Ponte de Lima – Trovas do rio que passa

on Oct 1, 2012 in Embarque Imediato | No Comments

Com a actriz Sandra Barata Belo descobrimos os cantos à belíssima e histórica Ponte de Lima. Nesta vila minhota, que é a mais antiga de Portugal, a tradição (tem dias em que) ainda é o que era.

“Foi Dona Teresa, mãe de Dom Afonso Henriques – o rei que fundou Portugal –, quem, em 1125, concedeu o foral a Ponte de Lima. Estamos num troço fundamental do caminho português de Santiago e em plena Rota do Vinho Verde. Aqui existe o maior rácio de solares e casas apalaçadas de Portugal e as Feiras Novas, que acontecem todos os anos em setembro, são bem capazes de ser as festas populares mais famosas do país. Um dos dois únicos medalhistas lusos nestas ultimas olimpíadas de Londres, o canoísta Fernando Pimenta, treina aqui, no rio Lima, que também é a nossa praia. Temos dois museus magníficos, o do Brinquedo Português e o dos Terceiros, um belíssimo teatro e um rol de eventos culturais de excelência, como é o caso do Festival Internacional dos Jardins. E se acham que vos disse tudo, estão muito enganados. Estes dois dias que aqui vão passar, vão provar-vos que há muito para descobrir em Ponte de Lima e arredores.” Palavras de Francisco de Calheiros e Menezes, 3º Conde de Calheiros e proprietário do paço homónimo onde nos alojamos nestes dias, que, em jeito de resumo, nos apresenta à sua terra e à sua casa.

A história deste paço seiscentista funde-se e confunde-se com a história da região e de Portugal. Numa visita guiada pelas inúmeras salas, quartos e salões, Francisco vai-nos mostrando verdadeiros tesouros, como a cama que pertenceu a Carlota Joaquina – rainha consorte de Portugal, uma das figuras mais enigmáticas e mal-amadas da história de Portugal, retratada como traidora (conspirou contra o marido), devassa, mas determinada –, o brasão de armas da família que leva as insígnias de Santiago e o magnifico retábulo barroco da capela do Paço.

Sandra, para quem Ponte de Lima não é um lugar estranho, mostra-se contente por estar de volta. No centro histórico da cidade já se aquecem os motores para as Feiras Novas, que começam daqui a uma semana. Há carrosséis e iluminações que lembram as do Natal. Há bancas de churros e farturas e outras para se tentar a sorte em jogos de azar. Novos e velhos, portugueses e estrangeiros, misturam-se nas ruas limianas. Cirandamos pelo meio do bulício à procura de um bar onde tomar um copo. O Arte e Baco, que é uma mistura de galeria de arte e vinoteca, é o escolhido. A lista de vinhos separa as águas: vai um vinho maduro ou um verde? Sandra trata de explicar as diferenças. “Ao contrário do que muitas vezes se diz, o Vinho Verde não é aquele que se faz a partir de uvas que ainda não estão completamente maduras. O Vinho Verde é uma denominação de origem controlada, como é o Douro ou o Dão. Porque o Minho é a região mais verde de Portugal, o vinho que aqui se faz chama-se, por sugestão, verde.”

E que mais nos conta a actriz que deu corpo no cinema à maior fadista de todos os tempos? “Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias grandes vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias, mas também gosto de as contar. Gosto de coisas simples e de pessoas generosas”. Também gosta de viajar. E muito! A propósito disso, Sandra puxa do telemóvel e mostra algumas fotografias da Índia, onde esteve este ano a fazer um estágio de três semanas com a companhia indiana Adishakti e com a encenadora Veenapani Chawala, para “aprofundar as técnicas psicofísicas da cultura indiana no teatro e na representação”. E viu coisas lindas, acrescente-se.

…AÇÃO!

O sol queima como se fosse meio-dia e ainda não são dez e meia quando nos encontramos com Carlos Sousa no Centro Náutico de Ponte de Lima. As margens do Lima parecem uma praia algarvia em domingo de agosto. Além dos participantes da regata organizada pelo centro, há ainda muita gente que aproveita para queimar os últimos cartuchos do verão. É cheio de orgulho que Carlos nos conduz numa pequena visita pelo centro. “Existimos há 20 anos e já conseguimos 26 títulos em campeonatos nacionais e 18 taças de Portugal. Somos o clube com mais campeões nacionais e temos também vários títulos internacionais. Este ano o nosso atleta Fernando Pimenta ganhou – com Emanuel Silva – a medalha de prata olímpica na classe K2. Mas o que mais nos orgulha é o facto de termos 276 atletas federados que não pagam nada para treinar aqui, vamos buscá-los à escola, levá-los a casa e treinamo-los e iniciamo-los na competição. Por isso, para suportar esses custos, e porque queremos partilhar este rio fabuloso com mais gente, organizamos atividades de turismo e lazer. E ainda temos uma componente social bem vincada: fazemos formação de desporto escolar, sensibilização ambiental e apoio à comunidade local.”

