Esta é uma disciplina composta de muita mudança.
As respostas mais sofisticadas surgem muitas vezes das perguntas mais básicas. Na ciência económica esta atitude tem dado bons resultados. Um grande economista português do século XX, Francisco Pereira de Moura, escreveu um livro com o título Por onde Vai a Economia Portuguesa? Ele compreendia bem a economia como um sistema, isto é, um todo com partes interativas. Não apenas a dimensão da procura a interagir com a oferta, como ocorre em todos os manuais convencionais de ciência económica. Muito mais que isso: sectores que interagem com outros sectores (complementando-se, substituindo-se), regiões que interagem com outras (coespecializando-se), variáveis políticas que interagem com grandezas macroeconómicas (desencadeando ciclos político-económicos). Note-se como colocou a pergunta: “Por onde” e não “Para onde”. Esta segunda formulação seria impossível de responder, pois a economia é imprevisível, precisamente porque é um sistema complexo em evolução. Pereira de Moura enfatizava, portanto, o processo de mudança temporal e a estrutura da organização económica. A primeira lição de um grande professor ocorre logo nas perguntas que faz.
Muito recentemente, passados dez anos do início da última crise global, foram publicados dois livros que dão respostas importantes a outra pergunta: por onde deve ir a ciência económica? Economy: Economics for a Changing World (Oxford University Press), é um volume produzido pelo coletivo internacional CORE Team (versão gratuita em core-econ.org). É uma proposta para substituir os manuais de introdução à economia. Nesta visão, o sistema económico real é uma mistura (produtiva, por vezes explosiva) de comportamentos individuais (iniciativas, interesses, estratégias) e percursos históricos (regras, tradições, instituições). Já Modern Evolutionary Economics: An Overview (Cambrige University Press) inclui os autores pioneiros Nelson e Winter mas também economistas evolucionistas como Dosi, Saviotti ou Malerba. Esta obra, que vê a economia como um engenho de dinâmicas (criativas e destrutivas) da sociedade e do ambiente, sintetiza uma alternativa ao modo dominante de ver a economia (os agentes apesar de tudo não são tolos, os mercados são caprichosos mas conseguem corrigir-se). Sem dúvida que a leitura destes dois novos livros constitui um bom investimento. Ler economia é um exercício que deve compensar o leitor. É que esse leitor é depois também um fazedor de economia: enquanto trabalhador, consumidor, decisor, etc.
Parafraseando outro intelectual que deu contributos ímpares para o avanço da ciência económica em Portugal durante o século XX, Bento de Jesus Caraça, faz sentido dizer: a única maneira de não ter nem medo paralisante nem fé cega na economia é… estar sempre pronto para reescrevê-la.
por Sandro Mendonça
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