Plácido Domingo

em Sep 1, 2012 in Viajante profissional | No Comments

Em palco, num dia é herói, noutro vilão. Hoje trágico, amanhã romântico. Na vida real, Plácido Domingo, num dia está em Los Angeles, noutro em Pequim. Hoje em Portugal, amanhã em Telavive. Nas próximas linhas saiba mais sobre a carreira, as viagens e outras paixões de um dos maiores tenores de sempre.

 

 

 

Nasceu em Madrid, cresceu no México. Começou por tocar piano e só descobriu que tinha sido talhado para cantar, quando, certo dia, interpretou uma zarzuela (género lírico-dramático espanhol) que fez a mãe chorar de emoção. Estreou-se em palco ao lado dos pais – ambos cantores de zarzuelas –, na década de 50. Em 1961, entrou pela primeira vez numa ópera: La Traviatta, de Verdi.

Plácido Domingo começou por cantar papéis de barítono. O tempo e o treino apuraram-lhe o espectro vocal – que já tinha o seu quê de tenor – e foi assim que se celebrizou: como um dos mais importantes tenores da história da música. Passados 55 anos de uma carreira brilhante, Plácido não abrandou o ritmo, antes pelo contrário. Além de cantor, é maestro, diretor das óperas de Los Angeles e de Washington e presidente da fundação Europa Nostra (ver caixas). Caso para dizer: é obra! Plácido concorda: “Sim, é muito, de facto! Mas sabe, eu subscrevo as palavras de Confúcio: ‘escolhe um trabalho que ames e nunca terás de trabalhar um dia na tua vida’”.

 

“Se paro, enferrujo”

Em 2010, Plácido Domingo disse ao jornal britânico The Independent: “Não creio que ainda esteja a cantar a 21 de Janeiro de 2011, quando faço 70 anos”. Estamos em Setembro de 2012 e o tenor, não só está prestes a juntar ao seu repertório a 140ª ópera, como deu uma sacudidela na ordem das coisas e voltou a cantar papéis de barítono – como em Simone Boccanegra, Rigoletto ou Thais – por sinal, alguns dos mais exigentes. “Sim lembro-me de ter dito isso. Mas aqui estou, com 71, ainda a cantar por esse mundo fora. No momento em que sentir que não estou ao meu melhor nível, aí sim, repensarei as minhas atividades”.

O corrupio não é de agora, é de sempre. Apesar de viajar muito e desde muito cedo, Plácido Domingo confessa que ainda se deslumbra com tudo o que vê. “Sinto-me muito afortunado por ter podido ver tanto deste planeta. Não sou incansável, mas sou daquelas pessoas que gostam de ver para lá do horizonte mais próximo. Adoro visitar e experimentar o património em todas as suas formas, seja um monumento numa cidade, ou um misterioso lugar de culto religioso; coleções de arte de museus, sejam eles grandes ou pequenos; jardins e parques encantados e paisagens de cortar a respiração. Acredito que cada uma destas formas da nossa herança cultural e natural é uma fonte muito importante de inspiração para qualquer tipo de criação, artística ou não.” Apesar disso, não tem lugares favoritos. “Como poderia? O mundo está repleto de coisas esplêndidas. Como é que se pode comparar a magia de um templo maya com a emoção de um fado ou o sossego de uma floresta ancestral com o pulsar do coração da imortal Paris?”

 

Portugal, Portugal

“É sempre um prazer voltar a Portugal e a minha última passagem pelo vosso país foi ainda mais especial para mim. Não fui na condição de músico, fui como presidente da Europa Nostra para o Congresso Anual da Europa Nostra, que organizámos em conjunto com o Centro Nacional de Cultura, o nosso representante em Portugal. Juntamente com a comissária da União Europeia, Androulla Vassiliou, tive o privilégio de entregar o Prémio União Europeia para o Património Cultural/Europa Nostra a 28 projetos de excelência que promovem a preservação do património cultural”. Um dos galardoados foi a ação que levou avante a recuperação dos seis órgãos da Basílica de Mafra. E ouvi-los, “naquela deslumbrante basílica barroca foi uma emoção imensa, um momento extraordinário do qual me vou lembrar por muito, muito, tempo”, diz o tenor. “Por coincidência”, disse ainda numa entrevista ao jornal Público, “ofereceram-me, já faz quase dois anos, [a possibilidade de fazer] um concerto com eles; e, na verdade, entusiasma-me muito”. Infelizmente, não foi nesta última passagem por terras lusas que isso aconteceu: Plácido tinha de cantar em Verona na noite seguinte, e as cordas vocais, “o instrumento mais delicado que há”, precisavam de descanso.

