Porto, arte por toda a parte

on Feb 1, 2016 in Embarque Imediato | No Comments

Da Ribeira à Foz, na companhia do designer de moda Ricardo Preto, passamos a pente fino alguns essenciais da sempre encantadora capital do Norte português. Arte, design, moda e arquitetura são as linhas que cosem este fim de semana.

Casa da Música por Daniel Rodrigues

Olhamos o Porto e ele mostra-se mais uma cidade do Norte da Europa do que da cultura mediterrânica. É pois no trato que se revela todo o seu calor sul-europeu. “Antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade”, diz a sua divisa, foi eleita Melhor Destino Europeu em 2014 e é essencial no mapa-mundo de alguém que se diga viajante, esteta ou bon vivant.

A movida urbana é contagiante, a zona histórica – classificada Património da Humanidade – está cada vez mais vibrante, e a vida artística e cultural é febril. O designer de moda Ricardo Preto assina por baixo estas palavras. As suas vindas ao Porto e arredores são corriqueiras e quase sempre em trabalho. Desta vez não é diferente, ou quase. Chegou há um dia para visitar as fábricas com que trabalha e vai aproveitar o balanço para saborear a cidade como turista.

“A” de Arte

O Porto dá as boas-vindas com os braços abertos e um copo do seu melhor néctar na mão. Chama-se a isto a arte de bem receber e está-lhe no sangue.

É desta forma que nos saúda o Porto Vintage, hotel clássico da Ribeira que será o nosso porto seguro estes dias. Adormecer com o Douro à cabeceira e sentir o peso da história nas paredes sem deixar de gozar de todas as mordomias do presente são predicados de peso.

Ribeira por Daniel Rodrigues

Para jantar escolhemos o RIB beef&wine, restaurante do hotel. Da cozinha saem carpaccios, carnes fumadas, suculentos costeletões e bifes das partes mais nobres da peça de bovino. Tudo muito bem acompanhado por vinhos de gabarito, como é de esperar da capital da mais velha região vinhateira do mundo. É ao sabor disto que Ricardo desfia o novelo da sua história.

Cresceu em Brejos de Azeitão, nas redondezas da Serra da Arrábida, e cedo começou a dar sinais de que um dia havia de ir parar ao universo da moda. “Não só me entretinha a recortar bonecas de cartão e a desenhar uma série de fatos para as vestir, como, para aumentar a mesada, fazia as vitrines das lojas da zona.” O seu grande pecadilho era desfolhar a Vogue francesa. “Não percebia patavina do que lá estava escrito, mas as produções de moda fascinavam-me. Hoje sou fã da Vogue japonesa e, tal como em miúdo, não percebo uma palavra do que está lá escrito, mas divirto-me a adivinhar de que designer e de que coleção são as peças que ali aparecem.” Foi pelas vitrines e pelas produções de moda que Ricardo foi entrando de mansinho naquele mundo, depois de ter terminado o curso de Arquitetura em Lisboa. No final dos seus vintes começou a criar linhas de acessórios para Osvaldo Martins e Dino Alves e pouco mais tarde estreou-se, em nome próprio, nas passarelas das Manobras de Maio, um irreverente evento do meio em Lisboa. O seu primeiro desfile foi insólito. Em vez de manequins, desfilaram travestis que, como que despidos com fatos justos cor de pele, exibiram as peças penduradas em cruzetas. Não demorou até que fosse chamado a participar no Portugal Fashion e na ModaLisboa, os dois maiores eventos de moda em Portugal.

Distraídos com estas e outras histórias, são duas da manhã quando nos levantamos da mesa incrédulos de como o tempo nos fugiu das mãos, levando com ele os nossos planos de ir beber um copo e abanar o esqueleto ao Hard Club, no mercado Ferreira Borges. “Foi verão até meados de dezembro e estamos agora a pagar a fatura”, alguém comenta ao ouvir a fúria da chuva a bater na janela pela manhã. Mas não foi o alerta laranja de mau tempo que nos impediu de ir a Serralves na manhã seguinte.

Serralves por Daniel Rodrigues

Serralves, perto da Avenida da Boavista, é o museu e fundação dedicado às artes. Foi o nosso primeiro destino neste Porto das artes. Naquela manhã seguinte, as alamedas despidas pelo outono conduziram-nos ao edifício que mais apela, o da Casa Serralves, exemplar notável de art déco. Depois dirigimo-nos ao Museu de Arte Contemporânea, que Siza Vieira, um dos filhos pródigos da escola de arquitetura do Porto e Prémio Pritzker em 1992, desenhou para a fundação. Por mais um dia apenas (que sorte!) decorre a exposição de Helena Almeida, “artista contemporânea fundamental”, sublinha Ricardo.

