distância de um carro ou comboio. E as paisagens são tão maravilhosas como diversas. Da aristocrática e verde Sintra à não menos elegante linha do Estoril e Cascais, agora em versão balnear. A sul, ficam os areais da Costa da Caparica e do Meco, as baías da Serra da Arrábida e a Península de Tróia. Sesimbra, Setúbal e Azeitão ficam em caminho. Se seguir para norte vai dar de caras com a pitoresca região saloia e com o Oeste. Campo, uma agreste e bela linha costeira, o mar rebelde e a mesa farta são mais do que boas razões para se pôr a caminho.
F – Évora
A principal cidade do Alentejo foi fundada em 1166 e conserva as marcas do rendilhado de culturas que a povoaram (a celta, a romana, a judaica, a árabe), sendo Património da Humanidade. Além da monumentalidade de Évora, é a serenidade do seu casario branco que melhor condensa o espírito alentejano. Tudo se deve ao calor. A planície sob sol intenso é a imagem de marca da região e convida ao descanso debaixo dos chaparros. A comida e o bom vinho fazem o resto. Durma a sesta, mas abra bem os olhos para um museu vivo de culturas.
1 – Cultura citadina
Flua com calma alentejana pela cidade, mas não deixe de visitar a Sé Catedral, de 1250, o manuelino-renascentista Convento dos Lóios e a belíssima Igreja de São Francisco (século XII), que tem na Capela dos Ossos um dos ex-líbris de Évora. O nome deriva do seu macabro revestimento: as paredes estão cobertas de ossos humanos. Incontornáveis também são o romano Templo de Diana, (séc. I), o Palácio de D. Manuel I, o Palácio dos Duques de Cadaval, a Capela de São Brás ou o Aqueduto da Água de Prata. Na cultura o protagonismo vai para o Teatro Garcia de Resende, ao estilo italiano do século XIX, para o Museu de Évora e para a Fundação Eugénio de Almeida, com uma fértil e variada programação.
2 – Cultura campestre
A oeste ficam as praias, mas a essência do Alentejo é a planície. Durante quilómetros os campos de trigo marcam a paisagem, cortada ocasionalmente por aldeias caiadas de branco, campos de girassóis, montados de sobreiros e rebanhos de ovelhas. De vez em quando, despontam no horizonte terriolas com castelos. Começando a norte, são merecedoras de visita vilas e cidades como Portalegre, Nisa, Marvão, Castelo de Vide, Alter do Chão, Estremoz, Arraiolos, Évora Monte, Elvas, Vila Viçosa, Reguengos de Monsaraz, Beja e Serpa.
G – Lagos
De olhos postos em África, o Algarve, faixa mais austral de Portugal, mistura o exotismo mourisco, o glamour de praia mediterrânico, três mil horas de sol português e a filosofia de vida carioca. No verão, é um dos hot-spots europeus. Em Lagos, o centro histórico leva-nos ao encontro dos vestígios deixados por romanos e árabes.
1 – Virada para além-mar
O centro de Lagos é uma montra de artistas de rua e de esplanadas, mas também há histórias de navegadores e piratas. Gil Eanes partiu de Lagos para dobrar o Cabo Bojador, em 1434, dando o tiro de partida para a epopeia marítima nacional. A Igreja de Santo António, obra-prima do barroco, testemunha o esplendor de outros tempos, quando Lagos era a capital do Algarve (hoje, é Faro). Traduzindo a ligação ao mar, chegam ao porto traineiras coloridas carregadas de peixe e, na marina, balouçam iates de todo o mundo.
2 – Finisterra europeia
O oeste algarvio termina no Cabo de São Vicente, que na Idade Média era considerado o fim do mundo. Talvez por isso, reza a lenda que na vila de Sagres terá funcionado a escola de navegação do Infante D. Henrique, peça-chave para os Descobrimentos.
3 – Mar, serra e cidades
O Algarve é famoso pelas suas praias, mas também pelas serranias: Monchique, com as suas penhas e cascatas, e Espinhaço de Cão, com as suas aldeias entre medronheiros, são perfeitas para desenjoar da praia. Se preferir as cidades, Silves e Lagos têm pergaminhos históricos, Portimão e Albufeira são mais cosmopolitas e dão cartas na vida noturna e Tavira é uma montra de arquitetura.
::
II – GANHAR ASAS
Chegam com a primavera e vão-se embora com o outono. Estas alegres aves que cruzam os céus com grande rapidez são prenúncio de dias mais longos e soalheiros. Não são bichos de um lugar só e por isso escolhemo-las para representar algumas das muitas rotas turísticas que existem em Portugal. Históricas, etnográficas, religiosas ou levando-nos de passeio pelo nosso lado mais selvagem: eis um breve, mas rico, sortido.

1- Históricas
A) Românico
Estilo arquitetónico que nasceu no século X e que se espalhou um pouco por toda a Europa. Em Portugal, a sua expansão coincide com o reinado de D. Afonso Henriques e com a conquista do território, daí que seja mais visível no noroeste e centro do país. Predominantemente religioso, este estilo encontra-se em sés como as do Porto, Coimbra e Lisboa, ou em mosteiros como o de Santa Cruz de Coimbra. No site da Rota encontrará programas pré-definidos e também a hipótese de criar um à medida das suas expetativas.
www.rotadoromanico.com
B) Manuelino
Expressão artística genuinamente portuguesa, o manuelino desenvolveu-se no reinado de D. Manuel I (1491-1521), no auge dos Descobrimentos, cujas viagens inspiraram muitos dos elementos naturalistas (conchas, cordas, corais, animais exóticos e imaginários) desta complexa ornamentação. A esfera armilar, símbolo do poder régio, e a cruz de Cristo, símbolo do poder divino, são os motivos mais importantes do estilo que é marcante na Torre de Belém e no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. Para ver mais e melhor manuelino, nada como passar pelo Convento de Jesus, em Setúbal, pelo da Batalha, e pelo extraordinário Convento de Cristo, em Tomar. Além destes, encontrará inesperados vestígios do estilo um pouco por todo o país, sobretudo em portais e janelas.
www.visitportugal.com
2- Etnográficas
A) Aldeias do Xisto e Aldeias Históricas
Xisto
Chamadas “do xisto”, por ser esta a pedra usada na construção das casas (e nos pavimentos das ruas), as 27 aldeias encontram-se no centro do país, sobretudo nas serras da Lousã e do Açor. Castelos, monumentos e museus que nos falam de outros tempos, pessoas de sorriso fácil, receitas ancestrais e tradições mais antigas ainda são os ingredientes desta rota que também não está nada mal servida de praias fluviais e paisagens pintadas a verde.
