Piódão – Paisagem poética

em Sep 1, 2013 in Fim-de-Semana Perfeito | 2 Comments

Subimos a Serra do Açor com a atriz Dalila Carmo, para conhecer uma das mais belas aldeias históricas de Portugal. No Piódão, a paisagem quase nos deixa sem palavras. Sobram estas…

Dalila Carmo no/at Piódão por/by António Gamito

A primeira vez que Dalila Carmo viu uma imagem do Piódão foi num postal. “Olhei para aquela paisagem inconfundível no meio da serra. Disse a mim mesma: “Tenho que ir aqui!”. Só mais tarde vim a descobrir no mapa onde é que o Piódão ficava”. Dalila conheceu a aldeia em 1996 e ficou tão encantada que, durante um período da sua vida, voltava lá duas vezes por ano. “Lembro-me que fiz questão de vir antes de ir estudar para Nova Iorque e também logo que regressei da temporada nos Estados Unidos. Já vim com amigas, com a minha mãe, com o meu marido, até com a minha professora de teatro americana. Entretanto, comecei a viajar sozinha, interessei-me por outros destinos, por ver coisas diferentes. Mas o Piódão continua a ser um lugar especial para mim.”

Por entre as curvas e contracurvas da Serra do Açor, perto do seu ponto mais alto (1340 m), avista-se o Piódão, apoiado numa encosta da montanha. Embora seja uma habituée, Dalila não contem a exclamação de espanto diante do aglomerado de casinhas de xisto acinzentado, que parecem empoleirar-se umas nas outras, desafiando a gravidade. “Ai, é lindo! Adoro!”

Construída em forma de anfiteatro (disposição que permite proteger a povoação dos ventos dominantes), a aldeia galga, degrau a degrau, os socalcos cultivados com hortas, pomares e jardins. Este singular conjunto urbanístico tem origem medieval e características arquitetónicas únicas, mantidas com rigor desde 1978, quando foi classificado como imóvel de interesse público.

Ex-líbris da Beira Serra, o Piódão é o cartão de visita do concelho de Arganil e uma das mais famosas aldeias históricas portuguesas. “Conheço-as todas, mas esta é a mais perfeitinha”, garante Dalila. Já foi considerada “a aldeia mais típica de Portugal”, mas a designação mais pertinente é a de “aldeia presépio” devido ao aspeto que assume ao anoitecer, quando as luzes se acendem, pontilhando a montanha como se fossem estrelas.

Dalila Carmo no/at Piódão por/by António Gamito

É justamente essa panorâmica iluminada que admiramos durante o jantar no restaurante do Inatel, situado a poucos quilómetros do centro. Recém-chegada de uma temporada em Madrid e já com outra viagem marcada para Israel, Dalila está feliz com o “regresso às origens”: “As grandes cidades sufocam-me. Vivo mais à vontade em lugares pequenos e sinto uma forte afetividade nas aldeias”. A dar-lhe razão, espera-nos um carinhoso acolhimento na Casa da Padaria, onde pernoitamos.

Banho de natureza

Pequeno-almoço farto e sol radioso na manhã seguinte dão-nos energia para fazer o percurso pedestre (cerca de 4 km) desde a aldeia até à Foz D’Égua. Na confluência entre as ribeiras do Piódão e de Chãs, que correm na direção do rio Alvôco, forma-se uma lindíssima piscina natural. A caminhada inclui a travessia da pitoresca ponte suspensa e culmina com um refrescante mergulho nas águas límpidas da praia fluvial, refletindo o verde circundante.

“Não faço grandes tratamentos para rejuvenescer. A natureza é o meu detox!” – comenta Dalila, revigorada. Assume o estatuto de figura pública, mas sem ares de diva. Cumprimenta os vendedores de artesanato, os habitantes locais e os turistas, prestando-se aos autógrafos e fotografias da praxe. Senta-se depois, tranquilamente, no largo central do Piódão, na esplanada do Solar dos Pachecos. “Adoro comer! Estou sempre cheia de fome!”

Dalila Carmo no/at Piódão por/by António Gamito

É uma artista muito expressiva, que fala não apenas com a boca, mas também com os olhos, com as mãos. Põe intensidade em tudo o que diz. Culta, articulada, tem uma conversa dinâmica e aprecia genuinamente estar com as pessoas. Conversamos sobre a carreira, marcada pelo sucesso recente do filme Florbela, sobre a carismática poetisa portuguesa Florbela Espanca. “Foi o meu trabalho mais importante até agora, mas já estou ansiosa por me descolar da personagem e enfrentar novos desafios.”

Dalila sempre foi aventureira. Aos 18 anos, deixou o Porto para ir viver sozinha em Lisboa: “Tinha uma enorme curiosidade pelo mundo”. A mesma curiosidade anima-a durante a visita guiada ao núcleo museológico do Piódão. Julieta Mateus, assistente técnica, recorda momentos do passado como forma de manter a identidade cultural da aldeia e assim contribuir para a preservar e revitalizar no futuro. Objetos do dia a dia, utensílios domésticos e ferramentas de trabalho revelam o quotidiano dos residentes em outras épocas e ajudam a ilustrar histórias de mouros, bandidos e nobres que por ali passaram.

