Planeta Tangerina – Brincadeira séria

on Feb 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Não há muitas editoras como esta no mundo. Criada por ilustradores e uma escritora, a Planeta Tangerina faz livros diferentes. São para crianças e jovens, mas os adultos não lhes resistem. Traduzidos em várias línguas, acumulam prémios e distinções.

A primeira impressão é a de que estamos a entrar num castelo feito de livros. Na vivenda da editora Planeta Tangerina em Carcavelos, entre Lisboa e Cascais, a porta abre-se para uma arrecadação onde se empilham os muitos títulos editados ao longo dos últimos 14 anos. É por entre paredes de lombadas coloridas que chegamos às escadas que nos conduzem ao primeiro andar. Lá em cima, nascem alguns dos mais originais livros produzidos em Portugal. Chamam-lhes literatura infanto-juvenil, mas, na verdade, os adultos também não resistem a estas páginas ilustradas que já chegaram aos quatro cantos do mundo, com edições em inglês, francês, italiano, japonês, árabe… uma babel de muitas histórias, muitos desenhos e muito boas ideias.

O segredo, dizem, é sempre terem criado livros com total liberdade. “Só fazemos o que queremos, editamos por nossa conta e risco”, resume Bernardo Carvalho, ilustrador e um dos três fundadores da Planeta Tangerina, juntamente com a ilustradora Madalena Matoso e a escritora Isabel Minhós Martins. Amigos desde o liceu, começaram por partilhar um ateliê de design. Tinham 30 anos acabados de fazer ou quase isso quando decidiram editar um álbum ilustrado. Um Livro para Todos os Dias foi o primeiro e, naquela altura, funcionou quase como mostruário das suas ideias e daquilo que queriam fazer: livros que fugissem à lógica das histórias sempre bem comportadas para crianças, contadas com palavras e desenhos infantis. “Nunca gostámos de histórias com moral e pedagogia mais ou menos escondida”, diz Isabel. A eles se juntou logo outra ilustradora, Yara Kono, e, dois anos depois, já contavam com mais três títulos no catálogo.

“O facto de termos a nossa editora em vez de editarmos os nossos livros noutras editoras faz toda a diferença. Haveria sempre alguma indicação para que fôssemos ao encontro da ideia do que é um livro para crianças: o tipo de imagens, o tipo de cores, tudo isso seria diferente. Tenho a certeza de que o Pê de Pai nunca teria saído numa editora tradicional como saiu sendo nós a editar. Teriam puxado mais pelas cores, teria tido um papel mais brilhante…”, exemplifica Madalena Matoso, falando daquele que foi um dos primeiros títulos da Planeta Tangerina e continua a ser o mais bem sucedido da família. Com texto de Isabel e ilustrações de Bernardo, Pê de Pai tem apenas um desenho e duas palavras por página, para nos apresentar vários tipos de pai: o “pai avião” que faz o filho voar pelo ar, o “pai sofá” que dá colo enquanto lhe lê um livro, o “pai despertador” que o acorda pela manhã, o “pai ambulância” que corre ao médico… Também existe outro, Coração de Mãe, que fala do fio imaginário que liga as mães aos filhos. Pelo universo da Planeta Tangerina, passam temas tão diferentes como a grande invasão dos carros nas cidades, as mil e uma descobertas que fazemos quando nascemos, um dia passado na praia, as viagens pelas estradas secundárias e pelas autoestradas, as mantas de retalhos que contam histórias, as diabruras de um gato pelos quintais dos vizinhos, a vida de uma rapariga karateca, um guia para descobrir a natureza, o general que não deixa ninguém passar para a página seguinte, a revolução que podem fazer três novelos de lã, um menino que inventa um novo dicionário, as aventuras de verão de uma adolescente, os amores e desamores de duas irmãs, uma rainha deprimida com saudades de casa, um guia para compreender o cérebro, um atlas de viagens e exploradores e muito, muito mais. Plasticus Maritimus é a obra mais recente e leva-nos pelos perigos dos plásticos nos oceanos.