www.aldeiasdoxisto.pt
Históricas
Encontram-se ao longo de toda a linha de fronteira e distinguem-se ao longe pelas torres dos seus castelos medievais, baluartes importantíssimos na defesa do país. São testemunhas de histórias e lendas que o tempo não consegue apagar. No total existem doze aldeias, entre as quais Piódão, Monsanto e a encantadora Idanha-a-Velha. Esta é uma grande rota que atravessa três áreas protegidas (Parque Natural da Serra da Estrela, Parque Natural do Douro Internacional e a Reserva Natural da Serra da Malcata). Não tente fazê-la de uma só vez porque não há como digerir como deve ser uma história com 900 anos.
www.aldeiashistoricas.adsi.pt
B) Arte Equestre
O cavalo lusitano é o mais antigo cavalo de sela do mundo. Versátil, ágil, corajoso e dócil está à vontade no desempenho de todas as modalidades equestres. Se tem dotes de cavaleiro, ou se os quer ter, sugerimos que passe pela Escola Portuguesa de Arte Equestre (Queluz) – fiel guardadora da tradição da Real Picaria, academia equestre da corte no século XVIII – e também pela Coudelaria de Alter (Alter do Chão), a mais completa e nobre de Portugal, fundada em 1748 por D. João V. Outros bons lugares para cavalgar toda a sela ou para sair em passeatas de vários dias pelos caminhos históricos de Portugal são a Coudelaria Morgado Lusitano e a Companhia das Lezírias. No site do Turismo de Portugal encontra um guia de turismo equestre com escolas e coudelarias de norte a sul do país. www.guiastecnicos.turismodeportugal.pt/pt/equestre.
www.parquesdesintra.pt
www.alterreal.pt
www.cl.pt
www.morgadolusitano.pt
3- Religiosas
A) Fátima
Em 1917, na Cova da Iria, três pastorinhos – Jacinta, Francisco e Lúcia – testemunharam uma série de aparições de Nossa Senhora. Nesse lugar nasceu uma capela e, mais tarde, o Santuário de Nossa Senhora do Rosário, uma das maiores referências do culto mariano e ponto de encontro de peregrinos de todo o mundo. Jacinta e Francisco foram proclamados beatos pelo Papa João Paulo II em 2000.
www.fatima.pt
B) Judiarias
Chamados sefarditas, os judeus ibéricos estabeleceram-se na península ainda no tempo do império romano. Durante a Idade Média, habitavam as chamadas judiarias, que estão impecavelmente conservadas na faixa raiana (Guarda, Covilhã, Castelo Branco, Celorico da Beira, Pinhel e Castelo de Vide) e dedicavam-se sobretudo às artes e ofícios ou a atividades financeiras. Em 1497, o rei D. Manuel ordenou a expulsão dos judeus portugueses que não se quisessem converter ao catolicismo. Muitos abandonaram o país, mas outros refugiaram-se nas zonas fronteiriças e formaram comunidades fechadas onde, secretamente, praticavam o seu culto ficando conhecidos como cripto-judeus. Os núcleos cripto-judaicos mais relevantes ficam em Trancoso, Penamacor e Belmonte.
www.redejudiariasportugal.com
4- Naturais
A) Rota Vicentina
Percurso pedestre de 350 quilómetros que atravessa o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Separada em dois caminhos fundamentais, a rota está dividida em etapas que variam entre os 15 e os 25 quilómetros e que podem ser percorridas no sentido norte/sul e vice-versa em total autonomia e segurança.
Caminho Histórico
Mantendo-se fiel aos caminhos trilhados pelos antigos peregrinos, percorre as principais vilas e aldeias do sudoeste alentejano e da costa vicentina, desde Santiago do Cacém ao Cabo de São Vicente. É uma viagem ao lado mais rural da região com escala no montado a perder de vista, na serrania que tem vista para o mar e em aldeias à moda dos velhos tempos. Tem 12 etapas e um total de 230 quilómetros que podem ser feitos tanto a pé como de bicicleta todo-o-terreno.
Trilho dos Pescadores
Traçado a partir dos caminhos que os habitantes usam para chegar às praias, o trilho que se estende de Porto Côvo ao Cabo de São Vicente só pode ser percorrido a pé. É um tanto mais exigente do ponto de vista físico, mas isso pouco ou nada importa quando a paga são paisagens deslumbrantes onde o mar e as escarpas são os companheiros de viagem. Prepare-se para encontros imediatos com ninhos de cegonhas nas falésias e para perceber as subtilezas da paisagem, que muda de etapa em etapa. É composto por quatro etapas e cinco circuitos complementares e tem um total de 120 quilómetros. Entre o muito que pode fazer enquanto segue a rota, destacamos os passeios de burro.
www.rotavicentina.com.
B) Trilhos dos Açores e Levadas da Madeira
Não há melhor forma de conhecer a ilha da Madeira do que dar corda aos sapatos, encher o peito de ar e palmilhar os mais de mil quilómetros de levadas que a rasgam de ponta a ponta. Estes caminhos pedestres que ladeiam os canais de irrigação são o passaporte para paisagens de cortar a respiração que incluem vales profundos, montanhas que quase tocam as nuvens e vistas de mar que fazem estremecer de emoção até os corações mais empedernidos. Todos os percursos (de dificuldades variáveis e um adaptado a pessoas com mobilidade reduzida) estão devidamente assinalados e podem ser percorridos em autonomia ou na companhia de guias. Nos Açores a história repete-se. Em cada uma das nove ilhas do arquipélago há dezenas de trilhos devidamente sinalizados à disposição do viajante. Aqui, como na Madeira, é garantido que se vai cruzar com paisagens sublimes.
www.visitmadeira.pt
www.trilhos.visitazores.com
::
III – PORTUGAL AO NATURAL
Espécie mediterrânea com mais de 60 milhões de anos, o sobreiro ocupa uma área de cerca de 737 mil hectares dos mais de 3,45 milhões de hectares de floresta portuguesa. Dele extrai-se a cortiça, que representa 10% das exportações nacionais. Mas, para além da cortiça, utilizada em mil e uma coisas – de rolhas a revestimentos de foguetões –, a árvore nacional de Portugal, representa um dos ecossistemas mais importantes da Europa: o montado.

Escolhemos o sobreiro como símbolo do nosso lado selvagem. E, mais uma vez, provamos que o tamanho não importa. É que, apesar da sua pequena dimensão, Portugal tem tantos portentos naturais que não há dedos das mãos nem dos pés juntos que cheguem para os enumerar – só os parques e reservas naturais são mais de 20. Isto para não falar dos jardins, matas, pinhais e tapadas de norte a sul.
O mais importante parque natural de Portugal fica no extremo noroeste do país, entre o Alto Minho e Trás-os-Montes. As serras da Peneda e do Gerês formam a única área protegida classificada como Parque Nacional. Neste mundo à parte, a natureza é soberana e as pessoas fruem dela com respeito, amor e tradição, como o provam as aldeias comunitárias de Tourém e Pitões das Júnias. O verde é tão viçoso como o das paisagens escocesas e proliferam endemismos como o lírio do Gerês, alegre flor em tons de azul e violeta. Montanhas rasgadas a meio por vales exuberantes onde correm rios e ribeiras que depressa se transformam em turbulentas cascatas ou plácidas albufeiras são paisagens corriqueiras por estas bandas. Corços e lobos ibéricos andam livres pelo Parque, tal como garranos (cavalos selvagens), vacas barrosãs e cães Castro Laboreiro (raça 100% portuguesa) que guardam rebanhos. Neste limbo entre o real e o imaginário, os viajantes mais radicais têm muito em que gastar energia: canyoning e canoagem são duas de várias hipóteses. Já os mais contemplativos devem optar pelos trilhos pedestres que se cruzam com antas e dólmenes, estradas romanas, castelos medievais e mosteiros.
