Portugal Escondido

on Aug 1, 2018 in Partida | No Comments

O país é um espanto. À beira do rio Minho há um belíssimo palácio neoclássico com capela e teatro. Nas margens do Paiva, o deslumbrante passadiço é um santuário natural. Em Coimbra, a abóbada da Igreja da Sagrada Família lembra a Capela Sistina. Nas Encostas da Vidigueira está um impressionante centro de arte contemporânea. A maior coleção privada de azulejos é no Redondo. Na Barquinha, um imprevisível mural de Vhils. No subsolo de Loulé há uma mina de sal-gema. O Jardim Tropical do Funchal é um paraíso. Nos Açores ficam as lagoas cristalinas da Caldeira de Santo Cristo. Este é um país muito, muito especial.

 

MINHO

Código Secreto do Norte

Há uma vila das artes, palácios incríveis no meio do campo, aldeias fora do comum e sinais do passado à espera de serem lidos.

O Minho é uma região com identidade muito preservada e faz-se valer dos seus atributos. Desde logo a incontornável filigrana, e o vinho verde, em região demarcada desde 1908, sobretudo os brancos frescos de verão, produzido em lugares como a Quinta da Aveleda, em Penafiel, ou na propriedade do Palácio da Brejoeira (com capela e teatro!), que valem a visita só pela arquitetura. A Brejoeira, um dos ex-líbris de Monção, cidade junto ao rio Minho, que divide com Espanha, palco de experiências gastronómicas ímpares como o cabritinho, o bacalhau ou rojões à minhota e as inconfundíveis papas de sarrabulho. A pouco mais de 30 quilómetros, na aldeia de Val de Poldros, no restaurante com o mesmo nome, as iguarias são servidas por Fernando Gonçalves, o único habitante da povoação. Val de Poldros é conhecida por “Aldeia dos Hobbits”, pela semelhança com o cenário de O Senhor dos Anéis.

Tal como o rio corre para o mar, o Minho estende-se por Valença e Vila Nova de Cerveira, mais abaixo, oficialmente “vila das artes”; a sua exposição bienal é a mais antiga da Península Ibérica. O respetivo museu reúne mais de 600 obras de arte contemporânea nacional e internacional. O cervo é um dos ícones da região – procure a escultura que o representa no cimo do Monte do Crasto, na Serra da Gávea, assinada por José Rodrigues (1936- 2016), fundador da bienal. Ainda lá perto, a cidade de Caminha revela pérolas como a Ponte Eiffel, construída pela empresa do engenheiro da famosa torre, sobre o rio Coura, ou o Forte da Ínsua, numa ilhota frente à praia, que possui um poço de água potável, um dos três únicos no mundo perfurados em mar.

Nas serras, o Minho também é profícuo em prodígios. A raça de cães Castro Laboreiro, que têm o nome da mesma vila, foi enaltecida pelo escritor Camilo Castelo Branco (1825-1890) pelas suas qualidades de guarda e fidelidade. São de tipo mastim, talhados pela rudeza das montanhas desde tempos imemoriais. E nestes caminhos do interior, a poucos quilómetros do Parque Nacional da Peneda-Gerês, encontra-se outra surpresa: a aldeia do Sistelo, conhecida como “Tibete português” pela sua colocação na paisagem. Rodeada por socalcos de cultivo, é lá que se encontra o inesperado e contrastante palácio oitocentista do visconde de Sistelo.

Mas uma das melhores formas de descobrir o Minho oculto será avançar pela rota portuguesa do Caminho de Santiago, utilizado por todos, crentes e não crentes. A partir do Porto pode-se ir junto à costa ou pelo interior. Costumes ancestrais que merecem descoberta e atenção especial estão na Póvoa de Varzim, já na fronteira minhota, onde, à entrada das casas mais antigas, estão gravadas as “siglas poveiras”. São marcas usadas como assinatura familiar, ainda hoje passadas de pais para filhos, introduzidas na região durante a colonização viking entre os séculos IX e X. Descendem da escrita rúnica – e também mostram como o Minho é um mundo à parte, nem sempre óbvio.

