Porto Covo – Sensação de azul

on Oct 1, 2013 in Embarque Imediato | No Comments

Na costa alentejana, a cantora Luisa Sobral recordou as férias da sua infância, passada na vila piscatória de Porto Covo. Brincadeiras dominadas pelo azul do céu e do mar.

Luísa Sobral por/by António Gamito

Grande fã de Rui Veloso, o pai de Luisa Sobral fez com que a filha conhecesse bem a obra deste ícone da música popular portuguesa contemporânea. Daí termos usado como inspiração deste fim de semana o tema “Porto Covo”, homenagem à vila onde a família passava férias quando Luisa era pequena. Ao retornar ao local, quisemos recriar o ambiente da canção que começa assim: “Roendo uma laranja na falésia, olhando o mundo azul à minha frente…”.

Azul é também a cor dominante na capa do segundo álbum de Luisa Sobral, intitulado There’s a Flower in my Bedroom. “Gosto da sensação que o azul me dá”, explica a jovem cantora e compositora lisboeta, formada em música pelo Berklee College, de Boston. Ao contrário do seu disco de estreia – The Cherry on my Cake (2011) – pensado ainda durante a temporada em que viveu nos Estados Unidos, o novo projeto, lançado em abril deste ano, pertence já à sua “fase de regresso a casa”. Embora continue a compor sobretudo em inglês, não descarta a possibilidade de vir a fazer um disco todo na língua materna. “Estou apaixonada pelas pessoas e pela natureza deste país” – revela.

Chegamos pela tarde ao Monte do Giestal. Guida Silva, a nossa simpática anfitriã, mostra-nos as bonitas casas de campo da herdade onde ficamos alojados. Luisa aproveita a pausa na digressão de espetáculos ao vivo que tem vindo a fazer em várias cidades para relaxar. Goza o sol junto à piscina e passa pelo spa, onde o terapeuta Paulo a brinda com uma massagem ao ar livre. O silêncio do campo só é interrompido pelos passarinhos… Jantamos no monte, antecipando as emoções previstas para o dia seguinte. Luisa está ansiosa por rever Porto Covo. Conta com a companhia da amiga Pilar Monteiro, que conheceu justamente lá. “Passámos muitas férias juntas em miúdas. Temos ótimas lembranças dos verões no Alentejo.”

Sobreiro centenário – Monte do Giestal / Old holm oak at Monte do Giestal por/by António Gamito

Até meados do séc. XVIII, Porto Covo não era mais do que uma pequena povoação construída sobre uma arriba, junto a uma enseada acolhedora. O nome conjuga as palavras “porto” e “covo” (espécie de cesto comprido, usado antigamente na pesca). Apesar de diminuto, o local despertou a atenção de Jacinto Fernandes, que nos idos de 1700 investiu no desenvolvimento local, chegando a ser designado Senhor de Porto Covo “em função dos benefícios que promove em prol da agricultura, da pesca e do provimento da Corte”. Mas apesar desse investimento, passado um século Porto Covo tinha apenas 20 fogos e sobrevivia com uma atividade piscatória arcaica. Só na década de 70 do séc. XX, com a criação do complexo industrial petroquímico de Sines, em cujo concelho se insere Porto Covo, veio a crescer e a explorar as suas potencialidades nas áreas de turismo e lazer. Manteve o charme da “aldeia de pescadores”, mas foi tirando cada vez mais partido da sua envolvência e fazendo das pequenas praias que o sol aquece junto às falésias um ex-líbris.

 

Lugares com magia

Pela manhã, vamos direitos ao porto de pesca de Porto Covo. No barco do centro de mergulho local, Ecoalga, fazemos um passeio até à emblemática Ilha do Pessegueiro, também citada na tal canção de Rui Veloso com letra de Carlos Tê. “Havia um pessegueiro na ilha, plantado por um vizir de Odemira…”. Segundo os pescadores locais, “isso é invenção, porque nunca houve lá nenhuma árvore que precisasse de ser regada, só arbustos e matos selvagens”. Passada a licença poética, estamos no mar, dentro do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Como nos explica o skipper Helder, a ilha faz parte de uma reserva ecológica, mas nem sempre as regras são respeitadas e há muita pesca ilícita na região.

A poucos metros, vemos as ruínas do forte que fez parte de um grandioso projeto da dinastia Filipina. Estes monarcas, que reinaram durante os 60 anos em que Portugal esteve sob domínio espanhol, pretendiam transformar o Pessegueiro num porto marítimo que servisse toda a costa do Alentejo, mas o plano não vingou. Ainda no séc. XVIII, a utilização da ilha como entreposto comercial visava sobretudo a pesca e era bastante limitada pelas condições meteorológicas. Hoje em dia, funciona apenas como ponto de atração turística. Atracamos nas rochas para observar de perto as gaivotas e carraceiros que ali fazem ninho. A par de alguns lagartos, são os únicos habitantes.