Não muito longe do Gerês encontramos outro peso-pesado, o Parque do Douro Internacional, na fronteira nordeste entre Portugal e Espanha. Nestes mais de 85 mil hectares de área protegida, abundam bosques de zimbro e matas de azinheiras e carvalhos e esvoaçam cegonhas-pretas, águias-reais e abutres do Egito. O microclima favorece culturas mediterrâneas como a vinha e o olival. Em fevereiro/março, a natureza encena um dos seus mais pictóricos espetáculos – o das amendoeiras em flor. Mas não é só o seu valor natural que torna este parque de visita obrigatória. Nas redondezas encontrará surpresas arqueológicas (como as gravuras rupestres em Foz Côa), etnográficas (o folclore e a língua mirandeses) e gastronómicas.
Seguimos pela raia até ao Parque Natural da Serra da Estrela, a maior área protegida de Portugal. Assente num maciço montanhoso recortado pelos vales dos rios e ribeiros, é uma sucessão de fragas, penhascos e rochedos. O símbolo do parque é um cristal de gelo, em alusão à origem glaciar da serra onde fica a montanha mais alta de Portugal continental. No inverno este quadro pinta-se de branco e há quem troque os passeios a pé pelos esquis. No verão o verde domina a paisagem e as lagoas ficam ainda mais bonitas. Perca-se neste mundo onírico e descubra aldeias sem tempo e sabores inesquecíveis como o do queijo da Serra.
Às portas de Lisboa, o Parque Natural Sintra-Cascais é mais uma boa prova de que o homem soube respeitar a natureza. A serra de Sintra é um lugar onde, sem grande esforço, a imaginação ganha asas. Não é difícil, quando se caminha por este misterioso universo verde, inventar uma fada poisada numa árvore ou um druida escondido numa gruta. A caça à natureza em estado bruto atira-nos ainda para paragens como as dunas fósseis de Magoitos e Oitavos, os campos de lapiás do Cabo Raso ou as arribas pejadas de pegadas de dinossauros da Praia Grande. Para ver e rever, o ponto mais ocidental da Europa continental e um dos pontos de vista mais espetaculares do país: o imponente Cabo da Roca.
Pintado a três cores – o branco das falésias de calcário, o verde da mata rasteira e o azul hipnótico do mar –, o Parque Natural da Arrábida é um delírio da criação. A riqueza vegetal é um dos maiores bens do parque. O encontro da serra com o mar cria um cordão de praias de areias brancas e água turquesa que, sendo atlânticas, a Figueirinha, Galapos e o Portinho da Arrábida, mais parecem mediterrânicas.
Não podendo falar-lhe de todos os nossos tesouros selvagens (só porque não há revista que chegue), não queremos dar o assunto por encerrado sem lhe apresentar os arquipélagos, diamantes em bruto. Os Açores são nove ilhas onde a natureza impressiona: seja em lagoas recatadas, campos de lava estendidos à beira mar, picos imponentes, pastos desenhados por muros de basalto e flores de todas as formas, cores e feitios. Nos Açores, mas sobretudo na Madeira, encontramos a laurissilva – floresta ancestral, húmida e subtropical. Ocupa cerca de 20% da ilha da Madeira e é uma paisagem protegida reconhecida pela UNESCO.
::
IV – H2O
Pequeno instrumento teve um papel determinante na epopeia marítima portuguesa. O astrolábio náutico representa a nossa água: a salgada, o imenso mar português. Mas também há espaço para a doce, retratada por rios, lagos e rias.

Salgada
Sabia que, apesar de ser um dos seus países mais pequenos, Portugal tem uma das maiores zonas económicas exclusivas (ZEE) da Europa? E que o peixe do mar português tem fama de ser o melhor do planeta? E que há mais de mil spots ideais para o surf? E que algumas das praias mais bonitas do globo são aqui? Pouca terra e muito mar. Fora de água, o país tem quase 92 mil quilómetros quadrados, dentro dela são cerca de 4 milhões.
Continuando com números, a linha de costa de Portugal continental tem 943 quilómetros, mais os 667 quilómetros de costa no arquipélago dos Açores e os 250 da Madeira. O que é que isso significa? Praias a perder de conta – e de vista. Na hora de as distribuir pelo mundo, a criação foi muito, mas mesmo muito, generosa com Portugal. Com o Algarve sobretudo. E não somos nós (os suspeitos do costume) que o dizemos: as águas cristalinas e os rochedos da Praia Dona Ana (Lagos), valem-lhe o título de praia mais bonita do mundo para a revista Condé Nast Traveller; enquanto a recatada Praia da Marinha (Lagoa) está no top 100 do guia Michelin.
Na UP temos uma predileção pela Praia de Moledo (Caminha), pela Costa Nova (Aveiro), pela Foz do Arelho (Caldas da Rainha), pelo Baleal (Peniche), por Santa Cruz (Torres Vedras). A sul do Tejo, as nossas favoritas são o Meco e o Portinho da Arrábida (Setúbal), a Comporta (Tróia), o Malhão (Vila Nova de Nova de Mil Fontes), a Arrifana (Aljezur), Odeceixe e a Ilha de Tavira. Já nas ilhas, a praia de Porto Santo, no arquipélago da Madeira, e a dos Areais de Santa Bárbara, em São Miguel, nos Açores, enchem-nos as medidas no que toca a águas límpidas e tépidas.
Para tirar o máximo proveito de toda a linha de costa, nada como seguir as estradas e rotas pedestres do litoral e procurar muito bem entre falésias, penhascos, dunas e pinhais – sim, porque há matas que vão desembocar no mar e escondem verdadeiras pérolas. O que propomos é uma espécie de caça ao tesouro, bem sabemos, mas verá que a recompensa vale por si.
E quando se tem uma costa deste calibre, não é de estranhar que o surf, windsurf, kitesurf e bodyboard sejam desportos em ascensão. O surf especialmente. Um levantamento recente fala em mais de mil spots ideais para o desporto rei dos povos polinésios – entre eles a reserva mundial de surf, Ericeira, e a célebre Supertubos, em Peniche. É por estas e por outras que nos chamam a “Califórnia da Europa” (ver caixa).