Pinturas habitadas, performances congeladas no instante da fotografia, telas abstratas, vídeos, sonorizações. “Ela está sempre um passo à frente do seu tempo”, elogia o estilista. Helena é a figura central da sua própria obra e, muito a propósito, a punchline da exposição é “A minha obra é o meu corpo, o meu corpo é a minha obra”. Ricardo identifica-se com Helena e com a posição que ela ocupa no seu trabalho: “É um elo comum aos artistas, o egocentrismo. Atenção: não confundir com narcisismo”.

“B”, de Bravo!

“Um diamante”, dizemos nós. “Uma casa de pernas para o ar”, alvitra Ricardo. Não há consenso quanto à forma, mas quanto à magnitude sim: é grandiosa. Na Rotunda da Boavista, centro nevrálgico da cidade, a Casa da Música, projeto do holandês Rem Koolhaas, é um lugar fetiche de melómanos e não só. A programação é intensa, diversificada e capaz de agradar a novos, a velhos, a clássicos e a avançados. Ricardo conhece-lhe os bastidores de trás para a frente. “Desenhei os figurinos do bailado Danza Preparata, uma celebração do centenário do nascimento de John Cage, com coreografia de Rui Horta. O espetáculo estreou aqui no Porto e depois correu a Europa. Em breve vou voltar a trabalhar com Horta, desta vez para vestir as personagens de Romeu e Julieta.”

Antes de rumarmos para mais perto do mar, um rápido desvio, a reboque de Ricardo, para ver o que há de novo na Wrong Weather, loja essencial para homens que fogem a sete pés de propostas standard no que toca ao vestir. Esta é uma de milhentas lojas obrigatórias no roteiro de um shopaholic pelo Porto. Outras são a Artes em Partes, a Muuda, a Mezzanine e quase todas as do Centro Comercial Bombarda, que, faça-se uma fundamental ressalva, é tudo menos um centro comercial.

Pedro Lemos por Daniel RodriguesJá na velha Foz, junto ao mar, encontramos o simpático Pedro Lemos. Tem 36 anos e há seis cumpriu o sonho de ter o seu próprio restaurante que batizou tão somente de Pedro Lemos. Foi a cozinha ousada mas fiel às suas raízes que valeu ao chef uma estrela no guia Michelin – “a única do Porto cidade, a segunda do Porto concelho [o restaurante do hotel The Yeatman, em Gaia também tem uma]”. O menu de degustação que Pedro prepara é uma viagem muito prazerosa pela sua cozinha que, diz o próprio, faz gala nos produtos de época – boa parte deles vindo diretamente da horta orgânica que tem aqui no terraço. Faz as honras da casa um duo de polvo e mexilhão, ao qual se segue um reconfortante caldo de fumeiro com pequenos legumes da horta. Depois chega o lavagante azul com topinambur (alcachofra-girassol) e molho do assado. Antes da sobremesa – que será composta por banana, alfazema e pérolas de saga –, um soberbo porco preto alentejano com migas e cogumelos silvestres. Bravo!

Igualmente bravo está o mar na Praia dos Ingleses. As ondas que parecem engolir o farol lá na frente do pontão estão a pontos de galgar também os muros que separam a praia da marginal. Um espetáculo lindo de ser apreciado, mas a uma distância de segurança. “A proximidade do mar é uma das coisas que mais me agrada na cidade”, diz Ricardo. E não é só a ele.

Praca de Lisboa por Daniel Rodrigues

De volta ao coração do Porto, eis-nos na Praça de Lisboa, vigiada pela altaneira Torre dos Clérigos. Recém-intervencionada, ganhou um jardim de oliveiras que faz de teto ao pequeno centro comercial ao ar livre. É aqui em frente que, desde 1906, está uma das mais belas (e concorridas) livrarias do planeta, a Lello. Ao lado, no primeiro piso da centenária loja Fernandes Mattos, A Vida Portuguesa faz gala em mostrar tudo o que é clássico, nacional e bom. “A etiqueta made in Portugal é vista com muitos bons olhos lá fora”, diz Ricardo, aproveitando o embalo para nos deixar cair no colo uma belíssima novidade. “Assinei contrato com uma marca asiática de grandes armazéns. Em setembro vão sair duas linhas – uma high-fashion, uma trendy – com propostas para mulher e homem, assim como calçado e acessórios. Tudo com etiqueta nacional. Tudo feito aqui nos arredores do Porto, onde a indústria têxtil e de calçado é enorme e de uma qualidade inegável.”

