Na costa alentejana, a cantora Luisa Sobral recordou as férias da sua infância, passada na vila piscatória de Porto Covo. Brincadeiras dominadas pelo azul do céu e do mar.

Grande fã de Rui Veloso, o pai de Luisa Sobral fez com que a filha conhecesse bem a obra deste ícone da música popular portuguesa contemporânea. Daí termos usado como inspiração deste fim de semana o tema “Porto Covo”, homenagem à vila onde a família passava férias quando Luisa era pequena. Ao retornar ao local, quisemos recriar o ambiente da canção que começa assim: “Roendo uma laranja na falésia, olhando o mundo azul à minha frente…”.
Azul é também a cor dominante na capa do segundo álbum de Luisa Sobral, intitulado There’s a Flower in my Bedroom. “Gosto da sensação que o azul me dá”, explica a jovem cantora e compositora lisboeta, formada em música pelo Berklee College, de Boston. Ao contrário do seu disco de estreia – The Cherry on my Cake (2011) – pensado ainda durante a temporada em que viveu nos Estados Unidos, o novo projeto, lançado em abril deste ano, pertence já à sua “fase de regresso a casa”. Embora continue a compor sobretudo em inglês, não descarta a possibilidade de vir a fazer um disco todo na língua materna. “Estou apaixonada pelas pessoas e pela natureza deste país” – revela.
Chegamos pela tarde ao Monte do Giestal. Guida Silva, a nossa simpática anfitriã, mostra-nos as bonitas casas de campo da herdade onde ficamos alojados. Luisa aproveita a pausa na digressão de espetáculos ao vivo que tem vindo a fazer em várias cidades para relaxar. Goza o sol junto à piscina e passa pelo spa, onde o terapeuta Paulo a brinda com uma massagem ao ar livre. O silêncio do campo só é interrompido pelos passarinhos… Jantamos no monte, antecipando as emoções previstas para o dia seguinte. Luisa está ansiosa por rever Porto Covo. Conta com a companhia da amiga Pilar Monteiro, que conheceu justamente lá. “Passámos muitas férias juntas em miúdas. Temos ótimas lembranças dos verões no Alentejo.”

Até meados do séc. XVIII, Porto Covo não era mais do que uma pequena povoação construída sobre uma arriba, junto a uma enseada acolhedora. O nome conjuga as palavras “porto” e “covo” (espécie de cesto comprido, usado antigamente na pesca). Apesar de diminuto, o local despertou a atenção de Jacinto Fernandes, que nos idos de 1700 investiu no desenvolvimento local, chegando a ser designado Senhor de Porto Covo “em função dos benefícios que promove em prol da agricultura, da pesca e do provimento da Corte”. Mas apesar desse investimento, passado um século Porto Covo tinha apenas 20 fogos e sobrevivia com uma atividade piscatória arcaica. Só na década de 70 do séc. XX, com a criação do complexo industrial petroquímico de Sines, em cujo concelho se insere Porto Covo, veio a crescer e a explorar as suas potencialidades nas áreas de turismo e lazer. Manteve o charme da “aldeia de pescadores”, mas foi tirando cada vez mais partido da sua envolvência e fazendo das pequenas praias que o sol aquece junto às falésias um ex-líbris.
Lugares com magia
Pela manhã, vamos direitos ao porto de pesca de Porto Covo. No barco do centro de mergulho local, Ecoalga, fazemos um passeio até à emblemática Ilha do Pessegueiro, também citada na tal canção de Rui Veloso com letra de Carlos Tê. “Havia um pessegueiro na ilha, plantado por um vizir de Odemira…”. Segundo os pescadores locais, “isso é invenção, porque nunca houve lá nenhuma árvore que precisasse de ser regada, só arbustos e matos selvagens”. Passada a licença poética, estamos no mar, dentro do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Como nos explica o skipper Helder, a ilha faz parte de uma reserva ecológica, mas nem sempre as regras são respeitadas e há muita pesca ilícita na região.
A poucos metros, vemos as ruínas do forte que fez parte de um grandioso projeto da dinastia Filipina. Estes monarcas, que reinaram durante os 60 anos em que Portugal esteve sob domínio espanhol, pretendiam transformar o Pessegueiro num porto marítimo que servisse toda a costa do Alentejo, mas o plano não vingou. Ainda no séc. XVIII, a utilização da ilha como entreposto comercial visava sobretudo a pesca e era bastante limitada pelas condições meteorológicas. Hoje em dia, funciona apenas como ponto de atração turística. Atracamos nas rochas para observar de perto as gaivotas e carraceiros que ali fazem ninho. A par de alguns lagartos, são os únicos habitantes.