Debaixo de água o deslumbramento continua. De há uns anos para cá, não faltam cabeçalhos em revista da especialidade a apregoar os mergulhos fabulosos que se podem fazer nos Açores junto a tubarões-baleia, jamantas colossais e tubarões azuis. Santa Maria, Pico e Faial são destinos obrigatórios no roteiro de qualquer mergulhador que se preze. Além destes, há mais santuários subaquáticos por aqui: é o caso do Garajau, das Ilhas Desertas e das Selvagens, na Madeira; da Berlenga (Reserva Mundial da Biosfera da UNESCO) e da Arrábida.
Para fechar como começámos… sabia que o rei D. Carlos I está para os portugueses como Jacques Cousteau está para os franceses?
Doce
Da boca do Tejo, no século XV, saíram as caravelas à procura de novos mundos. E no Douro do século XIX navegavam os barcos rabelos carregados de barricas de vinho do Porto. O Mondego inspirou a história de amor mais cantada pela pena portuguesa – a de Pedro e Inês. Portanto não é absurdo perguntar: o que seria de nós e das nossas cidades sem estes e outros rios?
A água é fonte de vida. Sabemo-lo hoje e sabiam-no também os nossos antepassados que estabeleceram as suas comunidades à beira de cursos de água doce, certos de que eles tornariam as suas culturas mais viçosas e que lhes facilitariam a comunicação com outros povos.
Parte dos rios portugueses são também espanhóis. Nascem no país vizinho, atravessam o nosso e só depois chegam ao Atlântico. Mas antes, todos contribuem para um Portugal mais rico, belo, diverso e fotogénico. O Douro desenha a fabulosa paisagem vinhateira que todos conhecemos como Património Mundial da Humanidade. O Tejo alimenta as ricas lezírias ribatejanas e o seu estuário, às portas de Lisboa, é ninho de uma série de aves exuberantes. O Mondego (o maior rio inteiramente português) alaga arrozais e rega o Choupal de Coimbra. Outros cursos de água importantes, em caudal, tesouros e entretenimentos, são o rio Lima, onde se treinam os canoístas olímpicos; o Minho e o Paiva, Mecas do rafting em Portugal; o Sado, onde mora uma amável comunidade de golfinhos, e o Guadiana, que, tal como o Tejo, é um paraíso para os observadores e aves.
No Zêzere, afluente do Tejo, encontramos a albufeira da Barragem de Castelo de Bode, bem pertinho da histórica cidade templária de Tomar. Aqui juntam-se entusiastas de desportos náuticos como o wakeboard, o ski náutico, o standup paddle ou o remo. A barragem de Alqueva, no Guadiana, foi a responsável pelo aparecimento do maior lago artificial da Europa e é um dos destinos turísticos mais procurados no Alentejo, muito por conta do imenso espelho de água onde se pode fazer de tudo um pouco, inclusive, alugar um barco-casa e navegar ao seu ritmo.
No capítulo das praias fluviais – Édenes para ir a banhos onde não se vê o mar – são muitas e boas as opções, mas por aqui gostamos especialmente da do Piódão (Beira-Baixa), da de Loriga, encaixada entre os colossais granitos da Serra da Estrela, e da de São Simão, vigiada pelo castelo de Belver.
Nem na Madeira, nem nos Açores existem rios, apenas ribeiras e centenas de cascatas. Graças a elas existe um novo desporto em ascensão nos arquipélagos: o canyoning. Também de água doce são as belas lagoas dos Açores.
Falemos agora das rias. Há a de Aveiro, a de Alvor e a Formosa. Visto do ar, o Parque Natural da Ria Formosa é uma magnífica manta de retalhos de lagoas azuis, praias brancas e ilhas verdes. Cobre 60 quilómetros do sotavento algarvio e é morada de uma série de espécies botânicas e zoológicas. As aves são um dos chamarizes da ria favorita dos birdwatchers.
::
V – PÃO E VINHO SOBRE A MESA
Tal como o galo de Barcelos, os portugueses gostam de encher o papo e de molhar o bico. Conheça os bons ingredientes e temperos que fazem da mais comezinha refeição um autêntico manjar dos deuses. A gula, essa, é apenas um pecadilho…

A – Encher o papo…
Qualquer pretexto serve para nos sentarmos à mesa, e o pão está sempre presente. A sua forma e sabor varia consoante a região. Destaque para a broa de milho e de centeio, o pão de Mafra, o alentejano e o do Rogil, no Algarve.
O património da comilança é mais antigo do que a nação. Para ele contribuíram os fenícios, os romanos, os mouros e os povos além-mar que temperaram os nossos pratos com pimenta, cravo e canela. Os romanos semearam na paisagem, searas, vinha e oliveiras e juntaram-lhes o porco, os ovinos, os frutos secos e a conservação do peixe. No quotidiano mantém-se a presença moura. Devemos-lhe, entre outras coisas, os pomares, as figueiras, as amendoeiras ou os arrozais.
Com couve, cenoura, batata, nabo, feijão e carnes variadas, o Cozido à Portuguesa é o prato que atravessa todas as regiões. Os portugueses são sopeiros incuráveis, por isso há quem sirva o cozido acompanhado do caldo, com hortelã. Na Bairrada vendemos a alma ao diabo por um leitão assado e no norte de Portugal faz-se arroz de cabidela.
Neste jardim à beira-mar plantado nem a festa se faria se o peixe não nos saltasse para o prato. Do linguado à sardinha, passando pelos salmonetes e pelo espadarte, a frescura e sabor a mar do peixe português (que é sem dúvida o melhor do mundo) comprova-se pela simplicidade do cozinhado. Para os bons apreciadores a melhor forma de o degustar é simplesmente grelhado. O marisco do mar português segue a mesma receita. Quanto mais simples melhor. Exceção para as amêijoas à Bulhão Pato, cheias de coentro e alho, e para as caldeiradas, arrozes e açordas (de marisco e de lingueirão). Mais substanciais serão os rojões à minhota, as tripas à moda do Porto, o cabrito à padeiro com arroz de forno, a chanfana ou a feijoada à transmontana.
O bacalhau (seco e salgado) é há uns bons séculos o “fiel amigo” dos portugueses. Somos o povo que mais o consome. Não admira que se diga que há 1000 maneiras de cozinhá-lo. O azeite é o tempero de eleição, o que não espanta, quando somos produtores dos melhores azeites do mundo. Dá gosto e cor a qualquer prato e tem direito a confraria, uma das 70 de índole gastronómica que há em Portugal.
Em matéria de doces temos grande tradição de doçaria conventual. Das gulosas barrigas de freira ao toucinho-do-céu passando pelo leite-creme ou pelo arroz doce, sem esquecer o internacionalizado pastel de nata.
B – Molhar o bico
Os portugueses gostam de molhar o bico, sobretudo com bom vinho tinto. E não admira. Temos mais de 2 mil anos de experiência no cultivo da vinha. Durante a presença dos romanos, as técnicas modernizaram-se e com a invasão árabe, apesar de o Corão proibir bebidas fermentadas, o vinho continuou a ser produzido na Península porque o emir que governava a Lusitânia se mostrou, inteligentemente, tolerante com os cristãos.
