Pedro Jóia, guitarras ao alto
Amante da cultura árabe, o guitarrista Pedro Jóia esteve com a UP no Alto Alentejo, região pródiga em vestígios muçulmanos. Subimos a Serra de São Mamede para visitar Castelo de Vide e Marvão, lugares fantásticos com vista para Espanha.
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Apresentados como destinos turísticos complementares, Castelo de Vide e Marvão, no distrito de Portalegre, contradizem a ideia de que o interior do Alentejo só tem planícies. Ambas são vilas altaneiras, delineadas pela paisagem do Parque Natural da Serra de São Mamede. Pedro Jóia, que havia por lá passado em criança, recordava-lhes a beleza singular. “Lembrava-me do castelo de Marvão, mas acho que tudo aqui tem hoje um ar mais limpo e arranjado. Nota-se uma grande preocupação com a preservação do património”, afirma, quando nos instalamos na Pousada de Santa Maria. A cerca de 850 metros de altitude, a vila fortificada integra-se de forma homogénea nas escarpas rochosas. Habitada desde os primórdios, alternou a ocupação romana, árabe e lusitana. Foi um vizir muçulmano, Abn Marwan, que deu nome à povoação, no alto do monte. Do castelo, avista-se em dias límpidos, desde a Serra da Estrela à Extremadura espanhola. É o Alentejo mais perto do céu.
No restaurante panorâmico, jantamos virados para as ruelas medievais onde o casario branco se aperta dentro das muralhas do século XIII. O supervisor Nuno Guégués apresenta-nos a seleção de vinhos regionais. Pedro delicia-se com uma das suas iguarias favoritas: sopa de tomate. “Peço sempre que estou no Alentejo. Adoro!” E as visitas são frequentes, já que a família possui um monte em Arraiolos. “É o nosso refúgio. Tenho dois irmãos e todos ajudámos os meus pais a construir a casa”. A família tinha uma história mais a sul: “Há várias gerações que passávamos férias em Portimão, mas à medida que o Algarve foi ficando saturado, procurámos um local mais calmo e próximo de Lisboa para descansar”.
Pedro nasceu “por acidente” na Bélgica, durante um estágio profissional do pai. Aos seis meses foi viver para Lisboa, onde cresceu e mora hoje com a mulher e os dois filhos. Também viveu em Espanha e no Brasil, sempre por conta da música. A carreira de concertista tem-no levado a viajar pelo mundo. Com um espetáculo intimista marcado para a noite seguinte na Casa de Cultura de Marvão, aproveitou o serão para ensaiar. “Tenho de tocar todos os dias. É obrigatório, não passo sem isso”.
“Os meus pais puseram-me a estudar música aos sete anos. Aos 15, já tinha a certeza que queria ser guitarrista. O meu destino estava traçado, não havia dúvida. Aos 18, comecei a ir para Espanha estudar guitarra flamenca. Estava habituado ao fado, mas passei da guitarra clássica ao universo hispânico. Aí descobri a verdadeira essência da guitarra. Foi determinante para a minha formação. Aprendi a ter técnica e atitude de concertista. Estudei com Manolo Sanlúcar, uma lenda viva. Ensinou-me a gerir as angústias que nos tomam antes de tocar. Depois de começarmos, tudo passa. Fecho-me numa bolha de concentração e só sinto a música.”
Pela manhã, Felicidade Tavares, do Turismo de Marvão, guia-nos num passeio que começa nas ruínas da cidade romana de Ammaia, datada de 44-45 d.C. É o mais importante vestígio da época no norte do Alentejo, com uma área central de 25 hectares. No entanto, só existem dados da vida quotidiana ali a partir do reinado de Lucio Vero, ano 166 d.C. Pedro interessa-se pelas descobertas feitas no local, classificado como Monumento Nacional. Com o técnico Bento Mota, visita o Museu Monográfico e vê parte do espólio recolhido nas escavações arqueológicas desde 1994. “Sou um grande entusiasta da história, em especial da Península Ibérica”.