Uma notícia deste calibre pede celebração. Saltamos para um táxi e vamos até ao clássico dos clássicos. Quem conhece o Porto sabe que estamos a falar do Majestic. Café incontornável da nação, sempre foi conhecido pelas tertúlias, por ser ponto de encontro da malta de belas-artes e, claro, pelo delírio que é a sua decoração ao melhor estilo belle époque tardio. Venham de lá as francesinhas, essa versão portuense da sanduíche croque-madame, mas antes um brinde: bravo, Ricardo! Bravo!

por Maria Ana Ventura fotos Daniel Rodrigues

Arquivos

Ricardo Preto

Estudou Arquitetura na Universidade Lusíada e mais tarde tirou um curso de corte e costura com a mestre Maria Emília Sobreira. No arranque da sua carreira criou linhas de acessórios para a marca espanhola Perteguaz, bem como para os designers portugueses Dino Alves e Osvaldo Martins. Nas extintas Manobras de Maio apresentou três coleções e daí saltou para as passadeiras do Portugal Fashion e da ModaLisboa. Desenvolveu trabalhos de personalização para marcas como a Levi’s, a Nike ou a Pepe Jeans, criou as campanhas para a Vista Alegre e Frank Muller, e com marcas como a Canon, Bic, Silhoutte e Toshiba desenvolveu diversas parcerias criativas. Em produção de moda colaborou com revistas como a Dif, a Máxima ou a Umbigo. As cantoras Cláudia Efe, Ana Moura, Ana Bacalhau, as atrizes Lúcia Moniz e Sandra Barata Belo e a artista plástica Joana Vasconcelos são algumas das mulheres que Ricardo veste. Entre 2010 e 2015 foi diretor criativo da marca Meam Style, com a qual desenvolveu a etiqueta Meam by Ricardo Preto, que chegou a França, Espanha, Polónia e Itália. Este ano, que ainda vai no começo, já se afigura um dos melhores para ele, dado que em setembro próximo será lançada uma série de coleções – inteiramente desenhadas e produzidas em Portugal – para um dos maiores armazéns asiáticos. Escusado será dizer que o grau de entusiasmo do designer está para lá dos limites legais.
Atelier Ricardo Preto \\\ Rua Almirante Sarmento Rodrigues, lote 9, Lisboa \\\ +351 218 485 287 \\\ facebook.com/ricardopretodesigner

Pestana Vintage Porto

O grupo Pestana deu um novo fulgor a este clássico da Ribeira. São seis edifícios históricos, dos séculos XVI, XVII e XVIII, transformados num hotel que é um charme e um testemunho de que passado e presente não vivem de costas voltadas. A saber: o Vintage Porto tem à disposição do hóspede dois bares, um restaurante e mais de uma centena de quartos e suítes, boa parte deles com o rio Douro à cabeceira. Além disso oferece um pequeno ginásio e uma sala de massagens, bem como terá o maior gosto em preparar visitas guiadas, passeios de barco e outros passatempos para gozar em pleno um das cidades mais pujantes da Europa.

Praça da Ribeira, 1 \\\ +351 223 402 400 \\\ pestana.com \\\ A partir de €110

Restaurante Pedro Lemos

Em 2014, o jovem chef do Porto conquistou, com o seu restaurante homónimo, a sua primeira estrela Michelin. Com ela não chegou o conforto, pelo contrário. Quem esteve no restaurante antes de 2015 notará grandes mudanças. O piso térreo está agora ocupado uma belíssima garrafeira e no piso superior ganhou-se luz, novas cores nas paredes e um bando de andorinhas Bordalo Pinheiro, mestre da cerâmica (e da caricatura) portuguesa, a ornar o teto. Há menos mesas, mas não há menos calor humano. No terraço desponta uma horta biológica e, em dias bons, pode-se jantar (ou almoçar) al fresco. “A minha cozinha respeita os ciclos da natureza e baseia-se nos produtos da época, pelo que as colheitas do momento são sempre as protagonistas da carta”, diz o chef. E é fabulosa, acrescenta-se.

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