Luisa só lá havia estado antes “dentro da barriga da mãe”. Depois do passeio a pé, sabe-lhe bem um mergulho de snorkeling. Equipadas com a ajuda do marinheiro Francisco, as raparigas divertem-se a nadar com os peixinhos. O ar do mar abre-nos o apetite para o almoço no restaurante A Ilha, situado mesmo em frente da dita cuja, junto a outro forte e à praia do Pessegueiro, com ótimas condições para prática de windsurf e pesca submarina.
A sobremesa come-se no centro da vila. Luisa e Pilar querem um gelado, com sabor de passado. “Antigamente, ao redor desta praça, só havia casas de habitação, com pátios e grandes figueiras. Hoje, estão transformadas em restaurantes, bares, lojas de artesanato…”, dizem ao parar junto à igrejinha (construída no séc. XVIII e dedicada a Nossa Senhora da Soledad, padroeira de Porto Covo). Por entre as banquinhas de artesanato e as esplanadas, mostram-nos as casas em que costumavam ficar e relembram: “De manhã cedo, antes do pequeno-almoço, íamos comprar pãozinho fresco com a roupa da praia vestida por cima dos pijamas. Era muito divertido! E à noite, voltávamos à padaria para irmos buscar pão com chouriço”. “Nessa altura a Luisa ainda não era vegetariana”, comenta Pilar, piscando o olho à amiga, que leva muito a sério a sua opção alimentar.
O centro da vila é um mimo. As casitas caiadas de branco e bordejadas a azul, as árvores baixas, bem podadas, e o chão de pedra, têm o aspeto de um desenho de criança. Esta geometria quase naïf foi, na verdade, inspirada no plano urbanístico da Baixa de Lisboa, implementado na capital pelo Marquês de Pombal (1755-1760). É a praça central que, apesar da simplicidade, melhor documenta a ideia do modelo urbanístico pombalino, visível na planta quadrada, no esquema repetitivo das fachadas e na localização destacada da igreja como edifício principal. Mesmo guardadas as devidas proporções ao comparar uma vila com uma metrópole, esta relação acabou por ser utópica, na medida em que Porto Covo nunca se ampliou da forma pretendida.

Música no coração
Luisa passou ali as férias de verão até aos 13 anos. “A partir daí, comecei a dispersar para outros destinos. Mas até hoje eu, os meus pais e o meu irmão mais novo, Salvador, mantemos o hábito de fazer, pelo menos, uma viagem juntos por ano.” Após estar com eles em Espanha e depois de uma temporada sozinha em Paris, retoma o trabalho este mês, altura em que o seu álbum será lançado na Europa e nos Estados Unidos. “Sinto que, em termos de arte, de carreira, preciso de abrir os horizontes. Já compus em espanhol e também gostava de fazer um tema em francês. Portugal é lindo, mas fiquei um bocadinho frustrada quando regressei depois de viver quatro anos fora, e a última parte deles, em Nova Iorque. Percebi que a base da minha carreira está aqui, mas que não posso ficar limitada. Um dia, ainda quero fazer concertos no Japão!”

Luisa aproveita a pausa no Giestal para pegar na guitarra e dar uma volta pelos arredores, saudando o cavalo Jotinha. É a nossa “country girl”! Jantamos mais tarde no Restaurante Arte & Mar, em São Torpes. À beira da praia de Morgavel, deliciamo-nos numa autêntica “casa de peixe” antes de rumar ao Festival de Músicas do Mundo, em Sines. Luisa fez questão de incluir o evento no nosso roteiro, dada a proximidade com Porto Covo. “Sempre tive vontade de vir a este festival, um dos poucos em Portugal onde é possível assistir a concertos de world music. Gostava de participar, embora me adeque melhor ao festival de jazz que também existe em Sines.” “Acho tão bonito mostrar a música em centros históricos! Este espaço é lindo!”, diz, referindo-se à fortaleza medieval do Castelo de Sines, construída em 1424.

Embalados pelos sons exóticos do Mali e do Senegal, dormimos o tranquilo sono alentejano. De manhã, ainda há tempo para ir de bicicleta ver o sobreiro centenário, orgulho dos proprietários do Giestal. Seguimos depois para a última etapa, no Monte do Xisto, a poucos quilómetros. Espera-nos um almoço leve no agradável terraço do restaurante Salpico e uma bela e ensolarada tarde a preguiçar nas praias de Porto Covo.
por Moema Silva
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