Forte na Ilha do Pessegueiro / Fort on Pessegueiro Island por/by António Gamito

Luisa só lá havia estado antes “dentro da barriga da mãe”. Depois do passeio a pé, sabe-lhe bem um mergulho de snorkeling. Equipadas com a ajuda do marinheiro Francisco, as raparigas divertem-se a nadar com os peixinhos. O ar do mar abre-nos o apetite para o almoço no restaurante A Ilha, situado mesmo em frente da dita cuja, junto a outro forte e à praia do Pessegueiro, com ótimas condições para prática de windsurf e pesca submarina.

A sobremesa come-se no centro da vila. Luisa e Pilar querem um gelado, com sabor de passado. “Antigamente, ao redor desta praça, só havia casas de habitação, com pátios e grandes figueiras. Hoje, estão transformadas em restaurantes, bares, lojas de artesanato…”,  dizem ao parar junto à igrejinha (construída no séc. XVIII e dedicada a Nossa Senhora da Soledad, padroeira de Porto Covo). Por entre as banquinhas de artesanato e as esplanadas, mostram-nos as casas em que costumavam ficar e relembram: “De manhã cedo, antes do pequeno-almoço, íamos comprar pãozinho fresco com a roupa da praia vestida por cima dos pijamas. Era muito divertido! E à noite, voltávamos à padaria para irmos buscar pão com chouriço”. “Nessa altura a Luisa ainda não era vegetariana”, comenta Pilar, piscando o olho à amiga, que leva muito a sério a sua opção alimentar.

O centro da vila é um mimo. As casitas caiadas de branco e bordejadas a azul, as árvores baixas, bem podadas, e o chão de pedra, têm o aspeto de um desenho de criança. Esta geometria quase naïf foi, na verdade, inspirada no plano urbanístico da Baixa de Lisboa, implementado na capital pelo Marquês de Pombal (1755-1760). É a praça central que, apesar da simplicidade, melhor documenta a ideia do modelo urbanístico pombalino, visível na planta quadrada, no esquema repetitivo das fachadas e na localização destacada da igreja como edifício principal. Mesmo guardadas as devidas proporções ao comparar uma vila com uma metrópole, esta relação acabou por ser utópica, na medida em que Porto Covo nunca se ampliou da forma pretendida.

Centro histórico da vila / The town’s historic centre por/by António Gamito

Música no coração

Luisa passou ali as férias de verão até aos 13 anos. “A partir daí, comecei a dispersar para outros destinos. Mas até hoje eu, os meus pais e o meu irmão mais novo, Salvador, mantemos o hábito de fazer, pelo menos, uma viagem juntos por ano.” Após estar com eles em Espanha e depois de uma temporada sozinha em Paris, retoma o trabalho este mês, altura em que o seu álbum será lançado na Europa e nos Estados Unidos. “Sinto que, em termos de arte, de carreira, preciso de abrir os horizontes. Já compus em espanhol e também gostava de fazer um tema em francês. Portugal é lindo, mas fiquei um bocadinho frustrada quando regressei depois de viver quatro anos fora, e a última parte deles, em Nova Iorque. Percebi que a base da minha carreira está aqui, mas que não posso ficar limitada. Um dia, ainda quero fazer concertos no Japão!”

“Country girl” com o cavalo Jotinha / “Country Girl” with the horse Jotinha por/by António Gamito

Luisa aproveita a pausa no Giestal para pegar na guitarra e dar uma volta pelos arredores, saudando o cavalo Jotinha. É a nossa “country girl”! Jantamos mais tarde no Restaurante Arte & Mar, em São Torpes. À beira da praia de Morgavel, deliciamo-nos numa autêntica “casa de peixe” antes de rumar ao Festival de Músicas do Mundo, em Sines. Luisa fez questão de incluir o evento no nosso roteiro, dada a proximidade com Porto Covo. “Sempre tive vontade de vir a este festival, um dos poucos em Portugal onde é possível assistir a concertos de world music. Gostava de participar, embora me adeque melhor ao festival de jazz que também existe em Sines.” “Acho tão bonito mostrar a música em centros históricos! Este espaço é lindo!”, diz, referindo-se à fortaleza medieval do Castelo de Sines, construída em 1424.

Jantar no Arte & Sal / Dinner at Arte & Sal por/by António Gamito

Embalados pelos sons exóticos do Mali e do Senegal, dormimos o tranquilo sono alentejano. De manhã, ainda há tempo para ir de bicicleta ver o sobreiro centenário, orgulho dos proprietários do Giestal. Seguimos depois para a última etapa, no Monte do Xisto, a poucos quilómetros. Espera-nos um almoço leve no agradável terraço do restaurante Salpico e uma bela e ensolarada tarde a preguiçar nas praias de Porto Covo.