Com a fundação de Portugal (1143) e a conquista do território atual, em meados do século XIII, instalaram-se em várias regiões do país diferentes ordens religiosas. Simbolizando o “sangue de Cristo”, o vinho ganha importância para a Igreja Católica e passa a fazer parte da dieta do homem medieval.
No século XIV a produção é já significativa e os vinhos portugueses começam a ser exportados. No tempo das Descobertas servia de lastro nas caravelas e era usado como moeda de troca com outros povos. E no século XVI, Lisboa era o grande centro de distribuição de vinho do Império, que tinha enorme prestígio além-fronteiras. Ao chegar ao poder, no século XVIII, o Marquês de Pombal criou aquela que seria a primeira região demarcada de vinhos do mundo – o Douro – instituindo uma série de medidas protecionistas. O Tratado de Methuen (século XVIII), celebrado entre Portugal e o Reino Unido, e segundo o qual os panos e o vinho gozavam de taxas aduaneiras favoráveis, contribuiu também para a fama do vinho nacional entre os britânicos. Nessa altura, para os ingleses, vinho era sinónimo de Porto.
Depois de uma epidemia de filoxera devastar grande parte das vinhas no século XIX, foram precisas várias décadas para retomar a produção de escala. No princípio do século XX começam a demarcar-se outras regiões e vinhos, especialmente aqueles que são só portugueses. É o caso do vinho da Madeira, do moscatel de Setúbal, do vinho do Dão, do vinho de Colares e do vinho verde do Minho. Desde finais do século XX tem vindo a ser feita uma enorme aposta no aperfeiçoamento das características e da alma dos vinhos nacionais. E foram várias as regiões vinhateiras que modernizaram a produção. Um trabalho feito com a ajuda preciosa dos enólogos, verdadeiros alquimistas na obtenção de alguns dos melhores néctares do mundo. Esta nova geração de produtores e enólogos considera-se guardiã de um tesouro valioso e exclusivo: a multiplicidade de castas indígenas que torna os vinhos portugueses inconfundíveis.
::
VI – HERÓIS DO MAR
Se os velhos do Restelo teimam que não passamos da cepa torta, as nossas glórias não se encerram nos Descobrimentos. Certo é que cruzámos mares nunca dantes navegados, seguramente abençoados por Santo António. Este frade franciscano do século XIII, que foi um dos intelectuais mais brilhantes do seu tempo, nasceu em Lisboa e morreu em Pádua, tendo sido canonizado pouco depois.

Os históricos
Tudo começou com o rei D. Afonso Henriques, que, em 1143, fundou Portugal, conquistando território aos mouros que por essa altura ocupavam a Península Ibérica. Saltando uns anos até ao século XIII, destacamos Pedro Hispano, filósofo, médico e professor universitário, e único Papa português, sob o nome de João XXI. O grande estratega da expansão marítima foi D. João II. No poema “Mostrengo” de Mensagem, de Fernando Pessoa, destaca-se a vontade férrea do rei que nos mandou à descoberta de novos mundos. Foi também ele que, com os reis católicos de Espanha, assinou o Tratado de Tordesilhas, pelo qual os dois países dividiam o mundo pela metade, entre as terras achadas e as que se viessem a descobrir. Nesta época de ouro da História de Portugal, D. Manuel I é o rei que se segue, apadrinhando a descoberta do Caminho Marítimo para a Índia pelo navegador Vasco da Gama. Enquanto isso, noutra longitude, Pedro Álvares Cabral chegava ao Brasil. Escassos anos mais tarde, o navegador Fernão de Magalhães projetou e levou a cabo a primeira viagem de circum-navegação da história da humanidade. O português não terminaria a expedição, sendo morto nas Filipinas, mas a sua mítica aventura ficaria para sempre registada na geografia mundial. Do Estreito às Nebulosas de Magalhães.
Das mulheres de que reza a nossa história, destacam-se a lendária padeira de Aljubarrota, que nos ajudou a vencer os castelhanos, a cantora lírica setubalense Luísa Todi, que encantou as cortes europeias no século XVIII, e a violoncelista Guilhermina Suggia, que conquistou a Europa um século mais tarde, tendo sido a primeira mulher, no mundo, a atuar como solista numa orquestra. Tinha 17 anos.
Os desportistas
O nosso coração bate mais alto quando a seleção de futebol entra em campo. Com a realização do Euro 2004 em solo lusitano as janelas do país encheram-se de bandeiras nacionais. Nesse ano, Luís Figo e Cristiano Ronaldo foram convocados para defender a equipa das Quinas. O primeiro ganhou o Ballon d’Or em 2000 e foi considerado o melhor jogador do mundo pela FIFA em 2001. Ronaldo acaba de receber a terceira Bola de Ouro como número um mundial em 2014. O jogador do Real Madrid foi também considerado o melhor jogador da UEFA e da Liga Espanhola. Recebeu ainda o título de rei dos goleadores da Champions. Grande inspiração para Cristiano Ronaldo foi Eusébio. Nascido em Moçambique, Eusébio Ferreira da Silva, o Pantera Negra, transformou-se no maior símbolo do futebol nacional no século passado, levando Portugal ao terceiro lugar no mundial de 1966 disputado em Inglaterra.
Força nas pernas é coisa que não nos falta. Carlos Lopes foi o primeiro português a ganhar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos ao vencer a prova rainha, a maratona, em Los Angeles (1984). Quatro anos depois, em Seul, Rosa Mota repetiu o feito na maratona feminina. Já Fernanda Ribeiro conquistou a medalha de ouro nos 10 mil metros dos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996). Em 2008, nas Olimpíadas de Pequim, Nelson Évora também trouxe uma medalha de ouro para casa. Desta vez no triplo-salto. Em 2012 em Londres, Fernando Pimenta e Emanuel Silva conquistaram uma medalha de prata em canoagem. E já agora, a nossa seleção de rugby teve a ousadia de se tornar na primeira equipa amadora a competir no mundial da modalidade. Foi em 2007 e os Lobos deram valente conta do recado.
Os artistas
Amadeo Souza Cardoso foi “a descoberta de Portugal na Europa do século XX”. O traço do pintor que pertenceu à vaga inicial de modernistas portugueses é inconfundível e intemporal. Até hoje a sua obra provoca grandes emoções e filas intermináveis para ser vista. Também modernista, Almada Negreiros foi um homem dos sete ofícios. Pintor, desenhador, vitralista, poeta, dramaturgo, romancista, experimentou de tudo um pouco. Merecedoras de destaque nesta área são duas Helenas. A primeira, Vieira da Silva, residiu em Paris e é uma das pintoras abstratas com mais reconhecimento internacional no pós-guerra, a segunda, Helena Almeida, tem no “desejo da fuga”, a pedra de toque do seu traço. A viver em Londres, Paula Rego tem trazido para a sua obra as “ricas e ferozes” histórias portuguesas, principalmente aquelas que lhe metiam medo em criança. O resultado são personagens aterradoras que nos transportam para a sua forma muito sui generis de ver o mundo. No panorama atual, evidenciam-se Julião Sarmento, Cabrita Reis, Joana Vasconcelos – cujas peças levaram 1,6 milhões de visitantes ao palácio de Versalhes – e Vhils, o grafitter com obra espalhada por todo o mundo, cuja técnica de escavação tem sido aplaudida pela crítica.
