Petratex – A fábrica dos sonhos

on Feb 1, 2013 in Embarque Imediato | One Comment

Deixou de se confundir com outras fábricas de confeções quando inventou uma técnica que roubou as costuras às peças de vestuário. Hoje, a Petratex é reconhecida internacionalmente, depois de ter participado na criação de fatos de natação que batem todos os recordes.

Quando não está nas fábricas da Tunísia ou de Marrocos ou a visitar clientes na Bélgica, nos Estados Unidos ou em qualquer outro ponto do mundo, o CEO da Petratex, Sérgio Neto, é quase sempre o último a sair das instalações da fábrica-mãe, em Paços de Ferreira. Isso acontece já muito depois da hora de jantar, e o curioso é que raramente está sozinho nesta dedicação pós-horário laboral. “Pode ser difícil de compreender e até de acreditar. Mas aqui somos uma espécie de família alargada onde todos, desde a empregada da limpeza ao meu assessor na administração, sabem que ocupam um papel importantíssimo. Por isso, todos se empenham e se dedicam. A maior riqueza desta empresa é o capital humano”, argumenta Sérgio Neto.

A Petratex é uma empresa têxtil que saltou para os noticiários de todo o mundo quando o nadador americano Michael Phelps desatou a bater recordes e a colecionar medalhas nos Jogos Olímpicos de 2008 com um fato de natação made in Portugal. Inserida numa região onde predomina a indústria do mobiliário, a Petratex parece ser um mundo à parte e é sobretudo em aspetos como a política de gestão de recursos humanos que essas diferenças mais se manifestam. Todas as grandes decisões são discutidas em grupo e muitas vezes tomadas em plenário com os trabalhadores. Até as decisões de gestão, como a ampliação de instalações, a definição de objetivos anuais, a definição de calendários de formação ou de estratégias para reduzir a fatura energética, passam normalmente pelo crivo coletivo.

Esta postura empresarial distintiva revela-se, desde logo, no facto de o nome da empresa não aparecer sequer nas modernas fachadas da fábrica. “Já não precisamos dessa publicidade, quem nós queremos que nos procure sabe como nos encontrar”, explica o CEO. E atinge o seu auge na personalidade do atual administrador, que entrou há anos naquela fábrica como diretor de produção (assumiu pouco depois a direção fabril, seguindo-se a administração e uma relevante posição acionista) e teima em não se querer ver nas fotografias, nem assumir qualquer tipo de protagonismo. “Não quero ser reconhecido. Quero que toda a gente conheça a empresa e a qualidade dos que lá trabalham”, insiste Sérgio Neto.

E a qualidade dos que lá trabalham, nas palavras do administrador, é medida pelo empenho que dedicam à empresa e pelo seu espírito temerário. “Estou a falar de gente que não está preocupada apenas com a manutenção do seu posto de trabalho, e que decidiu que era preciso arriscar. Gente que percebeu que teríamos de trabalhar mais para crescer”, argumenta o administrador, “sempre que encontramos alguém muito bom numa determinada área, queremos essa pessoa a trabalhar connosco”.

Um passo à frente
Apesar de insistir em partilhar com os colaboradores o sucesso da empresa, há um facto que Sérgio Neto não pode desvalorizar: que foi dele a ideia de transformar a Petratex numa fábrica de realizar sonhos. Foi ele, por exemplo, que pensou criar uma tecnologia que “colasse” os tecidos e evitasse as linhas de costura. O sonho concretizou-se. A “NoSew”, tecnologia patenteada em 2006, foi apenas a primeira com que a empresa conseguiu demonstrar que, como diz um poeta português, “sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança”. Ou, como diz mais simplesmente Sérgio Neto, “foi um marco importante porque mostrou que, se tínhamos chegado até ali, podíamos continuar a sonhar”.

Foi nesse mesmo ano que, na festa de Natal, patrão e funcionários se comprometeram a transformar a Petratex na melhor empresa têxtil do mundo e passaram todos a perseguir o mesmo objetivo. Qual? “Queremos alterar o futuro na têxtil”, responde o CEO. O futuro já começou, portanto. Ainda há caminho por trilhar, mas esse futuro está a ser assente em fortíssimos alicerces.

A empresa portuguesa já é uma referência internacional, procurada por grandes marcas de desporto e por grandes clientes de moda. E se ficou sob os holofotes de todo o mundo durante os Jogos Olímpicos de 2008, hoje, a Petratex pode afirmar que o fato em fibra que lhe trouxe fama (o LZR Racer, comercializado pela Speedo) diz pouco do que é a empresa. “Pesa apenas sete por cento no nosso volume de negócios.”

