Portugal: Paixão adolescente

on Jan 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

A escritora e jornalista brasileira explica como Eça de Queirós é o culpado do seu amor pelo país.

O primeiro culpado por eu me apaixonar irremediavelmente por Portugal foi Eça de Queirós. Li O Crime do Padre Amaro quando tinha 15 anos, durante as férias escolares, e enquanto as chuvas de verão fustigavam a janela do meu quarto, esquecida de tudo o que não fosse o romance proibido do padre, tive certeza de duas coisas: que nunca mais viveria sem a literatura e que um dia conheceria Portugal. Anos (muitos anos) mais tarde, depois de duas ou três passagens por Lisboa como turista, decidi alugar uma casa no Monte Estoril para finalizar um livro. Foram 40 dias dedicados à escrita – só saía para caminhar no Paredão de Cascais. E foi nessas caminhadas de Inverno, sempre ao amanhecer, que aquela paixão adolescente se transformou em amor – também irremediável – por Portugal. O oceano tão próximo, as conversas entreouvidas nos cafés, a melancolia do cinzento (céu e mar) que nos permite ser tristes, ainda que por instantes; a silhueta difusa de Cascais ao fundo na paisagem… como não amar?

Há seis anos escolhi São João do Estoril para meu refúgio português – a minha casa fica a poucos metros do Paredão. Dali contemplo as revoadas de andorinhas, descubro restaurantes na orla, percorro as ruelas charmosíssimas de Cascais, apanho o comboio em direção a Lisboa, e em Lisboa encontro outro Portugal. Andar pelo Chiado sem olhar para o relógio, passar horas na Livraria Bertrand ou na Ler Devagar, experimentar os sorvetes da Rua Garrett, conhecer os cafés, tomar uma taça de vinho ao entardecer num dos terraços da cidade, enquanto o olhar escolhe se contempla o Tejo ou os telhados, entrar na Igreja de Santo António para agradecer por tudo e por tanta beleza… Lisboa bastaria, mas todo espírito inquieto quer viajar. E viajar por Portugal é obrigação: nunca tantos lugares que vale a pena conhecer couberam num território tão compacto.

Não me canso de ir a Óbidos, que vira uma festa durante o festival literário. E nem de visitar os vilarejos. Monsaraz, Marvão, Piódão… é nas aldeias que meu amor pelo país fica mais difícil de disfarçar. E os Açores? Ah, os Açores… A ilha do Pico e suas paisagens inacreditáveis… Mas as viagens são curtas: o Estoril espera-me. E depois do Estoril, claro, o Brasil, para onde é preciso regressar. Faço as malas com o coração apertado – sempre. Prometo a Eça que volto – todas as vezes. Peço às andorinhas que me aguardem (e elas ouvem). E é para o mar de Cascais que dirijo um último olhar. Portugal: como não voltar?

 

por Leila Ferreira

Arquivos

Leila Ferreira



Nascida em Araxá, Minas Gerais, e formada em Letras e Jornalismo com mestrado em Comunicação pela Universidade de Londres. Foi repórter da Rede Globo Minas, colaboradora de jornais e revistas e, durante dez anos, apresentou o programa Leila Entrevista, por onde passaram mais de 1600 entrevistados. É autora de cinco livros, o mais recente O Amor que Sinto Agora (Planeta).

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