Os escritores e os poetas
Os Lusíadas são uma espécie de biografia da alma portuguesa. Inspirada em clássicos como a Eneida, a obra narra a viagem de Vasco da Gama à Índia, contando também os feitos gloriosos da História de Portugal. Por ser o autor desta grande epopeia toda em verso, Luís Vaz de Camões é um dos maiores vultos da nossa literatura. A par dele vem Fernando Pessoa, o mais universal e múltiplo dos poetas portugueses. Criou uma série de heterónimos, sendo os mais conhecidos Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Bernardo Soares. José Saramago é, até à data, o único Nobel português da Literatura. Memorial do Convento é a sua obra mais emblemática. Caberiam ainda nesta lista um sem número de geniais autores, mas ficamo-nos por três menções honrosas: Eça de Queirós, fiel retratista do Portugal do século XIX, Lobo Antunes, eterno candidato ao Nobel, e Gonçalo M. Tavares, uma jovem promessa confirmada.
Os cientistas
Grande matemático do século XVI e cosmógrafo mor do reino, Pedro Nunes inventou o nónio e publicou estudos que foram determinantes para o desenvolvimento da navegação marítima e da cartografia. Já no século XX, o neurologista Egas Moniz dividiu o Nobel da Medicina com Walter Rudolf Hess. A viver nos EUA, António Damásio é atualmente um dos mais notáveis cientistas da área da neurologia. Tem investigado a área do cérebro que gere o papel das emoções na consciência e nas decisões.
Os realizadores
Na Sétima Arte orgulhamo-nos de ter o cineasta mais velho do mundo ainda no ativo. Em dezembro passado, no dia em que fez 106 anos, Manoel de Oliveira estreou O Velho do Restelo, um filme onde quatro ilustres discutem o destino de Portugal. Com o rótulo de “independente”, Pedro Costa tem feito um retrato nu e cru da vida portuguesa dos últimos 40 anos.
Os arquitetos
A Escola do Porto tem boa fama e melhor proveito. Esta corrente da arquitetura contemporânea já arrecadou dois prémios Pritzker; Siza Vieira, o mais premiado arquiteto português, com obras espalhadas por todo o mundo, em 1992, e Eduardo Souto de Moura, em 2011. Os mais recentes projetos deste último são o Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, e a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais.
::
VII – CADA TERRA COM SEU USO
Tal como a filigrana é feita de fios muito finos que, entrelaçados, tecem desenhos incríveis, a tradição portuguesa é o produto rendilhado de uma herança com mais de 850 anos.

O nosso legado materializa-se numa riqueza etnográfica com bens culturais únicos. De Trás-os- Montes ao Algarve, do Alentejo às regiões autónomas dos Açores e Madeira. Comecemos pelo Norte, na fronteira com Espanha, onde fica Miranda do Douro. É lá que cerca de 15 mil pessoas ainda comunicam através de uma língua própria, o mirandês. E é lá também que se pratica uma dança guerreira imemorial interpretada pelos Pauliteiros de Miranda. Ainda em Trás-os-Montes, pelo Carnaval as ruas são invadidas pelos caretos de Podence. Homens com máscaras de madeira, couro e latão pintados com cores de fogo, uma tradição com raízes celtas. No Minho dança-se o vira e as mulheres vestem-se a rigor com o vestido de noiva tradicional, adornado por fios de ouro e peças de filigrana. Na mesma região, os bordados de Viana têm grande tradição. Nas suas temáticas imperam a dor, as silvas, o amor e a nostalgia.
Guimarães é a cidade das cutelarias, com apogeu no século XVII. Hoje, esta indústria continua a praticar-se em Guimarães, mas também nas Caldas da Rainha, onde não pode, ainda assim, competir com o ex-líbris da cidade: a cerâmica. A da fábrica Bordalo Pinheiro, a brejeira e a de autor. Não muito longe, em Peniche, há um monumento à rendilheira que evoca as rendas de bilros, também presentes mais a norte, em Vila do Conde. Em Arraiolos, no Alentejo, fazem-se magníficos tapetes em ponto cruzado desde o século XVII. Estes bordados de lã colorida sobre tela de linho ornamentam os principais palácios portugueses e há até quem afirme que foram os portugueses a introduzir o tapete, ornamento oriental, na Europa. No coração da rota da lã, na Covilhã, destacam-se as fábricas de tecidos. A qualidade é tanta que algumas delas atraíram marcas de renome internacional. Por falar em qualidade, a da azulejaria portuguesa é quase imbatível. Os azulejos que forram prédios e igrejas encantaram gerações de artistas, entre os quais Juan Miró.
A calçada portuguesa é outro assunto. Há documentos do século XV que testemunham os primeiros calcetamentos dos jardins, passeios e praças de Lisboa. Os desenhos podem ser geométricos, figurativos, regionais ou alusivos aos Descobrimentos. Já a fina porcelana da Vista Alegre, fábrica fundada em 1824, encontra-se em casas de reis e de chefes de estado do mundo inteiro. E quando pensamos na Marinha Grande não há como evitar a indústria vidreira, com mais de dois séculos de tradição. De regresso à capital, destaque para a Fábrica de Cerâmica Viúva Lamego, que produz desde 1849 faiança e azulejos.
Portugal é especialista em ofícios. Ainda hoje na toponímia da baixa lisboeta há vestígios deles, como a Rua dos Douradores, a dos Sapateiros e a dos Correeiros. Apesar de já não se situarem em ruas específicas, ainda podemos encontrar na cidade entalhadores, joalheiros, restauradores, douradores ou oleiros. O site Lisboa das Artes e Ofícios guia-nos pelos antigos ofícios, lado a lado com os novos artesãos. No Porto, o site Roteiro Oficinal do Porto põe no mapa a mão-de-obra local e especializada, do alfaiate ao torneiro mecânico.
País católico, tudo nos serve de pretexto para um arraial ao ar livre. A partir da primavera o país entra numa romaria que durará até meados do verão. Destaque para os Santos Populares durante o mês de Junho. Em Lisboa Santo António é rei e senhor. Os bairros de Lisboa transformam-se em pequenas aldeias, come-se sardinha assada e as janelas enchem-se de manjericos. No Porto São João é festejado com alho-porro e martelos, saltam-se fogueiras e fazem-se rusgas (um bailarico sanjoanino).
Numa casa portuguesa que se preze há um galo de Barcelos por cima da chaminé lembrando que a mentira tem perna curta. Objetos como a guitarra portuguesa, a caravela ou as andorinhas bordalianas são também símbolos da nossa identidade. Não é de estranhar por isso que haja em cada um de nós um potencial Zé Povinho. A personagem criada por Rafael Bordalo Pinheiro em 1875, critica de forma corrosiva a classe política e os problemas do país como qualquer português faz atrás de uma mesa de café, enquanto bom político de bancada.