Dalila Carmo no/at Piódão por/by António Gamito

O relato leva Dalila a desejar perder-se pelas ruelas da aldeia, também empedradas em xisto, explorando cada recanto. Passa pela eira comunitária (usada para secar e tratar os cereais), pela capela de São Pedro (padroeiro local), pela Fonte do Algar (ponto de encontro dos casais de namorados). Entra na Igreja Matriz, construída no século XVII e remodelada no século XIX. É a única edificação branca do Piódão e impõe-se sobre o casario cinzento, com quatro torres na fachada (estilo manuelino-mudéjar). O interior tem tons delicados e no altar pontifica a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Consta que por influência de um pároco benfeitor, o cónego Manuel Nogueira, todas as portas e janelas da aldeia foram pintadas de azul, “a cor do Céu”. Uma outra versão, mais terra à terra, revela que essa era a única cor de tinta existente na loja, pelo que foi adotada por toda a gente.

Dias bucólicos

Hoje em dia, o Piódão (que como todas as aldeias do país sofreu o fenómeno da desertificação) tem cerca de 80 habitantes. Além do turismo, a região mantém atividades apícolas, ovinas e agro-precuárias. Pelos caminhos, vêm-se as levadas, redes de canais também construídos em xisto – que distribuem a água para a rega das culturas – cujo horário é anunciado pelo sino da igreja.

Aproveitamos o fim da tarde para mais um passeio. Vamos à Mata da Maragaça, situada a cerca de 20 quilómetros na área protegida da Serra do Açor. Trata-se de uma importante reserva bioenergética, último reduto da vegetação original do centro do país, cuja densidade faz com que a luz seja filtrada pela copa das árvores. Integrada neste ambiente de total harmonia com a natureza, encontramos a Fraga da Pena, cenário idílico onde a água avança por entre a mata e se despenha numa cascata com mais de 20 metros.

Dalila Carmo no/at Piódão por/by António Gamito

Jantamos no restaurante Piódão XXI, prolongando o serão até a noite cair sobre a aldeia. Pela manhã, acordamos refeitos e deixamos a Casa da Padaria. Com Cristina Melo, engenheira agro-pecuária, vamos conhecer o Açor Natura, projeto surgido após um perigoso incêndio ocorrido na serra em 2005, que obrigou a evacuar o Piódão. “Pretendemos revitalizar a paisagem, devolver a florestação da área baldia através das atividades pastoril e agrícola”, explica a engenheira. “Os animais ajudam a limpar a vegetação e a proteger a aldeia. Recorremos à ração apenas em alturas de carência, para que comam sobretudo lá fora e façam a redução da biomassa florestal.”

Nas imediações da aldeia, há uma quinta pedagógica, com criação de cabras, e uma queijaria comunitária, para aproveitamento do leite. Rodeada pelos cabritinhos, Dalila viveu “um momento Heidi”, encantando-se com os “bebés memés”. Ao redor do cabril, as plantas mais comuns são a urze e a giesta, mas as pastagens da quinta estendem-se por 250 hectares, onde as cabras andam à solta, sem pastor, regendo-se pelo horário solar.

A propósito de horário, é tempo de nos despedirmos do Piódão e rumar a Côja, para almoço à beira-rio, no Restaurante Lagar do Alva. Acompanha-nos Raquel Tavares, coordenadora dos serviços de Turismo da Câmara Municipal de Arganil, que sugere vários outros passeios. Dalila quer ainda voltar muitas vezes. “Obrigada por me terem trazido de novo ao Piódão!”

por Moema Silva fotos António Gamito

Arquivos

Dalila Carmo

Nascida no Porto há 39 anos, Dalila Carmo sempre teve em si “o universo da fantasia”. Optou pela carreira artística como “uma via de autoconhecimento”. Fez o curso profissional de teatro no Ballet-Teatro Contemporâneo do Porto, 1990/93, e seguiu para os Estados Unidos, onde se especializou no Método com Marcia Haufrecht e no Actors Studio, em Nova Iorque. De regresso a Portugal, trabalhou em teatro com encenadores como Joaquim Benite, António Pires, Joseph Szajnan e Emmanuel Demarcy-Mota, entre outros. No cinema, participou em várias coproduções luso-francesas e espanholas, tendo depois estreado “à séria” com uma curta-metragem de Paulo Castro, a que se seguiu a longa-metragem Vale Abraão, do consagrado Manoel de Oliveira. Trabalhou também com os realizadores Margarida Gil (com quem fez Anjo da Guarda, pelo qual recebeu uma menção honrosa no Fantasporto), João César Monteiro, João Botelho, José Carlos de Oliveira, Jeanne Waltz, João Pinto Nogueira e Juan Miñon. Em 2012, protagonizou o filme Florbela, de Vicente Alves do Ó. O seu desempenho valeu-lhe vários prémios, incluindo o de Melhor Atriz do Festival Caminhos do Cinema Português (Bragacine), o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Cinema, atribuído pela SIC, e o Prémio da Fundação GDA. Paralelamente, Dalila desenvolve uma carreira de muito sucesso na televisão. Entre 1999 e 2012 esteve ligada à estação televisiva TVI, integrando o elenco de mais de uma dezena de telenovelas e séries (com destaque para as produções de época, Joia de África e Equador). Atualmente, prepara o seu regresso ao teatro com a peça O Tempo e a Ira, do britânico John Osbourne, encenada por Martim Pedroso, que estreará em outubro no Teatro Mirita Casimiro, no Monte Estoril.