Deixamos o centro na companhia de Carlos e Alex, que nos levam até Ponte da Barca, onde vamos dar início ao nosso passeio de seis quilómetros de caiaque até São Martinho. O percurso leva habitualmente cerca de duas horas e meia a concluir, mas hoje demoramos quatro. Não porque sejamos molengões – e a avaliar pelo ritmo que Sandra impõe, até o faríamos em hora e meia –, mas porque nos demoramos a nadar, a fotografar e a piquenicar.

“Que manhã tão bem passada”, diz Sandra, risonha, quando nos sentamos no restaurante Pica Pau para uns petiscos. Pataniscas, pastéis de bacalhau, salada de polvo e o próprio pica-pau, que consiste em pedaços de carne fritos com pickles e um molho delicioso no qual ensopamos broa milho da região.

De volta ao Paço, desfrutamos do fim de tarde entre as vinhas, a piscina, o picadeiro e os jardins do século XVII que, por serem tão bonitos e cuidados, são classificados. A noite cai e levanta-se uma lua cheia fabulosa. Iluminados pelo brilho, descemos de Calheiros até ao restaurante A Carvalheira, que nos vem muitíssimo bem recomendado. Ambiente familiar, decoração clássica, uma bela adega e pratos regionais. Escolhemos arroz de pato e o famoso arroz de sarrabulho – que por estas bandas é um assunto tão sério que até tem direito a confraria própria. Sandra dispensa o sarrabulho, porque dispensa carnes vermelhas, mas explica em que consiste o dito: “É um arroz confeccionado com diversos tipos de carne (porco, vaca e galinha) e sangue de porco e vem acompanhado com rojões à moda do Minho, tripas, enchidos e batata. No Alentejo também é típico, mas em vez de porco usa-se mais cabrito e leva também pão – quando há pão à mistura, chamam-se papas de sarrabulho”.

A vila e as lagoas
Sobre o rio Lima passa uma ponte romana. Bem, já não é inteiramente romana. Dos originais arcos romanos restam apenas três, os outros são românicos. É aqui que Sandra relembra uma das histórias contadas pelo Conde de Calheiros. Parafraseia ela: “Na mitologia grega havia um rio, o Lethes, ou o rio do esquecimento. Ora, reza a lenda que, em 135 a.C., o general romano Décios Brutos, que andava em conquistas na península ibérica, chegou com o seu exército às margens do Lima. Os soldados ficaram apavorados com a beleza do rio e convenceram-se de que seria o Lethes e que se o atravessassem perderiam todas as suas memórias. Foi o general quem primeiro atravessou o rio para pasmo dos soldados. Chegado à outra margem, disse, um por um, o nome de cada bravo da legião e só assim convenceu os soldados que era seguro atravessar o rio”. Para lembrar o episódio, colocaram-se em cada margem estátuas do exército: de um lado está o general Décios Brutos, do outro, os soldados medricas.

A partir da ponte – que desde tempos imemoriais é atravessada por milhares de peregrinos rumo a Santiago de Compostela – apreciamos o centro histórico da vila que, em tempos, esteve cercado por uma muralha com nove torres. A expansão da urbe custou à vila a muralha e sete das torres medievais. As casas medievais, as senhoriais, e outras de fachadas góticas, maneiristas, barrocas, neoclássicas e oitocentistas, ainda lá estão. É para lá que vamos.

É domingo e o centro está em ebulição. A igreja matriz é pequena para tantos fiéis e muitos assistem à homilia da rua. Os cafés estão pejados de gente. Na frente ribeirinha, Sandra encontra uns brincos em filigrana e uns tamancos típicos que lhe enchem o olho e delicia-se com a simpatia dos limianos. À medida que vai andando, vão-se voltando cabeças que sussurram: “Olha, é a Amália” ou “Aquela é a megera da novela”.

Depois de um almoço à beira-rio no restaurante O Açude, é hora de ir até às lagoas de Bertiandos e de São Pedro d’Arcos. Valter, o nosso guia, tem a palavra: “Esta é uma zona alagável e húmida que séculos de atividade agrícola foram fazendo desaparecer. Felizmente, há alguns anos, começou-se a perceber o valor inestimável desta paisagem e criou-se esta área protegida [está classificada como Reserva Ecológica Nacional e incluída na Rede Natura 2000]. No verão restam as duas lagoas permanentes (Bertiandos e São Pedro), no inverno, as águas voltam a subir, alagando mesmo partes de algumas das nossas nove trilhas pedestres. A biodiversidade é imensa, ao nível da flora há registos de cerca de 80 espécies vegetais raras ou em vias de extinção local. Se falarmos da fauna já registámos nove espécies de peixes, 13 de anfíbios, 11 de répteis, 41 de mamíferos e 144 espécies de aves. Deste conjunto, 25 correspondem a espécies com uma elevada prioridade de conservação. É o caso da rã ibérica, o símbolo do nosso parque”. Feitas as apresentações, seguimos parque afora, mais calados e contemplativos do que outra coisa. O barulho da água, o coaxar das rãs e o cantar dos pássaros são a banda sonora ideal para esta tarde soalheira que irá acabar com um mergulho na piscina do Paço de Calheiros. Daqui vê-se o Lima, que segue preguiçoso aos esses pelos vales adentro. Mais à frente desaguará em Viana do Castelo. Um dia, havemos de ir a Viana.