::
VIII – A ALMA NÃO É PEQUENA
Portugal é bipolar! Ora faz, ora não faz. Ora se encolhe, ora se expande. Ora arregaça as mangas, ora baixa a garimpa. Nem sim, nem sopas, ou tudo ou nada, agora ou nunca. Por vezes triste e depois alegre. Deprimido e eufórico. Capaz da maior arrogância e de uma quase ultrajante humildade. De se bater com dignidade pelas grandes causas ou perito no “deixa andar”. Profundamente humano e solidário, ou invejoso e “cada um por si”. Preservando a tradição e os brandos costumes ou na vanguarda das tendências mundiais.

E no entanto, quem nos vê de fora, encontra um povo pacífico, sonhador e amistoso, disposto a abrir a porta de casa, grande mestre do improviso, mais imaginativo do que estratega e mais coração do que cabeça, até porque… os milagres acontecem.
Há quem (e são muitos), crendo no destino, atribua esta duplicidade ao signo astrológico do país, Peixes, cujo símbolo são dois peixes nadando cada um para seu lado, mas é certo que há explicações mais racionais para o estado de alma lusitano, uma amálgama construída ao longo de milénios para a qual contribuíram, certamente entre muitos outros fatores, os vários povos que por cá passaram (celtas, romanos, árabes…), a aventura dos Descobrimentos, início da nossa diáspora, uma certa geografia do abandono num cantinho da Europa, quase atirados ao mar, e o clima ameno, bálsamo para a sobrevivência.
Mas afinal quem é o portuga? O pitoresco Zé Povinho que faz um manguito ao estabelecido e que a seguir vai para a tasca beber copos, o poeta que é um sonhador sentado num café do cosmopolita Chiado, o corajoso que enfrenta o desconhecido lançando-se numa aventura que só encontrou paralelo na recente conquista do espaço, ou o fatalista de boné que acha que o “respeitinho é muito bonito”? O saudosista que descobriu mundos ou o criativo que inventa mundos? A resposta não é segredo: somos tudo isto e muito mais.
Facilmente adaptáveis às novas coisas, seres e ideias, sem com isso perdermos a personalidade e o caráter, uma certa tolerância permitiu-nos assimilar outras culturas e misturarmo-nos com vários povos. E quem mais seria capaz de fazer uma pacífica revolução com cravos? Somos também verdadeiros artistas do desenrascanço – planear e sistematizar não são as nossas maiores qualidades. Poéticos e contemplativos, falta-nos a exuberância de outros povos latinos e a alegria ruidosa dos mediterrânicos, muito por causa de um forte sentimento do ridículo e por receio da opinião alheia. Somos ainda assim, senhores de um espírito bastante crítico e trocista, de onde sobressai a mais fina ironia. Numa hipotética caricatura, lá estariam: a ostentação para inglês ver, o complexo de pequenez traduzido na língua dos “inhos” – os cafezinhos, os beijinhos e os obrigadinhos – e o karma nacional do “quase”, da vitória eternamente adiada. Como se os feitos gloriosos dos nossos antepassados em vez de servirem de inspiração fossem impeditivos das grandes ações, nostalgia que se traduz numa complexa mentalidade, mesclada, doce-amarga e paradoxal.
E assim chegamos ao sui generis estado de alma para o qual os portugueses tiveram até que inventar uma palavra: “saudade”. Intraduzível noutras línguas, porque intraduzível no sentimento, é um misto de lirismo com fatalismo, de grandes paixões com grandes tragédias, de encontros com desencontros, do tem que ser com o destino. O fado. Porque se dependesse só da alma, quando vale a pena, essa não é pequena!
::
IX – GUITARRAS AO ALTO
Refletindo no seu compasso a nossa língua e a nossa alma, base da identidade lusa, a guitarra portuguesa é a soberana intérprete das sonoridades da canção nacional: o fado.

Tem um timbre de tal modo inconfundível que qualquer português a reconhece aos primeiros acordes. É um instrumento carregado de simbolismo e, devido à sua longa aliança com o fado, é conotado com o nosso “modo de ser”. O trinado da guitarra portuguesa, cujo mais genial intérprete terá sido Carlos Paredes, é pois naturalmente associado a palavras como destino e saudade, sendo o fado o género musical em que melhor se distingue. A nossa maior referência naquela que é considerada a canção nacional é Amália Rodrigues. Com a sua voz poderosa conquistou o mundo, enchendo desde as típicas casas de fado de Lisboa a grandes salas internacionais. Neste capítulo, outro dos destaques vai naturalmente para Carlos do Carmo, que celebrou no ano passado 50 anos de carreira, tendo ainda sido galardoado com um Grammy. Camané, Mariza, Carminho, Gisela João ou Ana Moura são dignos herdeiros deste legado, escolhido pela UNESCO para Património Imaterial da Humanidade. Igual distinção mereceu o ano passado o Cante Alentejano, expressão musical alentejana por excelência.
Cada vez mais internacional está também a música contemporânea portuguesa. Que o digam os Moonspell, a banda de heavy metal que mais se notabiliza lá fora, ocupando o lugar deixado pelos contemplativos Madredeus, dos quais fazia parte outro destacável: Rodrigo Leão. Habitué nas andanças internacionais, recebeu recentemente os aplausos da crítica pela banda sonora do filme americano The Butler. Dead Combo, The Legendary Tigerman e Buraka Som Sistema são outros dos porta-estandartes das sonoridades lusófonas pelo mundo.
Cantada a poesia das canções, dedilhemos agora a dos livros e a da língua portuguesa, quiçá o nosso maior património cultural. Das canções medievais, à dramaturgia de Gil Vicente. Dos grandes poemas épicos ao romantismo novecentista. Da escrita mordaz de Eça de Queirós a Fernando Pessoa, que ocupa o altar-mor da poesia nacional. Mais contemporâneas são a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen e a romancista Agustina Bessa-Luís, sem esquecer, é claro o Nobel da Literatura (1998), José Saramago.
Pegamos agora numa tela para, em pinceladas largas, traçar a obra plástica de Soares dos Reis, Columbano Bordalo Pinheiro, Amadeo de Souza-Cardoso, Almada Negreiros, Vieira da Silva, Júlio Pomar ou Paula Rego. Noutros campos, evidenciamos a obra de escultores contemporâneos como João Cutileiro ou Rui Chafes.
No universo da arquitetura, além da reinvenção do gótico que foi o estilo manuelino (visível nos monumentos mandados construir por D. Manuel no século XVI) é de relevar toda uma geração de arquitetos contemporâneos, discípulos da importante escola do Porto, com os prémios Pritzker Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura em evidência.
Noutras artes, a sétima, por exemplo, além do decano dos realizadores mundiais, Manoel de Oliveira, e de várias jovens promessas, dão cartas em Hollywood o diretor de fotografia Eduardo Serra, distinguido em 2014 pela American Society of Cinematographers, e atores como Maria de Medeiros (Pulp Fiction, Henry & June) ou Joaquim de Almeida (Desperado, A Gaiola Dourada).