facebook.com/restaurante-val-de-poldros \\\ aveledaportugal.pt \\\ palaciodabrejoeira.pt \\\ cm-caminha.pt \\\ cm-vncerveira.pt \\\ bienaldecerveira.org \\\ aldeiasportugal.pt \\\ vialusitana.org

 

por Augusto Freitas de Sousa

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TRÁS-OS-MONTES & ALTO DOURO

Lá longe, num navio de penedos

No norte mais nortenho do país, os caminhos fazem-se entre lugares longínquos e os mistérios do rio Douro.

Clemente Menéres chegou com 31 anos à povoação de Romeu às quatro horas da tarde de 18 de Maio de 1874. Procurou uma estalagem e encontrou a de Maria Rita, que hoje é um restaurante nas mãos da família – os Menéres –, que ali, 50 quilómetros a sul de Bragança, em Trás-os-Montes, construiu um pequeno império, com produção de vinho, azeite e cortiça. Diz quem sabe que no restaurante se comem as melhores alheiras de Portugal. A aldeia tem um museu de curiosidades com caixas de música encantadoras, velhas câmaras fotográficas e projetores de cinema, máquinas de costura, de engomar, telefonias, bicicletas, carros de cavalos, automóveis e até um primitivo carro dos bombeiros. Um dos filhos do fundador, Manoel, renovou esta e três aldeias na área, criou infantários. Ainda hoje os descendentes se afeiçoam às terras com o mesmo espírito dos tempos idos. Romeu é um mundo à parte.

Uma vida não chegaria para encontrar os segredos de Trás- -os-Montes e Douro. A menos de uma centena de quilómetros daquela aldeia fica uma povoação que é talvez a mais bonita da região. Em Provesende dá-se a particularidade de haver uma das maiores densidades do país de casas nobres e solares. As velhas ruas são irresistíveis e há uma padaria típica que se mantém inalterável desde que abriu portas, em 1940. A paisagem é sobre o Alto Douro Vinhateiro, Património Mundial da UNESCO. A minutos fica a imponente adega da Quinta do Portal, desenhada por um dos Prémios Pritzker portugueses, Siza Vieira.

Avança-se em direção à fronteira e chega-se a Miranda do Douro, que transporta os visitantes para o território das tradições e costumes em torno da outra língua oficial do país, o mirandês. É também de origem latina, mas da família do asturo-leonês (das regiões espanholas de Astúrias e Leão). Em Miranda cultivam-se as surpreendentes danças dos pauliteiros, que esgrimem duas varas de madeira, com possível ascendência em cerimónias druídicas. A cidade está encostada às escarpas do rio Douro. Um dos seus segredos é tentar encontrar num rochedo na outra margem o número 4 desenhado naturalmente por líquenes. Não é fácil identificar, mas reza a lenda que se um casal conseguir vê-lo, será feliz para sempre.

Seguindo o rio para a foz, numa inesquecível viagem de cerca de duas horas, descobrem-se mais prodígios do Douro num miradouro especial, o de São Leonardo da Galafura, lugar que inspirou o poeta Miguel Torga: “À proa dum navio de penedos,\ A navegar num doce mar de mosto,\ Capitão no seu posto\ De comando,\ São Leonardo vai sulcando\ As ondas\ Da eternidade,\ Sem pressa de chegar ao seu destino.” Tudo isto sabe melhor se antes se tiver feito escala no Pinhão, nas margens do mesmo rio, para encontrar o prodigioso talho do Sr. Fernando, em frente à estação ferroviária. Entre presuntos, chouriços, alheiras, paios e outras carnes, fica também a arte de contar histórias a cargo do dono do espaço. E já a caminho do Porto, é preciso conhecer Castelo de Paiva, cujos passadiços sobre o rio Paiva espantam pela forma como submergem o explorador na paisagem. A surpresa final fica uns quilómetros mais à frente, quando o Paiva desagua no Douro: surge a Ilha dos Amores, amores esses antigos, de um lavrador e uma fidalga da região. Um espaço de paz, bem escondido.

quintadoromeu.com \\\ aldeiasportugal.pt \\\ cm-mdouro.pt \\\ cm-alijo.pt \\\ quintadoportal.com \\\ cm-castelo-paiva.pt

 

por Augusto Freitas de Sousa

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BEIRAS

Mistérios à beira da serra

Entre a surpreendente Coimbra e a magnífica Serra da Estrela há sabores, arte e confortos muito pouco conhecidos.

