Philippe Vergne

on Feb 1, 2020 in Partida | No Comments

Philippe Vergne é o novo diretor artístico do Museu de Serralves. Depois de Marselha e Los Angeles, o francês chega ao Porto para conduzir uma das mais importantes instituições culturais do país.

O seu aspeto não engana. Vestido a rigor, óculos redondos, cabelo de corte médio, sotaque francês acentuado. Tudo em Philippe Vergne grita “curador de arte”. Mais revelador do que o estilo pessoal é o seu impressionante currículo. Íntimo habitué do panorama artístico mundial há três décadas, Vergne tem trabalhado como curador um pouco por todo o lado, desde o Musée d’Art Contemporain em Marselha ao Museum of Contemporary Art em Los Angeles. Desde abril de 2019 que este francês pan-atlântico imprime o seu próprio estilo inclusivo e internacionalista às funções de topo que exerce no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto – uma das principais instituições de arte em Portugal.

A sua chegada coincidiu com uma fase muito estimulante da trajetória criativa da cidade, marcada pela inauguração de uma série de galerias de arte e pela emergência de novas e empolgantes vozes artísticas. “Convicto”, “político” e “muito experimental” constam entre as expressões utilizadas por Vergne para descrever o panorama artístico da sua nova casa adotiva. O seu amor pela arte já o levou a todos os cantos do mundo e essa vivência permite-lhe identificar nos artistas portugueses alguma da idiossincrasia e confiança que caracterizam uma parte significativa da arte contemporânea mexicana e brasileira.

“Aqui, os meios tradicionais como a pintura e a escultura não dominam a produção, o que a torna muito interessante e lhe confere uma identidade muito forte em termos artísticos”. Rejeitando uma visão curatorial rígida, Vergne encara a sua missão em Serralves como um esforço de “contextualização” da arte contemporânea portuguesa. Em sintonia com o seu próprio background (e o enfoque histórico de Serralves), tal objetivo envolve uma combinação de produção doméstica e internacional. As primeiras exposições sob a sua curadoria antecipam o que está para vir. Entre os exemplos constam uma retrospetiva do recentemente desaparecido cineasta português Manoel de Oliveira e uma série de instalações do escultor dinamarquês-islandês Olafur Eliasson inspiradas na natureza.

O estilo curatorial de Vergne pode ser subtil, mas não isento de paixão ou de princípios. Ao longo da sua carreira, o compromisso com a inclusão tem sido um tema importante. O próprio Vergne descreve-o como instintivo (“Acho que basicamente não me agrada a exclusão”), mas é também uma questão de “senso comum”. Vergne ama a arte e deseja que outros sintam o mesmo. Refugiarmo-nos em nichos de autocongratulação nunca é suficiente.

As exposições bem-sucedidas são aquelas que “oferecem às pessoas algo com que se podem relacionar”, observa Vergne. Tal não significa que haja uma simplificação ou que se atenuam os elementos radicais daquilo que constitui, por natureza, uma forma de arte desafiadora. Confrontar o público não é uma coisa negativa, afirma. Mas também é preciso reconfortá-lo. “O meu objetivo é assegurar que as pessoas se sentem confortáveis com aquilo que não compreendem. Porque ao sentirem-se confortáveis com as formas, ideias e culturas que não entendem, estarão mais abertas para o mundo.”

 

O viajante

É uma lição que nasce da sua experiência pessoal de viajar pelo mundo. Crente convicto de que as viagens abrem a mente, Vergne não hesita em voar para Nova Iorque para a inauguração de um museu ou apanhar um avião para Istambul na ocasião da bienal da cidade. Tais viagens são realizadas “como profissional, e não como turista”, salienta prontamente, mas logo reconhece os privilégios da sua opção de carreira. As “compensações” inerentes às suas viagens pelo mundo enquanto curador comportam obrigações para com o seu público, nomeadamente a “transposição” das suas experiências e contactos para a programação do museu.

Não surpreende, portanto, que Vergne não seja um viajante ocioso. Assim que ocupa o seu lugar do avião, joga as mãos à mala para pegar num livro. A leitura, insiste ele, é uma parte intrínseca do seu trabalho. O conteúdo das suas listas de leitura é fortemente influenciado pelos artistas específicos com quem trabalha nesse momento. “Os artistas são uma grande fonte de informação, pelo que me interessa sempre saber que tipos de filmes veem ou que livros leem. Porque não conseguiremos traduzir efetivamente o seu trabalho sem entrar um pouco na mente deles.”

Esta teoria foi testada há alguns anos, quando convidou o artista americano Doug Aitken, reconhecido pelas suas instalações, para uma viagem de vários dias pela Califórnia. O objetivo aparente de ambos era visitar a clássica obra de land art de Michael Heizer no deserto do Nevada. Todavia, para Vergne, tão importante como a inspiração da paisagem, era a troca de ideias. A subsequente exposição de Aitken, que contou com a curadoria de Vergne em Los Angeles, incluiu um pavilhão subaquático acessível apenas aos visitantes dispostos a mergulhar – uma ideia excêntrica que germinou a partir de um desvio que a dupla fez em direção à Ilha de Santa Catalina, ao largo da costa californiana.

Questionado sobre se terá encontrado no Porto algum lugar igualmente inspirador, menciona sem hesitar a clássica criação que o arquiteto português Álvaro Siza projetou, em 1963, junto a uma falésia, a Casa de Chá da Boa Nova. Embora seja uma maravilha arquitetónica em si, é a justaposição do edifício com o ambiente circundante que mais impressiona Vergne. Localizado na costa a norte do Porto, na vila de Leça da Palmeira, este projeto ultramodernista de Siza (que alberga hoje em dia o restaurante Boa Nova, dirigido pelo chef Rui Paula) tem de um lado uma capela caiada de branco e, do outro, uma refinaria industrial. “Quando se chega, deparamo-nos com este contraste entre modernidade, tradição e indústria que considero ser absolutamente deslumbrante em termos visuais”.

A vista do escritório de Philippe Vergne para o exuberante parque de esculturas de Serralves também não é de menosprezar. Os amantes de arte que visitam o Porto desejarão que este cenário prenda por muitos anos este francês cidadão do mundo.

serralves.pt

 

por Oliver Balch /// foto Rui Duarte Silva / Expresso

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