 

Contra os livros estúpidos

Não é por acaso que em 2013 a Planeta Tangerina recebeu a distinção de Melhor Editora Europeia de Livros Infantis, na Feira do Livro Infantil de Bolonha, o mais importante espaço de divulgação da edição para os mais pequenos. “Inovadora” foi o adjetivo escolhido para a elogiar. Hoje, o catálogo conta com cerca de 70 títulos, todos pensados ao pormenor, dos textos e dos desenhos ao formato e à forma como as páginas se viram. Há livros só com ilustrações e outros com muitas páginas e muita informação, uns de leitura mais rápida, outros de leitura mais prolongada – e é desse equilíbrio que se constrói a filosofia da editora. “Já não temos só álbuns ilustrados, como no início. São tantos os assuntos no mundo que nos preocupam e aos quais devemos dar mais atenção que é preferível fazer um livro mais informativo – o que não quer dizer que seja uma coisa enciclopédica porque tentamos sempre que mesmo esses mais informativos também sejam quentes de alguma maneira. Em vez de inventar uma história para falar dos plásticos ou da natureza ou do cérebro, por exemplo, vamos mesmo falar destes assuntos com uma abordagem factual e informativa”, explica Isabel.

É impossível a conversa não ir parar à mais clássica das perguntas: afinal, o que é um livro para crianças? E para quem são estes editados pela Planeta Tangerina? A palavra a Isabel Minhós Martins, novamente: “Os nossos livros são para ser partilhados entre pais e filhos. Se pensarmos que, por exemplo, o Bernardo lia o Atlas quando era pequeno, então, essa também é uma obra para crianças. Para mim, um livro para crianças é um que elas abrem e onde descobrem qualquer coisa que lhes interesse. A definição devia ser: um livro para crianças é um livro que não é estúpido.” A verdade é que nenhum dos autores da Planeta Tangerina perde muito tempo a pensar se as crianças vão ou não gostar daquilo que fazem – e, na maior parte das vezes (com honrosas exceções), acertam em cheio no de que elas gostam. O mesmo se passa com os adultos, fiéis leitores destes livros, sejam pais, mães, tios, avós ou simplesmente apreciadores deste género literário. “E não tem de ser vergonha nenhuma os adultos gostarem de livros ilustrados”, defende Yara Kono, “há adultos que os compram para si”.

 

Êxitos e falhanços

Num dos mais recentes livros da Planeta Tangerina, pensado para os mais novos, as páginas viram-se à velocidade com que se joga ao “telefone sem fio” (é assim o título): com frases segredadas ao ouvido e que se vão transformando noutras enquanto dão três voltas ao mundo. “Comidas, trocadas, mastigadas, acrescentadas, inventadas… as palavras têm muito que se lhes diga”, escreve a editora, desafiando os leitores. A cada página há uma surpresa e essa podia ser uma boa definição para a Planeta Tangerina, onde se procura sempre experimentar fazer diferente do que já se fez, mesmo correndo riscos comerciais.

“Também temos alguns flops no catálogo, porque há obras que queremos editar mas sabemos que não vão ser sucessos de vendas”, conta Isabel Minhós Martins. Faz parte, dizem, mas já se habituaram a gerir esse desequilíbrio. “Quase não compramos direitos, isso ainda continua a ser o que nos distingue. Temos apenas seis novos títulos por ano porque o que nos move é mesmo fazer livros. Há um lado de criação mas também existe uma parte de gestão que nem sempre é fácil. Talvez por isso não existam muitas editoras como nós”, acrescenta a escritora. Bernardo Carvalho concorda: “Sim, é uma coisa quase única, uma editora composta por escritores e ilustradores.”

O que lhes vai permitindo manter este ritmo de edição, numa altura em que se publica desenfreadamente, são as vendas de direitos e as adaptações para outras línguas, cada vez mais frequentes. Daqui Ninguém Passa (o tal do general que deixa dezenas de personagens apinhadas numa página porque não as deixa passar para as seguintes), Livro Clap (feito para abrir e fechar e dar vida e som às ilustrações) e Lá Fora (o guia para descobrir a natureza) são os recordistas em traduções. “Mais uma vez, sermos nós a fazer os livros e a editá-los é uma vantagem. Temos a capacidade de poder oferecer serviços na tradução, como novas ilustrações, novos capítulos ou outras mudanças”, nota Bernardo, que já teve de descer algumas saias nas suas ilustrações para as versões árabes. É que neste Planeta Tangerina tudo é possível: uma mesa pode ser muito mais do que uma mesa, uma galinha pode fazer verdadeiros milagres e nós podemos correr o mundo num segundo. Basta abrir um livro e passar as páginas.

planetatangerina.com

 

por Gabriela Lourenço

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Babel

A Planeta Tangerina tem livros traduzidos em quase 30 línguas: alemão, árabe, arménio, catalão, checo, chinês, coreano, espanhol, finlandês, francês, galego, grego, holandês, inglês, italiano, japonês, lituano, norueguês, polaco, russo, sérvio, sueco, turco e ucraniano.

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