Foi no Beco do Forno que apareceu o crocodilo. O rio Mondego fica a cem metros, mas não veio dali. Ninguém sabe como surgiu. O certo é que um dia chegou ao Beco do Forno, atravessou as portas do Zé Manel dos Ossos e estacionou no teto, vigiando os comensais de uma das mais escondidas tavernas de Coimbra. Tem por companhia um troféu de javali que usa óculos escuros, relógios que não dão horas e memórias e caricaturas rabiscadas nas toalhas de papel sobre as quais, portanto, se come principalmente ossos. Isto é, ossos de porco cozidos – suculenta iguaria, rara em Portugal, aqui preparada há mais de 50 anos. Aliás, o crocodilo decorativo nem tem ossos: é só pele. É uma espécie de totem da Coimbra oculta.

Depois, havia o poeta que vivia numa torre. Os guias oficiais chamam-lhe Núcleo da Guitarra e do Fado de Coimbra, mas é a Torre de Anto – Anto como em António Nobre, o genial escritor que no século XIX habitava este edifício medieval no cimo da Rua de Sobre-Ribas. Quantos poetas tiveram um promontório privado? E este é o lugar correto para observar Coimbra no todo, antes de descer os becos para entrar no Mondego. Mas primeiro é preciso conhecer outro espanto, ali perto: a abóbada setecentista da Igreja da Sagrada Família do Seminário Maior, que mostra uma espetacular Ascensão da Virgem. É uma espécie de Capela Sistina portuguesa.

Acompanhando o rio no sentido da nascente, que fica na Serra da Estrela, o fluxo manda parar em Penacova, a 20 quilómetros de Coimbra, e ver a Livraria do Mondego, bizarro monumento natural cujas enormes placas verticais de rocha simulam uma gigantesca biblioteca. O Mondego continua a norte, só que agora desobedece ao curso e segue-se um menos óbvio, seu afluente, o Alva. Ele aponta à Aldeia das Dez. Normalmente os guias mandam visitar a encantadora aldeia do Piódão, na mesma área, mas a das Dez é uma surpresa. A 500 metros de altitude há arte patrimonial imprevista para tão minúscula povoação: o retábulo barroco da Igreja Matriz, as ruínas do imponente solar Pina Ferraz, o muito gótico cemitério velho, próprio de Mary Shelley.

As Beiras são também atravessadas por elementos cosmopolitas inesperados. Na cidade de Gouveia, a 50 quilómetros das Dez, o Museu de Arte Moderna Abel Manta, nomeado em honra de um dos filhos da terra e referência da pintura modernista, mostra obras de Árpád Szenes, Vieira da Silva e Paula Rego. (A outra singularidade em Gouveia é o Museu da Miniatura Automóvel.) E isto devolve o explorador ao caminho, para encontrar, já em plena montanha, uma combinação abrupta de mais modernismo, natureza e religião: a Virgem dos Pastores esculpida diretamente num rochedo pelo artista António Duarte nos anos 40. E por falar em pastores: os bichos das Beiras são únicos. Os confiáveis cães da raça Serra da Estrela descendem dos antigos mastins do Tibete (procure-os no Canil da Quinta de São Fernando, em Manteigas), e das ovelhas autóctones, as bordaleiras, extrai-se a lã para o burel, resistente e confortável tecido originário da serra (conheça a produção da Burel Factory em Amieiros Verdes).

E o que este itinerário agora faz é andar mais dez quilómetros e descansar no Covão da Ametade, envolto em bétulas, há milénios vale glaciar feito outro rio memorável, o Zêzere, que tem mais histórias ocultas.