Por Maria Ana Ventura

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Sandra Barata Belo

“Estudei no Chapitô, onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas: dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes, continuo a querer estudar. Sou curiosa e não quero deixar de o ser”. Em 1996, estreou-se no teatro, no Ginjal, e a partir daí participou em vários projetos de teatro, dança e novo circo, destacando nomes como Útero, O Bando e Chapitô – onde apresentou dois projetos de sua autoria, Bluebelinha, em 2004, e Branco Rosa, em 2006.  Em televisão, participou nas séries infantis A família Galaró e Chiquititas e num telefilme Fm – Rádio Relâmpago, de José Nascimento. Há quatro anos, Sandra foi Amália Rodrigues no aclamado e premiado filme de Carlos Coelho da Silva. O filme valeu-lhe dois prémios – o Prémio Amália Rodrigues, atribuído pela fundação Amália e o Globo de Ouro para melhor actriz de cinema, atribuído pela SIC – e presenças em festivais de cinema pelo mundo fora. Ao filme seguiram-se novelas, como Perfeito Coração e Rosa Fogo, e a peças Casa dos Anjos (Ana Nave). “A convite do Miguel S. Fonseca, produtor de Amália, comecei a escrever para o blogue Escrever É Triste (em www.escreveretriste.com, pode ler um post de Sandra sobre este fim-de-semana em Ponte de Lima) e tenho dramaturgias da minha autoria que quero levar avante, só faltam os apoios da praxe – que nos dias que correm são cada vez mais escassos. Quero fazer coisas em Portugal, porque é esta a realidade que melhor conheço e mais me inspira, mas não me faço rogada a ir para fora”. Para rematar, acrescenta: “Realizadores com que gostaria de trabalhar? Gostava de voltar a trabalhar com o Carlos Coelho da Silva, que me dirigiu em Amália, e gosto bastante do trabalho do João Canijo e do Marco Martins. Se tiver de escolher realizadores estrangeiros, serão David Lynch, Woody Allen e Pedro Almodôvar”.

www.sandrabaratabelo.com

Paço de Calheiros

Está na família Calheiros desde 1450. É um dos melhores exemplos da arquitetura civil portuguesa de setecentos e uma das mais representativas casas nobres do Minho. Fica a cerca de sete quilómetros de Ponte de Lima, mas tem uma das melhores vistas panorâmicas sobre a vila. O elegante Paço dispõe de nove quartos e seis apartamentos e é um colosso na arte de bem receber. O hóspede pode também usufruir da piscina, do campo de ténis, da biblioteca, dos belíssimos jardins e do picadeiro. Mediante marcação organizam-se provas de vinhos e workshops de cozinha regional. Se quiser fazer uma refeição no Paço, o hóspede deve avisar com a devida antecedência. Se quiser trazer os tacos de golfe, há um campo nas redondezas.
Calheiros, Ponte de Lima
+ 351 258 947164
www.pacodecalheiros.com
€90 – €125

De comer e chorar por mais

Em Ponte de Lima come-se bem e bebe-se ainda melhor. Para lhe facilitar a vida na hora de escolher, aceite duas sugestões: A Carvalheira e O Açude. O primeiro fica às portas da vila e é, desde há 15 anos, um incontornável da gastronomia minhota. Aos comandos do lugar está José Gomes, acérrimo defensor dos sabores regionais. As nossas sugestões começam pelas entradas: a alheira com legumes e as ovas de bacalhau são obrigatórias. Depois, opte pelo bacalhau na broa ou pelo sarrabulho. O segundo, O Açude, fica à beira do rio Lima, tem uma varanda envidraçada que dá para o rio e por isso é uma excelente opção para o almoço. Pique um pouco de cada uma das variadíssimas entradas – salada de polvo ou de ovas, mexilhões, pimentos padrón, percebes, e por aí fora –, mas reserve espaço para as tipicamente minhotas especialidades da casa: bacalhau na broa e arroz de sarrabulho (sim, outra vez). Todos os dias há peixe e marisco fresco vindo directamente da lota de Viana do Castelo. Para acompanhar, seja na Carvalheira ou no Açude, escolha um vinho regional. Verde, como a tradição obriga. Branco ou tinto é consigo!
A Carvalheira
Antepaço – Arcozelo, Ponte de Lima
+351 258 742 316

O Açude
Clube Náutico, Ponte de Lima
+351 258 944 158

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