Porto – Chamam-lhe Invicta

on Apr 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

“Se na nossa cidade há muito quem troque o b por v, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia, e a liberdade pela servidão.” A frase do grande escritor Almeida Garrett é perfeita para entrarmos na Rota Liberal com o historiador Joel Cleto.

“Vós vindes trazer a paz a uma Naçaõ inteira, e a guerra, sómente a um governo hypócrita, despótico e usurpador. A empreza eh toda de gloria; a causa justa e nobre, a victoria certa.” D. Pedro IV, I do Brasil, dirigia-se com emoção às suas tropas, os “7500 bravos”, prestes a desembarcar na Praia da Memória, em Matosinhos, junto ao Porto, a 8 de Julho de 1832. Naqueles primeiros dias não foi necessário disparar um tiro ou passar alguém a fio de espada.

Proclamador da independência do Brasil e seu primeiro imperador em 1822, Pedro foi rei de Portugal durante alguns meses em 1826, abdicando na filha D. Maria, então criança. D. Miguel, irmão de Pedro, assumiu a regência, mas traiu a Carta Constitucional e reinstaurou o regime absolutista, usurpando o trono. O facto é que as revoluções americana e francesa continuavam a marcar o século XIX, e os liberais apontavam o caminho da monarquia constitucional representativa. Em 1831, para repor o liberalismo na pátria, Pedro abdicou do trono brasileiro e regressou à Europa. Durante pouco mais de ano reuniu apoios e por fim dirigiu-se à ilha Terceira, nos Açores, onde se organizava a resistência. Daí partiu com o exército para o norte de Portugal, para lançar uma guerra civil que lhe seria vitoriosa em 1834. O seu irmão Miguel partiu para o exílio e nunca mais regressou a Portugal. Morreu em 1866 na Alemanha.

Naquele verão promissor, à noite, em Pedras Rubras, a poucos quilómetros da Memória, um oficial esfomeado procura alimento e encontra uma casa onde lê “Taberna dos Três F”. Entra algo cambaleante, num misto do cansaço da viagem que fizera pelo Atlântico, e fome. Pergunta ao taberneiro o que queriam dizer os três F e a resposta pronta ditava “fanecas, frescas e fritas”. Já deliciado com o repasto, o oficial diz-para acrescentar um F, de “fiado”, uma vez que não trazia dinheiro. O taberneiro não se atreve a confrontar o militar, antes informando-o de que juntava dinheiro para poder casar com a filha do proprietário da casa. O oficial saiu sem pagar – mas mais tarde mandou entregar-lhe três moedas de ouro para o dote. No dia seguinte, todos saíram à rua para verem a marcha do exército libertador que se dirigia ao Porto. Foi nessa altura que o taberneiro reconheceu o oficial que liderava os bravos: tinha servido D. Pedro.

A pretexto da Rota Liberal do Porto, um dos mais interessantes novos itinerários turísticos da cidade (rotaportoliberal.pt), o historiador Joel Cleto, que conta esta história, compreende como ninguém os efeitos da combinação entre as lendas e os registos mais rigorosos. Cita António Aleixo, poeta popular: “Para a mentira ser segura/ e atingir profundidade/ tem de trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade”. Joel mantém o seu programa televisivo Caminhos da História desde o início do Porto Canal, tornou-se um reconhecido comunicador e, enquanto seduz os espectadores, conta a história do país e a da cidade onde nasceu, conhecida como “Invicta” pela resistência aos absolutistas que lhe montaram o longo bloqueio conhecido como Cerco do Porto. Usa as histórias da história como estratégia para chegar mais facilmente às pessoas.

 

Memória das memórias

Na Praia da Memória está um enorme obelisco onde se pode ler os nomes de alguns comandantes do Exército Libertador e o discurso de D. Pedro aos soldados antes do desembarque. Foi inaugurado em 1840 e, além da D. Maria II, estiveram alguns dos “bravos”. Dentro do monumento há um cofre que guarda o discurso da rainha e cuja chave, em ouro, está na Câmara Municipal de Matosinhos.

Joel, enquanto discursa com voz pausada mas entusiasta, e gestos lentos mas reveladores, explica por que D. Pedro terá optado pela costa norte: o Porto era a cidade onde se dera a Revolução Liberal de 1820; or irmão-inimigo D. Miguel esperava-o em Lisboa; e a quase impossibilidade dos navios entrarem no rio Douro, que banha Porto. É também na Memória que há uma abertura entre as rochas que permite a passagem, e esse pequeno segredo já tinha servido a inúmeros piratas. Antes do desembarque o local era conhecido por Praia dos Ladrões.