Subindo ao palco, agora o do teatro, destacam-se encenadores como Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo ou, nas novas linguagens teatrais, Tiago Rodrigues e Mónica Calle, mas também uma longa lista de excelentes atores: Ruy de Carvalho, Eunice Muñoz, Beatriz Batarda e Diogo Infante, para referir só alguns.
É ainda no palco que brilham os mestres da dança contemporânea: Vera Mantero, Olga Roriz, Clara Andermatt, Rui Horta e Paulo Ribeiro, só para falar dos mais reconhecidos internacionalmente; e os reis do sui generis humor português, herdeiros da verve de Raul Solnado, Beatriz Costa ou Herman José. Da recente fornada de comediantes, destacam-se Ricardo Araújo Pereira, um dos quatro rapazes dos Gato Fedorento, Bruno Nogueira e Maria Rueff.
::
X – O CAMINHO É PARA A FRENTE
Corria o ano de 1709 e a Corte viu assarapantada levantar-se sobre as suas cabeças a primeira máquina voadora do mundo: um balão movido a ar quente. O autor desta proeza muito à frente do seu tempo foi o padre e cientista português Bartolomeu de Gusmão. A inventividade é uma das marcas nacionais, mas foi sobretudo nos últimos 30 anos que Portugal se colocou na linha da frente dos desafios futuros. Da tecnologia à ciência, passando pelas energias renováveis.

A vocação tecnológica portuguesa começou com os Descobrimentos e com o aperfeiçoamento quer das embarcações, quer dos instrumentos de navegação. Hoje, Portugal é um dos países que mais desenvolve e utiliza novas ferramentas e tecnologias de informação, encontrando-se nos primeiros lugares do ranking mundial de e-government, de e-banking e de acessibilidade ao mundo digital. Além de fabricantes conceituados de plataformas de software, estamos na vanguarda das energias renováveis e os nossos investigadores e polos científicos conseguem prestígio internacional.
1 – Energias renováveis
A utilização de energias limpas provenientes de fontes naturais faz parte de um futuro que se quer sustentável e Portugal tem vindo a apostar nelas fortemente. Em resultado disso, e dos bons ventos, somos dos maiores produtores de energia eólica no mundo. Os painéis solares também são cada vez mais populares (o que não admira, com três mil horas de sol por ano), sobretudo desde que, no início deste ano, se estabeleceu o regime que permite vender aos vizinhos os excedentes energéticos. Na Ilha do Pico, nos Açores, existe a primeira central do mundo a produzir eletricidade a partir das ondas de uma forma regular.
2 – Tecnologia
Portugal é uma incubadora de ideias. Sonhadores e empreendedores, os portugueses veem nas startups grande potencial para pôr as suas ideias em prática. Veja-se a Uniplaces, que desenvolveu uma plataforma de reservas para alojamento estudantil que lhe valeu uma catrefada de prémios e que já opera em Espanha e no Reino Unido. Ou a SilicoLife, da Universidade do Minho, que foi eleita uma das 40 pequenas e médias empresas mais promissoras do mundo na área da bioeconomia. É na capital portuguesa que reside a Startup Lisboa, o maior ninho de boas ideias do país e habitat de empresas da área da web, software e mobile. Foi daqui que surgiu a Muzzley, responsável por uma tecnologia que permite a interação entre todos os tipos de smartphone e outras aplicações (computadores, televisores, mupis digitais, etc.). O produto caiu na graça dos geeks de Silicon Valley, a Meca da tecnologia mundial. Outro caso de sucesso é a mais completa plataforma mobile e online para o mundo do golfe. Se é fã deste desporto, a Hole 19 dar-lhe-á dicas importantes sobre o seu jogo e sobre os campos onde pretende jogar. Disponível na App Store da Apple, está na linha da frente das startups mobile da Europa e tem vindo a crescer em mercados como o Reino Unido, a Irlanda, os Estados Unidos e a América do Sul.
3 – Educação
O futuro também passa, e muito, pela educação e pelo ensino. De entre as várias, e prestigiadas, universidades, institutos, cursos e programas, destacamos o The Lisbon MBA – o programa conjunto da Universidade Nova e da Universidade Católica, que atualmente ocupa a 36ª posição do ranking do Financial Times que distingue os 100 melhores do mundo.
4 – Investigação e ciência
Os neurónios portugueses postos ao serviço da investigação e da ciência têm resultado em avanços significativos em inúmeras áreas. Daí os prémios nacionais e internacionais para algumas das descobertas (ou do contributo para elas). Na astrofísica, o estudo da abundância das componentes do universo valeu a Nélson Nunes, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o prémio Breakthrough 2015, financiado por Mark Zuckerberg.
Na área da medicina, as descobertas e os prémios acumulam-se. Rui Benedito investiga em Espanha alguns dos processos moleculares e celulares que ocorrem durante o desenvolvimento de novos vasos sanguíneos e, pelos resultados obtidos, recebeu o ERC Starting Grant da União Europeia. Já o investigador Fernando Garcês Ferreira tem trabalhado no The Scripps Research Institute, nos EUA, em prol da descoberta de uma vacina capaz de nos proteger da sida. Regressando a território nacional, destaque-se a equipa liderada por Maria Manuel Mota, no Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa, no combate da malária. Na fila da frente encontramos ainda Maria Nunes Pereira – a primeira portuguesa a integrar a lista de inovadores com menos de 35 anos do Massachusetts Institute of Technology (MIT). A investigadora surgiu ainda na lista de jovens de sucesso com menos de 30 anos da revista Forbes por ter contribuído para o desenvolvimento de um adesivo que funciona como cola e que permite reparar mais facilmente defeitos cardiovasculares em bebés.
Na investigação, as universidades do Porto, de Aveiro e do Minho estão no ranking das melhores do mundo. A Universidade do Minho, por exemplo, tem em curso um ambicioso projeto, o HMI Excel, que desenvolve protótipos de produtos para novos painéis e sistemas de navegação projetados no para-brisas dos automóveis em realidade aumentada. Na vanguarda da investigação médica, há ainda que distinguir três importantes privados. O Instituto Gulbenkian de Ciência, a farmacêutica Bial e a Fundação Champalimaud. A última foi eleita, em 2012, como o melhor local para trabalhar na área da biomedicina fora dos EUA, pela revista norte-americana The Scientist.
Terminamos em beleza com mais dois importantes prémios, atribuídos pela Organização Europeia de Biologia Molecular, e arrecadados pelas cores nacionais no final de 2014. Ana Domingos, investigadora principal do Instituto Gulbenkian de Ciência, foi distinguida pelos seus trabalhos em matéria de obesidade e Nuno Morais, investigador independente do Instituto de Medicina Molecular, pelo seu contributo para a investigação oncológica.
por A EQUIPA DA UP
web design & development 262media.com