Zé Manel dos Ossos, Beco do Forno, 12, Coimbra \\\ turismodecoimbra.pt \\\ diocesedecoimbra.pt \\\ cm-penacova.pt \\\ aldeiasdoxisto.pt/aldeia/aldeia-das-dez \\\ cm-gouveia.pt \\\ estrela-dog.com \\\ burelfactory.com

 

por João Macdonald

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RIBATEJO & OESTE

Entre águas doces e salgadas

Uma viagem no tempo por monumentos naturais milenares, rodeados por paisagens vibrantes, artesanato único e gastronomia peculiar.

No Ribatejo, a região a norte de Lisboa serenamente atravessada pelo rio Tejo, a vida corre devagar e há muito por descobrir. Veja-se a Gruta de Alcobertas, situada numa das encostas da Serra dos Candeeiros, que viaja no tempo 15 mil anos de história. Composta por quatro galerias, tem uma extensão de 220 metros (algumas galerias atingem os nove metros de altura!). As visitas são possíveis através da Cooperativa Terra Chã, que também divulga e valoriza o património paisagístico e cultural de outro tesouro do concelho de Rio Maior, a aldeia de Chãos. Aqui adquire-se o sal e os produtos provenientes das salinas de Rio Maior. Com oito séculos e com uma enorme beleza natural, são as únicas salinas localizadas no interior do país. E mais longe do mar, a cascata do Pego da Rainha, na aldeia de Zimbreira, em Mação, é o paraíso descoberto pelos aventureiros que percorrem estes longos trilhos. A conviver com os cenários naturais achamos, em Vila Nova da Barquinha, uma das muitas obras do artista urbano Vhils. A peça mural tem sete metros e homenageia os oleiros, profissão tradicional da área. A tecelagem é outro talento importante na região, nomeadamente em Minde, no mesmo distrito de Santarém, que, além das famosas mantas, se aplica em malas e artigos de decoração. O Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro ensina e vende esta arte.

Mais para o litoral, na região chamada do Oeste, a reserva natural Paul da Tornada (que é o território húmido no concelho de Caldas da Rainha) é um lugar rico em fauna e flora, onde se contemplam sobretudo aves: é um santuário para garças, patos, gaviões, mergulhões. E se mudamos para a água salgada, é fundamental explorar os passadiços das arribas da Foz do Arelho, que apontam para o arquipélago das Berlengas. Ligam sete espaços elegantemente projetados que funcionam como miradouros, em plena fusão com a biodiversidade. À esquerda avista-se Peniche – e é aqui que se deve ir conhecer a arte das ancestrais rendas de bilros, na respetiva escola municipal. Frequentada por alunos de todas as idades, também acolhe, gratuitamente, interessados em experimentar e adquirir conhecimentos sobre este artesanato riquíssimo.

E é hora de ir à mesa. Se estamos em Peniche, temos de ir à Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, onde se desenvolve o curioso pão com algas que se prova na Pastelaria Calé. Vale também a pena uma viagem de 15 minutos até às Caldas da Rainha para saborear o prego na frigideira de O Selim. E fazer as curvas até chegar às Cruzes, uma aldeia nas redondezas daquela cidade termal, para o bacalhau grelhado (só por encomenda) da Taberna do Manelvina. Em direção ao Norte, a Casa do Pão de Ló, em Alfeizerão, tem a deliciosa sobremesa. Mas saiba mais, porque há alguns sabores ribatejanos semiocultos e imperdíveis. Um deles é a açorda de ovas, que melhor se prova no restaurante Santa Isabel, em Abrantes. Já os chícharos (uma leguminosa) com bacalhau assado são estrelas da ementa do restaurante daquela Cooperativa Terra Chã de que já falámos, em Chãos, Rio Maior, cujo espaço gastronómico tem uma vista panorâmica que abrange mais de cem quilómetros de paisagem rural.

cooperativaterracha.pt \\\ caorg.pt \\\ cm-peniche.pt \\\ ipleiria.pt/estm \\\ grupocale.pt \\\ oselim.com \\\ tabernadomanelvina.com \\\ casapaoloalfeizerao.pt \\\ restaurantesantaisabel.com

 

por Manuel Simões

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ALENTEJO

Onde o tempo caminha

Na maior região do país há uma combinação rara de arte contemporânea, aldeias secretas e uma linha de costa com muito para descobrir.