O historiador lembra que entre os liberais vinham estudantes e recém-formados da Universidade de Coimbra, a Brigada Académica, que incluía escritores e poetas (para além de mercenários estrangeiros e voluntários idealistas), Alexandre Herculano e Almeida Garrett entre os mais ilustres. Seguiram até ao Porto entrando pela depois baptizada Praça do Exército Libertador, no Carvalhido, onde acamparam. Seguiram ao centro da cidade pela Rua de 9 de Julho (esse mesmo dia de tomada do burgo), narra Joel, cantando e com hortências azuis no cano das espingardas. As forças inimigas retiraram para a outra margem do rio, em Gaia.

Já no cimo da Serra do Pilar, junto à Ponte D. Luís e com o Porto em fundo, Joel explica a importância daquele ponto estratégico durante o Cerco do Porto. Dali toda a cidade ficaria à mercê de bombardeamentos. Sá Nogueira foi um dos liberais que não desarmou, enfrentando com um punhado de homens o exército absolutista instalado perto da serra, num local chamado Alto da Bandeira. Perdeu um braço durante os combates, o que não o impediu de continuar a lutar. Foi obrigado a recuar até à serra e ali ficou até ao final do Cerco, que durou até 1833. No final, o rei, que nunca conhecera os corajosos, apressou-se a visitar “os seus polacos” – uma referência aos liberais que combatiam a ocupação russa da Polónia – e fez Sá Nogueira barão, mais tarde marquês Sá da Bandeira, perpetuando no título o nome do local. Ainda hoje os soldados do actual quartel da Serra do Pilar são conhecidos por “polacos”.

Foram 13 os meses de cerco e combate aos 40 mil homens inimigos que bombardearam a cidade sem cessar, para além do sofrimento causado por subnutrição e surtos de cólera, resultante em milhares de mortos. D. Pedro ficou para sempre devedor da Invicta. Joel entra na Igreja da Lapa, a única que o monarca frequentava. Num mausoléu ao lado da capela-mor, construído com pedras das fortificações do Cerco, está o coração de D. Pedro, que, pouco antes de morrer em 1834, quis que fosse retirado do seu corpo e ali ficasse para sempre guardado (o corpo repousa em São Paulo, no Brasil).

 

Onde tudo começou

Joel desce à Praça da Liberdade, onde se encontra a estátua equestre de D. Pedro, vendo-se na mão direita a Carta Constitucional. Também se percebe os nomes dos revoltosos executados por terem lançado, em 1828, em Aveiro, uma tentativa de golpe anti-absolutista. Isto remete para a primeira do género, a de 1817, em Lisboa, pela qual os conspiradores liderados pelo general Gomes Freire de Andrade foram também condenados à morte. O absolutismo acabou por cair precisamente no Porto, na Revolução Liberal de 1820, por uma série de notáveis constituintes do Sinédrio, organização secreta integrada por maçons (tal como Freire de Andrade). Também D. Pedro foi iniciado na Maçonaria no Brasil, com o nome simbólico de Guatimozim, antigo imperador azteca morto pelos espanhóis por se recusar a entregar o ouro do seu povo. As ligações à Maçonaria são evidentes nas personalidades liberais, na Carta Constitucional e em algumas representações simbólicas, como o obelisco da Praia da Memória. Joel Cleto sublinha as ligações maçónicas da Revolução Liberal e a sua relação próxima com as revoluções americana e francesa. Todavia, sublinha que a aceitação do ideário no Porto deve-se também aos mercadores e comerciantes que não se reviam no absolutismo e nas leis que restringiam o comércio e o livre cambismo.

 

Terra de dragões

Este é um passado de rebeldia onde o Porto foi sempre protagonista, recorda Joel. Foi no Porto que eclodiram revoltas como o Motim das Maçarocas, de 1628, contra o imposto do linho fiado, que levou à Restauração da Independência (contra Espanha) em 1640; a Revolta do Papel Selado em 1661, contra o decreto real que impunha o seu uso obrigatório; ou a Revolta dos Taberneiros de 1757, contra decisões sobre as vinhas do Douro tomadas pelo futuro marquês de Pombal. Mais: a cidade elegeu o primeiro deputado republicano nacional às Cortes em 1878, e foi a primeira a tentar implantar a República em 1891 (o sucesso deu-se em Lisboa em 1910). Um protagonismo no século XIX retirado pela ditadura no século XX. Foi cidade de burgueses, industriais, comerciantes, pensadores e artistas que se bateram pela autonomia; que, acrescenta Joel, “se revolta sempre que acha que os poderosos estão a exagerar. Uma cidade portuária, aberta a contactos com o exterior. As suas cinco letras dizem tudo”.