Falando de cantorias e de Portugal, é preciso trazer à baila o ano de 2007, quando Plácido Domingo cantou “Foi Deus”, um dos fados mais célebres de Amália Rodrigues. Modesto, diz que não se atreve a comparar a sua performance a nenhuma de Amália e acrescenta que tem tanto respeito pelo fado que nunca se atreveu a gravar nenhum. Sem sair do tema, refere, em jeito de remate: “Estou radiante por ver o fado incluído na lista de Património Imaterial da Humanidade da UNESCO. Sei que os portugueses trabalharam muito para que isso acontecesse e é mais do que merecido. Tanto o património tangível como o intangível aproxima as comunidades, a Europa e o Mundo precisam muito disso, especialmente nos dias que correm”.

Mas há mais favoritos neste cantinho da Península Ibérica. A Plácido, agrada-lhe o apreço dos portugueses pela música, pela história e pela cultura. Gosta de passear por Lisboa antiga, senhorial e elegante, pelas ruas empedradas. Provar a deliciosa comida típica nos restaurantes simples e escutar as canções sentidas que saem pelas janelas fazem-no sentir que entrou num outro mundo. E termina: “Permitam-me mais um aparte um tanto romântico: o tempo parece passar mais devagar aqui. O ritmo é outro, podemos abrandar e celebrar a vida”.

 

por Maria Ana Ventura

Arquivos

Números e prémios

O repertório de Plácido Domingo inclui cerca de 140 papéis e conta com mais de 3500 performances. A estes números astronómicos – nunca igualados por outro tenor – juntam-se outros tantos: os trabalhos em estúdio (que são mais de 100) valeram-lhe 12 Grammys, participou em três filmes/ópera – Carmen, La Traviata e Otello – e, em televisão, fez Tosca que passou em mais de 117 países. Como maestro, Plácido Domingo já conduziu mais de 450 óperas e concertos sinfónicos com orquestras de todo o mundo e, em 1993, fundou a competição Operalia, que procura novos talentos do canto clássico. Também é da década de 90 o projecto Três Tenores – com Luciano Pavarotti e José Carreras –, uma das parcerias musicais mais bem-sucedidas do século XX. Durante a temporada 2011/2012, o multi-facetado artista vai conduzir Romeu e Julieta (Charles Gounod), Tosca (Puccini), Madame Butterfly (Puccini) e interpretar o papel principal em Simon Boccanegra (Verdi) e o de Neptuno em A Ilha Encantada (de Jeremy Sams, é um pastiche de temas de vários compositores barrocos, como Handel e Vivaldi). Nos dias 15, 20, 23 e 29 de setembro, Plácido Domingo está em cena com I Due Foscari, de Giuseppe Verdi, na Ópera de Los Angeles.

www.placidodomingo.com

Europa Nostra

É a voz do património cultural europeu. A sua vasta rede de profissionais e voluntários procura salvaguardar o património cultural e natural europeu para as gerações presente e futuras. Os membros e parceiros da organização formam um poderoso movimento de apoio ao património cultural na Europa, promovendo a excelência através do Prémio União Europeia para o Património Cultural/Europa Nostra e de campanhas para salvaguardar o património histórico ameaçado, bem como lugares e paisagens de valor cultural. Nas palavras do seu presidente, “A Europa Nostra acredita que herança cultural é a grande mais-valia do velho continente, uma verdadeira mina de ouro que ainda não foi convenientemente explorada. Estes recursos excepcionais podem ajudar-nos a combater a crise actual. Felizmente parece que cada vez mais e mais cidadãos e decision-makers começam a concordar connosco”.

www.europanostra.org

web design & development 262media.com