Pedro Segundo – Homem-orquestra

on Sep 3, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Pedro Segundo é baterista e percussionista, mas quem o vê em palco diria que não se fica apenas por aí, tão inesgotável parece ser a sua energia.  Um dos mais internacionais e bem-sucedidos no universo do jazz, vive entre Londres, Lisboa e Los Angeles e corre o mundo constantemente.

Primeiro foram os copos e os pratos. Pedro Segundo devia ter uns quatro anos quando, às refeições, começou a explorar os diferentes sons dos talheres a baterem nos objetos que estavam em cima da mesa. Conta-se que partiu tanta louça quantas baterias de plástico – as que, mais tarde, lhe dava, todos os Natais, o seu tio João Paulo Segundo (assim mesmo, a lembrar o papa). Pelo meio ainda se entreteve com uma espécie de “bengaleiro- -suporte-de-vasos” que havia lá em casa e que levava para o quarto… era ideal para acompanhar o ritmo do álbum Greatest Hits dos Queen, que o pai comprara no hipermercado Ibérico, perto do bairro de Carnide, em Lisboa, onde moravam.

Ninguém estranhou, por isso, que aos oito anos, já inscrito em aulas de órgão, tenha insistido em trocar de instrumento e ir estudar bateria. Ainda lhe disseram que não tinha altura, que não chegaria aos pedais, mas Pedro estava determinado. Quatro anos antes da idade recomendada, entrou na Escola de Música Valentim de Carvalho, em Benfica, e nunca mais parou. Hoje, aos 31, é um dos mais internacionais e bem-sucedidos bateristas e percussionistas no mundo do jazz. No currículo tem dezenas de colaborações com músicos portugueses e estrangeiros, como Judith Owen, Ross Stanley ou Júlio Resende, assim como com a formação londrina que ajudou a criar, a Kansas Smitty’s House Band. Basta vê-lo em palco para perceber porquê: rodeado por uma verdadeira instalação de pratos, bombos, tarolas, timbalões, sinos, badalos, shakers, pandeiretas, crótalos, guizos e muitos outros, Pedro Segundo muda de instrumento num piscar de olhos, como se todos fossem apenas um. Usa baquetas e vassouras, toca com as mãos, dança, ri, sorri, faz caretas de prazer, arranca gargalhadas da plateia e muitos aplausos. Todo ele é uma jam, todo ele é uma festa.

“Gosto de tocar como se fosse o último concerto da minha vida”, diz, com um grande sorriso. “Sai-me do pelo, dou o litro, mas é isso que me dá gozo. Tenho uma alegria enorme por fazer música e por poder partilhá-la com outras pessoas. É uma celebração para mim. E uma sorte, sou grato pelos que escolhem estar ali a ouvir- -me.” A partir de Londres, onde vive desde 2007, tem atuado por todo o mundo. Em Lisboa (vai com frequência matar saudades de casa) já se apresentou várias vezes e estreou-se em nome próprio este ano, com o projeto Segundo Stanley Hammond Organ Duo, no Centro Cultural de Belém. Nos últimos anos também atravessa o Atlântico regularmente, não só porque é do outro lado que está a sua namorada, a atriz americana Bellamy Young (que vimos recentemente na série televisiva Scandal), mas porque acompanha sempre Judith Owen, residente em Nova Orleães, nos seus concertos.

 

No centro de tudo

Quem hoje o ouve falar da sua música reconhece-lhe a mesma determinação que o levou às aulas de bateria aos oito anos e aos nove às aulas de percussão no Conservatório de Lisboa. Foi nessa época que, aos domingos, começou a tocar na igreja que a família frequentava, tal como fazia a sua irmã Carolina, quatro anos mais velha. “Os meus pais não tinham nenhuma ligação à música, mas foram sensíveis ao que gostávamos e apoiaram-nos sempre. Havia um bisavô violinista, mas era o único músico conhecido na família. Acho que a minha mãe, às vezes, nem bate palmas no tempo certo [risos]… E de – pois tive a sorte de haver uma bateria na igreja! Acabei por encontrar ali um repertório interessante, isso deu-me uma grande bagagem e fez com que me habituasse cedo a estar perante um público.”

Aos dez anos entrava semanalmente em casa dos portugueses, no programa de televisão Pequenos e Terríveis, com crianças como protagonistas. Pedro era o me – nino atrás da bateria da banda residente. “Aprendi logo aí a lidar com o meu ego”, recorda. “Para se estar na música é preciso ter a cabeça no sítio, e essa experiência mostrou-me que facilmente nos podemos desviar do essencial. Faltava a algumas aulas por causa das gravações e era reconhecido por aparecer na TV, a coisa podia ter descambado…” Valeu-lhe a certeza do caminho que escolhera e foi acumulando experiências. Um curso de verão em Barcelona alargou-lhe mais os horizontes. “Quis ir estudar jazz e música cubana e aprendi imenso lá. Quando dizia que me chamava Pedro Segundo, respondiam-me: ‘Não, tu és o Pedro 15!’, porque ninguém acreditava que só tinha essa idade e já tocava assim.”