por Moema Silva

Arquivos

Luísa Sobral

Nascida em Lisboa, Luisa Sobral iniciou a viagem em busca do próprio universo musical aos 12 anos, quando começou a tocar guitarra. Influenciada pelos pais, ouvia dos Beatles a Rui Veloso, mas aos poucos foi descobrindo os seus próprios gostos e diversificando-os. A admiração por nomes sonantes do jazz, como Billie Holiday, Ella Fiztgerald e Chet Baker, entre outros, levou-a até ao Berklee College of Music, em Boston (EUA), onde se formou em 2009. Mudou-se depois para Nova Iorque e “na bagagem levava já muito do que viria a consumar em canções que gravitavam na minha cabeça”. Atuando em bares, ganhou tarimba como intérprete, ao mesmo tempo que ia desenvolvendo o seu lado de compositora. Entre idas e vindas a Portugal, consolidou o projeto do álbum de estreia, editado em 2011. The Cherry on My Cake (título sugerido por um sonho da mãe de Luisa) foi acolhido com elogios da crítica e agrado do público, revelando-a como uma das mais talentosas cantoras e compositoras da nova geração. Apesar de cantar sobretudo em inglês, Luisa Sobral popularizou-se com um tema em português, “Xico e Dolores”. Indicada para vários prémios, passou a ser vista como uma artista de culto. Lançado em abril de 2013, o seu segundo álbum, There’s a Flower in My Bedroom, já chegou antecedido pelo sucesso do tema de trabalho “Mom Says”, ouvido desde fevereiro. Com participações do britânico Jamie Collum e dos portugueses António Zambujo e Mário Laginha, este novo disco veio confirmar Luisa Sobral, aos 26 anos, como figura de destaque no atual panorama artístico nacional.

www.luisasobral.com

Monte do Giestal - Casas de Campo & SPA

Propriedade de 70 hectares, na maioria dedicados à exploração da cortiça, o Monte dos Giestal é um negócio de família. Herdado dos avós de Guida Silva – que dirige este espaço de turismo rural inaugurado em 2011 –, é composto por dez casas de campo de traça alentejana e por um edifício de uso comum, onde funcionam as salas de refeições, jogos e convívio. A decoração, inspirada na atividade corticeira, estende-se ao bem equipado SPA, que é uma das mais-valias deste monte, para além da piscina ao ar livre e da natureza circundante. O irmão de Guida, Pedro, e a mulher, Paula, são responsáveis pelo restaurante, que funciona mediante reservas prévias. Ao jantar, serviram-nos sopa de legumes e entradas de cogumelos com azeite e alho e ovos com espargos. Seguiu-se o prato de bacalhau à Giestal, com puré de batata e brócolos cozidos gratinados. Para sobremesa, mousse de amêndoa com medronho. Acompanhamos com uma garrafa de tinto “Vinho dos Sócios” (região da Vidigueira), registado com o número de sócio do sr. António Silva, pai dos proprietários.

Monte do Giestal
Cova do Gato – Abela
www.montedogiestal.com

Monte do Xisto - Hotel Rural

Construído de raiz e inaugurado em 2012, este hotel com arquitetura moderna e espírito rural reflete o gosto da proprietária Ana Cristina Mota, que decorou pessoalmente os dez quartos disponíveis, batizando cada um com uma expressão idiomática portuguesa. O conforto das instalações e o ambiente familiar convidam os hóspedes a desfrutar ao máximo do local, que dispõe de várias atividades e serviços (piscina, massagens, circuito fitness, kart-cross, bicicletas e trilhos para caminhadas, entre outros). Nas instalações funciona o restaurante Salpico, onde João Romeiras serve afamados jantares. Ao almoço, provámos deliciosas saladas e uma sangria gelada, refeição leve ideal para um dia quente.

Monte do Xisto
Vale de Água – Santiago do Cacém
www.montexisto.com

Ecoalga – Centro de Mergulho

Joaquim Parrinha é, desde 2003, responsável por esta escola e centro de mergulho que, além de formação profissional na área, dispõe de diversas atividades subaquáticas. Do snorkeling ao freediving, passando por programas especiais para divertimento em família ou por propostas para crianças e idosos. Os passeios de barco pela costa alentejana completam o leque de ofertas a experimentar.

www.ecoalaga.com

Restaurantes

Arte & Sal – Casa de Peixe
No restaurante da praia de Morgavel, em S. Torpes, fomos recebidos com apetitosas e originais entradinhas: cascas de batatas fritas com maionese e pimentos recheados com bacalhau. Além do peixe fresco que faz as honras da casa (no caso, sargo assado), provámos açorda de ovas com camarão e risoto de cogumelos selvagens. O vinho sugerido foi um branco da Península de Setúbal, Herdade do Cebolal (2011). Sobremesa: gelado de meloa com redução de moscatel. Dividido entre a cozinha e a sala, decorada com estilo, Carlos Barros, proprietário deste espaço desde 2002, foi um excelente anfitrião.
www.arteesal.net

A Ilha
Inaugurado há 37 anos, o restaurante de comida regional faz parte da paisagem da praia do Pessegueiro. Lucília Costa, natural de Sines, gere este negócio de família, alargado à Herdade do Pessegueiro, que oferece alojamento e passeios a cavalo. D. Graciete, que ali cozinha há 28 anos, serviu-nos duas especialidades: choco frito e feijoada de chocos. A refeição completou-se com pão e azeitonas, tinto da casa e vinho branco Alhandra.
Praia da Ilha do Pessegueiro – Porto Covo
+351 269 905 113

Contatos úteis

Festival de Músicas do Mundo
www.fmm.com.pt

Câmara Municipal de Sines
www.sines.pt

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