Encostados a Espanha, seguimos a estrada até à barragem da Apartadura, reserva fluvial rodeada de montes. Somos brindados com magníficas vistas. Felicidade informa que “o turismo da natureza” está em alta por ali e faz-nos observar as cristas quartzíticas onde os grifos fazem ninhos. Vamos à quinta de José Silva, médico espanhol que também se dedica à equitação. “Propomos passeios a cavalo por vários percursos marvanenses. É outra forma de se conhecer a região, desfrutando o ar puro e as belas paisagens” – explica a Pedro, que se atreve a montar uma égua. “É uma experiência inédita, mas como está a correr bem já posso contar esta aventura aos meus filhos.”
Na ponte quinhentista sobre o rio Sever (continuação da via romana que ligava Cáceres a Santarém), o cenário é refrescante. Perto da torre de pedra que controlava o seu acesso, há um complexo moderno de piscinas e equipamentos de lazer fluviais. São os principais atrativos da Portagem, onde almoçamos no restaurante Mil Homens com o presidente da Câmara Municipal, Victor Frutuoso, que nos fala das aspirações de Marvão a tornar-se “World Heritage”. “Já nos consideramos assim, mas falta uma qualificação oficial.”
Entramos na vila pela Porta de Rodão, apreciando detalhes arquitetónicos que testemunham a história. Pedro detém-se diante de janelas góticas e portas ogivais. “Aprendi a apreciar a herança muçulmana e a cultura árabe. Acho que está na nossa música, no nosso sangue”, afirma, citando o historiador arabista Adalberto Alves, autor de O arabesco na música portuguesa, como um dos seus preferidos. Jantamos cedo no restaurante O Sever, pois à noite temos um programa imperdível. Há magia no ar quando o som da guitarra do virtuoso Pedro Jóia começa a ecoar pelas ruas de Marvão. Findo o concerto, depois dos aplausos e dos autógrafos, petiscamos com José Manuel Pires, vereador do Turismo e da Cultura, no bar O Castelo.
O dia seguinte é dedicado a Castelo de Vide, vila que em 1276 se tornou concelho. Na praça, junto à Igreja de Santa Maria da Devesa, iniciamos uma viagem no tempo com o estudioso Carolino Tapadejo, consultor do Turismo. Subimos a encosta do burgo medieval, cheio de janelas e portas floridas, até ao castelo, palco de inúmeras contendas. Não poderia haver melhor miradouro sobre a vila, que resplandece ao sol. Na Judiaria, a mais antiga de Portugal (século XIV), andamos entre ruelas labirínticas e casas marcadas por estranhos símbolos, cujos habitantes foram forçados a transformar-se em cristãos-novos. O peso da História abate-se sobre nós dentro da Sinagoga. O edifício, recuperado em moldes contemporâneos, revela várias surpresas e é de visita obrigatória.
Outro ex-libris da vila é o Largo da Fonte. Pedro prova a água que jorra por quatro bicas para um tanque, debaixo de um alpendre suportado por colunas de mármore. Damos por concluído o circuito do centro histórico, para almoçar com o vice-presidente da Câmara, António Pita. No restaurante D. Pedro V, António revela orgulhoso que o Washington Post lançou uma votação online para apurar o melhor destino turístico do mundo: “Castelo de Vide ficou entre os 20 finalistas!”
Num passeio pelo Parque Natural da Serra de São Mamede, passamos pela barragem da Póvoa e pelo Miradouro da Senhora da Penha. Paramos junto ao Menir da Meada, datado do Neolítico e descoberto em 1965. Com quatro metros de altura e 1,25 de diâmetro, pesa 15 toneladas. É o maior da Península Ibérica. Um monumento que representa força, energia, poder. Inspirado pela mística local, Pedro Jóia invoca os deuses do Alentejo. “Já há 20 mil anos andava gente a pisar o mesmo chão que pisamos hoje, gente muito diferente de nós, mas que viveu uma vida como a nossa, efémera e rica ao mesmo tempo. Eles foram, verdadeiramente, os nossos pais.”
por Moema Silva