Apesar de já terem trabalhado, e continuarem a trabalhar, com importantes marcas de moda e de desporto, a fábrica resiste a nomeá-las e a publicitá-las. Os acordos de confidencialidade que assinam com essas empresas e marcas não o permitem – o que ajuda a perceber o caráter tecnológico dos produtos que são desenvolvidos em Paços de Ferreira.

Refugiando-se na impossibilidade de nomear os seus clientes, o administrador tem outros indicadores para demonstrar a boa saúde da Petratex: o facto de o seu volume de negócios ter vindo a crescer a bom ritmo nos últimos anos, ao ponto de a empresa estimar faturar 100 milhões de euros dentro de dois anos. As fábricas em Marrocos e na Tunísia, através das quais dão resposta a encomendas de moda de baixo valor e alta rotação, ajudam a elevar o volume de negócios, e permitem continuar a ter margens para apostar naquilo que mais a diferencia das restantes têxteis – o segmento de investigação e tecnologia. “Mais do que uma empresa produtora, a Petratex aposta no desenvolvimento têxtil”, sintetiza.

O administrador não tem problemas em dizer alto o sonho por que todos lutam: “Queremos um dia ter tratamentos (médicos) incorporados nas peças que vestimos. Se pensarmos em vestuário verificamos que temos sempre qualquer peça de tecido colada ao corpo. E esses tecidos podem ajudar-nos a resolver problemas”.

Sérgio Neto já tem algumas provas de que este sonho se pode transformar em realidade. A parceria estabelecida com a Universidade de Aveiro fez surgir uma nova empresa, a Biodevice, com produto comercializado: o VitalJacket. Trata-se de uma t-shirt que permite fazer provas de esforço (através de aferição de frequência cardíaca) e eletrocardiogramas sem o desconforto de se deslocar a uma instituição de saúde ou ter fios amarrados ao corpo.

De sonho em sonho, a Petratex vai continuar a trabalhar com instituições oficiais de vários países da Europa (e portuguesas também) para desenvolver soluções e tecnologias para o competitivo mundo do desporto. Vai continuar a estar muito presente no glamoroso e sempre estimulante mundo da moda (não se espantem se a top model Kate Moss aparecer a desfilar com um modelo desenvolvido em Paços de Ferreira). E vai, também, continuar a dar passadas firmes no desafiador mundo dos tecidos técnicos na área da saúde.

Para tal, a aposta da empresa faz-se de uma forma muito assumida na componente de formação. Há consultores externos que são contratados para ministrar algumas ações, mas há outras que são conduzidas pelos próprios funcionários da casa, que responderam positivamente ao desafio de ensinarem o que sabem fazer a outros colaboradores. “Num futuro muito próximo, gostava de ter uma espécie de escola dentro da Petratex, onde as várias valências pudessem funcionar como uma espécie de disciplinas e onde, no final, os funcionários vão passando de ano letivo e adquirindo mais competências”, explica.

A Petratex está a preparar os seus quadros para responder aos desafios do setor têxtil nos próximos dez anos. “Os filhos das nossas costureiras que hoje estão a estudar não se vão sentar, como as mães, atrás da máquina de costura. Mas vão sentar-se noutras cadeiras da empresa, a investigar. E daqui a alguns anos Portugal poderá ser um país reconhecido pelo valor que tem e pela tecnologia que desenvolve”, argumenta. Mas quererá o filho da costureira trabalhar na empresa onde labora a mãe? Sérgio Neto responde sem pestanejar: “Não tenho a mínima das dúvidas”.

Por Luísa Pinto

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Em números

A Petratex emprega em Portugal, na fábrica de Paços de Ferreira, 400 funcionários que produzem, diariamente, cerca de vinte mil peças. O grupo conta ainda com duas fábricas na Tunísia e uma em Marrocos, tendo no total cerca de mil colaboradores. Em 2012, os funcionários da Petratex produziram cerca de 4,5 milhões de peças e permitiram ao grupo fechar o ano com um volume de negócios a rondar os 70 milhões de euros, um crescimento de sete por cento face a 2011. O peso do setor moda na faturação da Petratex atinge os 75 por cento. Os restantes referem-se ao setor da investigação e tecnologia, com aplicações relevantes na área da saúde e do desporto. A empresa tem 80 clientes espalhados pelos cinco continentes, incluindo França, Itália, Espanha, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos.

Tecnologias verdes

Num dos últimos plenários da empresa, os funcionários decidiram rasgar janelas para aproveitar o mais possível a luz natural, e concordaram e aplaudiram a ideia de cada um deles poder monitorizar a sua pegada ecológica, percebendo os seus consumos para racionar os gastos. O objetivo final é aferir a energia gasta na concretização de cada um dos produtos, informação que estará disponibilizada online para todos os clientes. “Somos uma empresa cada vez mais verde”, diz, orgulhoso, o CEO, informando que 40 por cento da energia consumida é de origem solar e que todo o aquecimento térmico da empresa é feito através de biomassa.

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