Todos correm para o litoral na euforia das praias, mas há muita magia a acontecer no interior do Alentejo, menos óbvia, menos explorada e menos concorrida. A paz começa no Centro de Arte Quetzal, do casal holandês Cees e Inge C. de Bruin-Heijn, colecionadores e mecenas que instalaram inusitadamente a sua generosa coleção de arte moderna, pintura e escultura, mas também de fotografia e vídeo, numa quinta vinhateira em Vila de Frades, junto à mais antiga adega romana da Península Ibérica, nas encostas da Vidigueira. Continua quando se admiram dólmenes e menires em Castelo de Vide, túmulos megalíticos impecavelmente conservados e com nomes como Melriça, Meada, Sobral ou Tapadão da Relva, entre os mais relevantes. O sul é menos religioso, mas em Vila Nova da Baronia, entre campos agrícolas da Herdade do Aires, em pleno montado alentejano, encontra-se a pequena Ermida de São Neutel, conhecida como Capela de Santa Ágata, de devoção local. Azulejos e retábulos do século XVI protagonizados por santos e anjos numa arquitetura gótica e maneirista. É uma capela que recebe romarias, por isso tem de chamar os caseiros para lhe abrirem a porta. E na Aldeia da Serra, no Redondo, é imperdível a maior coleção privada de azulejos, pertencente ao Convento de São Paulo, que também é um recatado hotel com 40 quartos, apenas acessível depois das curvas e contracurvas da Serra d’Ossa. Vale a pena, são cerca de 54 mil exemplares com a elaboração poética do século XVIII.

Se a ideia de espiritualidade é a comunhão com os elementos, este é o lugar. O Miradouro do Pulo do Lobo é a maior cascata do sul do Alentejo e, ali mesmo ao lado, quando o rio Guadiana toca Serpa, onde existiram vastos campos de cereais, encontram-se fontes, azenhas e fortins criados pelas águas subterrâneas que chegam do lago do Alqueva. A quebrar a tranquilidade, só as muitas aves que ali moram. O Alentejo é a zona mais árida do país e cultiva emoções nas temperaturas quentes, ora reservadas ora assolapadas, assentes no humor e na humildade de quem cresceu numa zona seca. Para emoções fortes, existe uma falésia com 260 metros nas Portas de Ródão, de onde se avista Castelo de Vide, uma das mais encantadoras barragens do país, e o Marvão, em cujas muralhas se diz acontecer um dos melhores pores do sol do mundo. Para manter vivos os sentimentos reais e a ideia de comunhão, não deixe de ir ao Chana, o restaurante regional do Redondo, afamado motivo de romaria de comensais só para aquela sopa de tomate com todos.

quintadoquetzal.com\\\patrimoniocultural.gov.pt \\\hotelconventosaopaulo.com\\\ castelodevide.pt

 

por Patrícia Barnabé

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ALGARVE

Terra e mar com história

O sul de Portugal é doce, marítimo, serrano e verdadeiro, num roteiro inesperado.

O território mais a sul de Portugal continental reconhece-se pelas falésias calcárias que recortam a costa. No Carvoeiro, o Algar Seco é um dos monumentos. A natureza ofereceu-lhe piscinas naturais e buracos em rochas que são autênticas janelas para o oceano Atlântico. A partir da praia daquela vila funciona um passadiço de madeira sobre o rochedo do algar. O troço ultrapassa os 500 metros e chega até às ruínas do Forte de Nossa Senhora da Encarnação e deixa o campo de visão alargar-se até ao infinito. Uns cem quilómetros para leste, Tavira tem um espetáculo no mesmo espírito, mas numa perspetiva de 360 graus, através da câmara obscura instalada no topo de um antigo depósito de água. O espaço chama-se Torre de Tavira e opera um princípio ótico simples, composto por um espelho e por duas lentes, que permite uma viagem por esta cidade bucólica, longe da agitação algarvia, em tempo real. E um pouco mais à frente, tal como em Tavira, Vila Real de Santo António é um local rico em artesanato. Todas as quintas-feiras de agosto, a partir das 19h, a Praça Marquês de Pombal enche-se de artes numa feira de azulejaria, bordados, cerâmica, cestaria e vidraria.

