Pedro Jóia, guitarras ao alto

em Sep 1, 2012 in Fim-de-Semana Perfeito | No Comments

Amante da cultura árabe, o guitarrista Pedro Jóia esteve com a UP no Alto Alentejo, região pródiga em vestígios muçulmanos. Subimos a Serra de São Mamede para visitar Castelo de Vide e Marvão, lugares fantásticos com vista para Espanha.

Apresentados como destinos turísticos complementares, Castelo de Vide e Marvão, no distrito de Portalegre, contradizem a ideia de que o interior do Alentejo só tem planícies. Ambas são vilas altaneiras, delineadas pela paisagem do Parque Natural da Serra de São Mamede. Pedro Jóia, que havia por lá passado em criança, recordava-lhes a beleza singular. “Lembrava-me do castelo de Marvão, mas acho que tudo aqui tem hoje um ar mais limpo e arranjado. Nota-se uma grande preocupação com a preservação do património”, afirma, quando nos instalamos na Pousada de Santa Maria. A cerca de 850 metros de altitude, a vila fortificada integra-se de forma homogénea nas escarpas rochosas. Habitada desde os primórdios, alternou a ocupação romana, árabe e lusitana. Foi um vizir muçulmano, Abn Marwan, que deu nome à povoação, no alto do monte. Do castelo, avista-se em dias límpidos, desde a Serra da Estrela à Extremadura espanhola. É o Alentejo mais perto do céu.

No restaurante panorâmico, jantamos virados para as ruelas medievais onde o casario branco se aperta dentro das muralhas do século XIII. O supervisor Nuno Guégués apresenta-nos a seleção de vinhos regionais. Pedro delicia-se com uma das suas iguarias favoritas: sopa de tomate. “Peço sempre que estou no Alentejo. Adoro!” E as visitas são frequentes, já que a família possui um monte em Arraiolos. “É o nosso refúgio. Tenho dois irmãos e todos ajudámos os meus pais a construir a casa”. A família tinha uma história mais a sul: “Há várias gerações que passávamos férias em Portimão, mas à medida que o Algarve foi ficando saturado, procurámos um local mais calmo e próximo de Lisboa para descansar”.

Pedro nasceu “por acidente” na Bélgica, durante um estágio profissional do pai. Aos seis meses foi viver para Lisboa, onde cresceu e mora hoje com a mulher e os dois filhos. Também viveu em Espanha e no Brasil, sempre por conta da música. A carreira de concertista tem-no levado a viajar pelo mundo. Com um espetáculo intimista marcado para a noite seguinte na Casa de Cultura de Marvão, aproveitou o serão para ensaiar. “Tenho de tocar todos os dias. É obrigatório, não passo sem isso”.

“Os meus pais puseram-me a estudar música aos sete anos. Aos 15, já tinha a certeza que queria ser guitarrista. O meu destino estava traçado, não havia dúvida. Aos 18, comecei a ir para Espanha estudar guitarra flamenca. Estava habituado ao fado, mas passei da guitarra clássica ao universo hispânico. Aí descobri a verdadeira essência da guitarra. Foi determinante para a minha formação. Aprendi a ter técnica e atitude de concertista. Estudei com Manolo Sanlúcar, uma lenda viva. Ensinou-me a gerir as angústias que nos tomam antes de tocar. Depois de começarmos, tudo passa. Fecho-me numa bolha de concentração e só sinto a música.”

Pela manhã, Felicidade Tavares, do Turismo de Marvão, guia-nos num passeio que começa nas ruínas da cidade romana de Ammaia, datada de 44-45 d.C. É o mais importante vestígio da época no norte do Alentejo, com uma área central de 25 hectares. No entanto, só existem dados da vida quotidiana ali a partir do reinado de Lucio Vero, ano 166 d.C. Pedro interessa-se pelas descobertas feitas no local, classificado como Monumento Nacional. Com o técnico Bento Mota, visita o Museu Monográfico e vê parte do espólio recolhido nas escavações arqueológicas desde 1994. “Sou um grande entusiasta da história, em especial da Península Ibérica”.