Restaurantes

Inatel Piódão

O restaurante desta moderna unidade hoteleira de quatro estrelas, inaugurada há 10 anos, proporciona uma vista panorâmica privilegiada sobre a Serra do Açor. Com capacidade para 60 pessoas e um ambiente tranquilo, permite desfrutar em pleno da paisagem enquanto se saboreiam pratos regionais. Somos recebidos por Rui Martins, que ali trabalha desde a abertura e que nos serviu a típica chanfana (estufado de cabra marinada), com batatas e brócolos cozidos, preparada pela cozinheira Isabel Moura. À sobremesa, provámos tigelada. A refeição foi acompanhada por vinho tinto e branco Encosta da Estrela (Dão).

www.inatel.pt



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Solar dos Pachecos

No largo central da aldeia, o rústico Solar dos Pachecos é ponto de paragem obrigatório para os visitantes do Piódão. Vitor Santos e Susana Gomes são, há 12 anos, proprietários do restaurante que funciona também como snack-bar e loja de produtos regionais. Na agradável esplanada, receberam-nos com simpatia e petiscos típicos. No cesto do pão, destaque para as broas de milho e de batata. Pratinhos de barro com azeitonas, queijos de cabra e ovelha, saladinha de tomate, bucho e morcela assada. Pedimos imperial para refrescar, mas não resistimos a provar os deliciosos licores artesanais (amora, cereja, pêssego, medronho, castanha e mel…).

Largo Cónego Nogueira, Piódão \\\ +351 235 731 424 \\\ solardospachecos@hotmail.com

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Piódão XXI

Sob a responsabilidade de António Santos, esta casa pretende dar um toque contemporâneo ao local. Mas, se a sua arquitetura de linhas modernas causa alguma polémica, o mesmo não se pode dizer da comida. Os pratos de cabrito assado e bacalhau à casa (dourado em cebolada), preparados pela cozinheira Maria da Conceição e servidos por Paulo, souberam-nos a tradição. Receitas clássicas, com produtos de qualidade e bom tempero, regadas por vinho tinto Quinta do Cabriz (Dão). Realce para a varanda, sobre as colinas verdejantes da serra.

Largo Cónego Nogueira, Piódão \\\ +351 967 537 491 \\\ asantos.piodao21@sapo.pt

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Lagar do Alva, Côja

Antigo lagar de azeite transformado em restaurante há 30 anos, conserva ainda como decoração a máquina de moer azeitonas e as prensas. O espaço pertence há duas décadas a António Silva, que nos recebeu pessoalmente e é o responsável pelas receitas dos pratos servidos por Marisa. Polvo à lagareiro, com batatinha assada a murro e chanfana de cabrito à Beirão, seguidos por leite-creme queimado na hora. Para brindar em grande estilo, abriu-se uma garrafa de tinto Quinta do Côtto (Grande Escolha – 1996 – Dão). Além da saborosa gastronomia e do atencioso serviço, este restaurante vale pela localização: a varanda debruça-se sobre o rio Alva, junto à bonita praia fluvial de Côja.

Rua Pereira do Vale, Côja \\\ +351 235 721 640

Casa da Padaria

A agradável casa de campo do casal Goretti e António Ribeiro funcionou como padaria de 1960 a 1971. Esteve depois abandonada até 1999, sendo então recuperada para turismo rural. Propriedade de família, conserva ainda, de forma decorativa, o forno do pão e várias peças relacionadas com o ofício dos padeiros. A casa da lenha foi transformada em sala de estar e a receção foi instalada no local da venda. Uma antiga masseira tornou-se móvel de apoio na sala dos pequenos-almoços, que Goretti serve pessoalmente, com irretocável aprumo. Toalha de linho branco sobre uma mesa farta, com doces caseiros, variedade de pães, frios e queijos (incluindo o requeijão serrano), além de frutas e bolos. A casa possui 4quatro quartos de hóspedes, confortavelmente equipados e cuidados nos mínimos detalhes. As janelas abrem-se para o vale do Piódão, cujos sons e cheiros entram pela casa adentro. Todo o ambiente faz com que nos sintamos, aconchegadamente, em casa.

Rua Cónego Manuel Fernandes Nogueira, Piódão \\\ +351 235 732 773 \\\ casa.padaria@sapo.pt

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