E agora rumamos ao interior algarvio onde, em vez de banhos de mar, há outras alternativas refrescantes. A Queda do Vigário é uma delas, uma cascata nos arredores da aldeia mais típica da região, Alte. Lá perto, na Campina de Cima, em Loulé, o Centro Ciência Viva do Algarve convida, no dia 10 de agosto, a uma descida até 230 metros da mina de sal-gema. Neste ponto inusitado, que se prolonga por mais de 40 quilómetros e cujas galerias vão dos dez metros de largura aos 4,3 a 20 de altura, a história geológica do planeta mistura-se com a indústria química. Imperdível!

E, exploradores que somos, subimos até Monchique num roteiro pelas destilarias de medronho, a bebida espirituosa do Algarve. São mais de 30 produtores que abrem as portas das suas adegas e dão a conhecer a aguardente secular, membro da identidade cultural e gastronómica da vila. Na serra de Monchique há também degustações e ensinamentos sobre como se preparam os chouriços e os presuntos típicos, na fábrica Evangelista de Oliveira. No campeonato dos doces finos algarvios, Fátima Galego, da doçaria Tesouros da Serra, em São Brás de Alportel, recupera receitas tradicionais e é conhecida pelos bolos de alfarroba e de figo com amêndoa ou pelo morgado da Serra do Caldeirão. Com provas dadas em competições, está a premiada Melhor Artesã Alimentar Tradicional da Europa, Maria Encarnação Gonçalves, que se dedica a esculpir Dom Rodrigos e beijinhos-de-freira na casa de chá Quinta dos Avós, em Algoz. Por sua vez, na padaria artesanal Pão do Rogil, na aldeia do Rogil (Aljezur), prova-se o pão mais famoso da Costa Vicentina.

Para um estilo de vida saudável, a dieta mediterrânica, considerada Património Mundial e Imaterial da Humanidade pela UNESCO, resulta do clima, da fauna, da flora e da geografia da região. E tem um dos seus templos em Cabanas de Tavira: o restaurante Noélia & Jerónimo é mestre na conceção de pratos mediterrânicos.

torredetavira.com \\\ cienciaviva.pt \\\ bondalti.com \\\ evangelistadeoliveira.com \\\ quintadosavos.pt \\\ facebook.com/paodorogil \\\ facebook.com/noeliaejeronimorestaurante

 

por Manuel Simões

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AÇORES

Todo o verde do mundo

No centro do Atlântico, o arquipélago maravilhoso é um território de natureza deslumbrante e surpresas delicadas.

Uma revista inteira não chegaria para lhe mostrar todos os segredos das nove ilhas do arquipélago dos Açores. Mas tentemos deixar pistas suficientes para abrir o apetite. Aterre em São Miguel e calcorreie os 4,9 quilómetros do trilho Terras de Nosso Senhor, que termina no Poço Azul, de águas cristalinas, onde se pode banhar. Também no Nordeste, visite o Centro de Interpretação do Priolo, um pássaro que não verá em mais lado nenhum do mundo. Para saciar o apetite, passe pelas Sete Cidades e procure quem lhe venda um queijo fresco de cabra, embrulhado em folhas de conteira – será dos melhores queijos que provará na vida. De São Miguel para a ilha de Santa Maria, na Biblioteca Municipal de Vila do Porto desfrute do sistema de realidade virtual que lhe permite nadar com jamantas, uma espécie de raia cujo movimento se assemelha a um bater de asas.