Encostados a Espanha, seguimos a estrada até à barragem da Apartadura, reserva fluvial rodeada de montes. Somos brindados com magníficas vistas. Felicidade informa que “o turismo da natureza” está em alta por ali e faz-nos observar as cristas quartzíticas onde os grifos fazem ninhos. Vamos à quinta de José Silva, médico espanhol que também se dedica à equitação. “Propomos passeios a cavalo por vários percursos marvanenses. É outra forma de se conhecer a região, desfrutando o ar puro e as belas paisagens” – explica a Pedro, que se atreve a montar uma égua. “É uma experiência inédita, mas como está a correr bem já posso contar esta aventura aos meus filhos.”

Na ponte quinhentista sobre o rio Sever (continuação da via romana que ligava Cáceres a Santarém), o cenário é refrescante. Perto da torre de pedra que controlava o seu acesso, há um complexo moderno de piscinas e equipamentos de lazer fluviais. São os principais atrativos da Portagem, onde almoçamos no restaurante Mil Homens com o presidente da Câmara Municipal, Victor Frutuoso, que nos fala das aspirações de Marvão a tornar-se “World Heritage”. “Já nos consideramos assim, mas falta uma qualificação oficial.”

Entramos na vila pela Porta de Rodão, apreciando detalhes arquitetónicos que testemunham a história. Pedro detém-se diante de janelas góticas e portas ogivais. “Aprendi a apreciar a herança muçulmana e a cultura árabe. Acho que está na nossa música, no nosso sangue”, afirma, citando o historiador arabista Adalberto Alves, autor de O arabesco na música portuguesa, como um dos seus preferidos. Jantamos cedo no restaurante O Sever, pois à noite temos um programa imperdível. Há magia no ar quando o som da guitarra do virtuoso Pedro Jóia começa a ecoar pelas ruas de Marvão. Findo o concerto, depois dos aplausos e dos autógrafos, petiscamos com José Manuel Pires, vereador do Turismo e da Cultura, no bar O Castelo.

O dia seguinte é dedicado a Castelo de Vide, vila que em 1276 se tornou concelho. Na praça, junto à Igreja de Santa Maria da Devesa, iniciamos uma viagem no tempo com o estudioso Carolino Tapadejo, consultor do Turismo. Subimos a encosta do burgo medieval, cheio de janelas e portas floridas, até ao castelo, palco de inúmeras contendas. Não poderia haver melhor miradouro sobre a vila, que resplandece ao sol. Na Judiaria, a mais antiga de Portugal (século XIV), andamos entre ruelas labirínticas e casas marcadas por estranhos símbolos, cujos habitantes foram forçados a transformar-se em cristãos-novos. O peso da História abate-se sobre nós dentro da Sinagoga. O edifício, recuperado em moldes contemporâneos, revela várias surpresas e é de visita obrigatória.

Outro ex-libris da vila é o Largo da Fonte. Pedro prova a água que jorra por quatro bicas para um tanque, debaixo de um alpendre suportado por colunas de mármore. Damos por concluído o circuito do centro histórico, para almoçar com o vice-presidente da Câmara, António Pita. No restaurante D. Pedro V, António revela orgulhoso que o Washington Post lançou uma votação online para apurar o melhor destino turístico do mundo: “Castelo de Vide ficou entre os 20 finalistas!”

Num passeio pelo Parque Natural da Serra de São Mamede, passamos pela barragem da Póvoa e pelo Miradouro da Senhora da Penha. Paramos junto ao Menir da Meada, datado do Neolítico e descoberto em 1965. Com quatro metros de altura e 1,25 de diâmetro, pesa 15 toneladas. É o maior da Península Ibérica. Um monumento que representa força, energia, poder. Inspirado pela mística local, Pedro Jóia invoca os deuses do Alentejo. “Já há 20 mil anos andava gente a pisar o mesmo chão que pisamos hoje, gente muito diferente de nós, mas que viveu uma vida como a nossa, efémera e rica ao mesmo tempo. Eles foram, verdadeiramente, os nossos pais.”