No regresso a Lisboa começou a frequentar as jam sessions do Hot Clube de Portugal, o mais icónico lugar de jazz da cidade. “Ainda era menor, o meu pai ia comigo e lá ficava pela noite dentro, coitado…” Foi convidado para tocar no Speakeasy e no Onda Jazz, dois clubes entretanto desaparecidos, e conheceu muitos outros músicos. Passou, como convidado, pela Orquestra Gulbenkian, e numa das edições da Festa do Jazz – um festival organizado anualmente pelo Teatro São Luiz, em Lisboa – ganhou um prémio revelação. “Tudo isso me deu uma grande preparação, que foi fundamental quando cheguei a Inglaterra.”

Atrasado nas inscrições para o curso de jazz na Guildhall School of Music and Drama, em Londres, matriculou-se no curso de percussão. “Acabou por ser bom, porque assim continuei com a minha formação clássica e, à noite, ia aos clubes de jazz da cidade”, nota Pedro Segundo, que depressa começou a frequentar o lendário Ronnie Scott’s. “Nesses anos assistia às aulas durante o dia e depois só queria tocar e ver concertos. Quando fui convidado para ser o baterista residente dos Ronnie Scott’s All Stars, trabalhava sete noites seguidas por semana e ficava lá a ver os concertos seguintes. Dormia pouco, mas era feliz.”

Tinha pouco mais de 20 anos e estava no centro do mundo e “no centro de tudo”, reconhece. Fez parte da banda da cabo-verdiana Carmen Souza e com ela viajou por vários países, acompanhou a fadista portuguesa Carminho em Londres, começou a tocar as suas próprias composições, fundou e integrou coletivos de jazz, multiplicou-se em atuações e digressões com orquestras e músicos que já conhecia ou que ia conhecendo. “A música vive muito das amizades, das ligações e das cumplicidades que se criam. Estar em casa à espera que o telefone toque não existe…” Foi no Ronnie Scott’s que lhe apresentaram a galesa Judith Owen, quando esta procurava um “baterista diferente”, que não fizesse muito barulho. Há seis anos que a cantora não o troca por ninguém.

 

Fora da caixa

As críticas na imprensa já lhe elogiaram a energia e a simpatia em palco, a precisão e a técnica, mas também o artesanato da música que faz nascer. Pedro Segundo vê-se a si e aos seus instrumentos como um pintor rodeado de cores ou um pianista perante muitas teclas diferentes. “Gosto sempre de ter várias opções, para poder ou não usar. Vou-me seguindo pela cor, pela textura, pela experiência, pela musicalidade…” Em 2015 estreou-se sozinho com o álbum e concertos Solo Segundo. Aí mostra as suas influências no mundo da percussão, dos sons tradicionais indianos e africanos a Iánnis Xenákis e a John Cage ou a jovens compositores. “Pensem em Stomp com um performer apenas”, lê-se na bem- -humorada descrição do disco. Um trabalho que reflete o seu crescimento enquanto músico português que andou quase pelo mundo inteiro. “Para mim é essencial viajar, tal como é regressar a Lisboa, a cidade onde cres – ci e fui uma esponja a todos os estímulos, a cidade onde o sol entra na nossa pele e nos altera os átomos”, afirma.

Pedro nunca pôs outra hipótese que não a de ser baterista. Nem mesmo quando lhe dizem que dá as melhores massagens… “Na altura em que estava a estudar marimba, ia fazendo massagens nas costas da minha mãe e da minha irmã, para treinar. E adoro fazê-lo, nas digressões costumo dar aos outros músicos. As minhas mãos são mesmo o meu veículo de expressão… por isso, digo que um dia hei de tirar uma sabática e fazer um curso de fisioterapia!”, brinca. Enquanto isso não acontece, vai experimentando tudo o que pode com a sua bateria e as suas percussões, do jazz à clássica ou ao género que lhe apetecer. Gosta de se sentir “fora da caixa” e promete que um dia ainda fará música para cinema – já o podemos ouvir na banda sonora de Vice, o filme de Adam McKay, estreado em 2018, sobre o vice-presidente dos EUA Dick Cheney.

O segredo do sucesso? Pedro Segundo responde com uma gargalhada e uma piada: “Não tenho nunca a pressão de ser o primeiro!”

pedrosegundo.com

 

por Gabriela Lourenço /// foto Kevin Albinder

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