Na Praça da Liberdade, perto da estátua de D. Pedro, está outra, precisamente chamada O Porto, que é alegoria mitológica do burgo, na figura de um guerreiro, esculpida em 1818. Na cabeça tem um dragão, que passou a figurar nas armas da cidade em 1837, mas foi excluído em 1940, por imposição diatorial, em reacção à simbologia liberal do seu uso. Algumas instituições que o adoptaram nunca acataram a ordem, como o Futebol Clube do Porto.

 

Resistir até ao fim

Joel não quis deixar de fora a Foz do Douro, outra parte essencial da cidade para o sucesso da resistência durante o Cerco do Porto. O Forte de São João Baptista e o Farol de Nossa Senhora da Luz foram pontos estratégicos para garantir alguns mantimentos, poucos, que chegavam à margem do rio Douro. O bloqueio terminou finalmente em Agosto de 1833. O irmão-inimigo, D. Miguel, sabendo de outro desembarque liberal, o definitivo, desta vez no Algarve, tentou atacar a cidade uma última vez. Repelido, retirou para defender Lisboa. Não chegou a tempo.

Ainda na Foz, entre prédios novos e um pinhal, um dos poucos restos das fortificações do Cerco do Porto. Ao longe vê-se o que parece apenas mais uma colina. De perto percebe-se a artificialidade da elevação, conhecida por Espaldão e Forte da Ervilha, que não foi mais do que uma bateria onde os liberais se abrigavam e respondiam ao fogo absolutista. Os olhos de Joel Cleto não escondiam um orgulho que só as gentes daquela terra entendem na perfeição: “Do alto deste ponto, 200 anos nos contemplam”, disse sem pompa nem circunstância, apenas com a solenidade que os bravos do Cerco do Porto merecem.

 

por Augusto Freitas de Sousa /// fotos Egídio Santos

Arquivos

Joel Cleto

Nasceu no Porto em 1965 e é licenciado em História e mestre em Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Homem de sete ofícios, é formador de professores, professor, investigador e tem desde 2006 programas dedicados à História e Património na estação de televisão Porto Canal. Ganhou vários prémios com a série Caminhos da História, desde que saiu da Câmara Municipal de Matosinhos, onde esteve como Chefe da Divisão da Cultura e Museus. Escreveu vários livros, entre os quais Lendas do Porto (também em inglês), Senhor de Matosinhos – Lenda, história, património e O Porto de Nasoni (também em inglês e espanhol). É colaborador permanente da revista O Tripeiro e recebeu da autarquia do Porto a Medalha Municipal de Mérito – Grau Ouro.

fb.com/joelcleto.oficial

Hotel Pestana Brasileira

No princípio, quem fosse ao estabelecimento comercial A Brasileira comprar um saco de grãos de café, era-lhe oferecida uma chávena da bebida. O marketing foi lançado em 1903 pelo primeiro proprietário, Adriano Teles, que também detinha a Brasileira do Chiado em Lisboa, e foi um sucesso. A Brasileira colocou mesas e transformou-se num dos mais importantes cafés da Baixa portuense – onde, durante a ditadura, muitos oposicionistas conspiraram. Mais de um século depois, o espaço foi entregue à gestão do grupo Pestana. Um cinco estrelas extraordinário que mantém a traça original. Além dos quartos e todos os serviços, ainda é possível apreciar a inspiração do chef Rui Martins num restaurante de comida tradicional portuguesa. (E, nem de propósito, fica na Rua de Sá da Bandeira – saiba mais sobre este homem extraordinário no texto principal.)

Rua de Sá da Bandeira, 91 \\\ pestanacollection.com \\\ Desde €111

Cozinha do Manel

Chega a ser intimidante a quantidade de personalidades de todas as áreas que passaram nesta casa e que figuram na parede em formato fotográfico. Não podiam ter todos mau gosto e a cozinha confirma a escolha dos ilustres e não só. José António encarrega-se deste espaço de gastromia tradicional portuguesa, com uma série de fornos a lenha de onde saem cabritos, vitelas e rojões assados. As tripas são afamadas. (E fica da Rua do Heroísmo, que tem este nome por causa dos bravos soldados do Cerco do Porto.)

Rua do Heroísmo, 215 \\\ fb.com/cozinhadomanel

Casa de Chá da Boanova

Fica-se com o lema da casa, “Mar à mesa”, junta-se o chef Rui Paula, a estrela Michelin e o projeto do arquitecto Álvaro Siza Vieira e percebe- -se que a soma só pode resultar numa experiência fora de série. A cozinha de Paula ganhou outra dimensão no restaurante em Matosinhos: agora, além do menu habitual, um vegetariano. Ambos são um hino a Portugal: “Por mares nunca dantes navegados” com seis, 12 e 21 pratos.

Leça da Palmeira, Matosinhos \\\ casadechadaboanova.pt

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