por Moema Silva

Arquivos

Pedro Jóia

Aos 42 anos, é um dos mais prestigiados artistas de Portugal. Estudou guitarra clássica desde criança, na Academia dos Amadores de Música e no Conservatório Nacional de Lisboa. Completou a formação aos 21 anos com o professor Manuel Morais, obtendo depois especializações em Análise e Técnicas de Composição, História da Música e Música de Câmara. Aos 18 anos, começou a frequentar cursos de guitarra flamenca em Espanha com Paco Peña e Manolo Sanlúcar. A partir de 1988, passou a dar recitais de guitarra e a ganhar experiência trabalhando com músicos de diversas áreas, da erudita à popular. Em 1996, gravou o primeiro álbum, Guadiano, com temas da sua autoria inspirados no universo da guitarra flamenca. Lançou mais quatro álbuns: Sueste (1999), Variações sobre Carlos Paredes (2001), Jacarandá (2004) e À Espera de Armandinho (2007). Desenvolveu intensa atividade de concertista, atuando em salas e festivais nacionais e estrangeiros. Viveu alguns anos no Rio de Janeiro, colaborando com grandes nomes da MPB, com destaque para Ney Matogrosso. Deu concertos nos mais importantes palcos de Portugal, tendo ainda atuado em cerca de 20 outros países. Bobby McFerrin, Teresa Salgueiro, Tito Paris, Mafalda Arnauth, Janita Salomé e Rão Kyao são alguns dos artistas com quem colaborou ao longo da sua carreira. Desde 2010 mantém uma intensa parceria com o fadista Ricardo Ribeiro. Entre projetos futuros contam-se duetos com Raquel Tavares, a edição de um álbum gravado com a Orquestra de Câmara Meridional, e concertos com a Sinfonietta de Lisboa.
www.myspace.com/pedrojoia
www.espelhodecultura.pt

Comes e bebes

Restaurante Mil Homens
Aberto em 1967, este castiço restaurante tem por lema “a tradição, de geração para geração”. É conhecido pelos pratos típicos e ambiente familiar. O nosso menu teve sarapatel, bacalhau dourado e galinha tostada com azeite. Magnífico!
Rua Nova, 14, Portagem \ + 351 245 993 122

Restaurante O Sever
Julieta Garralo herdou do pai este restaurante, fundado há 45 anos. Modernizado, concilia ambientes rústicos e contemporâneos, e tem esplanada junto ao rio Sever. O coordenador, Filipe Pinto, serviu-nos ovos mexidos com farinheira, omelete de espargos, perna de borrego leital com castanhas e cebolinhas e um misto de doces conventuais. Vinho tinto Pedra Basta (2009), da Serra de São Mamede, e branco especial da casa.
Portagem – Marvão \ + 351 245 993 318

Restaurante D. Pedro V
Famoso há três décadas, este ícone da gastronomia local é gerido por Luís Mergulhão. A chefe Adriana Pereira preparou, entre outras iguarias, entrada de enchidos (cacholeira fumada, morcela de sangue e painho), cabrito de cachafrito e tarte de aramanha (receita exclusiva, feita com açúcar, ovos, castanha e chocolate). Bebemos Vinho Conventual, tinto e branco, produzido na Adega de Portalegre e água mineral Vitalis, oriunda da Serra de São Mamede.
www.dpedrov.com.pt

O Castelo – Café Lounge
Bar de apoio do restaurante Varanda do Alentejo, pertence à unidade de Turismo Rural D. Dinis. É o sítio ideal para beber um copo ou para uma ceia tardia no interior da vila.
www.ter-domdinis.com

Pousada e Restaurante de Santa Maria – Marvão

Localizada no centro da vila, a pousada foi construída a partir do aproveitamento de duas casas de aldeia típicas e transformada em hotel de charme. Acolhedora e confortável, oferece quartos virados para a paisagem montanhosa ou para o interior da povoação. No restaurante, a chefe Manuela Martins, preparou-nos uma selecção de entradas: camarão e amêijoas em piso de coentros e ovo escalfado em tosta de pão, sopa de tomate, cogumelos com farinheira e morcela de Portalegre sobre grelos salteados. Prato principal: alhada de cação sobre pão frito e batata a vapor. À sobremesa, outra prova variada: doce de vinagre, migas doces, musse de café, pudim de mel e arroz doce. Vinho Tinto Herdade do Gamito e branco Terras do Crato, de região demarcada alentejana.
Rua 24 de Janeiro, 7, Marvão \ + 351 245 993 440 \ www.pousadas.pt

Caballos Marvão

Passeios a cavalo, individuais ou em grupo, pelos trilhos de Marvão. José Silva fomenta a hipoterapia com animais criados na sua quinta. Reservas pelo telefone +351 964 594 202.
www.caballosmarvao.com

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