As fajãs, planícies férteis assentes em bancos de lava à beira mar, existem em toda a Macaronésia (Açores, Madeira e Canárias), mas em lado nenhum existem tantas como em São Jorge. São mais de 70 e nós destacamos a da Caldeira de Santo Cristo – reserva natural desde 1984, tem uma lagoa de águas cristalinas e é local de peregrinação de surfistas – e a Fajã do Ouvidor, em particular a piscina natural da Poça de Simão Dias, ideal para banhos de mar resguardados do vento e das ondas. Em Manadas, visite a Igreja de Santa Bárbara com os seus painéis de azulejos setecentistas. Na Igreja Matriz de São Jorge, em Velas, chama a atenção o retábulo da capela-mor, oferecido no século XVI pelo rei D. Sebastião. E não perca o queijo de São Jorge, claro. Mas esse é um segredo mal guardado. Na ilha Terceira encantamo-nos com o Algar do Carvão, antiga chaminé vulcânica, com paredes de obsidiana revestidas de vegetação. Já no Faial, são paragem obrigatória os Charcos de Pedro Miguel, localizados numa fossa tectónica e lugar de eleição para a observação de aves. Do outro lado do canal, a ilha do Pico oferece uma longa história de scrimshaw, a arte de entalhe e gravação dos dentes e ossos de cachalotes. No Museu do Pico encontra as coleções Jacob Tomás e João Flores. Na ilha das Flores há um bizarro rochedo conhecido como Pedra do Frade e da Freira, cuja erosão sugere essas figuras, e um pouco mais a sul tem que conhecer a Baía da Alagoa, reserva natural para a proteção de fauna e flora. No Corvo, que tem pouco 400 habitantes, toda a ilha é um segredo, transformado em ecomuseu ou museu do território.

Na hora de escolher os presentes para levar para casa, considere comprar um presépio de lapinha, miniaturas que têm como tema central a gruta da Sagrada Família e são vendidos dentro de redomas ou caixas de vidro na Ilha de São Jorge. Na Graciosa procure os tradicionais bordados de Richelieu e no Faial os bordados de palha de trigo, usada como fios de ouro em tule branco e negro. Também pode escolher uma boina da ilha do Corvo, feita em lã, habitualmente com duas cores. Ou então, derreta-se com um Barbado da Terceira, cão de pelo comprido usado tradicionalmente na condução de gado.

visitazores.com \\\ centropriolo.spea.pt \\\ artesanato.azores.gov.pt

 

por Hermínia Saraiva

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MADEIRA

A ilha inesperada

Jardins tropicais, montanhas mágicas, vestígios vulcânicos: eis o esplendor pouco conhecido da princesa do Atlântico.

Mesmo quando o frio aperta e o vento corta, não há melhor sítio para ver nascer mais um dia. Com sorte, o céu estará limpo, e dos 1818 metros do Pico do Areeiro terá uma vista perfeita sobre o mar, a costa sul da ilha, o Curral das Freiras, localidade bem no interior, os vales profundos e verdejantes da Floresta Laurissilva e, na linha do horizonte, um vislumbre da ilha do Porto Santo. Por ali é presença habitual a singular freira-da-Madeira, ave marinha que nidifica por estes montes, espécie protegida, depois de já ter sido dada como extinta. Se for dia de nuvens, não se desiluda. Está tão alto que se sentirá a pairar sobre elas.

Lá em baixo, há um paraíso chamado Jardim Tropical Monte Palace, com museu, perto do Funchal. O acervo botânico vem dos quatro cantos do mundo, e o lado artístico é uma fusão de arte do Oriente e azulejaria portuguesa, espalhada pelos jardins. Já no Museu da Quinta das Cruzes, também no Funchal, encontra-se de repente um orquestrofone de 1900, fabricado em França, bizarro instrumento musical mecânico, único em Portugal. E logo pode fazer uma descida às profundezas e à origem de tudo, às grutas de São Vicente, formadas há 890 mil anos, a partir de uma erupção vulcânica, na costa norte da ilha. Ali se aprende, pedra a pedra, a génese do arquipélago. A visita às grutas só ficará completa com uma passagem pelo Centro de Vulcanismo, onde se explica de como do “nada” a ilha nasceu no meio do Atlântico. A caminho das profundezas da terra deslumbre-se com a estrada que atravessa a ilha de sul para norte, entre curvas e contracurvas que serpenteiam vales profundos, florestas verdejantes e nobres picos que furam as nuvens. É a natureza em estado puro, por entre cursos de água e toda a diversidade biológica que só se encontra ali, onde a Floresta Laurissilva tem todo o seu esplendor. Por essas encostas, habitualmente em locais de difícil acesso, verá os poios, pedaços de terreno planos, sustentados por muros de pedra. É aqui que se plantam as mais de 30 castas existentes de vinho da Madeira, célebre por todo o mundo e escolhido para o brinde de celebração da proclamação de independência dos EUA, em 1776. E não se perca a Vereda do Fanal, pequena caldeira vulcânica onde pontuam velhos loureiros, uma exceção numa ilha tão acidentada. Chamam-lhe “Reserva de Repouso e Silêncio”, e lá chegados é fácil perceber porquê.

É preciso conhecer ainda o Jardim do Mar. Aconchegada entre a rocha cortada a pique e o Atlântico, que preservam as tradições e sossego seculares, é uma pitoresca aldeia à beira-mar, de ruas estreitas, casario baixo, com um paredão oceânico que contorna a vila, que já foi palco de provas do campeonato mundial de surf, o que colocou o Jardim do Mar no mapa. Junto ao mar continuam por lá as ruínas de um antigo engenho de açúcar e os azulejos que serviram de revestimento aos tanques, memória de uma antiga fábrica de aguardente.

visitmadeira.pt \\\ grutasecentrodovulcanismosaovicente.com \\\ montepalace.com

 

por Hermínia Saraiva

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ilustração Susa Monteiro

Arquivos

Água doce

Alguns dos mais incríveis lugares de um Portugal feito de água doce encontram-se nas Beiras. Mergulhe-se sob a cascata da impressionante Fraga da Pena, perto de Arganil – ou na deliciosa Praia Fluvial de Trízio, em Palhais, na Sertã.

cm-arganil.pt \\\ turismo.cm-serta.pt

Costa Vicentina

"O mistério da tua imensidão/ Onde o tempo caminha! Sem chegar!...” Miguel Torga termina assim um poema ao Alentejo: para entrar no ritmo rural do sul, é passear e deixar-se perder nos seus campos desimpedidos. Ou fazer um percurso pela graça das suas hortas. O que percorre os arrabaldes da aldeia de São Luís, ao pé de Zambujeira do Mar, tem apenas três quilómetros e meio através de hortas, quintais e pomares, a ombros com loureiros, sobreiros e medronheiros. Dantes, esta aldeia fornecia os legumes à encantadora vila piscatória de Milfontes, onde pode dar o clássico mergulho no mar ou subir um pouco para norte, para a selvagem Praia do Brejo Largo. Se preferir o recato, junto ao Cercal, deixe-se ficar de molho no Pego das Pias, quedas de água rodeadas de verde e serenidade. Acrescente-se ser esta frente atlântica um paraíso do surf, e aí estão os fascínios da Costa Vicentina.

pt.rotavicentina.com

Deliciosa simplicidade

Para as espetadas, a carne de vaca é cortada em cubos e temperada com sal grosso, alho esmagado e folhas de louro. Ganhando tempero, os pedaços são espetados em pau de loureiro e grelhados na brasa. Acompanha com milho frito e bolo do caco com manteiga de alho. As espetadas em pau de loureiro começaram por ser petisco nas festas populares no Estreito de Câmara de Lobos, mas rapidamente se tornaram em prato regional. Parece ser unânime a opinião de que as melhores se comem no restaurante Santo António.

Restaurante Santo António \\\ Estrada João Gonçalves Zarco, 656, Estreito de Câmara de Lobos \\\ +351 291 910 360 \\\ restaurantesantoantonio.com

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